Até ele voltar
13 Capítulo 13 - Fiz para você
Notas iniciais
– Já estava mandando uma tropa de busca atrás de você. Uau garota, foram dois dias.
– Não me aborreça, cara.
– Pensei que você ligaria de hora em hora. Pensei mesmo. Estou orgulhoso.
– Como ele está, Roque?
Ouvi um longo suspiro do outro lado da linha. Se meu treinador soubesse o quanto esse ato simples poderia me fazer entrar em desespero, ele pensaria duas vezes antes de fazer. Depois de alguns segundos que mais me pareceram uma enternidade, Roque voltou a falar.
– Exatamente na mesma. O quadro não mudou nada, nem pra para pior, nem pra melhor.
– Você não mentiria para mim, não é mesmo? – perguntei, incomodada com o tom de voz.
– Você sabe que não. Por que pergunta isso?
– Te conheço. Algo está te aborrecendo. Percebo na sua voz.
Roque suspirou mais uma vez. Deu uma risada, cansada.
– É, você conhece o seu velho. Estou incomodado sim... mas não tem a ver com o estado de saúde de Cobra – houve uma pausa enquanto o treinador parecia pensar – mas tem a ver com ele sim.
– Me conta, Roque!
Olhei para os lados me certificando que estava sozinha. Era terça feira de manhã. O sol mal havia nascido lá fora e eu já estava em pé, ansiosa pelas novidades de São Paulo. Bianca ainda dormia em nosso quarto e eu aproveitava meus últimos minutos em nossa sala de estar antes que minha família começasse a despertar.
– Ontem de manhã um dos advogados da Liga me ligou – começou ele – marcamos uma reunião para ontem a tarde mesmo. Eles não conseguem entender o que aconteceu naquele dia.
– Não importa se eles não entendem, eles apenas precisam fazer alguma coisa. Ferrer é um lutador profissional, patrocinado. Ele lutou ilegalmente e isso está custando a vida de Cobra – eu me controlava ao máximo para não gritar. Lembrar daquele lutador fazia meu sangue ferver – qual será a punição?
– Aí é que está, Karina – respondeu Roque, aparentemente tão bravo quanto eu – Alexander Ferrer tem as costas quentes. Gente grande o defende. Obviamente ele está errado, mas não sei se receberá a punição que merece. A Equipe dele está arcando com os gastos e eu acho, sinceramente, que é a única providencia que será tomada.
– Mas não é justo! – respirei fundo, tentando me acalmar – o que esse imbecil tem com o Cobra, afinal? Eles nem se conheciam. Para que fazê-lo entrar em coma?
Roque ficou em silencio e eu conseguia imaginar meu treinador de cabeça baixa, massageando as têmporas, forçando seu cérebro a achar uma explicação.
– Eu vasculhei tudo por aqui. Contratos, cartões de visita, tabelas de apostas. E tudo está limpo. Cobra sequer chegou a participar de um mesmo campeonato que ele na mesma categoria. Em nenhum momento eles se encontraram. Alexander não tem motivo para considera-lo um rival pessoal. Consegui uns vídeos do cara na internet. Ele não faz esse tipo, ele joga limpo.
– Então que porra aconteceu aquele dia? – perguntei, frustrada – Roque, eu não consigo aceitar que não poderemos tirar essa historia a limpo!
– Bom, na verdade, não podemos mesmo – respondeu Roque – o advogado da Liga me disse que eles aqui estão com as mãos atadas. Não podem investigar o caso sem chamar a atenção. Os grandes estão tratando isso como um acidente e assim deve ser.
Fiquei alguns instantes em silencio tentando organizar todas aquelas informações. Roque me dizia que eles estavam de mãos atadas em São Paulo. A Liga de lá não poderia investigar o caso sem aborrecer as pessoas erradas. A Liga. A Liga de São Paulo.
Não a Liga do Rio de Janeiro.
– E se eu tentasse algo daqui? – sugeri, me animando – existe uma Liga forte aqui. Claro que eles não podem assumir o caso, mas eu poderia contatar um bom advogado que entende desse ramo. Ele poderia me dar opções.
– Karina... – começou Roque, com cuidado – também pensei nisso. Inclusive ia tentar ir até aí para...
– NÃO! – gritei sem querer. Olhei para trás para garantir que ainda estava sozinha – para que isso? Você precisa ficar aí e cuidar de Cobra. Eu posso muito bem ir atrás disso. Posso até ver nos contatos do meu pai.
– Karina, esse não é o combinado. Você está no Rio para rever sua família, para descansar. Não quero você metida em coisas desse tipo. Eu resolvo.
– Você fica quieto aí onde está – retruquei, decidida – eu vou atrás de um advogado hoje mesmo.
– Peça para seu pai fazer isso.
– Não! Não tem nada a ver – Roque bufou do outro lado – estou falando sério, Roque! Não posso dar mais essa dor de cabeça para meu pai. eu já tenho 23 anos, devo me virar sozinha. Na verdade, eu já ia procurar um advogado mesmo. Preciso resolver um caso de uma amiga daqui. Eu só vou estar dando mais um trabalho para ele.
– Mamãe, hoje é dia do brinquedo!
– Roque, preciso desligar! – sussurrei ao ouvir Bernardo – te ligo assim que tiver notícias. Tchau, cuida dele!
Não esperei a resposta. Desliguei o celular ao mesmo tempo em que Dandara entrou na sala, coçando os olhos cansada. Pareceu surpresa ao me ver ali.
– K? – indagou ela, confusa – ainda é muito cedo. Aconteceu alguma coisa?
– Não! – respondi, forçando um sorriso – estava sem sono, demoro para me acostumar a dormir bem longe de casa.
Ela não contestou e eu achei melhor ajuda-la no café da manhã.
Conseguir o contato de um advogado foi como arrancar doce de uma criança. Naquela manhã, enquanto tomávamos café, investiguei meu pai. Mostrei interesse pela rotina da academia e pelos campeonatos. Logo ele entrou no assunto mais burocrático.
– E você ainda está registrando tudo sozinho? – perguntei, ansiosa pela resposta.
– Não tem mais como, filha – respondeu meu pai despreocupado, após morder uma torrada com geleia – sairia do meu controle. Nossa academia cresceu muito. Estou com um advogado que resolve todas essas coisas para mim.
– Um advogado da Liga?
– Isso – meu pai fez uma pausa, e bufou irritado – demorei para voltar a acreditar neles, se quer saber. Depois de todo aquele rolo do cretino do Heideguer, quis distancia. Mas a Liga daqui conseguiu se reerguer, estão com novos princípios e com gente competente trabalhando pra eles. O advogado que eu contratei é bem jovem, mas extremamente responsável.
– E gato – respondeu Bianca, trocando um olhar significativo com Dandara – falando nisso, quando o bonitão vai voltar a dar o ar da graça lá na academia? Me avise com antecedência para eu ter certeza que preciso estar lá.
Gael respirou fundo e lançou um olhar mortal para a esposa e Bianca.
– Daqui uns dias tem um campeonato regional e quero levar uns alunos novatos para competir. Ele precisa atualizar uns contratos para mim. Mas como eu sei que o doutor provoca muito alarde naquela academia, estou tratando dos nossos assuntos diretamente no escritório dele. Marquei com ele hoje a tarde.
Bianca fez uma cara de decepcionada apenas para irritar ainda mais nosso pai.
– Justo hoje, amor? – questionou Dandara, um pouco irritada — eu tinha te avisado que Bernardo tem médico e eu tenho uma reunião importante na Ribalta. Não posso desmarcar, você sabe que não podemos irritar aquela nova dona insuportável.
Gael bateu a mão na testa, irritado consigo mesmo.
– Me desculpa, Dandara – respondeu, levantando-se a procura do telefone – não precisa cancelar seu compromisso, eu me esqueci completamente do médico. Eu posso desmar...
– Eu posso ir no seu lugar – exclamei de repente, fazendo com que todos olhassem para mim – não tem problema. Não estou fazendo nada de útil aqui mesmo.
– Você pode ir com o Bernardo no médico, mais fácil – respondeu Bianca distraída, com a boca cheia de maça.
Puta menina chata.
– K, não se ofenda meu amor – disse Dandara, pegando minhas mãos com delicadeza – mas Bernardo tem um pouco de medo de médico, ainda mais otorrinolaringologista. Ele odeia que mexam na orelha dele... acho que ele se sentiria mais seguro se Gael fosse.
Não tem problema, Dandara. Inclusive, venha cá me dar um abraço. Mas Bianca tinha que continuar se intrometendo.
– Mas essa é uma ótima oportun...
– Bianca, eu vou no lugar do pai. Pronto – interrompi, fazendo com que minha irmã me olhasse assustada – tudo bem para você, pai?
– Bom... você conhece tanto quanto eu sobre esses assuntos. Não teria dificuldades. E se realmente não tiver problemas...
– Não tem, não. Me fale o nome dele, endereço e horário que eu estarei lá.
Meu sorriso de satisfação por estar ajudando-os pareceu convencê-los. Meu pai sorriu grato para mim, pegou um pedaço de papel e anotou as informações.
Dr. Murilo Morelli
Advogado
Eram esses os dizeres de uma elegante placa dourada bem em frente ao espaço comercial. Respirei fundo enquanto terminava de estacionar o carro em frente ao estabelecimento. Ajeitei a bolsa nos ombros e subi os poucos degraus antes de apertar o interfone.
Era um belíssimo lugar. Extremamente moderno, novo e bem decorado. Seja lá quem fosse o advogado, tinha um excelente gosto. E dinheiro. A porta de vidro se abriu e uma secretária impecável me esperava com um imenso sorriso, atrás de um balcão de mármore. Ela parecia ter saído direto de um daqueles filmes com secretárias gostosas que eram a perdição de seus chefes. Agradeci aos céus por estar um pouco mais arrumada do que de costume.
– Pois não? – me perguntou a secretária com uma voz rouca e extremamente sexy.
Pigarreei.
– Boa tarde. Meu pai, Gael Duarte, tem um horário marcado com Dr. Murilo às 16h. Meu pai não pode vir por um contratempo familiar e me pediu que viesse para representá-lo.
Poucos segundos se passaram enquanto a dona de um magnífico par de seios que me fazia odiar os meus olhava a agenda.
– Aqui está –respondeu ela – você é a próxima a ser atendida. Vou informar ao Murilo que já está aqui.
Sorri o mais simpática que consegui e me ajeitei em um sofá de couro branco.
Não demorou para que ela me chamasse novamente. Caminhamos por um corredor e paramos em frente a uma porta grande de madeira.
– Pode entrar – informou a secretária.
Não sou lésbica, mas gastei alguns segundos de minha vida vendo a bunda dela enquanto ela voltava para seu posto.
Por que algumas com muito, e outras com tão pouco?
Balancei a cabeça e entrei na sala. Ela era igualmente luxuosa, ampla e bem iluminada por uma grande janela ao fundo. Murilo estava distraído lendo alguns papéis e levantou a cabeça assim que me viu.
Ele pareceu confuso.
– Você... não é Bianca – começou ele.
Murilo se levantou, caminhou em minha direção e me olhava como se estivesse visto algo de outro planeta. Ele era um homem muito bonito, Bianca não havia mentido. Alto, cabelos castanhos e olhos verdes. Forte na medida ideal.
Mas ele era certinho demais.
O cabelo não era bagunçado. O terno, perfeitamente alinhado. A gravata tinha um nó incrível. Suas feições eram perfeitas.
Perfeição não me instigava.
– Não sou mesmo, obrigada – respondi, após soltar uma risada – as pessoas não costumam me confundir com ela.
–Mirela me disse que a filha de Gael tinha vindo no lugar dele e eu associei com a Bianca.
– Você deve pensar que Bianca é a única filha dele... mas eu sou a K...
– Karina – completou ele, com um sorriso – sei que Gael tem uma filha mais nova. Mas até onde eu sabia, você não morava aqui.
– E não moro – respondi – estou... a passeio. Entendo sobre esse universo das lutas e vim na reunião no lugar do meu pai. Espero que não se importe.
O sorriso de Murilo abriu-se mais. Apontou para uma elegante cadeira, em um gesto pedindo para que me sentasse.
– De maneira alguma. Muito prazer em te conhecer, Karina. Alias, tenho a impressão que já te vi em algum lugar.
– Fotos? – arrisquei.
– Não. Algo me diz que já vi seus olhos bem de perto – respondeu ele, me encarando.
Senti minhas bochechas corarem. Pigarreei e sentei na cadeira que ele oferecia.
Os assuntos do meu pai foram resolvidos em meia hora. Enquanto conversávamos, a secretária boazuda me trouxe suco de laranja e algumas bolachinhas. Ela era muito simpática e isso me deixava chateada. Pessoas lindas não deveriam ser simpáticas e vice versa, era muito privilégio para uma pessoa só.
Ao final da nossa reunião, enquanto Murilo terminava de arquivar os documentos, senti que era a hora de entrar nos meus assuntos. Por mais que fosse muito jovem, Murilo me parecia ser extremamente competente, estudado e preparado para qualquer caso. Era ele.
– Agora que os assuntos do meu pai estão resolvidos, vou falar dos meus – comecei – gostaria de te contratar para um caso e saber sua opinião sobre outro.
Murilo voltou a se sentar.
– Me fale sobre eles, então.
Respirei fundo e tentei organizar minha fala da melhor maneira possível.
– Eu sou de São Paulo. Eu e meu namorado somos lutadores. Há quase dois meses atrás meu namorado foi brutalmente machucado em uma luta. Tão machucado, que está em coma até hoje.
Murilo arregalou os olhos após minha fala. Franziu a testa.
– Você namora? – perguntou ele, simplesmente.
– Namoro... – respondi, sem entender a reação dele – e como eu estava dizendo, meu namorado está em coma.
Respirei fundo mais uma vez, tentando me acalmar. Esse assunto fazia meu corpo tremer de raiva. Murilo pareceu perceber, pois abandonou sua expressão de curiosidade e passou a me dar toda a sua atenção.
– A Liga de São Paulo insiste em dizer que foi um acidente, que o outro lutador não teve intenção de machuca-lo. Os patrocinadores dele estão arcando com os custos do hospital e talvez paguem uma indenização. Mas eu quero mais do que isso.
– Você não acredita que foi um acidente, então.
– Não, não acredito – respondi – foram golpes ilegais. Já investigamos um pouco sobre o cara e ele não tem ficha suja. Mas que teve intenção, isso teve.
– Me fale suas teorias, Karina.
Encarei os olhos verdes de Murilo. Noite passada, eu havia passado algumas horas pensando sobre o assunto. Eu havia pensado em diversas versões, tentando escolher a que mais se encaixava, tentando achar um ponto de partida para toda aquela confusão.
– Talvez Alexander Ferrer não tenha o machucado por um motivo pessoal – disse, observando Murilo anotar o nome em uma folha – talvez... alguém tenha o contratado.
– Acha que alguém pode ter contratado esse lutador para machucar seu namorado? Me fale um pouco sobre ele. Sobre seu namorado.
– Ele chama Ricardo Cobreloa, mas é conhecido como Cobra. Tem 26 anos. É de uma cidade do interior do Rio, mudou-se para cá quando tinha 19 anos em busca da academia do meu pai. Enfim, ele lutou alguns campeonatos, chegou a trocar de academia por algum tempo...
– Cobra... ele era do Lobão, não era? – interrompeu Murilo – me desculpe, Karina. Me desculpe mesmo pelo que vou falar, mas na Liga temos um arquivo com pessoas “para ficar de olho” e o nome do seu namorado está por lá. Isso muda um pouco a forma que trataremos do caso.
Minha vontade era acertar aquela caneta no olho dele.
– É passado – retruquei, decidida – Cobra e eu fomos embora do Rio há cinco anos atrás e desde então ele é outra pessoa.
Mentira. Mentira deslavada.
Cobra e eu nos metemos em milhares de roubadas em São Paulo: apostas, brigas de rua, tudo. Mas como nossos “crimes” não ultrapassavam o estado, a Liga do Rio não tinha conhecimento disso. Claro que se Murilo quisesse investigar nossos nomes mais a fundo, ele encontraria tudo que queria com muita facilidade. Eu não poderia dar essa ideia para ele.
– Mas independente da índole do Cobra, não é certo o que fizeram com ele. Ele estava lutando de forma legal, sem tentar passar a perna no adversário. Ou por acaso acha isso justo?
– Claro que não – respondeu Murilo, abandonando a caneta – claro que não. Bom, Karina, eu preciso entender direito essa história. Anotei o nome dos lutadores e por hora eu tenho que juntar algumas informações, ver o que diz na mídia, entender quem está por trás do caso.
– Sim, entendo.
– E o outro caso?
Sorri para Murilo culpada. Ele com certeza acharia que a filha caçula de Gael era metida a andar sempre com as pessoas erradas.
– É sobre uma amiga. Natalia Queiroz. Tive uns... problemas com meu pai quando era mais nova e morei com ela durante um tempo. Ela era minha amiga, mas namorada do Lobão – Murilo sorriu e balançou a cabeça – ela é gente boa, eu prometo para você! Acontece que ela se meteu com as pessoas erradas. Está na prisão de Porto Sul há 5 anos. O caso dela nunca foi defendido, nunca foi devidamente julgado. E...
O telefone tocou. Murilo pediu um instante e atendeu o chamado. Trocou algumas palavras com a secretária e voltou a me olhar quando desligou.
– Um cliente precisa me entregar uns documentos que eu pedi – explicou ele – se importa se eu for lá na frente um instante? É rápido, só preciso conferir se tenho tudo que preciso para abrir o processo.
– Na verdade, acho que já tomei muito seu tempo. Bom, o nome da moça é Natalia Queiroz, 25 anos. Está em Porto Sul. Acho que como advogado você pode ter acesso a ficha e estudar o caso dela.
– Claro, claro – respondeu Murilo, levantando-se junto comigo – mas se quiser continuar conversando eu posso...
– Não precisa – respondi com um sorriso – já agradeço por ter estendido sua hora para mim.
Acompanhei Murilo até a entrada do lugar. Durante o caminho, ele tentava arrancar informações como quanto tempo eu ficaria na cidade, o que eu gostava de fazer e se podíamos marcar uma próxima reunião em um lugar mais calmo, como num jantar por exemplo.
Me despedi dele com um aperto de mão. Estava de costas para a recepção e quando tentei me virar, Murilo puxou minha mãe de volta, rindo.
– Lembrei! – exclamou ele, rindo mais ainda – agora me lembro aonde te vi. Claro, Porto Sul!
Gelei. Meu sorriso para ele foi extremamente sem graça.
– Acho que você está me confundindo... – respondi, tentando soltar minha mãe, em vão.
– Claro que não! Você estava saindo da cadeia de lá tão apressada que quase me derrubou no chão!
CLARO! O moço dá entrada. Em minha pressa, esbarrei nele e nem me desculpei.
– Desculpa por aquilo! Eu estava realmente muito apressada.
– Fiquei tão bobo quando te vi que nem me preocupei com aquilo...
Era definitivamente minha deixa para ir embora. Soltei minha mãe e sorri mais uma vez, para me despedir. Virei tão rápido que esbarrei no peito do próximo cliente de Murilo, que estava bem atrás de mim. Levantei os olhos e congelei no mesmo lugar.
– Tinha que ser você empacando meu horário, não é Karina?
Pedro estava irritado. Segurava um envelope nas mãos e me encarava com raiva.
O que eu tinha feito de tão grave dessa vez?
– Só vim entregar os papéis – disse ele, entregando o envelope para Murilo com certa agressividade – sua secretária disse que não falta nenhum.
– Um instante, vou conferir – respondeu Murilo, apoiando-se no balcão de mármore para fazer a conferencia.
Eu ainda olhava incrédula para Pedro, que por sua vez ainda me olhava com raiva.
– Que foi? – perguntei, grossa – sinto muito por ter atrapalhado sua agenda cheia de compromissos.
– Algumas pessoas tem trabalho, filha – respondeu ele, com ironia – você pode estar no Rio passeando, mas eu tenho um trabalho que exige que eu cumpra oito horas por dia. Consegui meia hora com muito sacrifício e é...
– Já entendi, Pedro – respondi, exaltada – eu já estou indo embora. O advogado é todo seu.
Murilo piscava atordoado, olhando de mim para Pedro sem entender o que estava acontecendo.
– Pedro, me desculpe pelo atraso. Os documentos estão certos. Vou entrar com o processo contra ela. Ela será intimada... pretende avisá-la?
– Não – respondeu Pedro, parecendo se acalmar – eu quero que ela saiba disso apenas pela justiça. Você sabe como ninguém o tanto que tentei negociar com ela. É meu direito.
– Disso não há duvidas – respondeu Murilo, batendo nas costas de Pedro – com essas provas, ela terá que se entender na justiça sobre plágio.
– Eu quero apenas meus direitos. E meu dinheiro.
Eu estava confusa. De quem eles estavam falando, afinal? Alguém, uma mulher, havia plagiado Pedro. Como assim?
Pedro se despediu de Murilo com um aperto de mão e mesmo sem querer, caminhei ao lado dele para fora do local. Já na calçada, tirei as chaves do carro da bolsa e evitei olhar para ele enquanto contornava o carro. Pedro continuava parado no meio fio, me encarando com certa ironia no olhar.
– Dando em cima do advogado, Karina? – perguntou ele, de braços cruzados.
Antes que eu esfolasse a cara dele naquele asfalto, destravei o carro e entrei no veículo batendo a porta com força, ouvindo mais uma sendo batida logo depois. Olhei para o lado e Pedro estava ali, no banco do carona, colocando o cinto despreocupadamente.
– QUE PORRA É ESSA? – gritei.
– Você está indo para casa, certo? Eu combinei de ver o Guilherme lá também. Eu ia de táxi, mas para que gastar dinheiro a toa? – respondeu, ligando o rádio – você não vai dirigir, não? Ou você não sabe? Não tem carta?
– Pedro – comecei, sentindo meus dentes rangerem de raiva – e aquele papo de “eu só tenho meia hora”? Não tem que voltar para o trabalho, não?
– Na verdade, eu tenho algumas horas extras. Sempre trabalho um pouco a mais e quando eu preciso sair, meu chefe desconta dessas horas extras.
Ele não sairia do carro. Então respirei fundo e liguei o motor. Dirigia rápido, tentando ficar o menos possível de tempo na companhia dele. Durante todo o caminho nós não conversamos. Não nos olhávamos. Mas eu sentia meu corpo queimar e todos meus músculos tensionados. Assim que chegamos em minha casa, Pedro foi o primeiro a descer. O alcancei logo em seguida, abrindo a porta.
A casa estava vazia. Bernardo estava no médico com meu pai, Dandara na Ribalta e Bianca provavelmente havia saído.
–Que estranho – comentou Pedro – João disse que já estava aqui. Íamos jogar vídeo game.
Revirei os olhos e segui para a cozinha.
– Bernardo me disse que você estava morando em São Paulo – disse enquanto servia um copo de água para ele, tentando não parecer interessada.
– Na verdade, eu estava sim. Estou no Rio há quase dois meses, como experiência em um trabalho – respondeu Pedro, sentando-se no sofá – semana passada resolvi que deveria ficar mesmo no Rio. Aluguei um apartamento e cá estou eu de novo.
Não respondi. Coloquei meu copo na pia e amaldiçoei João por não estar ali. Pedro folheava uma revista despreocupadamente. Eu não sabia o que fazer. Estávamos os dois ali, sozinhos, sem saber e sem querer conversar.
– Pode se trancar no quarto, Karina – disse Pedro, ainda atento a revista – vou esperar o João mais alguns minutos, se ele não chegar eu vou embora. Não precisa ficar aqui me recepcionando.
A solução para aquele problema saltou aos meus olhos. Diversos brinquedos de Bernardo encontravam-se espalhados no chão. Corri para seu quarto, peguei uma caixa grande e passei a recolher os brinquedos. Liguei a rádio para ouvirmos músicas e assim, não precisarmos conversar. Pedro se juntou a mim na busca dos brinquedos.
Estava distraída montando um robô quando uma música na rádio me chamou muita atenção. Ela era romântica. E eu conhecia aquela voz.
– É a Sol! – exclamei animada, olhando para Pedro – ela tem uma música tocando em rádio. Então a carreira dela deu certo?
Pedro ergueu os olhos para mim e naquele momento eu soube que havia algo de errado. Ele olhou para o rádio e balançou a cabeça, irritado.
– Está dando muito certo – respondeu ele, baixo – ela está estourando com essa música.
– Vocês... não... estão mais com a banda, né? – perguntei, cautelosa.
– Não. A Galera da Ribalta não existe mais há dois anos. Aparentemente, ofuscávamos a Sol.
– Ela disse isso? – arregalei os olhos ao ver Pedro confirmar com um aceno de cabeça – então ela está em carreira solo.
Engoli seco e me arrependi por ter feito o comentário sobre a música, pois Pedro estava visivelmente muito incomodado com alguma coisa. Voltamos a juntar os brinquedos por mais um tempo.
– Gosta da letra? – perguntou ele, sem me encarar.
Fiquei em silencio tentando identificar as palavras. Estava no refrão.
Estou pensando em como
As pessoas se apaixonam de maneiras misteriosas
Talvez seja parte de um plano
Eu continuarei a cometer os mesmos erros
Esperando que você entenda
Sorri.
– É muito bonita – comentei.
– Que bom que ainda gosta do que eu escrevo.
De repente, minha cabeça pareceu funcionar. Olhei para o rádio e para Pedro, que estava com um sorriso sem graça nos lábios. De repente, tudo pareceu se encaixar.
– Plágio! – exclamei, me levantando – meu Deus, plágio! A Sol... roubou sua música?
Pedro se levantou também e suspirou cansado.
– É, não tem outra palavra pra definir isso. Essa música eu escrevi... há um bom tempo, antes da banda acabar. Ela estava inacabada e nós nem a usávamos muito. Depois que a banda se separou, eu e o pessoal tentamos continuar com a Vicki. Tive um lapso de criatividade e consegui terminar a música e modéstia a parte ela ficou foda.
– E como a Sol conseguiu essa música?
Pedro riu.
– Nós não nos separamos de uma forma, digamos, amigável, mas tentávamos ao máximo conviver pois tínhamos muitos amigos em comum. Ela frequentava bastante o Perfeitão. Um dia, ela teve um surto de humanidade e resolveu ir em casa ver como eu estava. E eu estava lá, jogado na cama, tocando a música e cantando. Ela entrou, conversou comigo, disse que eu poderia ter sucesso na música, que não era pra eu desistir. Fui ao banheiro e quando eu voltei, ela já tinha embora. Mas ela tinha levado a letra e a partitura junto.
A música no rádio havia acabado e eu achei melhor desliga-lo, deixando-nos no mais completo silêncio.
– Ela conseguiu gravar a música e agora estamos aqui. Ouvindo ela nas rádios.
– E você está processando.
– É minha música, Karina – disse ele, frustrado – ela não comprou de mim, não me pediu, ela simplesmente roubou.
– Você está certo – concordei – e como você vai processá-la? Tem como provar que ela é sua? Você havia registrado?
– Claro que não – respondeu Pedro – eu tocava ela no meu quarto, apresentei pra banda uma vez só. Não via necessidade de fazer um registro. Quando eu soube da música, eu tentei procura-la. Disse que queria que ela dissesse que música era composta por mim, queria uma parte dos lucros.
– E ela...
– Ela estava estranha. Falou um monte de coisas que não entendi e depois começou a chorar de nervoso. Daí depois ficou impossível: ela não atendia telefones, não deixava eu chegar perto. Tive que partir pra um advogado.
– E a Bete? – questionei. Ela era tão honesta, tão correta – como reagiu a isso?
– Ela não sabe – respondeu Pedro – acredita que a música é da Sol. Não tive coragem de pedir ajuda para ela, Bete não merece isso. Mas agora ela vai acabar sabendo do que a filha fez.
– Pedro, estou chocada – comentei, sentando-me no sofá e sendo acompanhada por ele – a Sol sempre foi um pouco egoísta, mas isso é muito grave. Não dá pra acreditar. E ela é muito burra também. Quando isso cair na mídia, ela pode dizer adeus a carreira.
– Na verdade eu acho que ela não acredita que eu possa ir atrás dela na justiça. Ela acha que eu vou esquecer.
Ficamos em silencio mais alguns instantes. Minha respiração estava pesada.
– Sinto muito – murmurei, olhando para o chão – pelo que aconteceu com você. É uma situação bem chata ela ter te roubado uma música. Sei que elas são muito importantes pra você. Não apenas pelo dinheiro ou pelo reconhecimento, mas também pelo valor sentimental.
Pedro me encarou e eu fiz o mesmo. Um bonito sorriso envolveu seus lábios. Ele parecia estar me olhando pela primeira vez depois de muito tempo.
– Ninguém me diz isso – disse ele, com a voz fraca – todos me apoiaram, mas todos acham que eu estou bravo apenas por causa do lucro da música. Eles não entendem que meu lado mais machucado é o artístico.
– Então eles não conhecem você como eu conheço.
As palavras saltaram da minha boca antes que eu pudesse fechá-la. Pedro abriu mais o sorriso e continuou sustentando meu olhar por um tempo. De repente, ele ficou sério.
– Essa música era muito especial, Karina.
Eu não conseguia falar nada.
– Quer saber por que? – perguntou ele.
Apenas continuei a encará-lo, sem coragem de responder. Pedro respirou fundo.
– Porque eu fiz ela para você. Porque eu coloquei meu coração nela.
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