Minhas mãos estavam ásperas por causa do sangue seco, e minhas roupas duras. Meu corpo talvez estivesse doendo pelo tempo parada na mesma posição, mas não tenho certeza, estava meio entorpecida. Caleb de vez em quando olhava pra mim meio preocupado, mas não dizia nada.

Alguns metros a frente ele parou em um posto de caminhoneiros. Descemos do carro e minhas juntas protestaram pelo tempo na mesma posição.

– Aqui — ele disse me entregando uma mochila.

Peguei e ela parecia surpreendentemente pesada.

– Sabe onde fica o banheiro?

– Não, mas posso procurar — minha voz estava estranha.

Ele me lançou um olhar preocupado, mas assentiu e eu me dirigi ao prédio dos restaurante. Os banheiros ficavam no fundo, e por ser noite, estavam limpos, para minha sorte. Não havia ninguém, então tranquei a porta, coloquei a mochila em cima da pia e entrei embaixo do chuveiro.

A água saia vermelha lavando minhas mãos, braços e roupas.

Aquele foi, provavelmente, o banho mais longo da minha vida. Esperei que alguém batesse na porta, mas isso não aconteceu, então desliguei o chuveiro e vesti roupas limpas. Juntei as roupas molhadas e sai com a mochila nas costas e o tênis rangendo por causa das solas molhadas.

Caleb estava sentado em um banco de madeira caseiro na frente das portas do banheiro, esperando. Ele me analisou e disse:

– Pronta?

Assenti.

Ele se levantou e andou na minha frente, pensei que ele voltaria para o carro, mas em vez disso ele parou na frente de um tambor de metal, e jogou as roupas que usava lá dentro. Do lado do tambor havia uma garrafa e Caleb tinha tirado um esqueiro do bolso.

– Você vai queimar? — perguntei.

– Vou, é melhor.

Ele olhava pra mim, esperando que eu fizesse o mesmo, então joguei as roupas molhadas dentro do tambor. Ele despejou o líquido da garrafa no tambor, pelo cheiro era gasolina, e depois colocou fogo, que ignorou a umidade das minhas roupas , queimando-as e deixando um cheiro forte no ar.

Não demorou muito tempo, e por algum motivo doía me livrar daquilo.

– Vamos? — Caleb chamou.

Dei um passo para seu lado e nós voltamos para o carro. Caleb abriu o porta, para colocarmos as mochilas, e eu teria colocado a minha se uma coisa não tivesse chamado minha atenção. Uma terceira mochila.

– São...? — não consegui perguntar.

– São.

Eram as coisas de Brad. Deixei minha mochila escorregar do meu ombro e cair no chão enquanto esticava os braços para tocar a mochila. As roupas dele ainda estavam lá.

Não queria chorar, mas não consegui. Caleb estava mais perto do que esperado, porque antes que eu me virasse, ele estava me abraçando como se quisesse me proteger da dor que eu sentia. Meu rosto se encaixou na curva do seu pescoço enquanto eu tinha a sensação de que meu peito estava sendo esmagado. Uma mistura de dor e culpa estava esmagando meu peito como um compressor e eu não podia fazer nada, ou não queria fazer pelo menos. Caleb apertou os braços a minha volta e me manteve em pé, porque eu sabia que cairia se ele me soltasse.

Se você perder alguém que está a anos doente em uma cama, é claro que dói, mas sabe que é inevitável, mas se você perde alguém, simplesmente do nada, é como se uma parte de você fosse arrancada do nada também , e você não tivesse reação o bastante para mudar o que aconteceu, porque a surpresa te paralisa.

Era exatamente assim que eu me sentia. Acho que Caleb sabia disso, porque ele não se moveu, nem ligou para os caminhoneiros que saiam do restaurante e nos olhavam.

Era uma das coisas que eu gostava em Caleb, ele percebia as coisas.

– Quando alguém que trabalhava morria em missão — ele interrompeu o silêncio, um pouco depois que parei de chorar — nós queimavamos as coisas de pessoas, como um símbolo de liberdade, honra, talvez, pelo que fez. De qualquer maneira essas coisas não poderiam voltar para a família, se é que houvesse alguma, mas foi algo que se tornou importante para nós.

Eu entendi o porque dele dizer isso, então deixei que ele pegasse as coisas de Brad e me arrastasse para onde tínhamos queimado nossas roupas.

Ele me soltou e reacendeu o fogo, abriu a mochila e pegou uma camiseta.

– Quer fazer isso? — perguntou.

Lentamente peguei a camiseta e a atirei no fogo, que consumiu o tecido lentamente, a princípio, depois queimou por inteiro rapidamente. Naquele momento eu percebi que a vida era tão frágil quanto a camiseta no fogo, ela poderia ter servido extremamente bem e confortavelmente, mas a partir do momento que o fogo se alastrou, não demorou mais que um minuto para virar cinzas.

Caleb já estava com uma segunda peça de roupa na mão, e essa era a sua vez de jogá-la. E assim nós fizemos, peça por peça, até que não sobrasse mais nenhuma. Enquanto o fogo queimava a última, me aproximei de Caleb e segurei sua mão, ele não me afastou, então eu fiquei ali até o fogo apagar.

– Temos que ir — ele disse calmo.

Deu um passo para o lado e eu fui junto, ainda de mãos dadas. Acho que para as poucas pessoas ainda acordadas no posto éramos apenas um casal de jovens comum, então ninguém prestou atenção em nós.

Retomamos a estrada, e já era quase de manhã. As horas passaram voando até o sol começar nascer, não consegui dormir e Caleb não podia, olheiras estavam se formando, escuras e profundas, sob seus olhos, e sua expressão estava cansada, com certeza eu não estava nem um pouquinho melhor.

– A gente deveria parar um pouco.

Ele assentiu, e um pouco a frente encontramos um motel. Ele era bem velho, e atrás do balcão tinha um senhor tão velho quanto, parecia cansado, mas assim que nos viu, sorriu.

– Bom dia, querem um quarto?

– Bom dia, sim — respondi com a melhor boa vontade que consegui juntar.

Ele sorriu de novo, para mim, porque agora Caleb estava de óculos escuros e o rosto claramente nada amigável.

O senhor me entregou uma chave com uma plaquinha que dizia "18".

– Obrigada.

– De nada, a propósito, sou Jensen, caso precisem.

Assenti e segui pelo corredor a direita que era separado da terra e da estrada por uma baixa grade de ferro.

O quarto 18 era o último no final do corredor, quando abrimos a porta, haviam duas camas de solteiro , "obrigada Jensen, esqueci de falar sobre isso ", um criado mudo com um abajur para cada cama, uma TV pequena e velha, e um banheiro. Estava ótimo por hoje. Caleb deixou as mochilas no chão aos pés da primeira cama e se jogou nela.

– Tranca a porta — ele disse abafado pelo travesseiro.

Eu tranquei e me joguei na outra cama, queria dormir, mas não consegui, rolei pra lá e pra cá por vários minutos, mas não adiantou, então fui procurar o notebook, torcendo para o Caleb ter pego e para ele não acordar e me ver mexendo nas suas coisas, onde felizmente o notebook estava. Voltei para a cama e o liguei. O quarto estaria todo escuro se meu abajur não estivesse ligado, e agora o notebook também.

Voltei para as pastas, muitas delas tinham código numéricos como nomes, e dentro arquivos criptografados, comecei a trabalhar neles, e a descriptrogafa-los, não que fosse exatamente possível, uma vez criptografada a mensagem naquele tipo de linguagem, nunca mais ela voltaria ao normal, mas eu conhecia meus pais, e a sabia quando a informação fosse a correta ou mais próximo disso.

Talvez eu tenha passado algumas horas nisso, porque Caleb já havia mudado de posição várias vezes.

Eu sei ficava cada vez mais difícil ficar de olhos abertos, até que eu dormi.