Até a Lua
19 Onde Você Estava?
Acordei me sentindo extremamente relaxada, até lembrar que a noite eu sairia com Brad.
Ah meu Deus!
Enrolei na cama o maior tempo que consegui, até enfim levantar e tirar o pijama. Já eram 12h, era incrível ninguém ter me acordado.
Sai do quarto e fui até a sala, mas não havia ninguém, então fui até a cozinha onde Abigail fazia o almoço.
– Bom dia, Abigail.
– Bom dia, Ana. Pode me chamar de Abby -ela sorriu.
– Ok, Abby. Viu o Caleb ou Brad?
– Vi, eles saíram de manhã, disse que precisavam comprar umas coisas e que era pra eu te avisar quando acordasse.
– Ah sim. Sabe se eles chegam para o almoço?
– Disseram que sim. Aliás, pode me ajudar a colocar a mesa? Charlie, vai te ajudar. CHARLIE ! — ela gritou tão alto que eu assustei.
Charlie demorou um pouco mas apareceu, ele não tinha nada de especial, cabelos e olhos castanhos, pele branca, mas queimada do sol e estatura mediana.
– Fala.
– Vai ajudar a Ana a colocar a mesa, e fala assim comigo de novo que eu quebro seus dentes, garoto.
Ele revirou os olhos e eu segurei a risada, ela no mínimo engraçado.
– Vamos — ele disse pra mim.
Eu me levantei e fui atrás dele. Ele pegou as coisas e eu arrumei a mesa, sozinha. Foi desconfortável colocar a mesa com seus olhos analisando cada movimento meu.
– Qual é a dos seus dois namorados?
– Não tenho dois namorados. Somos amigos.
– Você viaja sozinha com dois caras é quer que eu acredite que não apenas amigos?!
– Quero.
– Então ta — ele deu de ombros — mas eu não acredito.
– Não acredita no que? — Caleb apareceu do nada segurando várias sacolas.
– Nada — eu disse sorrindo — o que é tudo isso?
– Já já você vai ver, Brad está trazendo suas coisas.
– Hm, ok.
– Isso ta pesado — Brad entrou rápido — oi, Ana, pode me ajudar por favor? — disse indo para o corredor.
– Abre a porta do seu quarto, por favor.
Eu abri e ele colocou as sacolas em cima da minha cana. Eram muitas sacolas.
– O que é tudo isso?
– Roupas, sapatos, e outras coisas que talvez você precise.
– Vocês compraram tudo isso pra mim?
– Sim, na verdade, compramos pra nós três, precisamos estar preparados.
– Ah sim, claro.
Ele sorriu e foi indo em direção a porta devagar.
– Ah, a sessão é as oito.
– Ok.
– Bom, vamos almoçar ?
– Vamos sim.
...
Já estava quase na hora do cinema, tinha acabado de sair do banho. Remexi as minhas roupas novas e no fim acabei com uma calça jeans flare e uma camiseta preta de babados. Um pouco de maquiagem e pronto.
Sai do quarto com uma jaqueta pendurada no braço e vi Brad parado no corredor. Era normal vê- lo de jeans e camiseta de malha. Mas dessa vez ele usava um jeans bem escuro e uma camisa xadrez, e sorriu quando me viu.
– Está linda.
Corei um pouco.
– Obrigada.
Nós saímos da pousada incrivelmente vazia.
– Desculpa, vamos ter que ir a pé — ele diz.
– Sem problemas.
– Mas é perto.
– Ok — sorri — então...Cadê todo mundo?
– Abby saiu com Charlie por causa de alguma coisa da escola e Caleb saiu faz tempo.
– Ah...
– Então... As roupas serviram bem, aparentemente.
– Ah sim, serviram sim, obrigada.
– De nada, na verdade Caleb escolheu a grande maioria delas — ele faz uma careta — a percepção dele é bem melhor que a minha.
– Perceptivo demais as vezes — faço uma careta.
– Pois é... Então, qual é a do garoto esquisito?
– Que garoto? O Charlie?
– Ele mesmo.
– Vai saber — dou de ombros rindo brevemente — Charlie só é um adolescente normal.
– Um normal esquisito.
Começo a rir.
– É, um normal esquisito.
Ficamos em silêncio por um tempo. As coisas com Brad eram assim, simples e fáceis, o silêncio não era incômodo. Era reconfortante. Exatamente ao contrário de Caleb que toda vez que ficava quieto trasia a sensação de um desastre iminente, não que fosse proposital, mas era assim que acontecia.
Tudo que se referia a Caleb era conflituoso e contraditório. Ele trasia tensão e segurança, inconstância e precisão, mistério e alegria. Tudo ao mesmo tempo, como se nunca fosse possível decifra-lo por inteiro, ou algo assim.
Por que eu estava pensando em Caleb?
– Chegamos!
Assistir ao filme foi um grande alívio para mim, era de comédia e simplesmente leve e engraçado, como deveria ser, embora eu tenha achado o primeiro filme melhor. Houve uma parte que Brad ria tanto que as pessoas do cinema riram de sua risada. Era engraçado como vê-lo rir trazia uma alegria infantil ao clima de qualquer que fosse o lugar.
– Achei ótimo — ele disse quando saíamos do cinema.
– Também achei.
Ficamos em silêncio um pouco e eu coloquei a jaqueta.
– Mas gostei do pri...- dissemos ao mesmo tempo.
Começamos a rir.
– É, também achei o primeiro melhor — ele disse — e Caleb deve estar querendo nos matar — ele faz uma careta e indica para irmos — vamos?
E me estende o braço. Eu rio e o pego.
Naquele momento eu aprendi uma coisa importante sobre o que acontece na minha vida: as coisas mudam de maneira rápida e drástica.
Eu não ouvi nada, mas eu vi quando alguma coisa atingiu o lado da cabeça de Brad e seu sangue espirrou no meu rosto e na minha roupa. Seu corpo caiu pesadamente arrastando meu braço junto, me fazendo perder o equilíbrio e cair sentada. Então eu vi o buraco da bala que jorrava sangue.
– Não, não, não, não...
Tentei toca- lo mas não conseguia. Eu simplesmente não podia toca-lo. Olhei em volta e as pessoas do cinema começaram a olhar, uma garota começou gritar e enterrou a cabeça no ombro do namorado. Lágrimas quentes começaram escorrer pelo meu rosto e eu, finalmente, toquei sua cabeça, no lugar do tiro. Com esforço puxei seu corpo para o meu colo, tentando parar o sangramento.
– Por favor, não morre. Por favor. Por favor.
Mas ele já estava morto.
– Temos que voltar. Caleb vai nos matar, por favor.
Os olhos vazios e abertos me assustaram. Não eram os mesmos olhos vívidos, eram mortos e sem vida.
Onde estava o maldito atirador? Por que ele não atirava em mim?
Ouvi um carro cantando pneu e o Jepp parou logo na entrada no cinema. As pessoas foram afastadas a cotoveladas e Caleb apareceu no meio delas. Ele olhou a cena por um tempo, depois veio até mim e me puxo fazendo o corpo de Brad cair com um baque no chão.
– Me solta! — gritei.
– Temos que sair daqui.
E começou me arrastar.
– Me solta! — gritei de novo.
Um homem se colocou na frente de Caleb. Ele devia ter uns 50 anos e quase dois metros, estava com a esposa.
– A moça disse pra você soltar o braço dela — ele disse.
– Senhor, se não se importa, isso é mais complicado do que parece.
Parei de ouvir o que eles diziam e olhei para um Brad morto e sujo de sangue no chão. Ouvi a sirene da polícia e joguei a mão de Caleb longe do meu braço enquanto ele discutia com o homem.
– Onde você estava? — gritei borbulhando de raiva e deixando as lágrimas borrarem todo o rímel.
Eles pararam de discutir e Caleb se virou pra mim devagar.
– Por que não estava aqui pra salvar ele? — chorei.
– Ana, temos que ir — ele disse parecendo...triste — preciso te deixar a salvo...
Me voltei para o corpo, mas ele já estava rodeado de policiais. O sangue estava secando nas minhas mãos, minha camiseta e calça estavam empapadas. Quando viram Caleb, os policiais me deixaram chegar perto de Brad.
– Por favor, não toque nele — um deles pediu.
Assenti. Foram apenas segundos que tive pra dizer alguma coisa perto de "tchau" .
– Temos que ir.
Caleb me puxou para longe, contra minha vontade e ignorando meus protestos inúteis. Me colocou no carro e eu notei que o banco de trás estava lotado de coisas. Nossas coisas.
Tirei os sapatos e abracei as pernas colocando o queixo em cima dos joelho.
– Por que não atiraram em mim?
– Não te querem morta, pelo menos não as pessoas que mataram Brad.
Fiquei em silêncio e deixei as lágrimas escorrerem por meu rosto.
– Sinto muito.
Não respondi. Só fiquei lá, entorpecida por lembrar da cena.
A cabeça sendo jogada pro lado, o corpo despencando no chão...
Ele tinha morrido. E por minha culpa.
– Abby...? Charlie...?
– Estão seguros. Eu os levei pra um lugar seguro.
– Sabia disso? — dei um pulo.
– Não, mas eu vi Jared.
– POR QUE NÃO NOS AVISOU ?
– Tentei, mas vocês tinham saído, não sabia onde estavam até ir atrás de Abby e Charlie que me disseram onde poderia estar. Se tivessem feito o que eu di....
– CALA A BOCA !
– ESTOU TENTANDO TE SALVAR, ANA ! — ele berrou pisando cada vez mais fundo no acelerador, indo para fora da cidade — EU NÃO PUDE EVITAR, DESCULPA ! MAS A INTENÇÃO ERA ESSA ! TE DEIXAR CADA VEZ MAIS DESPROTEGIDA .
– Por que não me deixa morrer simplesmente?
– Eu prometi que não faria isso. Prometi que te salvaria a qualquer custo é que te levaria de volta para eles! Eu não vou te deixar morrer. Não depois de tudo isso.
Fiquei em silêncio e deixei a cabeça bater no vidro. Era tão injusto continuar, e tão injusto abandonar o corpo dele na calçada como se não fosse nada. Era tão injusto, simplesmente.
Fale com o autor