"Pai?"
Perguntou, adentrando lentamente o compartimento. Pequenas folhas penetravam a casa pela janela, juntando-se somente em um local, originando um aglomerado agoniante de folhagens em decomposição. A simples cama, composta por apenas um lençol de puro algodão sobre rústico estrado de madeira, encostava-se no canto e deitado sobre ela estava um corpo inerte, pálido que cravava a vista no teto, ininterrupto. Justine aproximou-se tropêga, ajoelhando-se a beira da cama. Agarrou a gélida mão do pai firmemente, distribuindo neste gesto toda a carga de sentimentos que cultivou durante o tempo que passara longe. A feição de Chamberlain parecia desfigurada para a filha, sem semelhanças com a aparência anterior. A barba branca tornara-se rala, a fronte moribunda numa reunião de lábios descascados, olhos fundos e ossos sobressaltados.
"Justine!"
Pronunciou com a voz falhando a pronúncia.
"O que faz aqui?"

"Retornei para cuidar de ti!"

"Não!" Disse fazendo uma pausa. "Não deverias voltar!"

"O que houve contigo?"

"A doença alcançou-me.." Justine sentiu as pernas bambearem, sentou-se sobre elas, encostando a cabeça nos dedos entrelaçados com os do pai. "Por que estais assim? Fraca!"

"Não estou fraca!"

"Então, não te rendes!"

Disse ele, retirando a mão sutilmente.
A visão de Justine embaçou-se de forma extrema, tornando impossível olhar o pai com nitidez. Desviou a face, limpando de forma ríspida a gota que lhe escorria pelas bochechas. Não demonstraria o quão verdadeiramente a situação lhe embaraçava, muito menos o sofrimento que lhe tomava o peito.
"O que aconteceu à Byron?"

Perguntou ele, engolindo a secura.

"Eu.." começou com o tom reduzindo-se. "Não é o momento de falarmos sobre isto, meu pai!"

"Não o mataste?"

Perguntou ele, buscando profundamente o ar que lhe faltava.

"Não! Perdoe-me, perdoe-me!"
Rogou-lhe, beijando-lhe as mãos.

"É bom!"

"O quê? "
A esta altura Justine não mais poderia esconder-lhe os olhos vermelhos e a face molhada, as lágrimas escorriam, encharcando os lençóis.

"Tenho algo a dizer antes de minha morte! Algo que muito guardei..."
A filha ouvia atentamente. "Pago meus pecados que são muitos e tenho certeza absoluta de que para o purgatório irei após este fatídico dia. Foi Deus, ele a mandou aqui esta hora, para aliviar a mim e a ti. Lembras do dia em que te entreguei a espada? Pois neste dia cometi minha pior ignorância! Meu desejo de matar ao filho de meu adversário era tão imensamente ardente que acabei por inventar mentiras, engodos.."

"O que dizes, o que dizes?"

Perguntou, agarrando-lhe com mais força os dedos.

"Cala-te e espera! Alimentei ódio, cólera e desejo de vingança em uma criança sobre a pessoa errada. Aaron é filho de Charlton, com quem duelei em Paris na juventude. Eu vos disse que nossos filhos encontrariam-se com o passar dos anos e assim o fiz. A mulher..." Chamberlain fez uma pausa para recuperar o ar. "Sua mulher, ficaria grávida e disso, tinha certeza. Quando soube da notícia de que o conde e a condessa teriam uma criança — independente do gênero — te fiz! Atentando-me para as datas. Tu e Aaron nasceram quase juntos, com diferenças entre meses. Meu desejo era que tu viesses menino, para duelar de igual para igual. Que fosse robusto e recebesse treinamento pesado. Entretanto, nasceste mulher! Não arrependi-me por isto quando observei teu temperamento. Charlton morreu e deixou o filho. Não dei relevância a este fato. Precisava de um motivo Justine, para te fazer ir até ele. Portanto, matei ela."
A filha cessou as lágrimas num soluço de susto. Os olhos fixados sobre o pai. Demorou a deduzir, talvez pela tensão do momento, as palavras proferidas.
"Tua mãe! A envenenei. Ela traiu-me com um fidalgo, eu sabia a meses. Fiz por amor! Eu a amava verdadeiramente! A beleza dela, não deveria ser de outro, somente minha! Usando este fato, eu coloquei em tua cabeça que o assassino seria Byron! Não havia erros. Eras criança e crente, confiavas em minhas palavras como as que são proferidas pelos bispos."
Houveram minutos de silêncio que se estenderam torturantemente na consciência de Justine. Limpou os olhos, retirando a mão que envolvia o braço do pai.
"Não podes estar dizendo a verdade!"

"Esta é a verdade! Cabe a ti querer acatá-la ou não."
Respondeu, colérico. Justine levantou-se, apoiando as mãos sobre o joelho.
"Recuso-me a acreditar! Eu a amava."
Engoliu em seco. "Extremamente, assim como o amo! Sinto uma dor tomando meu peito, meu pai! Eu a amava.."
Repetia incessantemente essas três palavras, rondando a sala com ar de loucura.
"O que farei, papai? O que farei? Estou sozinha! Agora estou sozinha!"
Levou as mãos a cabeça, encolhendo-se aos pés da cama em posição quase fetal. Não escorriam lágrimas de seus olhos, apenas tremiam-lhe as mãos cada vez que tinha a infeliz visão do olhar da mãe.
"Eu nada poderei fazer por ti..."
Respondeu ele, calando-se subitamente. Não seria exagero dizer que toda a coragem que ainda aquele momento restava em Justine, exauriu-se. Esfregou os pés, gritando silenciosamente um choro pesado e agoniante. Os soluços a engasgavam, misturavam-se com a saliva, os fios de cabelo pregavam-se às lágrimas e, naquele momento ela teve certeza de que a dor da alma é mais amarga e aflita, que a dor do corpo.
***
No chão permaneceu. O corpo desfalecido, com as forças esgotadas. Sem esperanças.
Será que alguma vez já tiveram a sensação de vazio? Não qualquer vazio, mas aquele que lhe espreme o peito, que lhe faz latejar a fronte? Era assim e muito mais que sentiasse Justine.
Agarrava os pulsos, tentando usar a si mesma como sustento. Porém, como sustentar-se na fraqueza? Pois, era isso que sobrara de sua valentia. No momento não passava de uma filha que, em meio ao sofrimento da feroz verdade e da perda, chora desamparada. Como o filhote de um gato perdido ou um pássaro que morre vagarosamente fora do ninho.
Permaneceu horas ali de olhos forçosamente fechados. A feição pesada, o cenho franzido foi relaxando com o passar do tempo, perante a conformidade que já manisfestava-se sutilmente em sua mente.
O firmamento agora já escurecia. A noite chegava vagarosa e ela, por fim, resolveu levantar-se. Lentamente virou-se ao pai, desesperando-se com a cena.
O sangue — que já em vida não manifestava-se — havia sumido, como se o homem houvesse sido sugado, os olhos terrivelmente abertos, fitavam o vazio, sem brilho. O corpo estava mole e gélido. Justine pôde isso constatar quando passou por suas pálpebras a mão, fechando-lhe os olhos, e fazendo desaparecer aquele olhar agoniante.
As folhas não cessavam, pois a ventania era constante. Caminhou até a porta. Crianças corriam pelos viés de Rochelle sem preocuparem-se com os inúmeros arranhões que levavam no corpo, sorrindo como se a morte por ali não houvesse passado. A cena não lhe promoveu nenhum sentimento animalesco, continuava angustiada, com olhar cabisbaixo.
Avistou duas camponesas, já idosas que por ali passavam, vinham a dialogar, destinando constante olhar a ela, assustadas. Talvez pela imagem desolada que passava, imaginou. Sentou-se a beira da entrada, com as mãos entre as pernas, fitando as pedras como que proibida de para frente olhar.
"Menina?" Perguntou uma das idosas mais generosa. "O que acontece com vós?"
Justine nada disse. Era impossível algo sair de sua boca naquele instante. Se alguém a quisesse derrotar, aquele seria o momento perfeito.
"Deve estar doente!" Exclamou a outra, destinando o olhar ao interior da casa, entretanto, não percebendo o cadáver. "Está não é a casa do sr. Chamberlain?"
"Sim, é claro! Porém ele nunca conosco destinou a palavra. Quem és tu, moça?"

"Sua filha."

Disse, em tom quase inaudível.

"Chamberlain tem filhos?"
Perguntou, assustada a idosa.
"Sim! Lembro-me bem, agora! Tu partiste para Paris meses atrás. É uma brava mulher!"
Sorriu-lhe.
"Por que estais deste jeito diga-nos!"

"Ele morreu!"
Respondeu, causando espantos e gritos de "Oh!" nas duas velhas camponesas.

"Como? Como?"
Gaguejou uma.
"Neste presente momento? Oh, Deus tenha piedade!"

"Todos devem saber, avise a todos Clarisse! Avise-os! Ele merece um enterro decente!" Clarisse de imediato partiu atordoada, já limpando na manga do vestido os olhos. "Onde ele está, meu bem?"

"Sobre a cama."

Falou, com a voz rouca. A mulher adentrou segurando o vestido, com feição aterrorizada. Ao perceber a cena fora mais um grito de "oh!" até que desatasse a chorar com as mãos sobre os lábios.

"Eu tinha certeza de que ele doente estava! Não o via mais sair de casa, perambular pelos bosques, caçar e trabalhar. Acreditava que mesmo ausente estaria bem! Se tivesse percebido antes, teria-o salvo..."
Dizia apressadamente, entretanto Justine nada mais podia escutar, os pensamentos lhe tomaram também a audição. Era como se tudo a sua volta, repentinamente se tornasse mudo.

***
Mais tarde, após todo o alvoroço, juntaram-se na casa os camponeses que fizeram orações, trajaram Chamberlain com algo melhor e lhe colocaram na tradicional posição. Sobre suas mãos jaziam várias espécies de flores silvestres trazidas diretamente dos jardins nos arredores da vila. Justine mantinha-se distante segurando pensativa uma vela. A cera lhe pingava sobre os dedos, entretanto o mínimo ardor não era páreo para os outros sentimentos que tinha.
Fez-se um círculo em volta do corpo que jazia no centro, todos cantavam canções de misericórdia e clamavam aos céus, a escuridão da noite não tomava o lugar pois eram muitas velas, todas num conjunto, iluminando os rostos chocados.
Todo o ato perdurara por uma hora quando o último canto foi entoado. Foram até Justine quatro senhoras, incluindo as que lhe abordaram no início.
"Nós supomos que não tens onde ficar, pobre moça!" Disse uma delas. "Se aceitares pode em nossa casa dormir e algo comer! Somos quatro irmãs. Clarisse, Eloise, Charlotte e eu Désirée! Tudo é muito simples, porém para quem nada tem.."

"Aceito, sra. Désirée!"
Pronunciou Justine não olhando nenhuma das mulheres nos olhos. Após deixarem o corpo na pequenina capela sob a regência de um padre inglês, partiram então até o pequeno casebre, abarrotado de gente. Justine incomodou-se, naturalmente, com o falatório constante. Eram dezoito no total. Clarisse e seu marido possuíam quatro irritantes crianças que brincavam com as sombras das velas durante todo o tempo, Eloise — a mais calada — tinha um marido e duas garotas já moças, que acreditavam ser Justine extremamente estranha. Charlotte possuía cinco filhos, sendo eles três garotos e duas meninas que choravam intensamente, o pai não mais com ela vivia e Désirée a mais velha, vivia somente com o marido.
Justine fora convidada a sentar-se e a comer, porém apenas aceitou o primeiro convite, não possuía nenhum apetite naquela noite.
***
Dividiu um pequenino lençol junto as crianças, encolhendo-se na extremidade, para que o restante de espaço servisse para o abrigo de todos os outros. Os olhos passaram vividos por metade da noite, ardiam como se o sumo de pimenta os tivessem permeado.
A madrugada fora fria, dolorosa e triste e a manhã monótona. Cedo, todos juntos partiram ao cemitério, alguns camponeses não acompanharam o cortejo por suas obrigações, os outros, por vontade própria caminhavam, melancólicos.
A frente seguia Justine. Segurava nas mãos uma singela rosa rubra que murchava vagarosamente com o passar do tempo. Vestia um xale negro sobre os ombros, cedidos por uma das filhas de Eloise. Na verdade, não atentou-se a trajes. Caminhava como um corpo sem alma, fitando o chão. Podia ouvir o murmúrio do grupo que a acompanhava, entretanto nada era capaz de compreender.
Clarisse, que ia a seu lado, iniciou um canto que citava a morte como o renascer para uma nova vida e assim continuou até a chegada ao local.
Ao arrastar os pés pela relva úmida do cemitério, Justine arrepiou-se. Não por medo ou qualquer outro receio, somente pelas lembranças que lhe retornavam a mente. Solicitou à Clarisse que pudesse permanecer longe do enterro, pedido que foi aceito com facilidade e assim aconteceu. Justine tudo observava sem expressão, o discurso do padre, as últimas bênçãos, o descer do simples caixão, as flores sendo jogadas, adentrando o buraco e juntando-se sobre o objeto que guardaria o corpo do pai eternamente. Aproximou-se neste instante, percebendo o interesse de todos em seu gesto. Receosa, deixou a rosa que levava na mão cair também, quicando levemente ao tocar as outras já ali colocadas. O vazio fora preenchido por duas pás, deixando as flores repletas de pequenos grãos de terra.
Justine de lá não afastou-se até que a cruz fosse fincada, indicando que ali jazia um pobre camponês, sem recursos. O padre com ela veio tratar, dizendo-lhe palavras de esperança e consolo, a moça porém nada disse.
Fitou o pequeno pedaço de terra por minutos, até que restasse sozinha. Sra. Clarisse a esperava ao longe.
Tudo acabara. Não haviam motivos para permanecer a lutar, nem odiar. Tudo jazia agora sob a terra. Sem nada mais pronunciar, sem nada mais aconselhar. O pai se fora e com ele as forças que tinha.
Por mais que sua mãe houvesse assassinado.
Caminhou de volta a entrada, sendo acompanhada por Clarisse que a seguia silente. Nada mais disse durante todo aquele dia.
Ofereceu-se para ajudar também aos outros. Fora para o campo, levando consigo facões para o matagal passar. Ajudou as mulheres e aos homens no trabalho delicado e pesado, sem titubeios. A ação lhe amenizava as reflexões tristonhas, obrigando-a a em outras coisas pensar. Percebeu em meio a labuta, a ferida que rasgava-lhe sutilmente a pele sobre os ossos dos dedos da mão direita, provavelmente causada pelo soco disferido sobre o homem na estrada. Já quando o céu começara a escurecer, todos retornaram. Justine trouxera consigo algumas frutas assim como os outros. Depositou todas elas sobre a pequena mesa de tábuas castigadas pelo cupim e
sentou-se ao chão. Como de costume, Clarisse preparou a sopa, colocada dentro de tigelas de barro e distribuída igualmente entre a família. Era comida com bastante sustento, temperos e pão. Comia Justine rapidamente, logo partindo para o quarto, sem nada pronunciar.

"Ela se comporta de maneira
estranha!"
Disse a mais velha das filhas de Eloise assim que distanciou-se a moça. Era bem afeiçoada e possuía longos cabelos assim como a irmã.
"Nem mesmo conosco fala!"

"É verdade!"
Concordou a irmã.

"Ora, não Gabrielle! Ponha-se em seu lugar, se perdesse pai e mãe, como se comportaria? Certamente que bem pior!"

Respondeu Clarisse.

"Mas ela sempre fora deste jeito, pelo o que lembro. Não dialogava com as moças da vila. Vivia fazendo baderna, subia em árvores executava o trabalho masculino...posso lhe dizer muitas outras coisas!"

"Deixaremos ela aqui ficar?"
Perguntou o marido de Désirée, incomodado ao extremo com a repentina estadia na casa.
"Não acredito ser algo bom, além do mais não possuímos espaço para mais um!"

"Penso da mesma forma!" Pronunciou o outro, que observava desconfiado o quarto para onde fora Justine. "Não a conhecemos. Dizem ser uma mulher de gênio forte, não quero este tipo de exemplo para Gabrielle e Édith."

"Não havia antes pensado nisso, querido!" Refletiu Eloise. "O que acham, irmãs?"

Désirée aguardou calmamente o pronunciamento de todos.

"Acredito que ela nada fará de mal à ninguém! Viram como é esperta? Pode contribuir grandemente conosco no campo. Acredito que fora até mais ágil que Marius na colheita!"

Pronunciou Clarisse com dois de seus filhos sobre o colo, exprimindo uma risada engasgada.

"Estais errada! Sou o mais rápido da vila, este é meu título."

Defendeu-se Marius, visivelmente irritado. Todos permaneceram silentes até que Charlotte algo dissesse.

"Entendo que é uma boa moça, não vejo os motivos para tamanha discussão. Deixemos que fique e, de certo que ela irá encontrar seu caminho."

"Desta forma penso!" Disse, finalmente, Désirée. "Justine possui força, logo se estabelecerá. E também acredito ser sua contribuição muito importante para nós, enquanto aqui estiver."
Acrescentou, estabelecendo um
fim ao debate, entretanto causando sobre o marido e cunhado imenso desgosto.
Ao término do diálogo, Justine pôde avançar ao compartimento dos fundos. Pois de onde estava era possível ouvir com perfeição cada palavra por eles proferida.
A espada só não havia sido ainda descoberta, pois como precaução, ela a guardou envolta nos panos da trouxa desfeita. Deitou-se, encarando a parede de pedras empilhadas e, no pensamento, elaborando uma oração silenciosa. Fazia frio e o sopro do vento passava pelas fendas de todo o compartimento, por fim, fechou os olhos sem sequer um cansaço pelos trabalhos.
***
A rotina se repetiu no dia seguinte. Justine fora a primeira a levantar-se, pegar a pá e partir para os vastos campos. Sra. Désirée — por quem passava a cultivar certa afeição — amarrara-lhe o lenço na cabeça, de forma que acobertasse a face e as orelhas, pois a estiagem havia sido forte a noite e a névoa permeava o ambiente. As bochechas da moça espremeram-se pelo forte nó.
Era evidente que gostaria de um momento distante de todos.
Ao percorrer o caminho — que encontrava-se ligeiramente escuro ainda — sozinha, pôde avistar já uma quantidade razoável de camponeses a executarem seus afazeres. Colocou-se sem nada dizer, entre eles, ajuntando com a pá e por vezes curvada com a mão as espigas que restaram da ceifa. Somente aquele trabalho perpetuou-se por uma hora era o mais exigente de atenção ali, por isto executado pela maioria das mulheres. Alguns conversavam animadamente e outros sozinhos contarolavam num murmúrio quase mudo, cada um na sua maneira de aliviar a dor.

"Sinto muito por teu pai!"
Dirigiu-se alguém a ela. Justine assustara-se, tamanha era a concentração que distribuía a função. Era um garoto, talvez da mesma idade ela não teve interesse em saber. Somente afirmou com a cabeça desanimadamente e voltara a ajuntar as espigas.
"Me chamo Javert! Moro próximo a antiga casa de Chamberlain." Disse o novo conhecido, entusiasmado. "Qual o teu nome?"

"Justine."

"Justine! Uma variação de Justina que significa justiça! Nome muito belo, permita-me declarar. De onde vens?"

"Não venho, sempre aqui estive. Distanciei-me por alguns dias ou meses."

"Sim, lembro-me! Porém creio que tu não te recordas de mim. Dizem que possui uma esgrima muito boa, não é de se duvidar olhando para teu condicionamento físico. Possui músculos."

"Possuir músculos não quer dizer nada sobre minha esgrima."

"Mas suponho que és muito boa, pelo menos com lutas de braço."
Disse ajudando-a na tarefa. "Muito a admiro!"

Justine respirou profundamente. O diálogo a cansava mais que qualquer outra coisa.

"Agradeço!"

"És muito bela também! Possui pretendentes, é claro!"
A moça distanciou-se ligeiramente, pois não estava disposta a responder.
"Se puder dar-me aulas, agradecerei!"

"Se estiver disposto a apanhar, lhe darei aulas."

O rapaz sorriu da expressão tranquila com que ela aquilo disse.

"Sim, estou disposto! Começaremos amanhã ou ainda hoje? Me deixaste ansioso!"

"Diz tu quando!"

"Hoje! Após o término de nossos afazeres ou durante os intervalos!"
Justine somente acatou a ideia, pelo bem que lhe trazia os duelos. Porém o garoto a irritava e jogá-lo ao chão não seria desagradável
"Teu pai também muito duelava, perfeitamente bem! Entretanto eu nada pedia a ele, pois era carrancudo o tempo todo — perdoe-me a expressão."
"Não fale nada de meu pai, peço-lhe!"
Antes que Javert algo mais dissesse, Justine o interrompeu com estranha expressão: "Após nossos serviços, aqui mesmo no campo algumas coisas te ensinarei! Porém agora, deixe-me sozinha."
E distanciou-se, esquecendo-se de imediato do rapaz.
Contribuiu com os homens na ceifa, adentrando o matagal sem nenhuma tarefa negar. Após isso, sentou-se para descanço próximo às roseiras. Resguardou-se sob a copa de uma árvore qualquer, de costas para o movimento e longe do alcance dos outros. Fazia frio, todavia isto não a incomodava.
"Justine! Aqui estou, bastante disposto para iniciar-mos os ensinamentos que me disseste."
Apareceu o garoto, sentando-se já a seu lado. O vento lhe soprava os fios de cabelo, como em uma criança.
"Parece desanimada! Estais bem?"

"Sim! Somente havia esquecido-me que contigo isto estabeleci."

"Perdão, sou muito irrequieto." Disse ele sorrindo vergonhosamente. "O que tens a me dizer em relação às lutas?"

"Bem.." iniciou a moça. "Existem alguns princípios para se compreender um verdadeiro embate.
O primeiro e mais importante, é ter conhecimento do propósito de teu oponente, sabendo disso, imediatamente tu irás entender que tipo de ataque utilizar para que o outro não alcance o objetivo. Geralmente as pessoas se defendem por instinto.
Não mude de movimento enquanto o executa sobre o oponente, pois este ato o trará problemas quando iniciante. Se disferes um soco e percebes ser este o teu melhor e eficaz golpe, continue disferindo.
Entretanto — Alertou ela — Não perpetue por tempo exagerado o mesmo gesto, isto fará com que o adversário preveja teus atos. O melhor é perdurar a continuidade e após perceber que o rival a compreende, mudar para outra posição que lhe é também eficaz...
Enquanto falava com certa agilidade, — pois quando Justine iniciava suas explicações sobre os duelos, era difícil fazê-la calar-se — o jovem camponês a destinava completa atenção. Era verdade que seu interesse na moça iniciou-se desde a infância e com sua volta, reascendeu-se, Justine disso sabia. Porém, estas coisas para ela eram extremamente irrelevantes. Principalmente no momento da vida em que se encontrava.
Desenhou sobre a terra a imagem das armas de embate a curta e longa distância, evidenciando as principais técnicas de lança, arco e flecha e toda a sorte de espadas, desde as adagas aos floretes. A noite chegou de forma lenta, sem que ela percebesse de imediato.

"Compreendes o que digo?" Perguntou irritada pela falta de atenção do outro. "Veja, a noite já vem, devo ir."

"Sim, sim!" Disse ele, levantando-se e lhe dirigindo olhar meticuloso. "Eu a agradeço Justine, imensamente! Jamais esquecerei-me de cada palavra por ti proferida nesta tarde. Espero vê-la mais vezes..."

"Adeus, Javert! Não permaneça muito tempo aí parado!"
Despediu-se Justine, caminhando a passos largos para longe da árvore. O rapaz permaneceu a fitá-la, até que desaparecesse por completo.

***
Os dias passavam-se lentamente para os que aquele trabalho árduo executavam. Justine já adiquiria calos nas mãos, porém reacostumava-se com a labuta. Pois, querendo ou não, era aquilo melhor que dormir ao relento.
Naquele dia — se passara já uma semana desde a conversa com Javert, o qual continuava a lhe pedir conselhos — para seu imenso desgosto, saiu acompanhada de Gabrielle e Édith, que obrigadas, partiram logo ao amanhecer, e para segurança das duas em meio a estrada, nada mais sensato que partirem junto à Justine.
Ela acabou por descobrir suas idades. Gabrielle, a mais velha, possuía dezesseis anos e Édith quinze. As duas iam a frente, conversando animadamente sobre algo que Justine não destinava atenção. Irritava-se pois, as irmãs caminhavam demasiadamente lento, chegou até mesmo a fazer a grosseira comparação entre suas velocidades e as das tartarugas.
"Justine, já fostes à Paris?" Perguntou a mais nova repentinamente, com verdadeiro interesse. "Titia nos disse!"

A menina recebeu um desinteressado "sim" como resposta.

"Oh, diga-nos: como é por lá?"

"Ruim."

Respondeu Justine.

"Como pode ser ruim? Mamãe nos diz que por lá vivem os homens mais belos e ricos da França! Disse que para lá iremos em breve!"

Quanto a isso Justine nada soube dizer. Continuou a caminhar, sem oferecer respostas.

"Por que não nos responde? Todos são bonitos mesmo?"

"Não!"

Disse, por fim, após muito pensar.

"Não acredito nisso! Os monarcas, nenhum? Nem o próprio rei? Condes, duques! Comerciantes? Ora, por favor, por que falas tão pouco?"

"Tu não tens idade para nisso pensar, és ainda uma criança."

"Mas é evidente que não! Todas assim devem pensar a essa idade! É o natural! Por conta disso não tens ninguém!" Disse Gabrielle por mais que a irmã afirmasse ser melhor calar-se. "Ninguém por ti se interessa, por conta da tua falta de interesse consigo mesma, não pretendo ser como tu! Que além de solteira, não possui dotes."
Justine encarou a atitude infantil com a naturalidade da experiência. Sorriu do tom de voz forçosamente superior com que lhe falou a menina.
"Ora, sorri? Deverias desatar em lágrimas, pois esta é a pior situação que pode estar uma mulher!"

"Quem isso te disse?"

"Todos dizem isso! Se não te casares serás para sempre uma solteira, apenas mais uma!"

"Portanto, todos errados estão. Somente isto te digo."
"Como? Se falares assim para os mais velhos eles vos repreenderão!"
"Gabrielle, cale-se!" Exasperou-se. "Se quiseres seguir, siga sozinha! E se quiseres andar em segurança, aprenda a defender-se!"

Pronunciou deixando as duas para trás, surpresas, não totalmente pelas palavras, mas sim pelo olhar quase demoníaco que lhes destinou.
A irritação da manhã a fizera trabalhar com mais afinco. Distribuindo sobre as tarefas toda a raiva das lembranças remexidas. Pela primeira vez desde que chegara, recordara-se do conde para seu imenso descontentamento e nem mesmo todos os esforços eram capazes de retirá-lo da memória, por mais que verdadeiramente estivesse disposta a esquecer dos episódios que o envolviam.
Ao término, distanciou-se de imediato, principalmente por Javert que de certo a procuraria. Gabrielle e Édith, retornaram com os parentes. Justine não tinha receios de que elas algo informassem a família.
Fora até a pequenina capela remota da vila, pois lá poderia permanecer sozinha e em silêncio. Acabou por dormir sobre um dos bancos.

"O que fazes?"
Ouvira. O padre de pé a chamava cautelosamente. A moça sentou-se como que picada por uma abelha

"Perdão! Paritiria assim que retornasse."

O senhor esquivo e de sotaque enrolado, colocou os óculos para melhor enxerga-la.

"Não compreendo! Não tens onde dormir, filha?"

"Sim. Porém aqui é o único lugar tranquilo o suficiente para meus pensamentos."

O sacerdote repousou sobre o mesmo banco que Justine, fitando o altar. Era idoso, já com seus trinta anos de sacramento e emanava uma tranquilidade incompreensível para Justine.

"O que a perturba?"
Perguntou ele. A moça acreditou ser aquela uma atitude incomum, por conta disso, nenhuma palavra proferiu.
"Pode desabafar se sentir-se disposta."

"Na verdade lembrei-me de coisas as quais sinto-me mal em lembrar."

"Que coisas são essas? Perdão pela inconveniência, mas para ajudar é necessário saber."

A resposta não foi totalmente certa.

"Coisas que aconteceram-me quando parti."

"Sim." Começou ele, limpando a testa com o lenço que levava dentro da bíblia. "Dizem por aqui que eras uma criança furiosa, competindo com tudo e com todos. Ainda é esta a realidade?"

Justine afirmou com um balançar de cabeça, encarando as paredes.

"Sabes que isto é algo que somente leva a alma humana à sofreguidão, não sabes? Estes sentimentos corroem, adoecem e por fim, matam aos poucos. São aqueles pensamentos que devemos estinguir. Principalmente para quem tem tamanha predisposição à ira, como vós! Ser rude e inflexível a cada minuto é algo cruel, não com os outros, mas com teu próprio eu. Isto causa os problemas futuros, como este que tens agora."

"Não tenho problemas neste momento!"

"Como não? Estais desolada e isto não digo sem motivos. Teus olhos expressam o mais verdadeiro sofrimento, talvez pela dor que aloja-se em ti a muitos dias. Sofreste grandemente! Para mim, é surreal ver a forma com que encara os fatos. Ao perder o pai, Sra. Cossete ficou de cama por três semanas."

"Não!" Disse ela após cinco minutos de silêncio enquanto fitava o crepitar da chama nas velas do castiçal. "Não sou forte. Errei muito, não cumpri com o que prometi a meu pai. O decepcionei no leito de morte e acredito que a fraqueza está tomando-me mais do que posso aguentar."

"O que queres dizer? És sim muito forte."

"Meu físico e minha feição deixam isto claro, porém não minha mente." Proferiu firmemente, como se a declaração não fosse para ela uma derrota. "Sinto-me confusa. Assim como quando se mergulha e não se sabe nadar. Pois não quero ser envolvida pelos sentimentos bons dos outros. Disso sinto asco!"

"Que sentimentos precisamente?"

Mais alguns minutos silentes se passavam. Justine enquietava-se, pois falar sobre aquelas coisas para ela seria como tentar perfurar uma rocha tendo somente uma agulha. De uma complicação tremenda.

"Talvez amor." Externalizou por fim, quando já nenhum dedo podia estalar. "Não é deste jeito que pensas...na verdade não sei como é!"
O padre sorriu singelamente. Porém Justine logo fez uma observação que era para ela substancial.
"Não pense que sou uma menininha vivendo de ilusões como as mulheres que encontram por aqui! Se rires de mim, irei ofender-me para o resto de minha vida. Somente me diga, por que isto acontece! Não penses também que alguém amo.."

"Ora, compreendi, já compreendi! Quem tu achas que te ama?"

"Ninguém me ama!" Revidou, com olhar ofendido. "Se me amasse não estaria vivo!"

"Então como descobristes este sentimento? Pois para descobrir o amor romântico, como dizem, é preciso haver outro. Uma pessoa não pode amar romanticamente a si mesmo, o amor-próprio não é o mesmo a que te referes. Se quiseres dizer estarei ouvindo."

"Na verdade, as coisas que me diz esta pessoa, para mim são difíceis de compreender. Talvez não compreenda pois nunca vivi..acredito não estar sendo exata.."

"Lhe diz palavras bondosas e generosas? A trata bem?"

"Sim."

Respondeu nem mesmo sendo capaz de organizar as próprias palavras.

"Ora, Justine! Alguém a ama, isto é bom. O que sentes quando dialoga com esta pessoa? Rapaz, suponho."

"Sinto-me sem honra! Pois as palavras que profere são carregadas de sentimentos que me envergonham perante minha consciência. É torturante escuta-lo. Destino atenção a outras coisas para não compreende-lo. Não quero sentir os mesmos sentimentos que sente por mim."

"Entretanto não conseguirás."
Disse calmamente o padre.
"O fato é que tu não queres e não que não sentes. Sentes e mente para si mesmo negando-os. Percebo que estais aflita para matar algo que já nasceu."

"Ora!" Disse Justine, com o rosto tornando-se quente. "O que estais dizendo? Não existe sentimento como este em mim!"

"Existe! Não consegues lidar com a estima de outrem? Isto é que não é saudável." O padre continuava sem encara-la. "Não consegues lidar com a tua própria estima sobre alguém. Aceite que estais começando a amar, seja quem for."

"Não, não estou!"
Proferiu ela, levantando-se do banco ofendida. "Como podes isso afirmar? O amor para mim nunca existiu! Jamais amarei!"

"Sinto muito, minha querida, mas posso ver em seus olhos que isto que dizes é a mais evidente mentira."

Justine baixou a vista e partiu, descendo as escadas, trêmula.
Nenhum pouco convencida das palavras do sacerdote. O caminho era escuro e o padre ao longe gritava-lhe para que levasse consigo uma vela, entretanto a moça continuou a caminhar, irritada.
Ele acreditou ter feito uma boa ação, pois a verdade, embora seja por vezes uma moléstia é a única que tem a capacidade de libertar.

***
"Onde estavas, Justine?"
Perguntou Sra. Désirée, assustada com a chegada tardia da moça. Os outros a encaravam apenas por curiosidade.
"Demorastes a voltar."

"Estava na capela. Conversava com o padre."

"Javert não fora visitá-la, Justine?"

Perguntou Gabrielle, irritando-a com o tom de voz propositalmente insinuante.

"Não o vi hoje. Não estava com Javert!"

Respondeu, fitando-a intencionalmente colérica. A garota desviou o olhar imediatamente com cara de poucos amigos.

"Pois se conversavas com padre Elliott, está tudo bem." Disse-lhe sorrindo. "Pareces um pouco assustada! Algo aconteceu? Sabe que o caminho do campo até a vila oferece inúmeros perigos e um deles é a penumbra. A esta hora todos já recolhem-se em suas casas."

"Estaríamos dormindo se não fosse por ti." Marius falava sentado a mesa. No colo dormia um dos filhos. "Aqui todos chegam juntos. Agradeça à Désirée que por ti se compadece."

Justine verdadeiramente desagradou-se com o comentário, porém em respeito a mulher que lhe guardara um prato de comida, desculpou-se.

"Sinto muito."
Disse, dirigindo-se a Désirée que deu-lhe uma tigela com algum tipo de mistura de massa de pão que Justine de imediato começou a mastigar.

"Hoje somente isto tivemos para saciar a fome." Explicou-se Désirée. "Acabaram os temperos, devemos esperar até amanhã. Por mais que façamos a estimativa de quanto tempo leva para acabarem os alimentos, ainda assim temos depósitos vazios."

"Amanhã esforçarei-me o máximo que puder!"
Prometera Justine com a bochechas inchadas de alimento.
"Se me afastar um pouco, conseguirei colher quantidade suficiente de milho ou qualquer outra coisa que encontrar."

"Não é bom afastar-se. Sempre devemos andar em grupo."

Disse o marido de Désirée que Justine não lembrava-se o nome.

"O que ele diz é a verdade! Se afastar não é sensato."

Concordou Désirée. A moça deu de ombros.

"Não custará nada verificar."

Disse ela, raspando a tigela com a ponta dos dedos.

"Se quiser fazer isto, fará sozinha!"

Disse Charlotte, já recolhendo-se.
Não tardou até que todos estivessem já a dormir, porém não Justine. Refletia incessantemente sobre diversas coisas, para não dizer que pensava em apenas uma. Que inclusive era a mais perturbadora. Ao menos uma vez no dia, por todos os dias, a melancolia envolvia-a com tamanha força que lhe causava dores de cabeça inquietantes.
O vazio que lhe tomava o peito multiplicava-se levando-a a um estado de falta contínua, embora ela não soubesse — ou então fingisse não compreender a causa. Por um mínimo momento imaginou-se voltando a Paris somente para Byron observar ao longe, era triste e horripilante este pensamento, entretanto ela não poderia fazer com que constantemente a razão ganhasse, sendo tão forte o envolvimento com aquele algo abstrato. Talvez também pelas lembranças de Jean Batiste ou Geraldine, estes os quais ela conviveu pacificamente. Indagou-se se os outros ainda recordavam-se dela assim como ela deles. Talvez não, o esquecimento é sempre a consequência daqueles que se afastam. Permaneceria o resto da vida em Rochelle, disto tinha certeza, pois voltar a Paris seria uma experiência desgastante.
Estabeleceria-se, para isso deveria acostumar-se com a vida de camponesa, não que para ela isto fosse um fardo, entretanto quando se é movido por desafios, aceitar uma rotina monótona não é atraente. Repassaria os ensinamentos que infelizmente recebera do ser execrável, seu pai — por mais que ela ainda guardasse por ele a enorme estima de filha — e assim registraria seu nome na história da vila. Seria o que lhe restaria e estava certo. Com o tempo esqueceria-se de Byron e de Paris, então tudo retornaria a um estado suportável. Com estas esperanças, ela adormecera.
***
Como compremetera-se Justine, na manhã seguinte colheria afastada da vasta área do campo.

Distante alguns metros havia um ambiente tão abundante quanto, entretanto vazio, já que era grande o receio dos camponeses a explorá-la.

Justine não compreendia a razão de tanto assombro, para ela seria natural e até melhor dirigir-se ao local, principalmente pela tranquilidade, na verdade esta era a razão primordial pela qual propôs distanciar-se.

Basicamente a floresta era composta por belos carvalhos, afastados uns dos outros com espaço suficiente para que fosse possível o trânsito confortável de até cinco pessoas.
Da terra surgiam algumas macieiras, que intercalavam-se com as outras espécies formando um panorama misto.
Algumas frutas apodreciam ao pé das árvores, já que não havia colheita.
Justine imediatamente agachou-se, ajuntando do chão toda a quantidade possível de mantimentos.
Abrigava-os todos dentro do cesto de palha confeccionado por Désirée.
Arrancava dos galhos em alguns minutos o que para os outros duraria horas. Logo, jazia com quantidade suficiente, mesmo assim resolvera afastar-se ainda mais e a medida que corria até certa planta, esquecia-se do tempo e também da mata que aos poucos fechava-se.
Naturalmente, após alguns minutos, ela recordara-se de voltar. Contudo, o caminho havia em sua concepção desaparecido. Estaria perdida naquele momento. Isto não foi para ela um fato desesperador já que aquilo havia repetido-se inúmeras vezes. Na infância, chegou até mesmo a desaparecer por horas aos oito anos e mesmo assim conseguira retornar.
Passou a procurar tranquilamente a penúltima macieira em que colhera havia aos seus pés várias frutas estragadas, seria impossível não percebê-la.
A cesta que levava em mãos caira sobre o gramado, espalhando as frutas por todos os lados. Justine não tivera tempo de virar-se para observar o que lhe acontecia, fora ferida por uma espada nos braços que rasgou-lhe a pele, por sorte, já que se não desvia-se do golpe, este seria certeiro. Correra escoltando-se no tronco de uma das árvores, pois não levava consigo a espada. Pegou do chão algumas pedras que para seu imenso desgosto eram pequeninas demais. A espada passara celeramente próximo a seu braço ainda ileso, Justine foi mais rápida, desviando-se com maestria, não seria possível identificar quem a perseguia, já que um capus lhe encobria parte da máscara que levava no rosto.

"Quem és tu? Tira essa máscara para lutar!"
Pronunciou Justine enrolando rapidamente a mão na bainha do vestido. Percebera que o tecido era suficientemente grosso para o que tinha em mente. Os dois pareciam dançar defensivamente nas laterais da árvore.
Observando ela, ser o rival pouco experiente com a espada, resolveu testar algo que jamais fizera. Com a mão envolta pelo tecido do vestido agarrou a lâmina dando-lhe um puxão, por pouco não a retirando das mãos do detentor. Toda a ação perdurou por alguns poucos segundos, já que a espada afiada começava a transpassar as barreiras de pano, fornecendo-lhe um pequeno corte na palma da mão ao ser sacada de volta. Justine ainda próxima do rival, socou-lhe o rosto com as pontas afiadas das pedras recebendo em troca um soco cambaleante.
Aproveitando o desequilíbrio, o oponente passou-lhe a perna, fazendo-a cair diretamente sobre as pedras.
Justine girou o corpo de forma que a lâmina não transpassasse seu peito, levantando-se rapidamente, enquanto apoiava-se nas mangas do rival, imediatamente envolvendo o pescoço com um golpe sufocante.

"O que queres?" Perguntou ela, distribuindo ainda mais força. A espada perfurou-lhe parte da coxa, ainda que se esquivasse, a dor fora tão imensamente intensa que Justine obrigou-se a afrouxar o movimento que eficientemente executava. Ouvira um tom de voz ao longe, certamente de alguém que aproximava-se, pôde confirmar ao perceber que quem quer que a atacava, agora afastava-se correndo celeramente por entre os carvalhos.
Os chamados, antes sutis, agora tornavam-se gritos. Javet repentinamente encontrava-se a seu lado prestes a carrega-la.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.