Até depois da Morte!

9 A chegada ao berço do rei


A circunspecção forçada de Geraldine desfei-se assim que atravessou a porta do quarto de Justine, fechando-a com um baque forte.
"Fostes aceita!"
Vibrou, sacudindo Justine, que estranhamente permanecia ainda na cama aquela hora.
"Veja! Sra. Capucine lhe enviou uma carta. Deixe-me ler:
Para srta. De Beaumont, envio-lhe esta carta no intuito de comunicar-lhe minha decisão positiva quanto a sua admissão neste estabelecimento.
Crédito está resposta, não a Deus conhecimentos ou aptidões para a costura, pois são mínimos estes dons em ti, pelo o que pude depreender de sua entrevista, entretanto, necessito urgentemente de assistência para minhas confecções, por isto, seria imprudente negar-lhe esta vaga. Estude sobre moda, costura, medidas e afins antes de iniciar os trabalhos, o que acontecerá no dia 12 de fevereiro, dois dias antes das festividades reais.
Informo-lhe também que, finalmente, mandaremos para Versalhes. Fora um pedido real o qual cumpro com grande felicidade. Esteja preparada para suas funções, pois não há indolencias neste trabalho.
Esteja em meu estabelecimento antes das 6:00 hrs, no dia estabelecido, arrume tuas coisas com antecedência.

De: Capucine Lê Vou

"Tu vais para Versalhes!" Exclamou Geraldine, aos saltos como criança.
"Percebes a grandeza disto? Quão abençoada és? Sortuda! Conviverais com a realeza, usufruirá das mordomias!"
"Não iluda-se, Geraldine! Não sabemos o que lá acontece!"
"Ora, não sabemos? Eu sei o que la acontece! O esplendor é evidente naquele château! Piso italiano, lustres, pinturas. Sei como é, pois já lá estive quando pequena! É belíssimo, não há outro igual na Europa, como dizia o próprio Luís XIV! Sem contar que a presença de representantes reais é frequente. Há até mesmo a possibilidade de cruzar com algum monarca durante seu trabalho! Oh, arrependo-me de ter dado ouvidos a mamãe e negado a sra Capucine este trabalho maravilhoso!"

"É mesmo maravilhoso trabalhar para os ricos. Morrer por eles, adoecer por eles, perder a sanidade, apenas por seus caprichos. Magnífico!"

Ironizou. Geraldine, percebendo o tom debochado da outra, repousou a carta no criado mudo.

"Tu és muito ingrata! Posso parecer não saber tanto sobre a vida, mas te digo que quando uma oportunidade desta magnitude apresenta-se a nós, devemos considera-la!" Disse, sentando-se na cama, pensativa, talvez a refletir qual seria a próxima indagação.
"Porque teus olhos parecem inchados? Tem a aparência de quem passou a noite em claro."
Justine a ignorou por instantes e abrindo as janelas, disse:

"A noite não me foi tão boa!"

****

12 de fevereiro de 1746

Justine partiu cedo da manhã, despedindo-se de Geraldine e deixando uma carta ao pequeno Jean Jacques que, de certo, entristeceria-se com a notícia.
Se foi, com a troxa, a espada escondida, enrolada em panos, aclopada no dorso do cavalo, que iria também com ela, pois nada a faria deixá-lo. Ao passar pelas ruas, foi facilmente reconhecida. Alguns dos garotos, que já aquelas horas trabalhavam, lhe deram meio-abraços, pois só apenas as pernas conseguiam agarrar. Justine somente dirigia-lhes o sorriso já característico, lhes dava tapinhas nas costas e seguia. Observando também, ao contrário das crianças, os olhares desconfiados que direcionavam-lhes os outros que relembravam, certamente, sua chegada em Paris. Passou ativamente por eles, fitando alguns nos olhos, firmamente. Vestia-se como Geraldine lhe aconselhara, mas na verdade inquietava-se com todos aqueles acréscimos que não acreditava em nada serem necessários.
Avistou sra. Capucine a espera-la em frente a loja já fechada. Vestia-se tão bem, que facilmente poderia ser confundida com um membro real em meio a multidão de miseráveis.
"Porque demoraste tanto?" Perguntou a mulher, visivelmente irritada. "O que faz este cavalo aqui?"

"Em resposta a tua primeira pergunta, atrasei-me pois estava a acertar com sra. Henriqueta as contas pendentes, e este.." Disse, dirigindo-se ao cavalo ao lado, Justine afagou-lhe a crina. "É um companheiro, não é de raça mas o único amigo que tenho. Peço para que deixe-me leva-lo comigo."
"Seja como for, por favor, não o deixe próximo aos clientes, mantenha-o a uma distância considerável."
Sra. Capucine subiu, a carruagem junto de outra moça de extrema beleza que Justine deduziu ser a contratada com quem dividiria o trabalho.
"Agora, diga-me como fará para ir até Versalhes deste jeito."
"Ora, sobre o cavalo! Acredito que é evidente!"
Sra. Capucine sorriu e fez sinal para que o cocheiro prosseguisse.
Justine retirou os tamancos que Geraldine a emprestará e a peruca que a incomodava tanto, guardando os objetos todos no fundo da troxa. Montou, seguindo o trajeto da carruagem. A sensação de liberdade que tinha era inigualável, os que a observavam do interior da carruagem, deleitavam-se com tamanha agilidade. A amazona mantinha certa distância para que não fosse possível reparar demasiadamente seus detalhes, mas que fosse suficiente para percebe-lá.
Sra Capucine e os outros que a observavam ao longe, impressionavam-se com a desenvoltura a moça. Era tão precisa ao conduzir o animal que poderia muito bem substituir um membro da guarda sem problemas. Os comentários foram rápidos. Apenas algumas perguntas e respostas sobre quem era e de onde viera Justine, que sra Capucine não soube responder.
A viagem durou uma hora aproximadamente, Justine permaneceu alguns minutos na entrada de Versalhes para alimentar o cavalo e logo após, adentrou a cidade.
Impressionou-Se.
Versalhes ficava a nove a dez quilômetros de Paris e se diferenciavam grandemente.
Não havia quase nada de Paris ali, a não ser alguns camponeses como ela.
Os jardins eram belos e extremamente bem cuidados, em formatos geométricos perfeitos, minimalistas. De imediato era possível observar o imponente Palácio a destacar-se acima de qualquer outra coisa, pode-se dizer que para Justine era monstruoso. Não poderia acreditar que a França possuía tanto para se gastar. Em Paris todos morriam das mais diversas doenças, a saúde era precária, os moradores mais pareciam quase-mortos a vagar. Esfomeados, cansados, jogados aos insetos, sem expectativas. Como poderia um rei governar somente para si? Somente para sua vaidade? Era incoerente para ela pensar desta forma. A vaidade de um rei em especial a fazia sentir extrema repugnância, este que foi responsável pela construção de Versalhes, de todas as histórias que conhecia sobre a monarquia, esta era a que menos gostava de ouvir desde a infância. Achava aquele mundo uma amostra da podridão de sua soberba, ganancioso, falso. Os adjetivos negativos que podia atribuí-Los, era vasto. Justine estava certa de que jamais faria parte daquele ambiente.
Sra. Capucine, ao longe, acertava algo com dois guardas reais que pareciam dedica-la toda atenção.
Justine, imediatamente recolocou a peruca e os tamancos, disfarçando a apreensão que começava a tomar conta de seus pensamentos.
"O que há?"
Perguntou a sra. Capucine, logo após a partida dos guardas.
"Nada de mais, queriam apenas saber o que fazemos aqui, como é de costume. Ficaremos nesta casa." Disse sra Capucine, referindo-se a residência aparentemente confortável e ligeiramente melhor que a anterior, assim como a loja ao lado, para Justine aqueles detalhes eram irrelevantes. Gravaria o caminho até o château, era de fácil acesso, porém não podia-se dizer o mesmo quanto a segurança. Sem a devida identificação, seria impossível ultrapassar as barreiras de guardas que ali formariam-se.
Logo após as explicações da sra. Capucine quanto ao funcionamento e convivência em Versalhes, as duas foram direcionadas a seus respectivos quartos. Eram simples e não dispunham de nenhuma decoração, porém a vista que ofereciam do Palácio era esplêndida e não permitia o escape de nenhum detalhe, o que agradou Justine grandemente. Tratou de prender a espada com fitas sob a cama, assim que a outra saira. Os trabalhos logo iniciaram avidamente. Tudo era feito artesanalmente. Roba à la française, justaucorps, breeches, frocks e outras infinidade de roupas eram confecionadas para a realeza. O local onde trabalhavam estava repleto de esboços de modelitos que a sra. Capucine Logo fez questão de colar sobre as paredes. A costureira explicava tudo rapidamente, como que desesperada para o término de seus afazeres, não parecia ser uma mulher de muita conversa, e isto, sinceramente, satisfez Justine, que, para seu descontentamento, foi obrigada a ler livros que desconsiderava infinitamente e aprender coisas as quais particularmente odiava. Aprender a costurar e a sensação de servidão a fazia sentir uma ira crescente.
Pode-se dizer que estas horas foram muito desagradáveis a Justine. O trabalho cansativo e repetitivo fazia seu cérebro querer urgentemente parar.
Se ainda haviam dúvidas de que nascerá para as lutas, naquele momento todas desvaneceram-se.