Astromelia
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É inverno, flocos de neve navegam pelo céu em uma dança silenciosa pelo salão cinzento, uma dança que acaba nas ruas de Yokohama. Dazai observa o espetáculo da sacada do prédio da Agência, seu inseparável casaco está ficando úmido com a neve que derrete, seus cílios estão levemente cobertos de flocos cristalinos que se apegam à sua pele como lágrimas quando ele pisca.
É um dia calmo na Agência, Kunikida está sentado em sua mesa, revisando alguns relatórios sem a impaciência regular que transborda de seus movimentos. Há alguns resmungos aqui e ali — que Dazai sabe que são sobre ele e sua falta de trabalho, mas o Doppo não se move de sua mesa, nem mesmo olha em sua direção no intuito de reclamar. Ele se sente agradecido por isso, por essa paz que ele não sabia que precisava.
Osamu cantarola em um murmúrio uma antiga canção de ninar, ela faz parte de um passado tão enterrado quanto sua vida antes da ADA, mas é menos agridoce que esse passado negro não tão distante. O maníaco suicida olha para além do horizonte, observando a cidade sem realmente vê-la, seus pensamentos estão longe, mas não há nenhuma indicação em seu exterior do que eles são.
Sua canção murmurada continua, Kunikida ainda resmunga em sua mesa e o resto da Agência está vazia, todos foram para casa há muito tempo. Ele pisca e flocos de neve presos em seus cílios se soltam, derretendo e formando caminhos de lágrimas em sua face serena.
Kunikida não comenta quando ele escuta um engate na respiração de Dazai — um lamúrio.
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As ruas de Yokohama estão todos em diferentes estados de destruição, parece uma paisagem apocalíptica, bem pior do que quando a Guilda havia tentado destruir a cidade portuária. Pessoas feridas infestam as ruas, algumas mortas e outras desesperadamente tentando se manter vivas ou tentando encontrar seus entes queridos.
Algumas crianças choram por seus pais e outros pais choram por seus filhos mortos. É a mais pura definição de caos. Dazai, junto aos outros da ADA olham ao redor, mas não se atrevem a parar o que estão fazendo. Kunikida, Junichiro e Kenji estão ajudando pessoas presas entre escombros e levando-as em direção a Yosano que parece o mais desgastada que todos já viram. Naomi está ao seu lado, tentando ajudar com o fardo que é tratar tantos pacientes.
Dazai não sabe onde está Ranpo, o grande detetive está sumido desde muito antes daquele caos afetar a cidade — quando as vítimas eram somente um bando de detetives com habilidades especiais. Ele tem quase certeza que o homem está seguro em algum lugar com Poe, seu ex-inimigo e, de acordo com Ranpo, o único que pode se igualar a inteligência do Edogawa. No mínimo, ele logo vai aparecer, então Dazai não se preocupa.
Já Osamu, bem, ele está caminhando tranquilamente entre todo aquele caos, seus passos são silenciosos e bem cronometrados, lentos, como se estivesse simplesmente dando um passeio pelo parque. Mas para aqueles que realmente o conhecem, é fácil perceber a maneira que seu maxilar está tenso, suas mãos bem escondidas nos bolsos de seu casaco são uma maneira de se conter, de manter um controle que está muito perto de ser quebrado.
Em algum momento de sua caminhada ele pensa, cheguei tarde demais, mas ele não pode realmente se deixar levar naquele momento. Ele tem uma missão, não que algum membro da Agência tenha lhes dito, mas não é realmente preciso expressar em voz o que todos já sabem. Encontre Atsushi.
Então ele anda, observa com olhos aguçados cada mínimo detalhe daquela paisagem infernal, em busca de olhos de pôr-do-sol e cabelos prateados como a lua. Depois de algumas vielas e esquinas Dazai finalmente o encontra, deitado no meio da rua, desacordado, uma poça de sangue ao seu redor, banhando suas roupas rasgadas em um tom de carmesim que, de vez em quando, assombra os sonhos do ex-Executivo da Máfia.
"Oh, Atsushi-kun.” É um sussurro pequeno, meio quebrado, somente um reconhecimento de que, sim, Dazai finalmente encontrou o jovem. Ele rapidamente liga para Kunikida o avisando, deixando o loiro saber que Yosano vai precisar ajudar o menino a se curar.
E então Dazai o pega em seus braços como se estivesse levando uma pétala de flor em suas mãos e não um menino que se transforma em uma besta ao luar. Sangue mancha suas ataduras e roupas e Dazai não consegue parar de se preocupar com a quantidade. É muito para alguém tão pequeno, e é um pensamento irracional, pois o homem sabe que um ser humano possui litros e mais litros de sangue.
Ele o leva para Yosano, observa a macabra forma que a habilidade da médica trabalha no corpo esguio de Atsushi e como todos da Agência suspiram em alívio ao ver que o menino continua a respirar.
Mas Atsushi só faz isso, respirar. Seus olhos — que Dazai acha tão belo — nunca se abrem.
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O quarto de hospital é clinicamente limpo, as paredes brancas e sufocantes, o arrulho de máquinas como a única canção de fundo além da respiração do menino deitado na cama, quase engolido por fios e cobertores. Seus olhos estão fechados, as pestanas quase desaparecendo entre a palidez de sua pele, combinando com o prateado de seus fios.
Dazai observa, memoriza e queima a imagem por trás de suas pálpebras, talvez, pela centésima vez. Nada muda. A respiração continua a mesma, os dedos esguios não se movem de seu lugar. O detetive pensa que o menino quase se parece com uma pintura, imutável, mas ainda cheia de sentimentos desconhecidos.
Enquanto isso, Atsushi dorme, inconsciente do mundo e para o mundo.
“Hoje Ranpo-san dividiu seus doces com Kyouka-chan, eu nunca vi a menina sorrir tanto, você ficaria impressionado, Atsushi-kun.” Osamu fala depois de vários minutos quieto, sentado em uma cadeira na lateral da cama.
É uma pequena mentira, Kyouka não sorriu como deveria, simplesmente esticou os lábios em algo plástico e duro e aceitou os doces com mãos delicadas demais para alguém que já tirou vidas antes. Ranpo dividiu seus doces com a menina somente por querer fazer a mais nova sair de seu estado quase catatônico.
“Você teria gostado de estar lá, eu imagino. Tenho certeza que Ranpo-san também teria lhe dado doces, Atsushi-kun.” Dazai fala novamente, sua voz suave, um sussurro que somente o menino poderia escutar.
Dazai passa a noite naquela cadeira, segurando uma mão quente demais para alguém que parece morto e contando meias-verdades e contos ridículos sobre a Agência. Histórias que Atsushi deveria ter tempo de aprender, de rir e revirar os olhos diante da estupidez de sua família levemente disfuncional.
Em algum momento da madruga Dazai somente observa o menino, leva sua mão pálida até seus lábios e beija seus dedos, um por um, desejando poder fazer isso por todos os dias de sua vida e podendo ser retribuído, talvez com um beijo carinhoso nos lábios.
De manhã ele sai, deixando para trás uma astromélia para trás.
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“Por que ele não acorda Yosano-sensei?”
É uma pergunta simples, mas com uma resposta complexa, Dazai sabe bem, ainda assim, ele sente algo como esperança dentro de si — e se surpreende, há muito tempo algo tão puro foi sentido por aquele coração negro que Dazai levava dentro de si.
Yosano suspira, cansada de algo que somente ela parece saber e começa a explicar sobre lesões e limitações de sua habilidade e como Atsushi perdeu mais do que somente sangue. No final, a resposta é simples, dura e escrita em pedra. Morte cerebral.
“Oh.” É a única coisa que ele consegue responder, seus olhos olhando para o chão sem realmente ver. Ele repete essas duas palavras em sua frase repetidamente, em um loop agoniante — morte cerebral, morte cerebral, morte cerebral.
“Ele não vai acordar?” É uma pergunta estúpida e Dazai já sabe a resposta, mas ele ainda se vê perguntando. Yosano o observa, um brilho triste em seus olhos sempre tão vivos.
“Eu não sei.” É o que ela responde e é uma resposta mais que suficiente para Dazai entender o significado por trás. Não, ele não vai.
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