Até Logo
1 Capítulo único.
Notas iniciais
E então começo a preencher este pergaminho com palavras soltas de uma alma perdida. Não são palavras vazias, mas são palavras divididas de um amor separado pela vida e pela morte. Mas não é um amor perdido, nunca será.
Eu sempre acreditei que um belo dia eu seria capaz de te olhar e lhe dizer tudo que necessitava ser dito. Sentir tudo o que precisava ser sentido. Durante toda uma vida senti um vazio aparentemente sem origem que nem a magia preenchia. Eu que sempre fui tão esperta, que sempre fui um gênio. E logo eu não conseguia descobrir a origem daquele sentimento inominável. E pensar que um belo dia eu descobriria que nunca mais iria te olhar, que nunca mais iria lhe ver sorrir, nunca mais iria ouvir a sua voz.
Nunca pensei que um dia eu fosse sentir tanto a falta de alguém. Sabe... Eu sinto falta das nossas discussões, das nossas brigas, dos nossos gritos. E essa lembrança me faz sorrir. Um sentimento nostálgico. Nunca mais irei sentir a sua presença. Nunca mais poderei te chamar de idiota e gritar aos quatro ventos um ódio que nunca existiu. Este amor estava muito além do imaginável, muito além do inteligível, muito além de meros sentimentos vagos. Havia muito mais do até nós mesmos podíamos perceber.
Você pode ter um dia imaginado que me magoou ou me fez algum mal, mas não. Foi ao contrário. Sinto minha mera existência se desfazer ao imaginar que você desejava a morte. Há muito nessas entrelinhas da vida e somos humanos demais para notar. O resto do coração que me restou no peito vai se quebrando e enfraquecendo ao me lembrar do sorriso de seu rosto sem vida. Os meus medos fúteis e sem sentido feriam muito mais do que apenas a mim, e agora eu entendo isso. Desculpe-me por ter sido egoísta demais. Você teve mais coragem do que possa ter imaginado ao encarar a morte de braços abertos e face serena. Diferente de mim que venho fugindo durante uma vida inteira sem saber realmente do que.
E agora eu desejo te encontrar, nem que seja apenas pra lhe ver de longe. Só para sorrir para você. Mostrar que você estava enganado e dizer, com a ausência de palavras, que eu te amo tanto que não posso verbalizar. Que eu te amei durante incontáveis anos. E te afirmar, com toda a clara certeza, que isso nunca irá mudar. Eu irei te amar até o fatídico dia em que eu te reencontrar. Eu sei que iremos nos encontrar novamente. Eu me despedi de seu corpo na Terra, com a esperança do reencontro.
Até lá eu apenas sentirei saudades. Aquela amarga saudade que aperta no peito. Eu sempre quis tocar a sua pele morena tão linda e acabar com a distância entre nós, essa distância enorme que nos impediu de viver plenamente. E o tempo vai continuar seu curso, esse mesmo tempo que escorreu de nossas mãos. E eu nunca entenderei o motivo de você ter partido sorrindo, espero que um dia você me diga. A vida vai passar também para mim e nesse intervalo eu vou lutando por mim mesma. Lutando por mim e por você.
Hoje, mais do que tudo, eu compreendo que poderia ter sido tudo tão diferente. Não por sermos absurdamente estúpidos, humanos e fracos, mas porque havia motivos muito maiores que o compreensível. Motivos ao qual nunca entenderemos, nunca saberemos. E saiba que eu nunca irei rir de você, não há motivo para isso. E por favor, substitua os talvezes por certezas, porque embora tenha havido muitas brincadeiras do destino, o destino sempre dá um jeito de fazer as coisas certas. Porque eu acredito que irei te encontrar novamente em um mundo superior a este. E embora eu não possa ver ou sentir, talvez você esteja por perto e já tenha lido esta carta à medida que eu fui escrevendo. Porque eu creio que você teria vontade de ficar por perto e velar por mim, da mesma forma que eu ficaria com você se eu tivesse partido primeiro. Meu amor, cuide bem de mim, até o dia em que eu possa te ver, olhar nos seus olhos e dizer aquilo que não foi dito. Sempre fui sua, inteiramente sua e assim sempre serei. E aqui deixo o meu até logo, Sharr, Sarrkan. Meu eterno amor. Meu eterno príncipe.
Para sempre, sua princesa.
Yamuraiha.
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