Asterismos

1 Asterismos


Notas iniciais
Presente de Amigo Secreto para Ferneinsel (aka Mitie). MITIE ME DESCULPE PELO ATRASO, MEREÇO UMA SURRA COM TODAS AS ARMAS DE LIBRA. Espero que você goste, mesmo que no final só aconteça feijoada.

Rosa rubicondior, lilio candidior

A morte já não lhe assustava. Sua convivência com a morte parecia tão natural quanto a que dividia com as rosas venenosas em seu jardim. Perdera o medo daquelas rosas ainda jovem, guiado pela mão de Lugonis. Não, não temia as rosas. Temia a decepção. Lugonis era sua única companhia, o pai que nunca conhecera quando foi abandonado ainda bebê. Ele que embalara seu sono, lhe ensinara tudo o que sabia, como homem e como cavaleiro.

“Os homens, Albafica” ele lhe disse numa tarde quente, enquanto cuidavam do jardim “são tão efêmeros quanto as flores.”

Ele não entendera naquele momento. Mas quando sentiu a vida de Lugonis se esvaindo, como as pétalas murchas levadas pelo vento, Albafica compreendeu as palavras de seu mestre, que partia orgulhoso por ter certeza que seu discípulo seria um homem digno da armadura de ouro de Peixes.

Naquele momento, Albafica perdeu o medo da morte. Naquele momento, ela tornou-se sua inimiga. Ele jurou que jamais permitiria que a morte o usasse como instrumento de seus caprichos, não fosse para ofertar a ela homens tão vis quanto a própria. Por isso ele se afastou de todos, permaneceu solitário na multidão. Esperaria por ela no décimo segundo templo. E só quando estivesse completamente esgotado, sem uma faísca de cosmo que pudesse fazer arder a chama de seu cosmo, é que se deitaria em seus braços.

(E ele jamais permitiria que ninguém o decepcionasse como Lugonis.)

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Estava próximo do Equinócio e Shion tinha um sorriso bobo em seus lábios. Seu rosto parecia mais jovial que de costume, Albafica não conseguia identificar o porquê. Tinham praticamente a mesma idade, mas naquela noite Shion lhe parecia um menino que sabia um segredo e não queria contar. Ele pediu passagem por sua casa, mas não se dirigiu ao templo do Grande Mestre.

Talvez por mera curiosidade, talvez atraído pelo feitiço daquele sorriso, Albafica o seguiu. Acabaram em um rochedo próximo a casa de Peixes. Dali, Albafica podia ver o tapete vermelho formado pelas rosas venenosas. Mais para baixo, avistou uma pequena parte do casebre onde vivera sua infância. O túmulo de Lugonis estava encoberto pela sombra da rocha e por parte do caminho de flores. Se olhasse para a linha do horizonte, veria o Santuário em toda sua extensão, das arenas dos aspirantes ao vale que levava as Doze Casas. Virou-se para seu companheiro, mas Shion não parecia interessado nas pequenas coisas da terra.

Seus olhos estavam fixos no céu. O pequeno sorriso desaparecera e seu rosto parecera envelhecer alguns anos enquanto se concentrava em um ponto específico da abóbada. Procurava estrelas malignas? Sinais de movimentação do inimigo? Albafica queria perguntar, mas não encontrava sequer um fio de voz.

Ele viu estrelas, galáxias, todo o cosmo refletido naqueles olhos. Viu estrelas milhões de anos-luz de onde estavam agora nascerem numa explosão de luz e calor, como a que acontecia em seu peito naquele momento. Como que puxado pela gravidade daqueles astros, Albafica foi tragado pelos olhos castanhos e sentia sua respiração acelerada. Aproximou o rosto do de Shion e imaginou que tipo de mundos criaria a colisão de seus lábios.

“Albafica?” Shion suspirou e, feito um náufrago que retoma o fôlego muito tempo depois de ser tragado pela ressaca, ele saiu de seu estupor e atinou-se da tragédia que estava para acontecer. Sem olhar para trás, ele deixou Shion sozinho chamando por seu nome. Correu o mais rápido que pôde até o casebre e escondeu-se em um canto empoeirado.

(Fechou os olhos, mas as imagens daquelas estrelas estavam gravadas em sua mente. Dormiu ali mesmo e sonhou com estrelas, lírios e sua lúgubre companheira.)

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Homens nascem e morrem todo dia. Assim como as flores, assim como os astros. O brilho das estrelas que os mortais enxergam da Terra são apenas lembranças; na verdade, muitas daquelas estrelas já morreram. Somente a distância da luz é que permite que ainda enxerguemos o que um dia foi uma estrela.

(Albafica se perguntou, então, se o que vira nos olhos de Shion aquela noite fora o anúncio da sua própria morte.)

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É pela efemeridade que se admira a beleza das flores. Porque logo elas se tornarão murchas e negras é que se tenta capturar sua beleza num quadro ou desenho, em um poema ou apenas na memória. Assim também é com os mortais. Para os deuses, a vida de um ser humano é apenas um grão nas areias do Tempo. E porque a vida é um dom frágil é que se deve tratá-la como algo raro e tentar aproveitá-la da melhor maneira possível. Aos homens foi dado o livre arbítrio para que pudessem escolher como o fariam. Para os cavaleiros de Atena, as escolhas eram mais restritas. O dever de manter a paz e a justiça estava acima de tudo. Para ele, sua solidão e seu dever andavam de mãos dadas. Nessa caminhada, deixava a morte seguir apenas para que ela saciasse seu apetite de animal faminto com seus inimigos. A ele não era permitido as mesmas escolhas que outras pessoas. Por ser um cavaleiro. Por ter sangue ruim. O amor era uma presa fácil para a morte e Albafica jamais baixaria sua guarda contra ela outra vez.

(Porque ele amava Lugonis mesmo depois de sua morte e sua ausência era a glosa daquela maldita que corria em suas veias. Aprendera a conviver com seu segundo abandono, mas não deixaria acontecer pela terceira vez.

“Eu não tenho medo do seu sangue, Albafica.”

Não podia acontecer.)

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“Deixe eu te ajudar!”

“Não se aproxime de mim, Shion! Quantas vezes vou ter que repetir-“

“Eu já sei. Mas você também já sabe que eu não tenho medo do seu sangue.”

Mas eu tenho medo de você.

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Lírios. Apesar do episódio com Luco, lírios sempre lhe lembravam o cavaleiro de Áries. Lírios brancos selvagens. Era algo sobre Shion que o fazia imaginar brasões coroados com a flor. Um céu cheio de estrelas numa noite serena. Um sorriso de criança em um homem feito. Pétalas brancas tocando seus lábios, roçando sua pele com carícias ardentes. Já Albafica, mesmo que detestasse todas as ironias do destino era uma rosa vermelha, murcha pelo desgaste, solitária por seus espinhos venenosos-

“Mas é graças aos espinhos que as rosas conseguem manter todo seu esplendor, não acha?”

–--

Não se considerava uma pessoa cruel, apesar de tudo. Sendo um cavaleiro, aprendera com seu próprio mestre e companheiros o significado da compaixão. Sua própria dor o ensinara a não afligir aos outros. O amor incondicional de Atena para toda a humanidade deveria ser um exemplo para seus guerreiros.

(Mas Atena era uma deusa. Albafica era só um humano.)

Não era uma pessoa cruel. Queria lutar contra o veneno de seu sangue. Contra a toxina que perfurava seu coração feito uma coroa de espinhos toda vez que via Dohko e Shion juntos. As imagens – um sorriso trocado, um toque no ombro ou um aceno de despedida – penetravam em suas retinas como facas de gelo, embora sentisse o sangue arder como lava.

(Sua nefasta inimiga acariciava seus ombros, abraçava-o por trás e sibilava em seus ouvidos, em seu sono e no vento litorâneo que subia até o Santuário pela manhã. “Mate-o”, dizia, “mate-o e o outro será só seu.”)

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“Você tem que me dizer o quanto eu posso me aproximar, Albafica.”

E ele queria dizer que não podia aceitar aquilo. Que era impossível. “Não dê nem mais um passo.”

Mas seu corpo lhe traía – todo corpo é atraído por aquele de maior gravidade – e ele segurou aquele rosto entre suas mãos, roçou seus lábios nos dele e Shion abraçou-o pela cintura, e era o big bang.

–--

Era como se todas as cores do mundo girassem bem diante de seus olhos. Como se tudo no universo conspirasse para aquele momento, aquele contato entre seus corpos. Estavam no centro de uma estrela em colapso e fossem desfeitos em pó; ao mesmo tempo, todas aquelas pequenas partículas se uniam em ligações atômicas e transformavam aquela supernova em algo extraordinário, uma colisão de elementos que formavam a matéria de sua própria carne e ossos, tudo que estava embaixo de sua pele, que corria por suas veias. Sentiu-se completo e vazio ao mesmo tempo, sua alma tragada por aqueles olhos que continham o universo – como naquela noite, há muito tempo, quando o primeiro ponto brilhava intensamente em Áries e ele pode ver todas as constelações em um olhar – e, por um instante, Albafica imaginou que aquilo era como morrer e reviver para a face dos deuses.

(Mas havia um longo caminho entre a terra e o céu, e mesmo com o poder de esmagar estrelas, ele não podia esquecer de que era mortal.)

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Lugonis morrera confiando sua vontade a ele. Mas o coração jovem de Albafica não pode evitar a decepção com a separação. Sentiu raiva de seu mestre, de si mesmo, de seu destino. Chegou a sentir raiva de Atena e de seu dever. “E se...” possuía sua mente constantemente. E se não fosse abandonado ali? E se seu destino fosse estar longe dos caprichos dos deuses, daquela guerra?

(E se nascêssemos sob estrelas diferentes, se não houvesse Atena ou guerras, nossos destinos ainda se cruzariam?)

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A morte já não lhe assustava. Sua própria morte, é claro. Na guerra, soldados eram cordeiros indo para o abate e ele já se acostumara com a ideia de que, em algum momento, teria de oferecer sua vida em sacrifício.

Em seu íntimo, ele pensava que não haveria outro caminho. Os cavaleiros não lutam para morrer, mas para proteger a vida na Terra, tão amada pela deusa. Mas Albafica não conhecia outro caminho. Traçar planos para o futuro não era de seu feitio. Sem nenhuma garantia de que seu tempo se estenderia além daquele tempo de batalhas, como se permitiria fazê-lo?

“Isso não pode continuar.”

(Estrelas se apagaram aquela noite e ele ainda procurava seus rastros entre os lençóis pela manhã.)

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As pétalas dançavam ao sabor do vento. Sua superfície vermelha criava sombras coloridas em sua visão, como vitrais de uma catedral que visitara em Veneza. Seu corpo ansiava por descanso, como nos tempos em que treinava até a exaustão. Seu sangue escorria pelas costas como águas das chuvas de verão enquanto cruzava com uma criança desprotegida. Um momento, um instante. Um desabrochar de flor. Uma explosão cósmica. O nascimento de uma estrela. A morte de outra. Uma volta dos ponteiros do imenso relógio do universo. A morte de um espectro. E a de um cavaleiro.

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“Não se aproximem de mim!”

A morte já não lhe assustava. Ela estava caída a sua frente, na forma de Minos de Griffon. Conseguira derrotá-lo, afinal. Shion estava bem a sua frente, mas suas feições estavam mais gravadas em sua memória do que captadas por seus olhos. Tinha vontade de fechá-los, para enfim descansar depois de todos aqueles anos. Não teria mais que se preocupar em machucar as pessoas ao seu redor. Não precisaria mais lutar. Não havia espaço para “e se...” naquele momento.

Albafica apreciava o movimento das pétalas no ar; as rosas sempre lhe acompanharam, mas assim como odiara seu próprio sangue, nunca as admirara a beleza efêmera. Mas mesmo em seus últimos suspiros, estas rosas estavam ao seu lado.

Sua vida não fora perfeita ou longa. Assim como as rosas vermelhas espalhadas pelo céu – memento mori – sua alma também viajaria para longe dali. Levaria tudo consigo, da dor ao êxtase, sem abandonar qualquer pedaço de poeira que fizesse parte dele.

E aquela pintura: ele, sentado, seu olhar mirando as rosas, o cheiro de lírios e as supernovas dos olhos de Shion... Aquela obra prima ele trataria de levar até desintegrar-se em pó de estrelas.

(A memória, assassina dos instantes que passam, também se dobra ao Tempo. Depois de tantos anos, Shion gostava de achar que mesmo com o ácido das eras, ele conseguira preservar a memória de seus amigos e das pessoas próximas. Mas ela é traiçoeira e por vezes esconde preciosidades no labirinto das mentes mortais.

Naqueles últimos instantes, enquanto Saga lhe tomava o elmo, ele se lembrou de uma noite de quando ainda era jovem, quando subiu as Doze Casas para admirar o brilho das estrelas no céu invernal, sua longa mirada quebrada pela imagem do rosto de Albafica acortinado pelos seus longos cabelos, o oceano em seus olhos contendo segredos que nem o mais sábio dos homens decifrara. Suas respirações se misturaram por um instante e, para Shion, foi como presenciar o desabrochar da última flor da primavera, ou o rastro fugaz de uma estrela.

Nos olhos de Albafica, ele viu o infinito.)

Omnibus formosior, semper in te glorir!

Notas finais
"Rosa rubicondior, lilio candidior, Omnibus formosior, semper in te glorir!" Mais vermelho que a rosa, mais branco que o lírio, Mais belo que todos, sempre te exultarei! Desculpa Mitie, eu sei que você não queria feels mas ain. Não consegui não escrever feels.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!