Até depois da Morte!
8 O vulto nas esquinas de Versalhes!
Apesar de todas as negações e reclamações da Sra. Henriqueta, a carta de recomendação fora assinada. Justine tivera sorte, pois, ainda naquele tempo não era obrigatória a passagem pela prefeitura para certificação de seus feitos na cidade. Entretanto, ela já não era mais considerada uma cidadã de bem, já que sua passagem pela prisão já havia sido registrada.
As informações espalhavam-se demasiadamente rápido por Paris, pois a cidade dispunha de um grande aglomerado de gente, e todos eles estavam sempre de olhos bem abertos para tudo e todos que por lá passassem. Seria milagre se Sra. Capucine ainda não soubesse disto.
"Coloque meu último nome apenas, Beaumont."
A proprietária, já bastante cansada daqueles pedidos desagradáveis, fitou Justine como se esta fosse uma louca de pedra.
"Mas para quê? Está bom Justine! Não queres que saibam o teu nome?"
"É apenas por uma questão de fineza, acredito que este nome chamará mais a atenção."
Mentiu.
"Ora, está bem! Mas irá te prejudicar isto aqui, tenho certeza!"
Disse sra. Henriqueta, entregando à Justine a carta.
"Não pense que fiz isto por ti! Fiz apenas e inteiramente por minha filha. Agora, saia de minha frente, tenho muito a fazer!"
Justine perguntou-se se aquela mulher não possuía receio de nada, pois, em verdade, ela a irritava bastante com seus chiliques. A espada estava próxima, mas ela não seria tão imprudente de usá-la para aquilo, não sujaria as mãos com alguém tão irrelevante, pensava.
Após isto, fora direto tratar com Geraldine as próximas decisões a serem tomadas.
"oh, sim! Bem, agora teremos apenas que te arrumar e te levar até ela! Não te preocupas, amanhã tens de estar preparada para suas perguntas. Acredito que não sejam tão cabeludas deste jeito como falam por aí. As pessoas aqui de Paris tem a mania de aumentar as coisas."
"Espero que sim!"
Disse Justine, relendo a carta com atenção. Havia apenas coisas boas a se dizer. Esta moça é bastante perseverante, dispõe de muitos atributos relevantes em sua personalidade, etc...
Todas aquelas etapas estavam já a lhe cansar totalmente. Ela verdadeiramente acreditava que tudo seria satisfatoriamente fácil. Porém, parecia que este homem possuía o universo a seu favor, e isto a desagradava e a desesperava grandemente.
*****
" Não compreendo por que Byron está tão distante ultimamente! Ele sempre fora comunicativo e divertido. Parece que algo lhe acontece, tenho receio disto. A sra. mamãe, acha que devo intervir e ajudá-lo?"
Perguntou Milady Madeleine para a mãe. As duas conversavam na presença das damas reais no salão do palácio de Versalhes.
"Não minha querida, deixe que ele mesmo possa lidar com isto. Byron não lhe dá a devida atenção. Tu que sempre és tão prestativa, um doce de menina. Canso-me de te ver desta forma. Embora o conde seja um dos mais ricos daqui e a primeira opção para firmar uma aliança, não creio que seja um homem com muitas virtudes de caráter!"
Madeleine fitou a mãe, incrédula com suas palavras.
"Mamãe, percebestes o que acabara de dizer? Não quero firmar aliança com Byron por seus dotes somente. É evidente que isto é bastante importante, mas há outras coisas em seu ser que me induzem a escolhê-lo. Já percebeste o quanto é culto e inteligente, e quanto é humano para com os outros?"
"Menos convosco!"
Sussurrou a mãe, embora quisesse que Madeleine a ouvisse. Destinando um olhar de preocupação a filha, continuou: "Minha querida, deixe disto! És tão bela e rica. Qualquer um gostaria de casar-se com vós, esqueça este homem libertino! Esqueça! Ele não a ama..."
"Cala-te!" Disse calmamente a moça, desviando o olhar, indignada. Sua aparência mudando repentinamente da alegria para um tipo de olhar obstinado, ofendido. "Tu não irás me convencer disto. Nada do que disseres fará com que mude minha opinião. Conheço Byron desde a infância, sabes disto! Ele me ama, porém algo em sua mente não o faz perceber isto. Eu mudarei isto nele, mudarei! A única coisa que preciso é que ele dê-me uma chance, apenas isso e eu o mudarei."
"Desde quando alguém muda o caráter de Byron? Tu não irás conseguir, ponha isto na cabeça!"
"Eu espero que repenses isto que disseste, mamãe! Eu espero que perceba o que estais me causando."
Proferiu, antes de virar-se e sair, petulante pelo salão, chamando a atenção das damas que começaram um burburinho intenso e inquietante.
Sra. Josephine, perturbada e irada com as pessoas ali presentes, resolveu ir até os jardins para aclarar os pensamentos.
A muito que ela receava pelo dia em que os sentimentos não correspondidos da filha se espalhassem pelo reino como praga. Temia que isto agravasse ainda mais o estado de Madeleine. Sabia que a filha era fraca de espírito, "como uma borboleta solta com uma asa quebrada." assim costumava designá-la. Madeleine, é claro, ofendia-se e afirmava com convicção ser bastante forte para superar todo o tipo de tormenta seja em qual for o âmbito da vida, entretanto a mãe sabia — talvez por seus extintos ou simplesmente por que seria impossível não perceber tamanha fraqueza de espirito — o quão equivocada estava. A ilusão lhe cegava a razão de tal forma que o sofrimento tornava-se inevitável. Desde a infância fora assim. Madeleine era um exemplo perfeito de criança mimada, decidida, obstinada por tudo o que desejava, imediatista, queria tudo rapidamente entregue em suas mãos, a sua disposição. Pouco importava para ela se verdadeiramente essas coisas estavam disponíveis ou não.
A mãe arrependia-se por remediá-la tão tardiamente, e temia. Temia, pois, sabia que Madeleine machucaria-se futuramente por suas atitudes, principalmente tratando-se de sentimentos, os quais a filha relevava extremamente e vivia intensamente, embora jamais houvesse envolvido-se em romances, Sra. Josephine preocupava-se. A filha iludia-se facilmente, principalmente quando tratava-se do conde.
Não houve, desde que o conhecera, nenhuma demonstração de interesse de sua parte e isso a fazia desconfiar, com razão, de sua afeição para com a filha. Acreditava deverás que estes sentimentos de liberdade o deixariam após a adolescência, mas enganou-se. A muito que a duquesa já o observava. Sempre aos cantos, pensando sobre coisas que não gostava de compartilhar, não muito adepto das conversas entre amigos, dentre outras coisas que a faziam questionar, pelo menos, sua aptidão social, já que considerava esta uma parte relevante para a construção do caráter de qualquer indivíduo.
Um lampejo de ódio lhe subia pela cabeça sempre que imaginava os tamanhos sofrimentos que o rapaz causava a filha. Desejava ardentemente que ele viesse a sofrer tanto quanto ela. Que sofresse com todas as ilusões, que sucumbisse a todas as expectativas falsas, que chorasse por todos os tormentos de um desprezo, que se torturasse com achismos e hipóteses a todo o momento, que amasse, sim, amasse incondicionalmente a ponto de adoecer. Estes eram seus desejos, posso dizer que passavam de desejos. A duquesa almejava ardentemente que tudo aquilo se tornasse verdade. Que ele sopesasse esse fardo para o resto de sua vida.
****
Justine reparou a moça sentada a sua frente, mirando-a sem nem ao menos disfarçar. Naturalmente, sentiu-se incomodada e imediatamente vieram a sua mente várias suposições. Ela a conhecia? Sabia quem era? Seu nome? Caso todas as respostas fossem afirmativas, isto seria um grande problema para ela.
Justine desviou o olhar, dirigindo-o a grande janela de vidro ao lado. Concentrou-se no movimento da rua.
"És nova aqui?"
Inquiriu-a a moça com um suspiro. Justine, desconfiada, calculou todas as possibilidades de prejudicar-se respondendo aquela pergunta, e então, exitante proferiu curtamente:
"Não!"
A moça abriu o leque tão rapidamente que Justine assustou-se.
"Vens de onde?"
"De um lugar distante."
A outra riu. As lufadas de ar causadas pelo movimento do leque faziam com que seus cachos rubros voassem levemente.
"Ora, tu não gostas muito de falar, posso perceber! Vejo que és bem simples! É o primeiro emprego que procuras?"
"Sim!"
"Sabes que para trabalhar aqui tens que ser comunicativa, carismática, etc. Acreditas que tenha os atributos necessários?"
Justine perdeu-se um pouco ao observar um guarda que passava rente a janela, por pouco não a percebendo ali.
"Acredito que sim, mas isto não serei eu que direi!"
"Sabes algo sobre roupas, moda?"
"Servem para vestir!"
Disse, rindo posteriormente.
"Não, minha querida! A moda é uma arte e as roupas a matéria prima desta arte!"
"Não estou interessada nisto!"
"Ora, mas se queres aqui trabalhar isto é o mínimo que tens que saber." Disse a moça, guardando o leque na pequenina bolsa vermelha. "Eu acreditei, sinceramente que tu irias ser um problema para mim, afinal até que tens uma beleza que, devo dizer, chama a atenção, mas posso constatar, pelo teu palavreado e tuas atitudes que não serás contratada. Sra. Capucine é extremamente seletiva."
Justine, por mas que a ouvisse , não a escutava, ou melhor, não a dirigia verdadeira atenção. A impaciência tomava conta de seu corpo. As pernas sacudiam-se freneticamente, como que prontas para correr.
"Sra. De Beaumont!" Chamaram-lhe. "É isto?"
"Sim!" Disse Justine levantando-se e dirigindo-se até a mulher de baixa estatura e olhar analisador a fitá-la, pôs os óculos para observa-la melhor, e isto perdurou durante algum tempo.
"Sente-se! Aqui em tua carta diz que nada tens de experiência, és uma indicação da Sra. Marie. O que sabes fazer? Costura?"
"Não Sra, mas posso rapidamente aprender."
A mulher riu, retirando os óculos e anotando algo em papéis que para Justine pareciam aleatórios.
"Tome! Volte aqui quando souberes algo sobre moda. Não desperdiçarei meu tempo vos ensinando algo que toda a moça prendada e preparada deveria saber. Isto é o mínimo para ajudar-me aqui. Sabes quem pisa neste chão todos os dias? Monarcas, duques, condes e toda a sorte de personalidades influentes deste país, não deixarei qualquer uma atendê-los, isto é imprudente de minha parte!"
"Escute, eu acredito que devo dizer algo." Disse calmamente. "A moda é uma arte e as roupas a matéria prima desta arte!"
"O que dissestes?"
Perguntou Sra. Capucine, parando subitamente de escrever e dirigindo o olhar a Justine que, aproveitando a oportunidade, melhorou a postura para que pudesse passar confiança.
"Sim, pois a moda é mais que simplesmente desenhar roupas e sim expressar-se por elas. Dê-me a chance de ajudá-la. Não há arrependimentos quando a aptidão é mútua!"
Houve alguns minutos de silêncio tão intensos que podia-se até mesmo ouvir o falatório do povo nas ruas.
"Espere minha resposta, ela chegará em breve!"
Disse Capucine, sem retirar os olhos dos papéis.
"Não te arrependerás de me ter por perto."
Disse, saindo em seguida com um lampejo de felicidade surgindo-lhe na face.
****
Ao chegar a estalagem resguardou-se no quarto e se dedicará o resto da tarde a escrever ao pai.
Olá!
A muito que não lhe escrevo e desta vez, como prometi que faria, escrevi com o intuito de apenas comunicar-lhe o que acontecerá nos últimos dias em relação a minha missão.
Admito que esperava mais facilidade para aqui executar nossos planos, não apenas pela lei, mas também pelas dificuldades para encontrar este tal conde. Desde que cheguei ainda não o vi, não pude gravar suas feições nem seu modo de vida ou trajetos o que, evidentemente, dificulta o procedimento e deixa-me com certa ansiosidade.
Está sendo deverás complicado de aproximar-me. Talvez agora, que acredito já ter conseguido ao menos ilfiltrar-me em um dos locais que geralmente frequenta, eu possa ter uma aproximação mais eficaz e após isso, como combinado chamar-lhe para um duelo. Se ele for tão ruim quanto dizes, então estarei certa de minha Vitória.
Outro problema aqui encontrado por mim, são as pessoas. Elas, em meu conceito, são extremamente insuportáveis! Todas de sua maneira, mas igualmente insuportáveis! Forço-me a conviver de maneira pacífica, mas vez ou outra pego-me imaginando minha espada a encurrala-las.
Gostaria muito de estar bem distante, de já haver cumprido com tudo o que lhe prometi, entretanto, meu pai, outro dia mesmo estava a pensar que este homem possui muita sorte.
Admito que meus feitos são também bastante fracos para cumprimento efetivo desta missão.
Rogo seu perdão.
Perdoe-me por ainda não cumprir com o que lhe prometera. Sinto-me envergonhada em admitir o quão fraca sou. Sei que a cada falha que cometo perco em seu conceito e isto é o que mais temo, sem dúvida!
Não entristeça-se com meu desempenho, considere que jamais serei como vós.
Eu espero em breve estar convosco novamente, longe deste desgraçado Byron!
Eu o terei matado.
Guarde isto que lhe digo meu pai.
Fique com Deus!
P.S: Tomarei todos os cuidados necessários para que está carta jamais seja lida por ninguém além de vós.
De: Justine de Beaumont
****
Ao final daquele dia, todos os aristocratas reuniam-se no Palácio em uma festa que fora cedida pelo rei. Estavam todos bastante animados, conde Byron era um deles.
Era muito raro vê-lo daquela forma. A bebida possuía rápido efeito em seu corpo, fazendo com que até mesmo ele dançasse algumas músicas junto de outras damas aristocratas animadamente.
Dançara quatro músicas seguidamente com a mesma parceira, condessa Lamartine, que por sinal, adorava vê-lo desta forma tão acessível, por mais que soubesse que tudo aquilo não era mais que efeito do álcool. Não demorou muito para que sentasse, exaurido em uma das poltronas do salão. Tentou, em vão enxergar ao redor, a vista que embaçava vagarosamente e o sono que tinha o impediam de permanecer com plena consciência de suas ações.
"Beba mais, conde!" Ouviu, e dirigindo um olhar moribundo a condessa, pronunciou:
"Deixe-me! Acredito já ter bebido além do que posso aguentar."
"Ora, conde, sente-se mal?"
Perguntou, imediatamente repousando o copo que levava na mão na mesinha ao lado da poltrona onde sentava-se o conde.
"Chamarei conde Gerard para socorre-lo!"
"Não, Sra. Lamartine! Acredito que posso recuperar-me sozinho, apenas deixe-me aqui!"
A maioria dos ali presentes o dirigiam um olhar de estranheza, pois o conde raramente bebia excessivamente a ponto de chegar aquele estado. Por mais que até mesmo ele considerasse deplorável e humilhante aquela postura, não compreendia o motivo preciso pelo qual bebera tanto, talvez por um decaimento repentino e inconsequente da própria capacidade de ajuizar-se. A dor latente que fazia-lhe pulsar a cabeça e a tontura o causavam arrependimentos tamanhos sobre aquela inconsequência. Prontamente, estava a seu lado o amigo Gerard, segurando-o os braços. Condessa Lamartine igualmente — ou até mais — preocupada, esqueçera até mesmo em algum lugar do salão, os leques que sempre trazia nas mãos.
"Largue-me, posso andar sozinho!"
Disse Byron, retirando os braços das mãos do amigo. "Desde quando preciso de ajuda para
Andar? estou ébrio, não doente!"
"Tu não consegues nem mesmo dar um passo de tão tonto. É melhor te tirarmos daqui antes que o rei o veja neste estado."
"Quão humilhante é isto! Deveria esconder-me de algo que fiz? Não compreendo quem está mais errado. Eu, que imprudente deixei-me levar pelo exagero, pelas vontades de minha carne, ou se são esses que me julgam e que me analisam como se nada tivessem feito de errado na vida!"
Proferia, enquanto atravessava o salão com o amigo que o sustentava ao lado, saindo por uma das portas dos fundos. O breu conferia um ar sombrio aos jardins, e o vento que soprava incessante do Sul, lhes arrepiavam a pele e fizera o chapéu do conde voar para longe. Era quase impossível enxergar algo com exatidão. A carruagem os esperava demasiadamente longe e o conde, tomado por uma vertigem agoniante, caminhava ligeiramente cambaleante, a passos lentos e minuciosos.
"Cuidado com as pedras!" Alertou o amigo, já no meio do caminho.
"Fique aqui! Irei chamar o cocheiro."
Assim, Gerard se ausentara e Aaron permaneceu sozinho em frente ao palácio. Fechou os olhos forçosamente, na ilusória tentativa de tornar mais límpida a visão e ao abri-los novamente, avistou algo.
De fato, primeiramente pareceu-lhe apenas um vulto, uma estátua erguida em um lugar atípico. Entretanto, ao observar melhor pudera constatar que havia algo além. Um corpo, talvez a observa-lo na escuridão próximo as árvores ao longe. Seus pensamentos pendiam entre as possibilidades de uma possível alucinação, causada pelos efeitos da quantidade de álcool ingerido ou constatação de alguém a espreita. O conde forçou o olhar, dirigindo toda a atenção que podia ao observador distante. Começou a caminhar lentamente em direção a visão. Os pés arrastando-se na grama, trôpego, vacilante. O ar entrando e saindo das narinas rapidamente, o peito inflando-se e o cérebro enchendo-se de curiosidade.
"Aaron, aonde estais indo?" Perguntou Gerard, trazendo-o pelo braço novamente ao lugar onde o deixara. "Entre aqui e faça-me um favor, não beba mais do que possa digerir totalmente!"
Ao entrar e acomodar-se no assento acolchoado da carruagem, dirigiu o olhar novamente ao local onde antes estava o objeto de suas atenções. Nada viu, senão a copa das árvores a balançarem com o vento.
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