Até depois da Morte!

10 O contato com a verdadeira fúria.


Os preparativos para as festividades estavam sendo executados rapidamente, o que incomoda Byron ligeiramente já que se viu obrigado nas últimas semanas a permanecer em Versalhes a pedido do rei. Passava os dias inteiros na companhia da majestade e seus conselheiros, os assuntos tratados eram, na maioria sobre finanças, revoltas, gastos — muitas das vezes relacionados a reformas em Versalhes, o que custava imensamente aos bolsos reais e consequentemente, do povo — e organização social, quanto a isso, haviam debates frequentes.

"Dialoguemos, sobre as reformas sociais. Acredito ser necessário explanar sobre este assunto."

Propôs o conselheiro oficial do rei.

"Sim, acredito que deva haver melhorias nas condições de trabalho dos agricultores."

Pronunciou o outro, abarrotado de papéis.

"Tocastes no ponto, Frontin! O que achas Byron? O que fazer em uma situação destas?"

Perguntou Lefebvre, percebendo o cansaço mental do conde que refletiu por um momento.

"Penso que, por mais que tenhamos uma produção agrícola não tão relevante, é preciso oferecer mais atenção aos camponeses, pois percebam que as revoltas crescem nestes ambientes."

"Sim, mas por que motivo doaríamos benefícios a um local que não oferece nada a realeza?"

"Este seria um ato de prevenção. Já que não querem pensar no povo, pensem na realeza! Caso deixemos de nos importar com este contingente, é evidente que as revoltas aumentarão como resposta. Eles são súditos, mas são tão necessários para este regime quanto qualquer monarca."

"Eu concordo com vós! Pensemos também nas condições deles, é estritamente necessário que tenhamos em mente a possiblidade de revoltas."

Defendeu Frontin.

"Sim, sim! Talvez se mudarmos alguns códigos..."

"Uma reforma fiscal tu dizes?"

Perguntou o rei.

"Acredito que sim! Seria uma possibilidade bastante interessante!"

"Ora, faremos portanto!" Disse a majestade, fitando os relógios do salão. "Bem, vejam, já passaram-se três horas que estamos aqui debatendo sobre tais questões. Cessaremos por hoje e em breve as abordaremos novamente."

Proferiu, cumprimentando-os.

O conde saira logo, voltando imediatamente para Paris. O dia lhe fora cansativo o bastante para fazê-lo ansiar por conforto.

***
"Sr. lembre-se de ir hoje a loja de senhora Capucine buscar a roupa que encomendara."

Lembrou-lhe Sra. Thérnadier durante o café da manhã. O conde dirigiu-lhe um olhar de estranheza sem muito entusiasmo.

"Irei a tarde, caso termine a tempo o livro que leio."

"Acredito que deva ir de imediato, pois Sra. Capucine mudou-se de Paris."

"Desde quando?"

"À um dia apenas, deveria informar-lhe anteriormente, porém, acabei por esquecer-me. Talvez minha cabeça já esteja dando sinais de velhice."

"Isto é normal! Só me irrita um pouco o fato de ir até Versalhes buscar esta tal roupa. De certo que o rei lhe ofereceu assistência para que se mudasse, quanto mais próximo estão dos alfaiates, as damas reais satisfazem-se. Passe-me o novo endereço desta loja mais tarde!" Disse, remexendo despreocupadamente a colher no café. "Sente-se e coma comigo, Thérnadier, incomoda-me vê-la assim tão alheia a mim."

Disse o conde, empurrando a cadeira com o pé.

"Sim, Sr!"

Assim que terminou o café, Aaron apressou-se para cumprir as tarefas do dia. Levou o livro nas mãos para que pudesse lê-lo durante o trajeto.
Estava tão absorto que nem mesmo reparava a neve cair, tomando conta das ruas, formando aglomerados de gelo. Só quem realmente necessitasse saía as ruas naquele tempo. Até mesmo o conde aumentou a quantidade de roupas grossas no corpo.

Passou aceleradamente pela neve ao sair da carruagem, irritando-se por sujar-se.

O baque na porta soou tão forte que assustou sra. Capucine.

"Oh, conde? Que susto!"
Proferiu, rindo em seguida no intuito de quebrar a tenção. "O que houve?"

"Sujei-me! Não é nada!" Disse, dispensando a ajuda que sra. Capucine lhe prestara para guardar-lhe o justaucops. "Este clima muda sem avisos, isto irrita-me!"

"Sim, igualmente Sr. Conde! É um tormento este inverno na Europa! Viestes buscar o colete que encomendara, suponho!"

"Sim, disseste que já estaria pronto."

"E está, Sr. Conde, está!" Disse a alfaiate, direcionando um assento a Byron. "Espere-me aqui!"

Sra Capucine adentrou velozmente o compartimento de costura, com o olhar aceso. Arrancou o colete das mãos de Justine, que calmamente a observava. A mulher saiu, batendo a porta com força.

"Quem é este?"

Perguntou, Justine.

"Parece-me que é conde Byron!"

Syilvie percebeu a mudança imediata de humor da companheira. Esta levantou-se, o cenho franzido, o olhar tornando-se ligeiramente cruel.

"Aonde vais?"

Indagou ela à moça, quase aos sussurros.

"Apenas quero saber o que o conde pronuncia a respeito da nossa costura."

Disse, caminhando até a porta e abrindo-a vagarosamente.

"Eu mesma confeccionei, imediatamente após vosso pedido. Espero que tenha aprovado!"

O conde nem mesmo dirigia a devida atenção as palavras de Capucine. Em sua opinião, tudo estaria perfeitamente elaborado. Sua preocupação para com as roupas era tão mínima que somente chegava a reparar defeitos quando já estava a vesti-las, o que lhe proporcionava grandes dores de cabeça.

"Creio que tudo esteja nos conformes, sabes que não tenho talentos similares para criticar vosso trabalho. Seria audácia dizer que há erros em sua produção."

"Eu agradeço os elogios que sempre fazes a mim, com muita gratidão."

O conde não pode ouvir com clareza estes últimos pronunciamentos, pois um barulho de porta a fechar-se fez as atenções voltarem-se a moça que observava-os distante, escondida atrás dos cabides.

Aaron tentou vê-la com mais nitidez por entre os vãos das barreiras, entretanto era impossível enxergar algo além dos olhos e algumas partes da face. Fitou por um momento mínimo, mas suficiente para reparar o quão profundos eram. Altivos, dispostos, enérgicos e imensamente persuasivos.
Desviou o olhar.

"Parece que tens outras contratadas, sim?"

"Sim, sim! Mas esta..."

Aproximou-se como que para lhe confidenciar um segredo.

"Nem mesmo sabe costurar. Não é uma dama, veio do interior francês."

O conde fixou novamente o olhar em Justine, agora deixando-o permanecer, sem interrupções.
Ela mal podia contentar-se. Se sentia incapacitada de fazer algo. Já esperava por um encontro como aquele, porém não imaginava que estaria tão longe de sua espada. Arrependeu-se por deixa-la tão longe.

A presa estava a sua frente, talvez em uma circunstância não tão favorável, porém ela já agoniava-se por ter que esperar. Lembrou-se do pai, distante, inconformado, lembrou-se da morte da mãe e então o sangue lhe subiu pela cabeça. As orelhas esquentando-se e as mãos trêmulas. O ódio que cultivava sobre aquele ser que mal conhecia a fazia querer distância, a fazia imagina-lo morto por suas mãos. Justine não controlava estes sentimentos que desde a infância fora estimulada a ter. Repensou, não valeria a pena exteriorizar tudo naquele momento. Aquietou-se, ainda que quisesse correr e lutar. Deveria esperar até certificar-se do momento certo para atacar. Disfarçou, fingindo ajuntar os trapos do chão e escondeu-se atrás dos rolos de tecido. Os olhos enchendo-se de lágrimas de ódio. O mais puro e verdadeiro ódio. Aquele do qual todos fogem e repudiam. Justine o conhecia bem. O conde, acompanhou-a distanciar-se e perdendo-a de vista, redirecionou o olhar novamente a sra. Capucine que lhe explicava algo sobre tecidos de alta qualidade.

"Qual o nome dela?"

A alfaiate pareceu desapontada.

"Oh, refere-se a moça ali? Bem, ela não forneceu-me seu primeiro nome, não sei por que! Prefere que a chamemos de Srta. De Beaumont."

"Este é seu segundo nome?"

"Creio que sim! Mas ela é muito estranha, devo dizer, talvez um pouco selvagem. Assustei-me ao conhecê-la, veja que disse-me que não sabia nada sobre moda, sim, nada! Pois que tipo de moça não aprende a costurar, Sr. Conde, veja! De certo que seus pais são irresponsáveis de não lhe influenciar a adquirir tais conhecimentos."

O conde permaneceu calado, somente a escutar, concentrado nas palavras de Capucine que falava como se a moça não a pudesse ouvir.

"Não vejo problemas nisso!"

"Ora, talvez para vós que és homem, mas para nós isto é crucial. Veja, aprendi logo aos sete anos aprimorar meus talentos para o desenho, era meu passatempo favorito e hoje garante meu sustento. Se as moças nada souberem fazer, o que será delas? Principalmente desta que nada sabe sobre nada. O único jeito será encontrar um marido rico, porém acredito que isso não vá acontecer, não, não! Ela é muito, como posso dizer, despreocupada!"

"Bem, ainda mantenho o mesmo pensamento de antes, Sra. Capucine! Sou indiferente a estes conceitos." Disse, fazendo uma pausa e colocando de volta o chapéu. "Acredito que voltarei aqui em breve."

"Sim, claro! Volte quando quiser, conde!"

Disse, aos sorrisos. Assim que o vira afastar-se na carruagem, correu para onde estava Justine.

"Ora, por que paraste teu trabalho? E o que são estes olhos vermelhos?"

"Parei meu trabalho pois eles ardiam intensamente, estava insuportável!"

"Ora, então seja rápida, pois o conde foi o primeiro de muitos monarcas a virem aqui hoje."

Disse, subindo as escadas. Justine não voltara para o trabalho imediatamente, pois a pressão que sentia sobre a cabeça era tamanha que faziam pulsar-lhe as frontes.

Ao entardecer, Justine desceu as escadas e segurando a espada com força tamanha, refugiou-se nos jardins do estabelecimento, golpeando o ar com tamanha força, força que surgia por meio do ódio, combustível de toda sua agonia.
***
O conde vestiu-se e partiu para Versalhes logo ao amanhecer. Vestia-se elegantemente envolto a uma capa para resguarda-lhe do frio. Nem mesmo aguardou carruagens, partiu com o alazão que imprestará de um velho amigo da corte. Os lábios pareciam querer racharem-se pelo frio. Os ventos sopravam violentos, os flocos de neve batiam-lhe na pele. Os deveres na realeza não pesavam tanto, em verdade este não era o único motivo pelo qual encaminhava-se até Versalhes, havia algo de seu interesse na cidade.

"Sr. Conde, o que faz tão cedo no palácio? Geralmente comparece mais tardiamente em teus deveres para com a realeza!"

Perguntou-lhe Lefebvre sarcasticamente.

"Talvez esta seja uma concepção somente sua, caro amigo! Mas respondendo a vossa pergunta, vim pois devo auxiliar a majestade nestes momentos."

Proferiu, retirando as luvas. Os dentes trincados.

"A majestade ainda troca-se na sala central, temos disponível umas horas para conversas."

"Gostaria muito Sr Lefebvre, entretanto devo resolver um assunto pendente pelas ruas de Versalhes. Voltarei o mais breve possível."

Disse, retirando-se como as próprias ventanias que sopravam do lado de fora.

****

"Por que tu não aprendeste a costurar desde nova?"

Indagou a moça companheira de Justine que delicadamente bordava a manga de vestidos com imensa calma. Aquela missão não fora dada a ela por acaso. Justine não possuía tato para detalhes, era prática, não sentiria-se bem exercendo trabalho tão minimalista.
Observou-a por um tempo enquanto, com imenso mau-humor costurava calções.

"Esta área nunca me fora atraente!"

"Ora, mas e teus pais? Não estimularam isso em ti?"

Justine refletiu durante um momento.

"Não. Mas não acredito ser necessário tal estímulo."

"Sim, é muito necessário! Do contrário não estaria aí, costurando calções." Riu a moça. "Afinal, quais são as tuas aptidões?"

"Bem, talvez a espada!"

"Espada!" Exclamou em tom de espanto. "Mas, isto não é normal. Uma dama se interessar por tamanho objeto."

"Qual o problema?"

Perguntou antes que sra. Thernadier batesse a porta chamando-lhe.

"Venha até aqui, Justine! Ajude-me com a organização do salão, logo estarei recebendo clientes e não deve haver bagunça por aqui."

O salão estava tomado por uma desordem que ia de estantes a estantes. Daria-lhe certo trabalho contudo Justine acreditou ser melhor executar aquela tarefa que continuar a costurar, preferiu acreditar que aquilo só lhe fora oferecido pois era a que mais dispunha de habilidades de força ali, e essa simples concepção lhe serviu de consolo.
O pequenino sino disposto na entrada da loja soou fortemente, fazendo-a virar-se com rapidez tamanha , esbravejando e mau dizendo o cliente que chegara em momento inoportuno. Organizou as últimas peças apressadamente nas prateleiras.

"Com licença, srta! Gostaria de tratar com alguém desta loja."

Disse. Justine virou-se ciente de quem estava dirigindo-lhe a palavra. Conde Aaron encontrava-se no Centro do salão, tomado pela neve. Decidiu que permanecer calada não serviria de nada.

"Sim, Sr. Em que posso ajudá-lo?"

Um estranho silêncio formou-se enquanto a expressão de descaso começava a tornar-se evidente na face da moça.

"Gostaria de saber o que devo fazer para trocar uma mercadoria."

"Sim, qual seria esta mercadoria?"
Perguntou com certa rispidez proposital.

"Um justaucorps, na verdade são apenas medidas mínimas. Nada que deva tomar muito de seu tempo, madame."

"Onde está?"

"Bem, acabei por esquecê-lo. Voltarei para trazê-lo, amanhã. Posso retornar amanhã?"

"Como queira!"

Disse Justine, retirando-se intrigada. Não parecia que o interesse daquele homem estava na roupa, mas sim em algo que procurava ali além daquilo. Resolveu deixa-lo parado com uma expressão pensativa, enquanto a acompanhava afastar-se.

"Srta. De Beaumont? Este é seu nome, sim?"

"Como sabes o meu nome?"

Perguntou Justine, virando-se agilmente e aproximando-se do conde com o olhar evidente de desconfiança.

"Eu já a vi!" Justificou, parecendo atordoado com a atitude violenta da moça. "Perdoe-me se isto soou um tanto desagradável. Não pude deixar de perguntar vosso nome. És nova aqui?"

"Por que me fazes tantas perguntas?"

O conde sorriu, enquanto perambulava os dedos na superfície da banca.

"Tenho curiosidades em vós. Isto seria um problema?"

"Sim! Não costumo confiar em pessoas que fazem perguntas demais."

"Ora, aí está algo que concordamos! Parece ser um ponto em comum."

"Não há pontos em comum aqui, Sr. Conde! Creio que seu tempo se extinguira!"

"Vejo que esta muito ansiosa para se livrar de minhas indagações! O que lhe fiz? Talvez devesse agir mais cordialmente com um cavalheiro que somente gostaria de conhecê-la melhor."

"De que isso serviria? Não estou interessada em conhecê-lo melhor!"

"Certamente, Srta!" Disse o conde, recolocando o chapéu e preparando-se para retirar-se. "Perdoe-me, creio que fui um tanto desagradável para convosco."

A porta trancou-se num baque forte que por pouco não fizera o sino cair. Justine, permaneceu imóvel, os pensamentos oscilando entre a dúvida e a cólera.

"O que houve? Porque interrompestes o trabalho?" Perguntou sra. Thernardier com impaciência. "Quem esteve aqui?"

Disse, percebendo a neve espalhada no chão do estabelecimento. Dirigiu um olhar feroz à Justine. "Algum cliente passou por aqui?"

"Sim!"

Respondeu Justine, destinando atenção as suas tarefas numa tentativa de titubear o ódio que começava a consumi-la vagarosamente.

"Ora, não lhe dei autorização para isso. Era importante? Quem era, diga-me!"

"Um conde."

Após essa pronunciação, Sra. Thernardier pareceu sobressaltar-se repentinamente.

"Conde Byron? Não devias ter feito isso, não devias. Eu recebo os clientes, srta. De Beaumont! Principalmente, alguém de tamanha importância. Não aceitarei mais deslizes como este!"

"Ele gostaria de executar uma troca."

"Troca? Conde Aaron nunca solicita trocas."

"Pelo o que disse-me, não é nada que exiga tanto esforço, apenas algumas pequenas medidas mínimas"

Sra. Capucine não parecia estar satisfeita com uma explicação tão superficial. Fitou Justine até que esta começasse a incomodar-se.

"Bem, então se fora somente isso, por mais estranho que pareça, é melhor agilizar."

Pronunciou, dispensando a funcionária com um gesto e partindo com uma carranca sisuda.

*****

Assim ao chegar no chatêau, Aaron sentou-se na cadeira acolchoada e deixou-se mergulhar em pensamentos tamanhos que, quem de longe o observasse juraria estar de encontro a uma estátua. Sra Thérnadier observava-o inquieta. Comumente, o conde aquela altura, estaria perambulando com seus livros pelo salão enquanto refletia, ao contrário do que acontecia no momento. O grosso livro jazia jogado ao lado, enquanto ele mantinha-se quieto, logrando de um estranho comedimento repentino, sentado até mesmo onde raramente sentava. A sala era o local que menos o agradava no Chatêau, preferia a calmaria e o calor da biblioteca. Capucine não possuía nenhuma explicação plausível para a mudança, entretanto, por mais que a incomodasse, decidiu que deixá-lo a sós seria o melhor a fazer.