Assustadoramente apaixonada
1 Capítulo 1: A cidade que inspira amor e expira terror
Notas iniciais
ASSUSTADORAMENTE APAIXONADA
Capítulo 1 – A cidade que inspira amor e expira terror
Hoje era uma tarde chuvosa e isso só significava uma coisa: histórias de terror. Em dias assim, meus amigos e eu nos reunimos em minha casa, montamos uma barraca de acampar em meu quarto, preparamos um saco de guloseimas e começamos a contar histórias de terror que nós mesmos inventamos, depois, caímos no sono todos juntos.
Essa era uma forma de nos aproximarmos uns dos outros, principalmente agora, pois estamos prestes a nos formar no Ensino Médio e, possivelmente, iremos nos separar.
Nós sempre ficamos empolgados ao ouvir as histórias, é como se por um momento esquecêssemos a realidade.
“Hoje é o meu dia!” – Gritava Suzana na maior empolgação, dando pulinhos em cima da minha cama.
“Droga, quer passar a vez? Você sempre amarela, nunca tem graça…” – Lucca disse.
“Verdade, você é uma medrosa Su. Eu faço bem melhor que você.”- Sorriu Loren lhe mostrando a língua.
—“Não é verdade…”- Suzana disse em voz de choro.
“Su, nada de chorar ao final da história. Sei que você tem medo, mas é você própria que está criando, tenta ver seus limites, ok?”- tentei lhe passar confiança, afinal, já se fazia três anos que sempre brincávamos dessa forma e Suzana sempre chorava no final da sua história e a gente ficava imaginando como teria sido, era demasiadamente cansativo.
“Ta bom, mas não deixa o Allan se fantasiar de monstro, nem nada parecido ou não me responsabilizo.”
Allan tirava Su do sério, ele sempre arranjava uma forma de dramatizar o que ela estava narrando, tornando tudo muito real e a fazendo chorar. Por isso, nós ficávamos entediados quando era o dia de Suzana contar a história.
Posicionamo-nos no círculo e colocamos as lanternas no centro, causando um clima realmente sombrio. Os trovões ecoavam no céu ocasionando um leve arrepio na costela. Não era a primeira vez que fazíamos isso, mas hoje era um dia perfeito para uma noite de terror.
“Gente, sem querer estragar o clima, mas não estão sentindo falta de nada não? ”- Falou Lucca e automaticamente viramos, nossos olhos percorreram o quarto à procura do nosso amigo Bernardo.
“To sentindo falta dos docinhos…”- queixou-se Suzana. E neste momento, mais um trovão cortou o céu.
“Genteeee, acho que tem algo aliiii…”- tremendo que nem uma vara verde, Loren apontou para um local pouco iluminado atrás da cortina.
Fomos todos enfileirados espiar para ver o que era. Eu fui à frente, Allan logo atrás de mim, depois, Lucca e por último, Loren abraçada com Suzana. Olhamos atrás da cortina e lá estava Bernardo escondido com a boca cheia de doces.
“Oi galera.”- ele falou cuspindo metade dos doces na minha cara.
“Fala sério Bernardo, nada de atrapalhar pô.”-falei séria enquanto limpava meu rosto.
“Esse gordo só sabe comer…”-Allan falou, puxando o saco de doces da mão de Bernardo.
“Ninguém tem paciência comigo.”- queixou-se o gordo.
“Senta logo nessa roda antes que eu desista de contar essa história”-riu Suzana. E a risada dela era altamente estridente, doía os ouvidos.
“Eu havia me preparado a semana inteira para contar essa história, porque ela não é comum. Durante esses três anos nós sempre inventamos contos de terror, mas hoje contarei um relato real de terror.”- mais um trovão ecoou e Bernardo pulou no colo de Allan, segurando seus cabelos.
“Tirem esse gordo perto de mim, ou ele vai virar toucinho.”- gritava Allan, enquanto escorraçava Bernardo para o meu encalço.
“Ei, ei”- pigarreou a medrosa- “Continuando… Então, esta história é real e suas lendas são de centenas de anos atrás. No norte de Veneza, na Itália, há uma ilha de nome Poveglia. Lá é uma terra despovoada atualmente, pois, tem dezenas de lendas de aparições que circundam este lugar. Dizem que tentaram povoar por diversas vezes, mas que os fantasmas e demônios repetiam aos moradores: ‘saiam daqui ou morrerão’ e, realmente, ninguém conseguia sair de lá totalmente ileso. Não se sabe ao certo o motivo de haver tantos fantasmas, mas culpam o modo com que, por gerações, usavam a ilha. Lá era usado como necrotério de pessoas que eram afetadas por pestes e doenças, queimavam-se os corpos e as almas continuam vagando até hoje sobre a superfície da ilha.”- Suzana deu uma pausa e eu olhei para círculo, percebendo que todos estavam muito envoltos na história, havia um misto de curiosidade, medo e empolgação nos rostos dos meus amigos.
“Houve um período que fizeram um local onde abrigavam pessoas consideradas loucas, estilo um manicômio. Os loucos sempre relatavam ouvir vozes e verem vultos, mas eram caçoados pelo diretor da instituição. O diretor começou a aplicar testes científicos neles, subtendo a ‘tratamentos’ agressivos, fazendo muitos deles morrer. Revoltadas, as almas penadas destes mortos o atormentaram tanto que o fizeram suicidar, jogando-se da ‘torre do sino’ e, segundo o relato da enfermeira que trabalhava com ele, mesmo durante os seus últimos suspiros, agoniava-se pelas perturbações que sofria dos espíritos. Dizem que até hoje dá para se escutar de vez em quando as badaladas do sino, que, segundo eles, é produzido pelo falecido diretor. Um casal, não acreditando nessa história, construiu uma mansão lá na ilha para passar as férias e na primeira semana, sua filha, levou um corte de quatorze pontos na cabeça depois da perseguição sofrida por fantasmas. Segundo a menina, eles apertavam sua garganta, tentando sufocá-la.”- Novamente, Suzana pausou a fala e por incrível que pareça, ela não chorou, só observou o restante da galera se abraçando e fazendo movimentos de cruz. Quando dei por mim, já estava abraçando meus joelhos, ligeiramente nervosa.
“Galera, tive uma ideia” – Bernardo falou.
“Por favor, não me diga que quer conhecer a ilha”- provocou Allan.
“Por quê? Tá com medinho?”- Ao dizer isso, Loren realmente irritou o Allan. Ele era muito competitivo e odiava ficar na pior.
“Vamos nessa ilha.”- Ele disse decidido.
“Oó, oó! Vocês piraram? Essa história é real galera, não é um lugar imaginário do quarto de Helena não, é real. Vocês se borram de medo aqui, imagine lá.” – Suzana já estava desesperada com ideia.
“Suzana tem razão, nada mais de assuntos de ilha por hoje, vamos dormir.”- Eu falei tentando por juízo na cabeça dessas pessoas.
“Discordo, Helena. Vamos fazer uma votação. A maioria decide. Afinal, a gente vai se separar e nada melhor que uma viagem para Veneza. ”- Lucca sorriu, possivelmente imaginando as meninas que poderiam ter lá.
Neste momento, começamos a ouvir uns gemidos de dor, parecia que alguém estava realmente sofrendo. Apavoramos-nos. Grudamos uns nos outros. Bernardo subiu nas costas de Allan, o desequilibrando e, no pavor, ainda tampou os olhos dele. Suzana pegou um urso e o mordia freneticamente. Loren e Lucca, os gêmeos, se agarraram, possivelmente querendo voltar para a barriga da mãe. E eu, tremi, mas continuei equilibrada, comecei a girar a maçaneta da porta, até que ouvimos: “Vai, amor… não para… assim, vai tesudo… aaaaaaah que gostoso.”
“Porra Helie, são seus pais.”- falou Allan. E todos nós gargalhamos muito. Eles devem que acharam que nós já estávamos dormindo e, começaram a festa.
“Tem festa e ninguém me chamou?” – Falou Lucca adorando a safadeza.
“Helie, não dá para dormir desse jeito” – Falou Suzana toda ruborizada.
“Calma galera, um amorzinho de vez em quando faz bem não é? ”- Disse toda brincalhona.
“Falou a experiente…” – Riu Loren.
Tudo bem que Loren é incrivelmente bonita e já teve relações com vários caras, mas não achava certo ela ficar se achando por conta disso. Afinal, eu estou me guardando para a pessoa certa. Para falar a verdade, além de virgem, nunca sequer beijei. Lógico que eu falei para Loren e Suzana que já havia dado uns “amassos” com o Fred, um menino mudo da escola, pois sabia que ele não ia “dar com a língua nos dentes” e contar que ele não teve nada comigo, por isso, acabei ficando com o apelido de “aproveitadora de incapazes”; simplesmente, odiei.
“Vamos logo acabar com isso. O que vocês decidem? Eu voto contra de nós irmos para a ilha e a favor de irmos passar férias em Veneza. Mas…” – Medi as palavras para falar- “Como bancaremos todas as despesas da viagem? ” – Eu estava imaginando as altas fotos que eu teria naquele lugar e como era um local romântico, valia a pena tentar conseguir um namorado; quem sabe. E com o dinheiro que eu tenho, é claro que nunca teria condições de ir, mas com a ajuda dos meus amigos, tenho certeza que conseguiríamos.
“Poderíamos ir nos dois, afinal, são dois meses de férias e vocês sabem que meus pais vão bancar tudo, pois somos um time, certo? ” – Falou Lucca e um sorriso me encheu o rosto. Eu não podia recusar a oferta, pois era um presente deles para nós.
“CERTO!” – Gritamos todos em uníssono. Ninguém questionou a proposta, pois, como eles estavam pagando, eles escolheriam a programação, porém acho uma loucura ir a uma ilha desabitada e testemunhar ao vivo e em cores os relatos de aparições.
“Mas tem um requisito” – Falou Loren, interrompendo nossa festa interior – “Não podemos falar que iremos de jeito nenhum para a ilha para os nossos pais. Falaremos simplesmente que vamos a Veneza; que, não é uma total mentira.” – Riu das suas artimanhas – “E, teremos que levar o nosso irmão mais novo, o Bob.”
“NÃO!” – Falamos em uníssono. Bob era com certeza o pesadelo na Terra. O menino era inquieto e altamente destruidor, sem contar que adorava nos incluir em suas brincadeiras suicidas na base da chantagem.
“Ele vai ser bonzinho” – Disse Lucca, mas nem ele próprio acreditava em suas palavras. '‘bom’' e “Bob” só tinham as duas primeiras letras em comum.
“Amanhã decidimos isso com mais calma, agora vamos dormir galera” – Falava a medrosa, alinhando-se na minha cama.
“Sai daí Suzana, eu durmo no canto, lembra?” – Falou Loren indignada.
“E eu sou a dona da cama e digo que somente durmam.”- Falei por fim. Vi os meninos pegando os colchões e se ajeitando, estava extremamente frio. Antes que pegássemos no sono ouvimos um barulho diferente.
“Ô não, seu gordo maldito, vai para o banheiro fazer suas porcarias” – Allan falou, enquanto Bernardo se dirigia correndo pelo corredor com a mão na barriga.
Eu ri daquele momento de “cão e gato” dos dois, eles nunca se davam bem mesmo e cai lentamente em um sono profundo.
Neste sonho, eu estava com os cabelos emaranhados, na minha pele havia tatuagens tribais de cor branca e estava me portando altamente agressiva diante dos meus amigos. Meu corpo se flexionava como se fosse realmente selvagem, minhas pernas moviam como uma felina. Não estava em um ambiente conhecido, estava em uma floresta. Eles me reconheciam, mas, a meu ver, eles eram inimigos, minhas presas. E, eu estava pronta para matá-los. Quando ia fazer isso, um macaco me puxou e me levou para a selva de onde eu vim.
Acordei no outro dia assustada, foi um sonho muito diferente. Mal abri os olhos e tinha uma cabeça olhando para mim.
“Aaaaaaah” — gritei.
“Aaaaaaah” — gritou Suzana, em seguida, possivelmente assustando-se com o meu susto.
“O que está fazendo me olhando, sua louca?”
“Eu só estava me sentindo solitária e queria que alguém acordasse logo, porque não vejo a hora de comprar as passagens, até olhei uns sites, olha aqui.” — Ele apontou para o notebook em seu colo, com as passagens faltando um último clique para serem compradas.
“Calma, Su,nós ainda precisamos falar com os nossos pais”.
“Acabei de ligar para todos” — ela falou roendo as unhas, sabendo que fora antecipada demais. Não deu nem tempo de eu de processar a ideia.
“E o que eles disseram?” — Falei quase pulando em cima dela na expectativa.
“É… o que eles disseram?” — Falaram os dorminhocos. “Peraí”, que horas eles acordaram?
“Já estão acordados?” — Falou Su
“Não, imagina... Desembucha menina” — Allan já estava subindo à cama e se juntando a nós.
“Falaram que se a gente se comportar… e todo aquele blá blá blá de todo pai… por fim, concordaram” — todo mundo ficou estático – “é um SIM cambada, vamos comemorar! “– Abraçamo-nos. Na verdade, os meninos e Loren se jogaram em cima de nós, fazendo-nos cair da cama.
“E qual o próximo passo?” — disse Lucca
“Comer!” — saiu Bernardo em disparada para a cozinha
“O próximo passo são as passagens, que por sinal acabei de comprar” — Su explicou — “Os pais de Lucca já adiantaram os dados do cartão de crédito deles e disse que era para nós reservarmos um hotel, coisa que eu também olhei e selecionei três para nós escolhermos.”
“Su, você é demais” — beijei-lhe a testa e todo mundo fez o mesmo; dirigindo todos para a cozinha.
“Bom dia crianças” — falou minha mãe servindo o café da manhã.
“Pode deixar que eu lhe ajudo, tia” — falou Bernardo tirando a bandeja da mão da minha mãe e enfiando três bolinhos na boca.
Minha mãe, apesar de a idade estar entre os 30 anos, era imensamente jovem em comparação com as demais. Ela vestia o mesmo número de roupas que as minhas e tinha bons gostos nas escolhas. Vivia sempre sorrindo, mesmo estando muito cansada. Seus cabelos são como os meus, de um tom de castanho escuro e sua pele, assim como a minha, era igualmente pálida. Mas os meus olhos, não eram cor de mel como os dela, eram verdes-esmeralda como os do meu pai.
“Então, Suzana me falou dos seus planos de férias e achei tudo maravilhoso. Eu e Leonel até pensamos em talvez acompanhar vocês…” — ela viu a tensão em nossos olhares e contornou a situação — “Mas depois resolvemos deixar para outra ocasião” — Ela terminou a fala meio constrangida com a nossa falta de receptividade à ideia de eles passarem as férias conosco. Mas os pais, em geral, devem entender que eles já tiveram nossa idade e também queriam seu espaço. E todos nós queremos curtir como verdadeiros adolescentes, extravasar todo estresse do Colégio nas férias.
“Sábia decisão Tia Fátima” — falou Allan, enquanto nós o reprovávamos com o olhar.
Allan era um menino muito inconveniente quando queria. Ele gosta de provocar e causar repercussão. Mas, mesmo tendo um jeito difícil, conseguia se importar muito com os amigos, lutava por eles, por nós. Além disso, é famoso pelo seu porte físico sarado, seus cabelos lisos de cor marrom sempre penteados para trás com gel. Ele fazia sucesso no colégio com as garotas e isso fazia de Suzana, estranhamente, enciumada. Ela não confessava, mas todo mundo percebia como ela se portava diferente. Teve um dia que até arrancou a saia de uma líder de torcida que estava se engraçando com ele.
Enquanto que Bernardo nunca ligou muito para o físico e nem de esportes. Ele e Allan são muito opostos. Bernardo gosta de curtir cada momento como o último, desprovido de preocupações. Segue sua vida feliz, mesmo sofrendo muito bullying por conta do seu peso. Ele sabe que o melhor para a saúde dele não é almoçar em fast food ou se entupir de doces, mas continua, pois em sua casa não há disciplina alimentar, visto que seus pais são como ele, acima do peso. O que mais me chama atenção nele é que ele não se importa ou pelo menos, finge não se importar com a opinião das pessoas em relação a si, ele só quer ser feliz. Nunca o vimos com namorada, por isso muitos falam que ele além de gordo é gay, porém, eu discordo disso, acho que somente ele não achou a pessoa certa ainda.
Já os gêmeos Loren e Lucca são uma dupla muito divertida. Apesar das brincadeiras, penso que são os mais maduros entre nós, pois já sofreram muito em um orfanato. Hoje eles vivem com uma família estabilizada e que dão tudo o que eles precisam, desde dinheiro a amor. Eles são felizes e unidos. Loren é muito bonita, é alta, joga vôlei no colégio, tem ótima postura e é uma aluna exemplar. Seus cabelos, assim como os de Lucca, são cor de mel, olhos igualmente da mesma cor. Lucca é muito disciplinado e se parece com a irmã em muitas coisas, mas ainda é o mais sensível entre nós. Eu adoro pedir conselhos a ele, ele é o meu melhor amigo homem.
Suzana é chorosa e melindrosa, mas nos encanta com sua doçura e disposição. Ela, apesar de sempre errar, sabe reconhecer os erros e continuar aprendendo com eles. Ela tem uma beleza estonteante, de cor morena clara e lábios carnudos, chama a atenção pelos seus cabelos negros até a bunda. Ela também é minha confidente e melhor amiga mulher. Quando preciso de uma ajudinha, mesmo que seja perigoso ou quase impossível, ela com certeza está disposta a fazer por mim ou no mínimo, pela nossa amizade.
Após o café da manhã, decidimos escolher as opções de hotéis disponíveis.
“Então, o que acham?” – Perguntou Su toda empolgada.
“Eu prefiro o Palace Epoque Hotel, e vocês?” – Eu lancei a pergunta e todos começaram a falar ao mesmo tempo.
“PAREM! ”- Gritou Suzana – “um de cada vez.”
“Eu e Lulu concordamos” — falou Loren enquanto tocava o ombro do irmão. Lucca fez um olhar de desgosto diante do apelido.
“Qualquer coisa para mim está bom” — disse Allan, que foi logo seguido por Bernardo que mostrou positivo.
“Então está decidido, Su, pode reservar seis quartos no hotel”.
“Está doida Helie? É um hotel cinco estrelas, vamos dividir os quartos, afinal só vamos dormir uma noite e no próximo dia vamos para a ilha” — falou a medrosa.
“Não seria problema pagar os cinco quartos, mas concordo com Suzana. É melhor a gente economizar e gastar com coisas mais importantes, como pontos turísticos, roupas e comidas. Não podemos estourar o limite do cartão” — falou Lucca, advertindo-nos.
“Ok. Então vamos nos separar agora, cada um vai para a sua casa preparar as malas, porque o voo é hoje no final da tarde.” — Falou Suzana sorrindo com a ideia de viajar hoje.
“O que? Hoje?” – Falei confusa.
“Eu estava pressentindo isso. Não podemos colocar Suzana na frente das coisas uma vez que dá nisso” — argumentou Loren — “Eu precisava fazer as unhas e arrumar o cabelo e não vou poder agora, sabe por quê? Porque a bosta do voo é daqui a pouco.” — Os olhos de Suzana ficaram marejados. Tudo bem que ele se precipitou sem nos consultar, mas ela só queria nos ajudar.
“Relaxa, passa corretivo nas unhas e lambe o cabelo do jeito que você sempre faz, ai fica bom” — ironizou Allan. Isso tudo ia dar em confusão.
“O que disse seu… seu… seu grosso? Eu sou muito areia, não passe com o seu caminhãozinho na minha frente” — falou Loren batendo a porta do quarto e abriu logo em seguida – “E não me dirija à palavra, ‘anãozinho’.” – Ela realmente o ofendeu, chamando-o pelo apelido que ele odiava na infância. Sem contar que o modo que ela falou, olhando-o de cima em baixo, deu a entender que partes do corpo dele também fossem anãs. Ele bufou de ódio.
“E lá vamos nós…” — falou Lucca enquanto se despedia e tentava acompanhar a irmã.
Depois deste episódio, todos foram para suas casas para se aprontarem para a viagem. Como estava às vésperas do Natal, preparamos os casacos quentes, luvas, cachecóis e botas de todos os tamanhos.
Apesar de morarmos no Rio Grande do Sul, Brasil, e estarmos acostumados com as baixas temperaturas, queríamos nos prevenir para qualquer eventualidade. Até a família de Bernardo, que costuma sentir mais calor que o normal, resolveu comprar um estoque de casacos para ele no brechó da vizinhança. Enfim, estávamos prontos para as férias que prometiam ser a melhores e a última em que todos nós passaríamos juntos.
Marcamos de nos reunir no aeroporto às 17h00min horas para embarcar. Pontualmente, chegamos praticamente juntos. Allan estava com a blusa de frio jogada em seus ombros, com um modelito de um mauricinho, estava com um suéter novo e cheirava a perfume importado. Suzana neste momento deve que “babava litros” diante dele.
Já Bernardo estava com um casaco bem maior do que ele e debaixo do casaco, ele vestia umas três camisas, para que não sentisse frio, já usava suas luvas novas e uma toca de frio bem infantil. Loren estava com um sobretudo marfim e com uma legue preta, bem maquiada. Lucca estava com um blazer preto e calça jeans, um look que mistura casualidade e elegância.
Ele piscou para mim em sinal que eu estava igualmente linda e eu corei. Eu estava bem simples, com um vestido de tricô vinho de manga longa, porém curto, meia calça preta e botas. E Suzana estava com um cachecol bem bonito, jaqueta de couro e calça jeans. Todos nós estávamos prontos. Nem acreditava que agora iríamos embarcar para nossa viajem inesquecível.
“Se cuidem crianças, preparei até um lanchinho” — disse minha mãe distribuindo sanduíches para todos.
“Não se esqueçam de escovar os dentes” — disse a mãe de Bernardo, olhando com cara feia para ele.
“E não saiam com qualquer estranho” — advertiu a mãe de Loren.
“Amamos vocês!” — gritaram todos eles enquanto nos dirigíamos para fila esperar as bagagens despacharem, para depois irmos ao portão de embarque.
“Esperem por mimmm!” — gritou uma bolinha gorda vinda em nossa direção. Inferno! Era o Bob.
Bernardo já foi tirando o casaco enorme dele e debaixo havia uma blusa com o emblema “gordinho gostoso”, quase vomitei. Eu não sei o que ele espera com uma camiseta dessas. Eu já estava ligeiramente enjoada. Só a ideia de viajar já me dá náuseas naturalmente.
Ele olhou para mim e para sua camisa.
“O que é? Ninguém pode ter autoestima não?” – essa foi demais, tive que rir.
Bob saiu cortando fila e dizendo que era da modalidade preferencial (modalidade inexistente até então). Quando chegou a nossa vez na fila, ouvimos um sinalizador indicando que havia algo suspeito na bagagem de Allan. Qual é, o menino estava mesmo levando um skate na mala? Eu acho que Allan exagera em viagens, a mala dele era maior do que todas as outras.
Entramos no avião em fileira. A intenção era nos sentarmos assim: Loren e Lucca, Suzana e eu, Allan e Bernardo. Mas com a chegada de Bob, ficou: Lucca e Bob, Allan e Bernardo, eu e Suzana e Loren ficou sozinha.
“Por favor, alguém deseja trocar de lugar com Bernardo, ele tá fedendo salgadinho” — Lá estava Bernardo com um pacote de salgadinho nas mãos.
“Eu troco” — Logo se prontificou Suzana.
“Ah não, eu to muito enjoada. Sai pra lá com esse salgadinho” — Falei enquanto Bernardo sentava do meu lado.
“Bernardo, sente-se com Loren, ela adora salgadinhos” — disse Lucca, piscando para mim. Eu nunca entendi minha relação com Lucca, ele era realmente muito amigo e companheiro, mas às vezes, eu tinha a impressão que ele queria algo a mais e isso me dava um pouco de medo de atrapalhar nossa amizade.
“Por favor, nada de trocas mais, estão me esgotando” — Disse Bernardo com bafo de salgadinho e olhando para Loren que logo tratara de tapar o nariz e olhar para a janela.
Lucca pediu para Bob sentar em outro assento, assim ele ficaria ao meu lado, mas aquela bola dos infernos negou dizendo: “mamãe pediu para não me deixar sozinho”. Então lá se foram minhas esperanças de ir feliz até Veneza.
Bob começou a chutar o assento da frente. A mulher se ajeitou, incomodada. Ele continuou a proeza e a mulher olhou para trás quase explodindo de furor. Ele se fez de desentendido e ela logo achou que fosse Lucca, dando a maior bolsada na casa dele.
“Isso é para você aprender a não chutar as costas dos outros” — falou a mulher cuspindo na cara de Lucca. Este, chamuscando de ódio, praticamente arrastou o irmão mais novo para o outro assento e repetiu: “Isso é para você aprender a não chutar as costas dos outros”- olhando na cara de Bob.
Bob começou a se defender, gritando loucamente: “Não me bata irmão, me solta, aaaaaaaaaaiiii…”.
A comissária de bordo, aturdida com o escândalo, se virou para nós com um olhar de reprovação e disse:
“Atenção senhores passageiros! Acomodem-se em seus assentos e não levantem suas bundas deles e muito menos gritem alto – falou essa parte com muita ênfase- somente se realmente precisarem. Coloquem os cintos de segurança e boa viagem a todos.”
Lucca foi se sentar ao meu lado, passou o braço atrás do assento que eu estava sentava e inclinou o seu corpo ligeiramente para mim. Tremi baixinho.
“Você está ainda mais linda hoje, Helie” — disse ele com um hálito de menta maravilhoso.
“ahn.. Obrigada” — falei, tímida.
“Se ficar enjoada, pode deitar no meu ombro e fechar os olhos, às vezes isso é um ótimo remédio” — falou em um meio sorriso que eu não resisti, deitei-me sobre seus ombros e relaxei. Era tão bom essa nossa nova proximidade. Lucca nunca foi um menino de brincar com sentimentos de ninguém, talvez seja por isso que me sinto tão segura ao seu lado.
A viagem correu tranquila, os braços de Lucca me fizeram ressonar e nem perceber que se passaram horas desde que havíamos saído do Brasil. Lá embaixo, já podiam se ver as águas que faziam de Veneza, um dos principais pontos turísticos do mundo. Era magnífico e apaixonante.
O avião pousou e logo fomos procurar um táxi para nos levar ao Palace Epoque Hotel, hotel que iremos nos hospedar, e o taxista só sabia onde nos deixar porque conhecia o nome do requintado hotel, pois não falava outra língua a não ser italiano. Mesmo sendo normal muitas pessoas saberem o inglês na Itália, devido principalmente o fluxo turístico e a educação mais aprimorada, ainda assim, enfrentaríamos pequenas dificuldades de comunicação.
Já havia um funcionário à nossa espera, carregou nossas malas e nos indicou o caminho. O hotel era um luxo. Tinha diversas alas, desde piscina, academia, salão de festas, sala de massagem e estética, um ala de dança e balada, vários barzinhos. Ao vermos tudo isso, nossos brilharam.
“Não sei por vocês, mas eu quero ficar aqui uns dias antes de ir para a ilha”- disse Allan olhando para o tanto de hóspedes de roupas de banho.
“Concordo com você meu amigo” – falou Bernardo já indo para os petiscos que estavam sendo servidos. Realmente, o hotel parecia ter festa todos os dias. Era um perfeito lazer.
Havíamos reservado dois quartos, um para as meninas e outro para os meninos. Mas ambos ficavam em frente ao outro. Assim, ficaríamos sempre próximos.
Os meninos mal chegaram e já colocaram suas bermudas de banho, apenas Bernardo e Bob que usavam sungas muito apertadas, que marcavam suas partes íntimas.
Loren já vestiu seu biquíni fio dental e começou a se mostrar com o corpo à mostra. Lucca tentou cobri-la várias vezes com a toalha, mas desistiu depois que ela passou protetor solar dentro dos olhos dele. Fazendo com que ele saísse com os olhos ardendo e morrendo de ódio. Fiquei pensando no que levava uma pessoa usar protetor em Veneza.
Bernardo estava com boias em seus dois braços e fazendo posição de mergulho. Quando ele pulou na piscina, boa parte da água saiu e quase afogou Bob que tentava entrar com a maior precaução na piscina de adultos, provavelmente não sabia nadar. Foi a cena mais hilária. Muitas meninas tentavam se mostrar, saíram bufando de raiva, pois estavam ensopadas. Loren foi uma delas, saindo para um barzinho lá perto, enfurecida. E mesmo sendo humilhado, nada disso foi capaz de abalar a autoestima do “gordinho gostoso”. Ele nos surpreendia.
Meio sem disposição, entrei no quarto das garotas para tirar um cochilo. Ao entrar no local, deparei-me com muito requinte e bom gosto. Três camas de casal separadas por paredes que não chegavam nem ao meio do quarto, em cada parede havia molduras medievais, dando um ar épico. As camas eram altas, com dosséis brancos, além de lamparinas que davam uma luminosidade a mais. Havia uma poltrona espaçosa, com TV de plasma e taças de champanhe. O chão era todo forrado com carpete e havia uma pequena varanda com vista para as águas lindas de Veneza. No banheiro havia toalhas limpas, uma banheira de hidromassagem e sabão líquido à vontade. Simplesmente amei tudo, desde a recepção até os nossos quartos. Não é à toa que estávamos em um hotel cinco estrelas.
Entrei no banheiro, tirei minha roupa e entrei na banheira para relaxar. Perdi a conta do tempo que estava lá, curtindo a água quentinha, as espumas, as rosas, as fragrâncias para banho, que acabei ressonando lá mesmo. Estava tudo tranquilo até eu ser acordada por um barulho da porta do banheiro se abrindo e dando de cara com Lucca.
“Meu Deus Lucca, o que você está fazendo aqui?” – deparei-me com um Lucca todo molhado de piscina, sem graça e me olhando com curiosidade. Eu coloquei todas as espumas e rosas sobre mim para cobrir minha nudez.
“Não é nada disso que você está pensando… Eu... é.. Eu juro que nunca quis te ver assim, quer dizer… já quis, mas não agora. Olha, esquece e … desculpa. ” – Saiu apressado e bateu a porta na minha cara. Fiquei sem reação por um momento, mas depois, simplesmente ri muito, com certeza ele havia errado de quarto, porque eu não tinha trancado a porta do nosso. Só fiquei meio desconfiada pelo fato de ele já ter meio que confessado que já quis me ver assim. Será que quantas vezes ele já pensou em mim… Nua. Afastei logo esse pensamento da cabeça.
Saí do banho relaxada e cheirosa, coloquei um pijama quentinho e deitei. Não se passaram 10 minutos e Suzana com Loren chegaram ensopadas da piscina, sujando o carpete e entrando no banheiro.
“Para Loren, você sabe que eu o vi primeiro. ”
“Para você Su, ele não desviava os olhos de mim.”- Falavam no banheiro. Quer dizer, discutiam.
“Dá para parar vocês duas, ele já é meu e eu estou querendo dormir.” — falei para ver se as duas paravam com a aquela discussão idiota e me deixassem dormir.
“Helena, nada de dormir. Vamos para a balada. Se arruma amiga” – Su me incentivou.
“Dorme mesmo Helena, os gatinhos nos esperam. Uhuuul!”- Depois dessa provocação de Loren, espantou todo o meu sono. Ela se acha a melhor e eu não quero ser sempre a que está por baixo.
“Quer saber? Vou sim e vou agora. Já estou me arrumando.”- Pulei da cama e olhei minha mala, só havia roupas comuns. Peguei uma calça Jeans, uma blusa larga de frio que estava na tendência do momento e uma sapatilha. “O melhor look”, eu pensei. Afinal, não podia passar frio, nem machucar os pés e Jeans combina com tudo.
Ao saírem do banheiro, eu gritei: — “O que acharam?”
Suzana desagradou-me com o olhar e Loren fez gesto de vomitar. Será que estava tão feio assim?
“Helie, aqui tem aquecedor em todos os ambientes, até na piscina, nada de blusas largas, usa seu short mais curto, uma blusa brilhante preta minha e faz cachos em seu cabelo… ah! não se esquece de muita maquiagem e salto.” – Disse Suzana, já me passando a blusa e os saltos finos.
“Ok, eu aceito, mas não se sintam mal se eu chamar mais atenção do que vocês” — Ao dizer essas palavras, Loren me fuzilou com o olhar. Ninguém negava que quando o assunto era dança, eu era a melhor. Desde pequena tive muitos professores de dança, desde funk a hip hop, e até mesmo ballet. Todos os estilos me encantavam e eu sempre arrasava. Apesar de não gostar muito de sair, não negaria um convite das meninas e uma oportunidade de mostrar para Loren de que eu conseguiria ficar sim com alguém. Porque oportunidades não me faltaram, pelo contrário, mas a timidez era meu problema. Porém hoje prometia ser diferente, estava no MEU ambiente, na dança.
“Vamos nessa, MENINAS MATE” — Falou Suzana depois que todas nós já estávamos prontas.
“Como é que é?”
“MENINAS MATE, meninas prontas para matar todos aqueles homens de tes…”- cortei a fala dela, antes que desse '‘merda’'.
“Já entendemos Su”- falei.
“To indo até sem calcinha” — falou Loren e piscando o olho. Meu Deus, que puta. Ela se superava a cada dia — “E você, aproveitadora de incapazes?”- Agora já era demais.
“Loren, seu te pegar, juro que te mato” — E já fui para cima da oxigenada. Ela pensa que eu não sei que o cabelo dela é “pura química”. Mas, infelizmente Suzana me puxou, antes de eu dar uns tabefes nela.
“Dá para parar? Somos o grupo MENINAS MATE, temos que nos unir e arrebentar com a concorrência”- Se Suzana me chamar de Menina Mate de novo, acho que a próxima a morrer será ela.
Então, nós entramos na balada como se fôssemos realmente um grupo. Caminhávamos lado a lado, com os cabelos soltos e roupas sensuais. Se estivéssemos no Colégio, seríamos com certeza as meninas mais populares.
Parecia que nenhum olhar se voltava em outra direção a não ser a nossa, até as mulheres nos olhavam para compararem com elas mesmas. E os homens, nos olhavam com cobiça.
A balada era grande e espaçosa, uma boate de luxo. Havia jogos de luzes e vários DJ's, castiçais, lustres e armas antigas adornavam o local, garçons passavam com petiscos bebidas quentes. No meio da boate tinha uma cascata de água que iluminava e dava um ar de requinte.
Inicialmente, começamos a dançar juntar, mas como a balada estava muito movimentada, acabamos esbarrando em um e outro e quando vimos, já estávamos bem separadas, mas não muito longe.
Naquele momento, era uma música muito boa que tocava, tinha uma batida forte que agitava o lugar e eu dançava até o chão, rebolava e inventada passos. Não demorou muito para um rapaz encostar-se a mim. Ele era alto, másculo, com certeza, Italiano. Usava um blazer preto e jeans. Tentou se encaixar no meu corpo no ritmo da música. Ele descia comigo e me intrigava.
“Qual é o seu nome, princesa?” — falou o rapaz no meu ouvido com um inglês, mas ainda com sotaque italiano.
“Menina Mat… quer dizer, Helena.” – quase que eu falei Menina Mate. Isso é contagioso.
“Lindo nome. Concede-me?” — ele perguntou como se me convidando para dançar mais com ele.
“Claro.”
Dançávamos como um casal. Eu já havia bebido muito e estava mais desinibida, mas quando ele começou a apalpar meu corpo, eu não aguentei e o empurrei. Ele, insatisfeito pela recusa, agarrou meus braços com força e me puxou a ele.
“Qual é princesa, eu sei que é disso que você gosta”.
“Me solta seu cretino”
Eu gritei, mas ninguém ali pareceu ouvir, a música estava muito alta e todos bêbados. Ele começou a me machucar em sua busca desesperada por prazer e quando eu pensei que não conseguiria, uma mão forte me puxou em segurança.
“Tira essas mãos imundas da Helena, seu imbecil.”- dizendo isso, Lucca desferiu um golpe no rosto do rapaz. Ele estava visivelmente alterado. Os olhos dele chamuscavam de ódio só de pensar na probabilidade de alguma coisa acontecer comigo. Eu não sei de onde ele surgiu, mas ele estava ali. Para me proteger.
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