Até depois da Morte!
3 A partida!
Notas iniciais
Justine fora rigidamente criada pelo pai, que lhe ensinará sob rigorosa disciplina os deveres e saberes da vida. Havia um leve ressentimento em relação a ela, já que esta não havia nascido um garoto, como pretendia e acreditava que seria mais fácil para a execução de seus planos futuros. Entretanto, este facto de nada influenciou na criação de Justine, que fora educada em meio a uma disciplina austera, quase carrasca do pai. Não possuía privilégios por ser menina, muito ao contrário, a garota trabalhava no campo ajudando com a colheita e, vez ou outra, com o abatimento de carneiros do pai, acostumando-se assim com os episódios de carnificina. Chamberlain, em verdade, nada se preocupava com a integridade psicológica da filha, alimentando nela sentimentos degradantes, como o ódio, o rancor e a ira. Ao contrário de qualquer pai em plenas faculdades mentais, Chamberlain transmitia seus ressentimentos à Justine, sem importar-se com as consequências futuras. Diariamente, desde a morte da mãe Cécile, Justine treinava golpes e regras dos duelos com o pai.
Agora, leitor, que já vos expliquei os fatos ocorridos que levaram ao enrolar desta trama, voltemos ao momento actual, especialmente, no ano de 1746.
A filha crescera e tornara-se uma moça de estonteante beleza, entretanto, seu comportamento quebrava os ideológicos estereótipos da época, chegando, muitas vezes a impressionar a sociedade.
Apesar da aparência, em verdade não era nem um pouco delicada. Vivia diariamente envolvida por um mal humor já característico. A menina de grande talento para lutas diversas, mostrou de imediato seu potencial, envolvendo-se em toda sorte de brigalhadas possíveis.
Corajosa, enfiava-se em qualquer lugar. Subia em árvores, corria junto dos outros garotos da vila e, raramente, derramava uma lágrima ao machucar-se.
O feitio impávido e áspero chamou a atenção dos moradores de Rochelle, a particularidade de sua personalidade virou assunto entre os mais conservadores. Justine excitava o falatório da população, que tinha como principal distração ao final de todas as tardes, distrinchar as fofocas matinais, os boatos alastraram-se de imediato como praga pela Vila.
Justine, entretanto, não importava-se em nada com as intrigas enganosas, era deveras corajosa, pois batia de frente a toda e qualquer demonstração do pensamento repressivo que lhe dirigiam.
Tornara-se temida por todos, inclusive por parte dos homens que, apesar de permanecerem resolutos em não admitir, cultivavam grande receio em ofende-la ou infrenta-la de frente. A garota, no completo oposto das outras moças executava geralmente o trabalho mais exigente de força física, como a caça, tarefa a qual ela doava grande parte de seu tempo.
Seus adversários, na maioria eram homens, não cultivava afeição por nenhum destes, inclusive, quando se tratava de temas conjugais não fazia questão de tomar partido em nenhum assunto, não para diferir-se intencionalmente das outras damas, mas simplesmente por que nada realmente lhe interessava nesse meio, já que como consequência da forma com que fora criada, Justine não aprendeu a lidar com sentimentos saudáveis, apenas reconhecia aqueles onde a maldade habita, os quais degradam inteiramente e somente para isso servem.
Neste dia a jovem com sua aparência assemelhava-se à Joana D'arc, vestia a roupa típica das camponesas e um lenço vermelho amarrado na cabeça, quem de relance à olha-se, subestimaria-lhe certamente e afirmaria veementemente não se passar apenas de uma pobre camponesa que partia até Paris na esperança de mudar de vida. Enganava-se inteiramente este que assim pensasse, era só dirigir mais apurada atenção para constatar a coragem e a força nos olhos da moça, o que a distinguia de qualquer outra em seu lugar. A longa espada presa à um cinturão batia no pelo do cavalo ao galopar, cavalo que, a propósito custara caro ao bolso de camponês do pai.
Chamberlain observava, apreensivo a partida da filha. Os olhos tomados por uma seriedade inflexível, evidenciavam que este estava absorto em meio a seus pensamentos obscuros que quase não falava. Justine observava o pai com sua longa barba grisalha, houve um momento de silêncio antes de iniciar o brevíssimo discurso.
"Leve este cavalo convosco e quando duelar, preste bastante atenção! Há muitos espertinhos em Paris. Honre este nome, honre os Chamberlains, seja mais um nessa linha se sucessão heróica. Lute com bravura, esqueça-se da dor das chagas, ignore qualquer demonstração de sentimentos, a não ser que esses lhe ofereçam benefícios.
Não se deixe persuadir pela mente astuta dos homens parisienses. Esqueça a que sexo pertence, não és menos capaz por ser mulher, ao contrário, mostras-tes a todos aqui que és deverás forte e corajosa para enfrentar qualquer um que lhe tente estorvar. Use a habilidade que lhe repassei juntamente com o vigor juvenil aflorado em ti e orgulhe-me. Leve isto! — Disse Chamberlain entregando à Justine uma pequena bolsa com alguns écus. — É o bastante para alimentá-la por sete dias, nestes sete dias então, trate de arranjar subsídios para continuar viva. Agora, suba..e, sim, ia esquecendo, não tema arranjar confusão, faça com que te respeitem inteiramente!"
Chamberlain, então, abençoou-lhe e ajeitou a espada no cinto. Sem pestanejar, a filha montou resoluta e saiu em direção ao Norte com uma sensação estranha no peito. Não parecia saudade ou algo similar, era angústia.
Uma crescente e inexplicável angústia.
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