Até que ponto é fantasia
18 Dessa vez não!
Len’s POV.
— Lun! — Eu grito já do outro lado da rua.
Como tinha escutado o barulho da chave sendo encaixada na fechadura há pouquíssimo tempo, talvez ela ainda estivesse no quintal, mas a resposta não veio, ela já deveria estar dentro de casa cuidando do irmão. Eu suspiro pronto para voltar à minha rotina.
— Oi? — A voz dela soa mais perto do que eu imaginava, deveria estar parada na frente do portão que acabara de abrir, o tempo todo. — Esqueceu de alguma coisa?
O vento muda de direção na mesma hora, chacoalhando com força as folhas das árvores mais próximas, carregando aquele perfume que mesmo sendo doce não era enjoativo, lembrava algo entre mel e baunilha, talvez âmbar numa mistura delicada com lilases. Eu precisaria chegar bem mais perto para ter certeza…
— Não, eu só quero que pense naquilo que disse antes de sairmos do restaurante.
Eu sorrio para ela e saio de lá antes que acabasse estragando tudo. Geralmente eu estaria muito mais pessimista, especialmente por eu nunca ter sido muito bom com relacionamentos. Saber a hora certa de se dizer e fazer as coisas sempre foi muito mais difícil do que parecia, talvez só não mais complicado do que saber o que Luna estava pensando. Na maior parte do tempo ela não era muito previsível e por mais que coisas assim me deixassem desconcertado por não saber como reagir, tudo aquilo só a tornava mais interessante. Desde aquela hora na cafeteria eu não tinha conseguido parar de pensar no toque macio dos lábios dela que num gesto ousado aprofundaram num beijo bastante atrapalhado, mas sincero.
Volto ao escritório percebendo que minhas bochechas estavam doloridas por algum motivo, mas eu não me importava. O resto do expediente passou voando, eles atualizaram o pessoal sobre a nova postura da empresa e uma par de modernizações. Era uma empresa com algumas patentes e como aquele era o prédio principal, eles queriam passar uma imagem digna de comercial de margarina e não economizaram com a compra de mesas e cadeiras novas ou com o vidro blindado das janelas enormes dos andares mais altos que davam para a avenida, se todos ficassem quietos, seria fácil de se ouvir o zumbido do passar constante dos carros.
Quando cheguei em casa, minha cabeça latejava e os meus ouvidos chiavam de tanto ouvir a voz nasalada e estridente da diretora que achou nesse “recomeço” uma ótima oportunidade para começar com mais um daqueles discursos sem fim sobre produtividade e trabalho em equipe. Sherley mia antes de se enroscar nas minhas pernas e eu acaricio o pelo curto e macio das costas dela por um breve instante antes dela sair, provavelmente para sentar na parte mais baixa da estante como tinha costume. Gabriel dizia que era fácil confundi-la com parte da decoração da sala e eu via certa graça naquilo.
— Len? — Meu irmão pergunta do corredor.
— Oi. — Eu jogo a minhas coisas no sofá e sento tirando os meus sapatos.
— Por que você está com essa cara? — Ele ri ligando a televisão.
— Porque é a única que tenho?
— Aff… — Ele, com certeza, revirou os olhos. — Você sabe do que estou falando… É a mesma cara que você fazia quando passava para a próxima fase de um campeonato.
— Hm.
— Falando nisso, faz tempo que você não f…
— É, e eu quero continuar assim. — Eu bufo pegando as minhas coisas.
Gabriel era especialista em puxar esse tipo de assunto de uma hora para outra. Será que com as últimas trinta tentativas ele ainda não tinha percebido que aquele não era o meu assunto favorito? Pelo menos, Lun não estava ali para ficar curiosa e insistir no assunto.
— A Emily vai passar aqui, vê se volta a ficar com aquele sorriso idiota ao invés dessa carranca. — Ele implica e eu subo as escadas ouvindo os passos leves dele logo atrás de mim.
— Não posso mais estar de bom humor nessa casa que alguém tem que me encher…
— Você de bom humor em plena terça-feira depois do trabalho? — Ele ri irônico. — Se bobear, até o andar do seu departamento mudaram, sem contar que você deve ter ficado preso lá, já que não veio almoçar aqui.
— Você nem imagina o que eu estava fazendo. — Eu dou risada antes de tentar fechar a porta na cara dele, mas ele resmungou quando a porta bateu em algo sólido, o pé dele. Deveria estar descalço. — Vai cuidar da sua vida, vai…
— Tenho nada para fazer agora. — Bufa invadindo o meu quarto.
— Problema seu. — Eu coloco a minha bengala e os meus óculos na cabeceira da cama.
— Como o meu irmão é agradável…
— O melhor de todos! — Encosto na parede gelada.
— Eu poderia estar me oferecendo para jogar videogame com você, mas você já vem com esse humor todo… — Dramático. — Já sei, devem ter comprado uma máquina de café maior!
— Sim, mas por que eu ficaria feliz com isso? Bem que eu bebi uns dois litros hoje pra aguentar tanto blábláblá…
— Nossa, essas caixas ainda estão aí, você dev…
— Se eu te emprestar o meu violão, você para de me encher? — Eu bufo lembrando do que ele pedira ontem, mas eu tinha fechado a porta na cara dele querendo dormir. Desde que ele ouviu Emily dizer que achava legal quando alguém aprendia a tocar sem um professor, ele colocou na cabeça que tinha que aprender assim, mas é claro que foi só pelo “desafio”…
— Fechado. — Era tão fácil de negociar com ele…
— Se você estourar as minhas cordas, você que vai colocar as novas! — Eu tiro o meu violão de dentro da capa e entrego para ele antes de enxotá-lo para fora.
Eu tocava desde os doze anos e não foi à toa que acabei me interessando pelas trilhas sonoras dos jogos e filmes que assistia, o que, de alguma forma me fez pensar cada vez mais em acústica e sonoplastia conforme fui ficando mais velho. Acabei focando na faculdade e tocando cada vez menos, mas ainda assim, na hora do tédio eu gostava de me jogar na cama e ficar brincando com algumas escalas e acordes.
Depois de jogar as minhas roupas no cesto, eu ligo chuveiro e deixo a água quente cair no meu corpo relaxando cada músculo dolorido. Logo Emily iria chegar e ele se esqueceria de tudo. Eu nunca entendi como, mas de uma hora para outra ela começou a causar aquele efeito no meu irmão, algo bem divertido de se ver. Éramos grandes amigos quando mais novos, antes dela voltar a morar na Itália, mas só do ano retrasado para cá (quando ela passou o ano novo com a gente) que eles começaram com aquela enrolação toda; talvez até antes, vai saber o que tanto conversavam pelo celular… Eu visto as primeiras roupas que encontro e me jogo na cama. Agora eu voltaria a rotina cansativa de sempre, mas com a loucura de mundos inteiros para explorar dentro de livros e Luna, é claro, ela continuava sendo uma caixinha de surpresas.
— Morreu aí? — Emily acende a luz do meu quarto e senta na minha frente.
— Ainda não… — Eu giro o cubo mágico mais umas três vezes antes de verificar se tinha dado certo e o coloco resolvido na mesa que eu usava para estudar. Estava distraído pensando sobre a conversa que tive com a minha avó sobre os livros. Eram tantas possibilidades… Coisas que Lun ainda nem sabia, mas que com certeza adoraria descobrir. Eu sento na borda interna da janela ouvindo Emily se aproximar.
— Não sei como você consegue resolver essa coisa… Eu não tenho a menor paciência. — Ela senta ao meu lado. — Ainda mais usando só esse coisinha… essas coisinhas gravadas aí nas cores. — Emily ri se corrigindo, mesmo com o “curso intensivo” de ter vivido quatro anos por aqui, às vezes ela se confundia (com o plural principalmente).
— Eu jogo isso quando preciso pensar… — Eu dou de ombros encostando ainda mais no vidro frio da janela.
Ficamos em silêncio por uns segundos, ela virando o corpo para olhar para fora ou me encarar e eu lembrando de como ela gesticulava amplamente ao falar com aqueles olhos negros ou cinzentos arregalados de indignação quando veio correndo nos contar que iria voltar para a Itália por causa da família do pai dela. Isso há uns sete anos atrás, Emily já deveria ter mudado bastante…
— Gabriel me contou que sua mãe vai vir aqui amanhã. — Ela diz de uma vez só.
— Também aprendeu com ele a puxar esses assuntos assim do nada?
— Desculpa…
— Não foi nada é que… Você sabe, eu não gosto de quando me pegam desprevenido. — Eu tento ser menos grosseiro dessa vez. — Eu tinha me esquecido completamente e…
— Andando com a cabeça nas nuvens?
— Acho que sim, viu? — Eu pego o cubo de novo.
— Aposto que por causa da… — Ela interrompe a própria fala como se colocasse uma mão sobre a boca. — Madonna mia, não vou cometer esse erro de novo! Foi tão vergonhoso, eu não sabia onde enfiar a cara…
— Queria dizer que eu vi, mas ficou só na imaginação mesmo. — Eu começo a rir e ela me acompanha. Aquele dia na pizzaria ainda renderia bons risos.
— Eu estava pensando em irmos ao cinema! Faz um tempão que eu não vou, anos que todos não vamos juntos. Podemos levar uns salgadinhos e chocolates igual da última vez. Sei que o Gabriel vai lascar aquele tempero de salada com gosto esquisito na dele, mas faz parte…
— Acho que na próxima quarta-feira fica bom, porque é mais barato, mas eu vou levar alguém para não ficar segurando vela pra vocês dois…
— Que nada… — Emily com certeza estava corada. — Você sabe que eu e seu irmão não temos nada e eu nem sei se quero o que eu quero e… Ah, já sabe quem vai chamar? — Ela muda de assunto me dando uma cotovelada leve.
— Hm, não sei, talvez a Lun… — Eu assopro só para ver a reação dela.
— Aaah, eu sabia! Eu sabia! — Emily bate com as mãos nas pernas para dar ênfase enquanto praticamente quica do meu lado. — Vocês ficam tão fofinhos juntos.
— Se você está dizendo… — Eu tento não rir.
— Não acredito, você está corando! — Não ficaria surpreso caso ela apertasse as minhas bochechas.
— Não tá vendo? É a luz…
— Engraçadinho. — Ela ri de leve. — Mas falando sério, Len, vocês dois combinam. Ela olhava pra você de um jeito tão franco, sabe? Tipo quando se gosta mesmo de estar perto de alguém. Apesar das suas provocações idiotas, é claro…
— Não vem com isso não. Você sabe que eu sou uma ótima companhia.
— Exibido. — Ela me dá um peteleco. — Bom, é melhor eu descer, daqui a pouco o seu irmão volta da padaria e ele disse ter uma surpresa para mim.
Ela estava animada, apostava que os olhos dela brilhavam, mas conhecendo o meu irmão como eu conhecia, a surpresa era um pedaço de torta de morango. Se ela não tomasse a iniciativa, ele demoraria mais ou menos meio século para fazer alguma coisa e seria tarde demais para conseguir tirar cada uma das incertezas dela com um simples “eu gosto de você de como namorado, não só como amigo” e ficarem juntos. Se por causa dessa enrolação toda não desse certo seria uma pena, porque ele namoraria alguém que gostava muito e teríamos grandes chances de ganhar pizza de graça…
Nós descemos e nos divertimos bastante, mesmo que de hora em hora eu ficasse naquele clima de “vela” enquanto os dois ficavam trocando risinhos e risinhos, mas nunca algo muito comprometedor. Eu subi cedo porque estava cansado e nem vi quando, ou se, Emily foi embora. Não sei quanto tempo demorei para dormir, porque na minha cabeça só se acumulavam mais e mais preocupações que roubaram minha noção de tempo.
Acordei com o despertador tocando uma música animada que me fez querer arremessá-lo pela janela aberta, mas como a chance de eu errar era muito grande e eu podia acabar acordando a minha avó, eu fiquei ali me remoendo antes de levantar e começar a me arrumar. Depois de jogar as minhas coisas no sofá, eu fui para a cozinha. Gabriel fazia ovos mexidos e parecia irradiar bom humor matinal. Quando ele me ofereceu um pouco com aquela voz de eu-estou-rindo-sem-nenhum-motivo-ou-sou-otário, eu peguei uma fatia de pão de fôrma na mesa e sai da cozinha deixando-o com uma provável cara de desentendido.
Verifiquei se não tinha esquecido de nada e sai de casa sem esperar por ele, só na metade do caminho até o metrô que ele me alcançou e ficou lá falando todo animado sobre estar pensando em pedir um emprego na pizzaria dos Bianchi. Num dia melhor eu até ficaria contente com ele, mas até (pelo menos) umas nove horas da manhã meu humor continuaria o mesmo; tudo o que consegui fazer foi esboçar um sorriso enquanto dava umas batidinhas leves nas costas dele. No metrô nós nos separamos e ele foi se encontrar com a Lun como sempre fazia e eu tomei o rumo contrário, indo para a minha faculdade.
O dia passou feito um zumbido: lento, persistente e irritante, (pronto para sugar a minha alma) mas de uma vez só. Quando fui ver eu já estava voltando para casa. Eu não tinha pressa alguma, na verdade eu enrolaria o máximo possível se não tivesse que ir trabalhar. Como tínhamos combinado, eu podia muito bem chegar lá só depois do almoço e cumprir o resto do horário de uma vez, mas como tudo ainda estava voltando ao ritmo, era melhor chegar mais cedo para ajeitar as minhas coisas e tentar baixar alguns programas no computador novo antes de todos voltarmos a trabalhar com o mesmo ritmo que antes.
Depois de me arrumar e separar algumas coisas para deixar na minha mesa, eu fui para o escritório e comecei a encher o computador com tudo o que eu queria enquanto a maior parte do pessoal estava “socializando” ou decidindo de qual lado isso ou aquilo ficava mais bonito. Só por colocar um leitor além daquele padrão, o meu humor já tinha melhorado. Como não estávamos no Japão, deixei o computador ligado terminando de baixar as coisas enquanto eu voltava para casa.
— Oi… — Lun me cumprimenta quando me vê dobrando a bengala na frente da porta. Tinha algo de estranho na voz dela, mas eu não sabia dizer o que era. Eu coloco as mãos nos bolsos percebendo que apenas a direita estava gelada, o “mal” de ser destro…
— Tem mais alguém aqui? — Queria, saber se a minha mãe ainda não tinha chegado.
— Aqui na sala não…
— Não, na casa. — Eu batuco os dedos no batente enquanto os passos dela se aproximavam, quase como se ela fosse parar bem na minha frente, mas ela para perto da estante, não muito longe de mim. Sentia que estava me observando.
— Sua avó está lá em cima e o seu irmão foi comprar leite para fazer bolo. — Algo na voz dela me fazia ter certeza de que logo viriam perguntas. — Por quê?
— Por nada. — Eu solto um longo suspiro e sorrio. Eu ainda tinha uma chance de ter um dia um pouco menos estressante… Se ela e minha mãe se encontrassem agora, ela iria “amarrar a Luna numa cadeira” e antes de perguntar se éramos amigos ou não, (ou se ao menos nos conhecíamos) começaria a falar e falar e até chorar, como estranhamente já tinha acontecido uma vez… Ela sempre teve facilidade em se abrir com estranhos, mas nunca com o próprio filho…
— Você está bem? — Ela chega um pouco mais perto.
Por algum motivo eu não estava mais conseguindo ser tão transparente ao esconder as minhas expressões ou ela andava aprestando mais atenção em mim do que o normal. Dou um pulo pra trás batendo o braço na parede quando três dedos frios tocam a minha testa. Será que eu parecia estar com febre?
— É, estou… É que eu preciso pensar… — Eu vejo as horas no meu relógio de pulso, preocupado. Se eu a expulsasse dali, ela poderia interpretar errado e ficar com raiva; essa era a última coisa que eu queria, menos até do que ver a minha mãe hoje, mas eu nunca admitiria. — Vamos ler alguma coisa?
— Tá bom. — Ela deve ter me olhado com uma cara de “você bebeu ou bateu a cara na parede?” — Hm…
— O que foi?
— Nada… — Ela gira acertando o meu braço com os cabelos compridos. Como sempre, nem deve ter percebido.
Nós entramos na biblioteca e eu sentei no chão esperando Lun terminar de fuçar nos livros fazendo mais barulho do que o normal, isso me ajudou a ter certeza de que ela formou pelo menos três pilhas de livros no chão, uma bem na minha frente e duas à direita, perto dela. Quando essa busca a forçou a se aproximar de mim, tive a impressão de que ela ficou tensa por uns segundos, pelo menos até se distrair novamente.
— Vamos abrir dois de uma vez? Pode ser divertido!
— Minha avó falou que o importante é estarmos bem perto um do outro quando abrirmos. — Torço para ter mais tempo dentro da história por causa disso. — E esse é… — Eu pego o primeiro livro que encontro quando tateio o chão. Lun continua mexendo na arca por uns segundos antes de se aproximar e girar o livro na minha mão.
— É… — Ela tenta segurar o riso, mas ele escapa fazendo o corpo todo dela tremer.
— Não vai me dizer que… — Eu corro os dedos por aquelas letras todas embaralhadas antes de contorná-las com mais cuidado. Logo de cara encontro um possível “C” cheio de espirais, um “i” ou um “b” achatado e um “n” em itálico…
— Juro que não foi de propósito! — Ela ri muito, fazendo o livro que nós dois segurávamos cair no chão. Nós dois o pegamos ao mesmo tempo, ela deveria estar olhando para mim enquanto tentava reprimir o riso.
— Dessa vez não! — Eu fecho a cara puxando o livro, com as duas mãos, para o lado. Com o gesto, a ponta dos meus dedos cobriram parte dos dedos pequenos e delicados da mão direita dela, mas ela não se solta como eu imaginava, por isso acaba acertando o meu joelho com o cotovelo, eu bufo esfregando o lugar com a outra mão e reparo que ela finalmente tinha parado de rir, talvez por ter doído.
— Len, o livro tá brilhan…
Antes dela terminar a frase, a mesma força de antes nos puxa para dentro do livro.
“Era uma vez um comerciante muito rico e sua esposa. Juntos, eles tiveram uma linda e querida garotinha, porém a mulher adoeceu e faleceu pouco tempo depois. Arrasado, comerciante procurou por uma nova esposa para ser mãe de sua amada filha. No começo da primavera, casou-se com uma nobre viúva que trouxe consigo duas filhas alguns anos mais velhas do que ela. Poucos anos depois o homem também morreu e a madrasta passou a tomar conta da casa forçando a garota a servir tanto à ela quanto às irmãs para que pudesse viver na própria casa”.
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