Até onde as almas se encontram
2 Conhecendo
Eu não estava acreditando. Aquela figura tava bem na minha frente e a única coisa que nos separava era a porta de vidro.
— Cê vai abrir ou eu tenho que quebrar?
— Você não vai quebrar nada, já basta o prejuízo que me causou na festa.
Quem ela pensa que é? Ela mal me conhece e já chega dando ordens.
— É, é exatamente por isso que eu vim aqui. Por minha culpa cê acabou... sabe, daquele jeito.
— Ainda bem que você reconhece a culpa.
— Foi mal pelo o que aconteceu contigo, eu não imaginava que um maluco ia passar bem atrás de mim!
— Da próxima vez, você tome mais cuidado.
— Eu sei.
— Era só isso mesmo que queria?
— Na verdade não, eu queria te chamar pra dar uma volta, sei lá...
— Não to com muita vontade, obrigado.
Acho que fui um pouco grosso com ela.
— Ta bom, então. Foi mal pelo que aconteceu aí, mais uma vez.
Tenho que admitir, ela teve muita coragem em vir aqui se desculpar, além de tentar consertar o erro me chamando pra sair.
— Ei, espera, aí! – Não podia deixa-la ir, ela não teve culpa. — Como você descobriu meu quarto?
— Acho que eram seus pais, eles me falaram onde ficava.
Só podia ter sido mesmo.
— Olha, se o passeio for bom, eu até tento esquecer o que aconteceu.
— Isso é um sim?
— Talvez.
— Yes! – Comemorou.
— Eu disse talvez.
Abro a porta e deixo entrar.
— Fique à vontade, vou me trocar ali no banheiro e já vamos.
Depois de trocado, saí do banheiro e a vi deitada na cama olhando pro teto. Achei estranho de início, mas deixei de lado. Peguei um casaco meu, para, caso a noite tivesse fria, ofereceria a ela. Sentei numa cadeira ao lado da cama pra calçar a Crocs, e ela tava olhando fixamente pra mim. O cabelo caía sobre os olhos castanhos dela. Eu fiquei um tempo parado observando-os.
— Algum problema? – Perguntou.
Aqueles olhos me cativaram tanto que não consegui responder de imediato. Até que, num susto, me recuperei.
— Nada não. – Respondi.
— Tu ficou me encarando, achei estranho.
— Toma, ta fazendo frio. – Pra quebrar o clima, dei logo o casaco.
— Obrigada, ta frio mesmo.
— E onde vamos? Tem algo em mente? – Perguntei.
— Eu pensei em caminhar pela praia, a gente se conhecer e tals.
— Não é tão ruim, mas vamos sair pela porta principal dessa vez. Nada de varanda, beleza?
— O.K. – Ela riu.
Chegamos num pátio que dava caminho à praia. Era um lugar repleto de bares, churrasqueiras, mas que agora estava vazio. O teto de palha era a única proteção que tinha.
O mar calmo refletia a luz da lua, essa que se erguia na linha do horizonte totalmente cheia. O barulho das ondas era aconchegante e a brisa que soprava era suave.
— Nossa! Se você não tivesse me dado o casaco, nem sei o que seria de mim.
— Não precisa agradecer.
Reconheço meu nervosismo, ela estava bem mais relaxada do que eu naquela situação.
— Olha, uma roda de violão! – Ela agarra meu braço e aponta um grupo de pessoas que se reunia em volta de uma fogueira. – Vamos lá, vai ser divertido.
— Espera a...
— Vamo, vamo.
Ela sai me puxando até chegarmos perto. Minha curiosidade por ela só aumentava.
— Amo essa música. – Declarou.
O grupo tocava Thiking Out Loud, também do Ed Sheeran. Ela me larga e começa a dançar. A presilha cai deixando os cabelos voarem enquanto girava.
— Vem dançar comigo!
— Não, obrigado! Não sei dançar.
— Deixa disso e vem. – Ela segura minhas mãos e me puxa pra perto.
Por mais que eu tentasse negar, por algum motivo, não conseguia tirar minha atenção dela.
Eu vi o cara do violão olhando pra gente e sorrindo. ‘’Vai que é tua, muleque!!’’, gritou.
Ela me abraça e encosta a cabeça no meu ombro. Meu corpo gelou na hora, o peito parecia sair pela boca. Num impulso, minhas mãos seguram a cintura dela.
— Qual o seu nome? – Perguntei.
— Sara, e o seu?
— Leonardo.
— Desculpa pelo que fiz com você antes, não foi por querer.
Ela pediu desculpas de novo.
— Tudo bem, eu entendo.
Na realidade, eu não to entendendo nada, nem lembro como cheguei até aqui.
— Eu não queria estragar nada de ninguém.
Não sabia o que dizer depois disso, faltou ar na hora, engoli seco, minha cabeça tava girando. Num instante propago ódio e agora eu me rendia completamente.
— Não estragou, você acaba de salvar a minha noite!
Debaixo do luar, seguimos no ritmo da música. A noite estava tão linda quanto ela...
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