Astoria
2 Capítulo 1 - O Óculos do Arco-Íris
Eram seis e meia. O sino tocava em badaladas firmes e vagarosas e o vento sacudia as calhas da janela de meu quarto. Abri meus olhos, respirei. Quem sou eu? Um rapaz constituído de estereótipos, que vive a vida como se nada fosse improvável. Meu nome? Alan.
Aos 14 anos, comecei a enxergar a vida de uma forma diferente e surreal. Enquanto meus amigos estavam preocupados com o crescimento, com a chamada puberdade, eu estava ouvindo música, compondo e tentando enxergar a vida fora do meu mundinho. Não sendo pelos meus cabelos ruivos, olhos castanhos e esverdeados e também um estranho interesse pelo American Idol e por revistas de moda.
Não tenho boas experiências de vida, talvez seja pelo pouco que vivi. Tenho apenas 19 anos. E carrego chagas na minha vida. Quando sua vida se inicia, você nasce sem nenhum problema, tudo é perfeito, todas as pessoas são felizes. Porém a vida consegue dar seus pulos à medida que você cresce. E você deve aguentar as consequências, contornando-as e mudando seu rumo para chegar a um lugar melhor. Certo? É, acho que talvez seja isso mesmo.
– Não vai se atrasar para sua aula! – disse uma voz vinda de longe.
– Sim, mãe! – respondi.
E essa é minha mãe. Moro com ela desde sempre. Pouco convivi com meu pai ou parentes próximos. Meus pais são divorciados há seis anos. Porém, desde antes se odeiam. Nos poucos fins de semana que passei na casa de meu pai, os agradáveis, pude conhecer mais sobe aquele homem que um dia me abraçou sem ao menos me insultar. Sim, meu pai não aceita minha diferença, se isso é visto como uma. Bem, eu sou uma pessoa normal, pelo menos acho que sou. Nas poucas horas que não me vendo à música, acho que a vida pode ser um mar de rosas.
Alan não era um jovem rico, vivia nos subúrbios de uma grande cidade. Trabalhava como podia para pagar sua faculdade de jornalismo e tentava fazer o melhor para ser feliz. Tudo que Alan desejou um dia foi um amor que o compreendesse. Talvez a vida de Alan foi atenta a isso. O dia apenas começava.
– Bom dia, senhores! A aula hoje não exigirá muito de vocês. Porém quero que escrevam um diário durante este semestre, para que façam o melhor furo jornalístico de todos. – disse o professor.
Senhor Carter era um professor audacioso, de forte aspecto juvenil, porém com um passado vazio. Seu sorriso contagiante sempre foi seu melhor dom, principalmente para ensinar.
Nossa! Que espetáculo seria escrever um diário durante o semestre. Exceto pela parte de que eu não possuo um romance para contar. Respirei. Os trabalhos dados pelo senhor Carter sempre tinham um cunho psicológico profundo. Eu era realmente apaixonado por isso.
De repente uma garota loira, de óculos largos e olhos azuis profundos entra na sala. Essa é Cassie, minha melhor amiga em todo mundo! Logo ela se senta ao meu lado, e aquele cheiro de perfume suave impregna no ambiente todo. Ela sempre trazia positividade.
– Alan! Que bom te ver meu querido! – dá um beijo na bochecha enquanto se ajeita no assento.
– Cassie!!! Há quanto tempo. Como foi de intercâmbio? – perguntei sorridente.
– Foi ótimo! As Filipinas são um lugar incrível! Comi muitas coisas diferentes e realmente me surpreendi na emoção e cultura da população. – respondeu mostrando algumas fotos no celular.
Cassie nunca foi um modelo de menina patricinha. Ela gostava de limpar cozinha, lutar Tae Kwondo e pratica meditação para destruir suas inimigas mentalmente, afinal, isso eu amava fazer junto dela. Além dessa personalidade excêntrica, o que mais me fazia gostar dela era as virtudes de uma boa amizade. Não fomos nós que nos conhecemos, mas sim nossos gostos artísticos. Conheci-a enquanto fazia aula de teatro, e por sinal, ela queria fazer o mesmo papel que eu. Por fim, pegamos ambos as partes diferentes, óbvio, mas atuamos juntos na mesma peça.
***
Em um lugar um tanto distante, Marcus observava atentamente a Alan, através de uma pia antiquíssima, esculpida em pedra e cheia com uma água luminosa.
– É ele, Marcus? – perguntou uma senhora.
– Sim, Stella. Este menino possui um caráter exemplar, diferente. Ele é um menino que será recrutado muito em breve. – respondeu Marcus.
– A mãe dele foi a melhor das alunas, garanto que ele não seja do gênero. – retrucou.
– De fato, porém deixemos que o tempo fale por nós, cara Stella. Você se lembra do primeiro dia que passou neste reino? – sorriu Marcus. – Eu me lembro. Você resplandecia diante das outras, porém nunca fui corajoso o bastante par lhe chamar para sair. – Corou.
– Oh! Quanto mistério a ser revelado, Marcus. Agora sabe que não precisa mais disso. – riu Stella enquanto respondia.
Marcus e Stella eram casados, conselheiros supremos do reino de Astoria. Tudo funcionava como um quebra cabeças, onde cabe a você decidir seu futuro. Marcus é um senhor de cabelos grisalhos, com uma barba um pouco grande, de olhos azuis, óculos redondos e largos. Usava um chapéu que aparentava ser uma cartola, negro e felpudo. Sua roupa era um traje de gala medieval, com babados e rendas, e inúmeros botões dourados. Porém não usava culotes, e sim uma grande túnica aparente a se por baixo da camisa. Em cima dos ombros, um escapulário de tecido azulado com bordas douradas e na mão direita um cetro.
Stella é uma mulher de um temperamento muito forte. Sua idade e aparência podem até ser convexas, porém dentre inúmeros casos, ela é a mãe de todos. Com um cabelo grisalho meio ruivo, usa um coque que deixa transparecer a duplicidade de cor de seu cabelo. Seus óculos meia-lua e seu colar de ágata são seus adereços mais queridos. Dentre isso, usa apenas um vestido longo, coberto por uma estola de lã nos ombros. Stella era uma mulher que no passado foi conhecida pelo poder de capturar criaturas, e por isso normalmente usa uma pulseira com inúmeras criaturas mágicas desenhadas.
– Quando é a hora certa de intervir, Marcus? – perguntou Stella observando o jovem.
– Em breve, Stella. Em breve. – Marcus respondeu tocando os dedos na água.
***
Os diários entregues pelo senhor Carter eram simples, encadernados em uma capa preta simples, porém com um bilhete anexado escrito: ‘Personalize-me, por favor’.
– Realmente exuberante! – disse.
– Concordo com você, Alan! Imagino o meu cheio de adesivos diferentes e desenhos psicodélicos! – respondeu Cassie.
– Nossa, concordo que não tenho um estilo definido. Porém acho que posso desenvolver algo! – respondi meio confuso.
Realmente eu não possuía um estilo próprio para personalizar nada, nem mesmo um diário. Por fim, pensei em colocar restos de jornais colados com verniz. Seria algo criativo e antiquado, bem minha cara mesmo. Porém onde estava minha vontade para executar isso?! Essa resposta nem meu mais profundo eu poderia dar. Eu era extremamente preguiçoso quanto a isso.
O sinal anunciava o intervalo. O prédio da faculdade de Alan era imenso, com pisos claros e polidos. Alan sentou-se com Cassie em um dos cantos dos corredores e começou a comer seu sanduíche de quatro queijos era o favorito dele.
– Vem cá, Cassie. Veja o que você acha. Toda vez que compro o sanduíche do metrô perto de casa, nunca vem gorgonzola. Por que será? – perguntei frustrado.
– Não sei Alan. Talvez seja legal refletir o porquê de não venderem lanches veganos em lugar nenhum. Que preconceito é esse? – perguntou com cara de desdém enquanto olhava para os quiosques.
– Realmente não sei. A sociedade é cinzenta mesma! Hahaha – respondi rindo.
O tempo começou a mudar e o sinal se encerrou, voltando à classe de jornalismo, número 222, percebi que havia um bilhete em cima de minha mesa. Fiquei intrigado, o que pode ser?
Fale com o autor