Até depois da Morte!
11 A agonia se inicia.
Justine passou a noite em claro a treinar, fazia aquilo apenas a fim de cansar-se para que, ao menos uma vez fosse possível dormir tranquilamente, já que os pensamentos e a ansiedade lhe tomavam o sono de maneira tamanha.
O dia chegou tão rapidamente quanto a cólera de sra Capucine que, com a proximidade das festividades tornava-se cada vez mais intensa e insuportável. Os clientes chegavam aos montes, a maioria mulheres, já que a loja contava agora com os talentos femininos de Syilvie, que mostrou-se também uma excelente desenhista, obviamente que os trabalhos mais frágeis foram todos designados a ela, enquanto que para Justine restavam as caixas e estantes a serem organizadas ao menos duas vezes ao dia, não havia do que reclamar, não encaixaria-se em nenhuma das outras funções, portanto agradava-lhe as tarefas.
O pandemônio de pessoas era constante. A alta monarquia fazia-se presente e sra Capucine investia até mesmo em bebidas para o conforto da clientela exigente. Justine não identificava rostos, porém tinha certeza de algo: Aaron por ali não passara. Naquele dia, a espada jazia mais próxima. Justine a deixará em um local estratégico, nem tão longe, nem tão perto, para que o impulso não a prejudicasse. O dia passou de forma acelerada, talvez pela dinâmica do trabalho. Ela preparava-se para finalizar as obrigações, enquanto escutava forçosamente os comentários de Sra. Capucine sobre o andamento das vendas. Soa repentinamente o sino mais uma vez e as atenções voltam-se ao cliente atrasado. Uma repentina fúria apoderou-se de seus pensamentos.
"Olá, srta!" Disse Byron, com uma expressão inquieta enquanto dirigia-se a Justine. Sra Capucine estranhou a atitude, entretanto permaneceu calada. "Sra, vim comunicar-lhe que não mais necessito das mudanças que solicitei. Pude fazer uma análise mais apurada sobre os trajes e, com toda a certeza, o trabalho está magnífico! Permita que me desculpe!"
"Ora, não precisa desculpar-se conde! Estaremos sempre a sua disposição."
Byron pareceu não saber o que dizer. Os lábios encontravam-se apertados, e o sobrolho havia franzido-se consideravelmente desde que adentrará a loja.
"Agradeço-lhe!" Disse, voltando-se para Justine e demorando-se.
Após alguns minutos de pausa, Aaron deixou o estabelecimento de forma lenta e pensativa. Sra Capucine o observou com grandes questões formando-se já na cabeça. Não era do caráter dele uma conduta tão impaciente, muito menos aquela frequência com que visitava o estabelecimento. Eram raros os dias no ano em que o atendia. Dirigiu-se para Justine, após alguns momentos de reflexão.
"O comportamento do conde está demasiadamente estranho! O que há? Parece-me que está mais ativo na loja." Houve uma pausa no pronunciamento. "Creio que seja por tua causa!"
Justine não dirigia a devida atenção as palavras da outra. Frenética, dobrava canções.
"Estais ouvindo o que te digo?"
"Sim!"
"Venho reparando-o desde os dias passados e pude perceber que ele possui certa admiração por ti. Geralmente não costumo me enganar!"
"O que há nisso?"
Disse Justine, já enfadada com as especulações que não lhe eram agradáveis.
"Ora! Até parece que não sabes. O conde é um homem rico. Deverias agradecer!"
"Não! Não sou grata e nunca serei! O que há se é conde, se é rico? O que há? Porque gastam o tempo preocupando-se com isto? Eu o odeio Sra, o abomino! Não há como ser mais clara, pois, não consigo encontrar outras palavras para expressar meus sentimentos para com este homem. Não profira tamanho insulto novamente, não me levante mais suposições como esta absurda!"
"Tu que és uma completa estranha! Como se atreves a falar assim comigo! Tens o comportamento de um animal!"
Disse Capucine, horrorizada.
"Diga o que quiseres de minha personalidade, só não especule que este homem se interessa por mim! Se deseja o teu bem, não voltes a cometer este erro!"
"O que queres dizer? Isto é uma ameaça?"
"Depende do que pensas!"
Disse, deixando a tarefa já concluída e partindo em direção aos quartos. Pouco lhe importava a forma com que deixou sra Capucine, visivelmente perplexa.
****
Madeleine permanecia envolvida por uma austeridade sem tamanho à dias, o que preocupava grandemente a mãe. A personalidade entusiasmada da filha diminuía gradativamente no decorrer dos dias de forma bastante expressiva, quase não ouvia-se suas gargalhadas pelos cantos do casarão, e isto fora perceptível à todos.
"Não se cansa de escrever naquelas folhas. O que há com vossa filha, Josephine?"
Perguntou-lhe uma das damas que ali se encontravam, já no final de uma longa conversa. A duquesa incomodou-se.
"Não sei ao certo. Se ao menos tivesse conhecimento sobre os motivos!" Mentiu. " Talvez seja somente amadurecimento ou nervosismo com a chegada das festividades do reino amanhã, há vários motivos que podemos considerar."
"Ah, claro! As jovens são mesmo cheias de questões não é verdade? Madeleine é bastante madura para a idade, não decairia por qualquer fato." Disse a dama, abanando entusiasmadamente o leque enquanto degustava diversos bolinhos. "E quanto ao conde? O que sucedeu aquele desejo de unir os dois, ou melhor, a herança dos dois?" Desatou em um sorrisinho.
"Ora, está indo muito bem! Conde Byron já demonstra bastante interesse em Madeleine, sempre muito cordial e educado! Não há nada que reclamar."
"Magnífico, duquesa! Não seria para menos! Bela como é Madeleine, sem contar os outros atributos, já era de se esperar. Quem não se encataria com uma dama tão completa?"
"Sim, quem não encantaria-se!"
Expressou Josephine, observando remotamente a filha. Madeleine contemplava o Jardim com o semblante sereno, quase inexpressivo. Parecia estar distante o suficiente para não perceber o assunto da conversa. Logo, retirou-se para o silêncio do quarto. Lá trancou-se onde permaneceu até o dia seguinte.
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O mensageiro pela manhã entregou à sra Capucine os convites da realeza a ela e vossas empregadas, da forma como faziam todos os anos. O humor de Capucine mudará para a melhor após o recebimento. Passou a pensar nos trajes e máscaras, já que era quase uma tradição as festividades promovidas pelo rei iniciarem-se desta forma, havia até mesmo competições promovidas com o intuito de selecionar as melhores fantasias. Justine não mais prestava serviços à loja de Capucine, esta nem mesmo precisou dizer algo, pois a funcionária não mais se encontrava no estabelecimento.
Justine direcionou-se novamente à Paris, levando consigo um convite que surrupiou da bancada do quarto de sra Capucine sem que esta percebesse. Trocou a espada por uma mais resistente e afiada na agitada feira parisiense. Foi até a estalagem da sra. Henriqueta encontrar-se com Geraldine que lhe fez várias perguntas, entretanto sem obter nenhuma resposta. O intuito de Justine com a visita era solicitar favores para que Geraldine forjasse um traje qualquer que lhe proporcionasse tornar-se ligeiramente irreconhecível. Após várias sugestões exageradas da moça, foi estabelecida uma em especial que consistia apenas na composição de tecidos escuros e uma máscara que cobria parcialmente a área dos olhos. Justine imaginou que a fantasia condizia com seu objetivo de forma muito eficiente.
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O conde parecia mais bem humorado naquela noite, não pelo festejo, disso, Thernadier sabia bem. Talvez outro fato houvesse lhe agradado grandemente. Os livros que, na noite anterior ignorou, estavam agora ativos em suas mãos, e o local preferido havia sido retomado e inclusive estava infestado pelo cheiro do charuto que estendia-se por toda a extensão do corredor.
Ao entardecer, o movimento daqueles que adentravam Versalhes elevou-se extraordinariamente. Monarcas trajando vestimentas que, de longe, indicavam vossas posições na monarquia, saudavam-se cordialmente, enquanto a orquestra organizava-se para dar início a solenidade. A mesa, imensa, encontrava-se posta no centro do salão de Antichambre — posteriormente a galeria dos espelhos — repleta de pratos cuidadosamente elaborados por funcionários que trabalhavam arduamente durante dois dias seguidos, afim de atender os desejos monárquicos. O recanto real apresentava-se indiscutivelmente primoroso. Os tecidos que constituíam as cortinas e toalhas vinham de outras nações, como generosos presentes ao rei. A decoração, composta por lustres e espelhos todos ornamentados em prata ou ouro, inspiravam luxo e riqueza.
Milady e os pais chegaram de imediato, pois, o duque sendo um grande amigo do rei, estaria lá para recebe-lo com caros presentes, a fantasia que usava consistia somente em uma meia máscara que lhe cobria o entorno dos olhos. A duquesa fazia uso de algo mais elaborado, a fantasia seria de um pássaro com penugens de diversas tonalidades. Madeleine, trajava um vestido de delicada estrutura envolto por flores de diferentes espécies que harmonizava-se com o restante. Não estava de forma alguma exagerada. A disposição das flores no vestido era feita de forma sútil, como complemento, levava no rosto também uma máscara cuidadosamente bordada que evidenciava os belos olhos. Pode-se com segurança dizer que era uma das mais belas — se não a mais bela — entre todas as outras ali.
Conforme outros convidados chegavam, o falatório ia aumentando, havia uma estimativa de mais de mil pessoas como sempre ocorria, visto que o rei fazia questão de convidar toda a corte para os eventos que realizava.
Milady, ansiosa, procurava com o olhar a figura de alguém, ficando muitas vezes na ponta dos pés, relanceando a vista por sobre as cabeças, voltava a entrada do palácio constantemente e retornava com um ar insatisfeito de quem tem os ânimos desvanecidos. A duquesa, infelizmente, tinha conhecimento do que se passava pela mente da filha, e lamentava. Entretanto, era incapaz de fazer algo, Madeleine possuia o gênio forte e jamais a ouvia.
Por mais que estivesse consideravelmente tensa, aceitou o convite de um dos monarcas para a dança, e enquanto movimentava-se pelo salão, examinava cada canto, podendo perceber o reflexo dos convidados nos espelhos da galeria, o esforço não fora completamente em vão. Madeleine notou uma silhueta muito familiar, logo na entrada. Conde Byron vestia-se de forma bastante elegante, porém não parecia trajar fantasia, o único complemento que fazia uso para evidenciar o intuito da festa era o que levava no rosto. Uma máscara que parecia ter sido feita por ele mesmo, não havia cores exageradas, quase não havia cor. Era algo frio, preto e branco, não existindo nada de diferente ou especial. Pareceu cair-lhe bem, pois apenas metade do rosto estava manifesto, enquanto o resto permanecia sob a máscara. Era possível vê-lo sorridente a cumprimentar outros convidados enquanto deslocava-se pelo salão até a orquestra. Iniciou uma longa conversa com o maestro, enquanto averiguava cuidadosamente um antigo violino de grande beleza. Como não fazia questão de danças, permaneceu apenas a observar a orquestra com grande admiração.
"Sr conde! Esta sua fantasia não parece tão convincente!" Disse-lhe Madeleine, aproximando-se, após dançar duas músicas seguidas com o par anterior. O conde sorriu.
"Não necessita ser convincente, contanto que difira-se do que sou normalmente! Este é o intuito, não?"
"Sim, é claro! Vendo por este ponto, então, afirmo que esta fantasia lhe caiu muito bem ."
"Agradeço. E, permita-me dizer, milady, estais muito aprazível hoje, especialmente!"
Disse, sem desviar as atenções da orquestra. Embora o elogio tenha sido feito de forma sincera, Madeleine não acreditou nas palavras proferidas.
"Imaginei que iria agradecer, afinal, o que disse foi sincero."
"Oh, sim! Agradeço! É que comumente não é de sua personalidade fazer elogios desta forma."
"Não? Que coisa, acredito que peco infinitamente por isso. Garanto-lhe que passarei a reconhecer mais corriqueiramente aquilo que é digno de elogios."
O silêncio que se formou entre milady e o conde parecia ainda maior que o som dos instrumentos, até o pronunciamento de Byron.
"Isso talvez tenha origem em minha personalidade."
"O que queres dizer?"
"Acredite, na maioria, as coisas que faço vão de acordo com meu caráter, por isso, em algumas ocasiões são tão cruéis. Creio que compreende-me!"
"Certamente, Sr Conde! Sei como pensas, pois, a muito que convivo contigo. Há alguns traços que pertencem somente a vós."
"Aceite, então, minhas desculpas!"
Disse, por mais desconfortável que estivesse com a atitude.
"Sim!"
Os olhos da duquesa estavam fixos no comportamento dos dois, investigando as atitudes do conde para com a filha, mesmo não sendo possível constatar nada pois havia uma distância significativa entre ela e o casal.
"O que há, Josephine?" Perguntou o duque. "Deixe o diálogo dos dois."
"Não! Tu não entendes que temos que nos ater as atitudes deste homem?"
"Não é tu que queres que Madeleine o conquiste? Deixe-os!"
A duquesa não deu ouvidos, tornando a oberva-los, entretanto o conde já não se encontrava próximo a filha que conversava agora com outro rapaz, embora estando visivelmente atordoada.
O conde passou a perambular pelo salão, no intuito de distanciar-se dos olhares de Josephine que, obviamente, foram-lhe perceptíveis. Aproximou-se de alguns amigos e iniciou uma conversa agradável permeada de risos. Aaron, embora estando compenetrado na conversação, não pôde deixar de reparar uma convidada que surgia repentinamente. Já acostumado as festividades reais, conhecia cada um daqueles que frequentavam constantemente as cerimônias. Apurando mais efetivamente, o conde pôde reconhecer Justine, embora a fantasia negra e a forma como esgueirava-se pelos cantos menos luminosos, não o permitissem constatar com rigor.
Informou ao amigo a partida, antes de retirar-se repentinamente e desviando-se dos convidados com certa tranquilidade, aproximou-se da moça que o percebeu antes que este lhe alcançasse e traçando um novo caminho por entre a multidão na galeria, perdeu-se novamente. Byron, sem muito refletir seguiu-a tentando não perder de vista a capa que se arrastava sobre o chão ao deslocar-se, logo desapontou-se com a atitude que tinha e comediu-se. Percebeu o quão tolo parecia tentando acompanhar a moça que, visivelmente, não estava disposta a interagir.
***
Justine escolheu uma das portas que ligavam-se ao imenso pátio para afugentar-se. Os olhares estavam quase todos voltados a ela, talvez pela fantasia sombria que remetia a um corvo ou o olhar desconfiado que destinava a cada um, por mais que com a máscara estivesse. Na bainha estava a nova espada, agora preparada para o embate entre ela e o cavalheiro da infantaria real, não havia para ela dúvidas de que ele viria. Observou novamente ao redor, o conde não estava próximo e isto lhe proporcionou tranquilidade. Como ele a reconheceu? E como ela pôde percebe-lo mesmo com a máscara? Não conseguia imaginar. As especulações da sra. Capucine lhe vieram subitamente a mente como uma lembrança desagradável. Justine apoiou-se a parede de forma que ninguém no salão a reparasse. Alguns convidados transitavam pelo pátio, porém pareciam não importar-se com sua presença.
***
Aaron permaneceu alguns minutos no mesmo local, sem quase movimentar-se. Os olhos voltavam constantemente para o local onde avistou Justine pela última vez. Entretanto, como já é do conhecimento de todos, não era de sua índole esperar. Refez os passos da moça, adentrando cada uma das portas de acesso ao pátio. É de se imaginar que ele a encontrou.
O espaço continha bastante movimento, contudo, a capa denunciou sua presença.
"O que fazes isolada desta forma?"
Ao percebe-lo, ela afastou-se.
" Eu é que te pergunto: por que me segues?"
"Talvez para convida-lá para dançar, já que estamos em um baile, nada mais natural. Não há razões para fugir."
Justine agarrou o cabo da espada por sobre a capa. No entanto teve que repreender o impulso. Haviam muitos por perto.
"Recuso o convite, agradeço!"
Aaron aparentou aspecto de espanto, permanecendo silencioso enquanto se permitia contemplar cada traço daquela que o rejeitava.
"Não consigo compreender! Porque negas o pedido?"
"Não me é agradável vossa companhia!"
A sensação para ele mostrava-se extremamente nova. Jamais havia sido recusado de forma tão escancarada. Associava a figura de Justine a de um carrasco naquele momento. Sem traços de compaixão ou compadecimento. Ela era rígida, insensível, embora a aparência fosse a mais delicada possível, o olhar inspirava sentimentos ruins. As palavras lhe fugiram por alguns momentos.
"Eu poderia desistir após uma declaração tão escancarada de rejeita. Contudo, me responda apenas, o que há comigo para fugir e me recusar deste modo?"
Justine calou-se. Os pensamentos oscilando entre as palavras do pai e as cenas de loucura do mesmo. A raiva lhe absorvia a sanidade.
"Creio que seja melhor retirar-te daqui."
"Mas o que lhe fiz? Não te custará nada a resposta."
A resposta não foi dada. O rei, iniciou o discurso e Justine, aproveitando a distração do conde, enfiou-se novamente em meio a multidão, deixando-o para trás a chama-lá. O líder de infantaria já ali estava, portando-se com uma postura intimidadora que não funcionava com Justine. Veio vestido de mosqueteiro, para talvez remeter aos desejos para com a realeza, pensou Justine. Ela já imaginava aquele cenário, lutando em Versalhes com homens influentes e a apenas passos de sua presa principal, seu pai estaria transbordando de orgulho. Somente este pensamento a fez ilustrar um sorriso confiante. Durante estes momentos de grande tensão, Justine ainda fora capaz de um ato benevolente. Havia no canto do abundante banquete, um prato transbordante de ragôut que rapidamente enfiou em um copo, guardando dentro do bolso interno da capa, que foi elaborado para fins de emergência. Talvez o garoto Jean Batiste recordarsse ainda dela.
Foi determinado o término do discurso real que durou minutos consideráveis e após o evento, por ordens do rei, foi anunciada a luta, na forma de mais uma atração da festa.
Ao ser frisado que o combate seria entre um homem e uma mulher o salão petrificou-se. Quem seria a tal corajosa? O burburinho aumentou, enquanto os olhares de curiosidade voltavam-se para o Centro do salão, até mesmo os que observavam de fora adentraram para presenciar a luta histórica. Justine não compreendia o motivo de todo o frenesi. Para ela, a luta entre homens e mulheres deveria ser considerada corriqueira, desta forma aprendeu e este pensamento levava para toda vida.
Ao depararem-se com os dois a plateia, atônita, calou-se. Encaravam-se Justine e Armand retirando da bainha as espadas. Nenhum demonstrava medo ou desassossego, os dois estavam igualmente sérios. Com o canto do olho, Justine era capaz de perceber Aaron, que a fitava sem nenhuma expressão.
Os golpes eram rápidos e incrivelmente certeiros. O talento dos dois era equivalente tratando-se de destreza e rapidez. Armand possuia a experiência e a vantagem de treinos adequados todos os dias, no entanto, Justine fazia uso de garra e força sem comparativos. Foram vários os ataques e defesas, ela sabia que a vítima naquela situação não seria necessariamente Armand, por isto pouparia os esforços. Os sentimentos de Byron oscilavam entre a surpresa e a admiração. Se caso não presenciasse, jamais acreditaria que alguém como srta. De Beaumont seria capaz de executar tamanhos golpes dotados de invejável perfeição. Jurou para si mesmo que ao encerrar-se o embate, mesmo que fosse rejeitado das mais terríveis formas, lhe parabenizaria. Porém, seus planos não foram concretizados. Como que surpreendido por um animal feroz, viu a espada a sua frente e a expressão cheia de cólera de Justine enquanto corria até ele, o espanto foi geral e imediato. Os guardas a envolveram, imobilizando-a de forma abrupta. Armand não compreendeu o ataque repentino de fúria da adversária, imaginou ser mera encenação, uma trama para livrar-se do duelo, embora, ele estivesse a perder.
Justine foi jogada ao chão de forma tão rápida e técnica que seria impossível a reação. A máscara lhe fora arrancada da face, a espada havia caído aos pés de Aaron. Ela o encarava de cima a baixo, o ódio lhe rasgando o peito.
"O que fazem? Deixem-na!"
Justine foi capaz de ouvir Aaron dirigir-se aos homens. Todos questionavam o ato tão expressivo de zelo do conde para com a moça, principalmente Armand e Madeleine, que analisava tudo discretamente.
"Creio que é melhor afastar-se, Sr. Conde!"
"Levantem-na! Isto é exagero!"
Todos na galeria desconheciam a atitude que partia do conde, até mesmo o rei.
"Tirem-na de minha presença!" Ordenou a majestade. "A levem para o calabouço! Vejam, homens e mulheres, este é o exemplo de súdito que repudio! Não admito que atrapalhem minhas festividades!" Justine foi erguida violentamente do chão, fortemente imobilizada por meia dúzia de homens, no entanto, diferentemente das outras vezes em que fora capturada, não tentava desvencilhar-se, parecia excessivamente fatigada. O conde manifestou-se.
"Majestade, não é minha intenção contestar vosso veredicto, que deve ser sempre a última e oficial ordem a ser considerada, entretanto, solicito que reveja a decisão a pouco tomada, pois a moça atacou a mim e posso dizer com sinceridade que não me sinto lesado. Eu, como vítima, não vejo motivos para encarcera-lá."
"Tu não sabes nem o que dizes, Byron! É melhor calar-te! Se digo que eles devem leva-lá, eles a levarão!"
Os soldados prontamente recomeçaram a caminhada em direção a porta. Aaron acompanhava, incrédulo o trajeto, pois nada havia que pudesse fazer para liberta-lá. Justine imaginava uma infinidade de coisas, mas a intriga de que o conde protestara por ela perante o rei, Persistia. A moça foi jogada novamente dentro da mesma charrete que nos referimos no início. Os olhos fixos na postura do conde enquanto este dialogava com os soldados, parecia disposto e de boa índole, pensou Justine e desagradou-se por imaginar tamanhas besteiras. Encolheu-se no canto a espera da partida, quando ouviu o baque na madeira.
"Perdoe-me, não pude intervir por ti. Eles te levarão. Alertei-os para que não a machuquem, contudo, amanhã ao amanhecer estarei lá para liberta-lá."
"Tua ajuda não é bem vinda!"
Respondeu, beirando um sussurro. O conde desconsiderou a sentença.
"E devolverei também, tua espada!"
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As várias tentativas de um sono sereno haviam sido em vão. Os pensamentos de Byron concentravam-se inteiramente em somente uma questão, e esta seria a mais desagradável. A madrugada foi permeada por momentos inquietantes de impaciência que somente poderiam ser sanados com a escrita:
15 de fevereiro, madrugada
A muito que não busco a escrita para aliviar-me os pensamentos. Quando não há com quem desabafar, este parece ser o melhor remédio, principalmente para almas inquietas como a minha.
Verdadeiramente posso dizer que desta vez — e somente desta — deixei-me envolver pelo encanto de uma jovem. Jovem que, a propósito, nem mesmo sei o verdadeiro nome, mas que já desperta em mim incogniscíveis desejos. São impulsos inelutáveis de minha mente que desconheço — ou desconhecia até pouco tempo atrás.
Incongruente, pode parecer, porém, o feitio notório de desapreço no rosto daquela moça, pareceu-me tão singular perante as atitudes previsíveis de qualquer outra dama em seu lugar, que alcançou-me a atenção, tanto que desde este momento, não mais consegui desprender-me de sua imagem. Creio que um dos motivos para todo este infeliz apego tenha tido início ao constatar quanta força a srta. De Beaumont possui.
Talvez minha inclinação acentuada por desafios, me fizera chegar ao estado degradante que me encontro. Mergulhado em um devaneio, logrando ainda do deslumbre desta noite, que definitivamente não negligenciarei tão prematuramente e não desistirei, embora sinta que está será uma tarefa que me custará muito.
Byron; Aaron
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