Assombrações e Mitos
1 Comerciante da Rua 10
Notas iniciais
É uma noite tranquila e os telefones da delegacia do bairro de Muchila tocam. O delegado exausto da repetição de acontecimentos, simplesmente reclama:
— Ai que droga! Mais um recém chegado da rua 10! – Diz o delegado debruçado em sua mesa.
— Ar... de novo aquela estória de barulho na rua, chefe? – Pergunta um jovem rapaz, carregando uma caixa cheia de papeis.
— Pois é, pois é! Toda vida é isso Claudio! Chega até dar uma raiva! Eles reclamam, reclamam e reclamam...
O Claudio, com um sorriso debochado, fala colocando a caixa de papeis sobre uma cômoda de arquivos.
— Toda vida é assim chefe. Ligam e ligam, mas depois param. Certeza que é trote dos pivetes de lá.
— Trotes?!
O delegado pega a sua caneca de café que estava sobre a mesa, e ré encostando na cadeira, olhando para o teto, continua.
— Não Claudio, isso não são trotes. Isso é outra coisa. Quem liga pra gente, é quem recém se mudou pra rua 10. Ainda não sabem como as coisas lá funcionam. Desacostumados, essa é a palavra. Assim que vem a razão dos barulhos, se acostumam rapidinho.
Claudio caminha até o canto da sala onde tem uma jarra de café e se serve, colocando apenas uma colher de açúcar. Após tomar um gole, se encosta na porta do escritório do delegado, perto de uma outra mesinha pequena, com uma cadeira mais simples e um computador branco quase amarelado de tão antigo.
— Hum, desacostumados né? – Diz Claudio.
Claudio observa o delegado com uma expressão confusa, quase insatisfeita com o que foi dito pelo delegado. O delegado percebendo que o garoto está confuso, sorri como um caçador que capturou a presa. Limpando a garganta com alguns pigarros diz:
— Sim, sim. Desacostumados, pois quem vive nessa rua já viu o que faz esses barulhos rapaz. É um comerciante. – Diz o delegado abaixando o tom de voz.
— Comerciante?! Ora, se já sabem quem é! É só meter o sarrafo no infeliz. Comerciante safado. Não deixando o povo dormir de noite!
— Sim, sim. Mas não é um comerciante qualquer, sabe rapaz? É um dono de uma carroça. E é uma carroça velha, cheia de panelas e trapos. – Diz o delegado em tom ameno.
— Ouxi delegado, do jeito que o senhor está falando, tá parecendo até assombração.
— Sim, sim... Por que sabe como é né, garoto? É que esse comerciante, só trabalha da meia noite até 3:00 da manhã e a carroça dele. É puxado por cavalo nenhum.
O Delegado olha de canto de olho para o rapaz que ficou paralisado. Um frio arrepio correu pela espinha do jovem moço, sentia seu coração acelerado e a respiração forte. Por um espaço de tempo, ficou imóvel e tremulo, até que de supetão, o telefone toca mais uma vez e ele, em um salto quase derruba seu café. Com isso também o delegado cai na gargalhada.
— Mais que coisa, delegado! Contar esse tipo de estória para a pessoa! Quer me matar do coração?!
— Desculpa, desculpa Claudio. – Tomando um pouco de ar – Mas eu não pude evitar. Acabou que seu susto fez minha noite.
— Tá... Tá... que engraçado né? Se já se divertiu me enganado com essas lendas bestas de assombração! Atenda aí mais uma reclamação.
O delegado ainda com um sorriso no rosto e enxugando as lagrimas da brincadeira, limpa sua garganta, e sentando olhando para sua caneca de café quase vazia diz.
— Pois é... Pois é...
TRIM
— Eu esqueci de dizer. Isso não é uma lenda Claudio.
TRIM
— Eu sei porque, depois da primeira ligação, eles ligam de novo.
TRIM
— Eles descrevem quase que nitidamente o que viram.
TRIM
— Se não acredita!
TRIM
— É só atender.
TRIM
Claudio olha novamente o delegado e suando frio pega o telefone. Levando vagarosamente até a sua orelha, escuta um respirar pesado e angustiado, de uma mulher. Que diz.
— Alô? É da delegacia?
Fale com o autor