Assuri

1 Capítulo 1


Quando o sétimo filho de uma família assuriana nasce, ela é levada ao Ritual do Sangue. Quem deve segurá-lo é seu irmão mais velho, e quem deve cortá-lo é o sacerdote da tribo. O corte fundo que é feito no antebraço ou na coxa pode causar sequelas permanentes, mas o sangue do recém-nascido é extremamente necessário para produzir o axé. Esse líquido estranho guardado num pequenino recipiente de barro é pendurado no pescoço da criança junto com o amuleto do símbolo da tribo, e só assim os outros passam a considerá-la um membro da família.

Eu não possuo um axé.

Minha mãe não me levou ao Ritual do Sangue, e por isso o sacerdote não me cortou. Minha mãe já havia perdido três das seis filhas por causa das sequelas, e não queria perder mais uma. Foi por causa disso, e somente por isso, que ela e minhas irmãs me abandonaram na floresta.

Quando crianças sem axés são abandonadas, ainda mais se tratando de um sétimo filho ou filha, os espíritos ficam com pena e tentam ajudá-las. Os Ajás, como o chamamos, vêm como um redemoinho, e as levam para viverem com eles. Os espíritos as ensinam tudo sobre magia, e as transformam em bruxos e bruxas para se auto protegerem das outras criaturas.

Quem me contou tudo isso foi o meu mestre, um Ajá. Ele me deu abrigo, um talismã – que aumenta o poder dos meus encantos – e um patuá, uma mini caderneta que deixo pendurado em meu pescoço, onde estão escritos vários feitiços e contra-feitiços que ainda não memorizei. Tais objetos, por revelarem o que sou realmente, permanecem escondidos sob minhas roupas, senão seria difícil me aproximar das pessoas para realizar meus trabalhos. Pois fiquem sabendo que um bruxo ou bruxa não tem muito do que viver, nos restando apenas o que sabemos fazer de melhor – a magia – para garantir o nosso sustento. E com tantas criaturas místicas por aí, quem não iria desejar uma bruxa por perto?

Era exatamente isso que iria fazer naquela manhã, quando desci da casa na árvore: mais um trabalho. O jardim da frente já estava lotado de arus, uma espécie de sapo bem pequeno, um sinal de que meu mestre estava cuidando muito bem do seu lugar favorito.

— Mestre! — Chamei. E assim que minha voz ecoou pelas árvores próximas, uma leve brisa se aproximou vindo das folhagens. Ela tentava dar forma a algo parcialmente invisível, onde só era possível localizar dois globos azuis, que eram seus olhos, e o contorno de seus braços e pernas, cobertos pelas folhas que a brisa levava.

— Não acordou um tanto cedo demais hoje, Ninawari? — disse o espírito.

— Na verdade mal consegui dormir, mas não importa, vamos ao que interessa. Algum sinal dela hoje?

— Não há provas de que seja exatamente ela, mas na tribo Patar, a alguns quilômetros a oeste, animais estão morrendo de forma bastante estranha, e não há espécie que não seja poupada. Alguns acreditam que seja apenas um caçador natural da floresta, mas a maioria diz ser uma criatura mística que já se transformou até mesmo numa cobra.

— A tribo Patar não é longe. Vou dar uma olhada, estou sem sono mesmo.

Eu não estava revoltada por não ter conseguido dormir, já estava me acostumando, pois a insônia me atacava já a alguns bons meses. Já não fazia diferença dormir, as criaturas místicas estavam aparecendo e atacando próximo das tribos de dia e de noite. Se eu tivesse sorte, aquela que eu mais procuro também não estaria se escondendo mais, e apareceria cedo ou tarde para dar o seu bote.

Cheguei à tribo Patar mais rápido que imaginei, e logo me deparei com uma situação incomum. Os portões da pequena tribo estavam abertos, e algumas pessoas saíam com trouxas cheias nos ombros, carroças sendo puxadas e crianças pequenas no colo. Elas fugiam com medo de que o próximo alvo da criatura desconhecida fosse sua família.

— Onde está o aboré de Patar? — perguntei a um dos homens que saiam com sua família, e ele apontou, com rancor, para a maior tenda no meio da tribo.

O aboré, um tipo de sacerdote-chefe de uma tribo, é o responsável por todos os moradores dela. É ele quem a abençoa, quem ajuda as mulheres a darem vida, quem passa os recados dos mortos a seus parentes, e quem protege o povo das criaturas que o rodeiam. Infelizmente, este aboré em particular não estava cumprindo com uma de suas obrigações, e é nesse tipo de caso que eu entro em cena.

Entrei na maior tenda da tribo e vi um homem idoso sentado sobre uma trouxa de peles de animais. Orava a algum de seus deuses, e por isso achei que seria desrespeitoso interrompê-lo. Aguardei até que ele abrisse os olhos.

— Você é a bruxa Ninawari? — Ele me reconheceu, espantado. Meu nome já havia corrido por algumas tribos por vários trabalhos que realizei, por isso não me espantava mais quando não precisava me apresentar. — Eu sabia! Sabia que viria nos ajudar.

Precisei de apenas um dia para descobrir o que atacava os animais de Patar. A primeira investida que vi foi no meio da tarde, quando um dos bois agiu de forma estranha e começou a atacar as vacas por perto. Quando consegui me aproximar, o boi e as vacas feridas haviam desaparecido.

— Ataque entre a própria espécie. Disfarce. — Retrucava para mim mesma, enquanto tirava meu patuá debaixo da gola da roupa e procurava em suas páginas algo que se parecesse com aquilo.

A segunda investida aconteceu ao cair da noite, e o alvo foi um dos poucos cavalos que a tribo possuía. Não precisei ver a cena toda para saber como agir, levantei logo da pedra onde me sentava, me aproximando do animal enfurecido e, confirmando algumas palavras da minha caderneta, lancei meu feitiço.

— Apeoka.

Assim que apontei para o cavalo, sua pele foi se descascando, sua crina caiu por completo, seus olhos ficaram brancos como o leite, e sua forma se desfez. O animal transformou-se por alguns segundos numa sombra viva e sem contorno, de olhos irradiantes. Um uivo saiu do fundo da escuridão de seu corpo, enquanto ele voltava a uma forma menos hostil, a sua escolha, transformando-se numa raposa vermelha. O animal sentou e olhou na minha direção. Ele era esperto o suficiente para saber que, agora que eu sabia sua verdadeira identidade, o mínimo que poderia fazer era me servir.

— Era um Janaúg. — Expliquei para o aboré de Patar, enquanto alguns moradores da triboouviam com atenção ao redor da tenda. — Ele não tem uma forma própria, então imita a forma de outros animais para caçá-los. Provavelmente entrou na tribo junto com os rebanhos sem que percebessem e, vendo que havia muita comida, preferiu ficar.

— Ele não vai voltar? — perguntou um dos homens mais velhos.

— Não, eu garanto. Já o coloquei para fora.

A tribo aprendeu a lição bem rápido, e assim que me retirei, os portões foram trancados e alguns dos moradores decidiram trabalhar como guias noturnos. O problema maior seria com criaturas místicas da noite, as do dia nem sempre eram hostis. Como aquele pequeno janaúg em forma de raposa, que me esperava sentado do lado de fora do portão.

— Vamos? — disse a ele.

Mas o que a maioria dos humanos não sabe é que os animais místicos tem um senso de dever incrível, e quando fazem algo de errado, sabem se desculpar, e sabem como se redimir.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.