Luzia teve um sobressalto assim que entrou na delegacia. Chorava compulsivamente, dizia que não tinha culpa de nada. Ninguém lhe ouvia. Sentiu até certo enjôo, quase chegou a passar mal, mas o Soldado Freitas apenas riu enquanto jogava a mulher na cela feminina.

-Vamos ver se você não vai confessar o crime, vadia. –Luzia voltou a chorar, encolhendo-se com medo. Tinha medo de o homem tentar por certo agarrá-la, como havia prometido se ela não escapasse, tinha medo de que fosse colocada como criminosa, quando não o era. Não tinha nem advogado.

-Eu — Eu tenho Din-Direito a um — um telefonema!- Conseguiu arrumar forças dentro de si para falar. O homem pareceu não ouvi-la e Luzia não sabia para quem ligar. Seu pai naquela hora certamente não atenderia. Vó Vanice, ela poderia pedir para ela avisar seu pai e tentar um advogado, mas Vó Vanice não tinha muito dinheiro, no máximo o que conseguiria era avisar seu pai, além de orar por ela. Além do mais, ninguém se preocupava com ela. Fátima pouco se importaria. Seu pai nem ligaria se ela chegasse ou não em casa naquele dia. Por ora, ela não queria nem chegar a casa. Enfrentar a rua, todos rindo de sua aparição na televisão era muito para sua alma pobre. Então, para quem ligar?

Vó Vanice poderia arrumar um advogado para ela. Mas ela não teria dinheiro para pagar. Além do mais, lembrara, por sinal, que naquele momento Vó Vanice estava trabalhando por aí, num trabalho que ela desconhecia e ela só sabia de cor o telefone da casa da mulher, que não estaria em casa. Não sabia nem mesmo o número de Jonatas de cabeça, e, de qualquer forma, não iria encher quem não conhecia. O homem não tinha nada a ver com sua vida, mal o conhecia. Por que pensara nele?

Por que você mal ou bem se arrumou para vê-lo e está chorando, tirando a maquiagem toda. –Pensou. Seu coração acelerou. Ele teria visto ela na TV? Ela não saberia dizer, nem se queria que ele tivesse visto.

Encolheu-se mais enquanto tremia, limpando o rosto. Soldado Freitas ria dela, ralhando que quem chora é por que tem culpa. Estava prestes a lhe tirar da cela para mostrá-la pelo que uma mulher deveria chorar quando, esbaforido Jonatas entrou naquela ala da delegacia, já com o delegado ao seu lado.

-Presumo que esta amostra não será feita e que, portanto, indiciarei você por falta de conduta no trabalho, bem como ameaça. –Disse o homem rapidamente, o rosto de certa forma vermelho de raiva. Luzia se encolheu ainda mais. Embora aliviada pela presença do homem, por salvá-la assim, sentia-se mal o vendo, tão feia como estava sendo ajudada por um homem que mal conhecia.

Freitas fez uma leve carrancuda e o Delegado olhou o estagiário. Ainda não era um Doutor da Lei, mas estava representando para quem trabalhava, embora ele mesmo que fosse pagar tudo, se não o trabalho não aceitaria. Luzia de nada saia, apenas ficou assustada quando o homem abriu a cela, demonstrando que estava livre.

-Seu pedido de Habeas Corpus fora aceito. Luzia responderá em solta, mesmo sendo apenas suspeita como os outros. Imagino que o melhor seja levá-la para almoçar, ela está sem comer desde as seis da manhã. –Alegou o Delegado e cordialmente Jonatas concordou, apertando a mão do Delegado, agradecendo e sorrindo. O homem concordou e Jonatas voltou os olhos para a mulher que tinha o corpo todo tremendo. Seus olhos mel olharam claramente para a garota, perguntando-lhe:

-A Srta. Está bem? –Luzia tentou contagiar-se pela paz e preocupação que o homem tinha por ela, mas se sentia mal pelos olhos vermelhos de tanto chorar, o rosto sem maquiagem alguma, no entanto, para Jonatas, mais bonito que qualquer outro. Ela não conseguiu respondê-lo olhando para baixo.

-Venha, vamos almoçar. Deixei um táxi nos esperando, temos que sair rápidos que ainda há certa imprensa nos portões. –Luzia concordou enquanto, no ímpeto sobre humano abraçou o homem, chorando, colocando o rosto sob o peito do homem, já que era pequena para isso. O homem abalado a abraçou também. Luzia se sentia bem sob a quentura da pele do mocetão, aquele que fora seu único refúgio quando ela precisava de todos que contava como amigos. Sentia-se tão mal por fazê-lo passar por uma situação dessas.

Percebeu então que a quentura que outrora achava ser normal do mocetão, não era decerto assim. O homem estava tremendo. Soltou-se dele para então ficar assustada.

-Você está com muita febre! –Ralhou ao homem que com um leve sorriso desmanchou todo esse pensamento.

-Já estou melhorando. Não se preocupe. Vamos, vamos almoçar. –Luzia tentou continuar a leve briga, mas correu na direção do homem, sem tocá-lo. Já bastava o abraço estranho que havia o dado, não queria que o homem pensasse que era atirada. Contudo, o leve toque já havia aquecido o coração da menina que se sentia com tanta paz e tão corada, tal como a cor de uma cerejeira. Jonatas, por sua vez, estava custando a acreditar que aquele toque o houvesse tirado quase do equilíbrio, tomando a garota pelos lábios. O que para ele era surreal, ela só estava precisando de um ombro amigo, não um homem naquele momento. Tratou de levá-la a um restaurante que pudesse pagar para os dois sem gastar muito e que fosse elegante.

-Obrigada Jonatas. Mal nos conhecemos e o senhor já é tão bondoso comigo. –Disse a garota colocando uma garfada na boca.

-Não poderia ser por menos quando lhe vi na televisão.

-O senhor me viu? –Perguntou a garota com a timidez sobressaltada.

-Jonatas ou você de preferência, Luzia. Sim, eu pedi para ligarem esta manhã. Quase não ia sair. Estive com febre. –Respondeu o homem também comendo.

-Você ainda está por sinal. –Disse Luzia preocupada. O homem deu de ombros, como se fosse algo normal. Luzia se perguntou se acaso ela tinha alguma culpa com isso, mas preferiu não perguntá-lo.

-Já estou medicado. Isso é o importante. –Luzia baixou o olhar.

-Não quer dizer que isto não poderia ser minha culpa se você adoecesse aqui. –O homem riu.

-Nada vai acontecer Luzia. Mas conte-me, como foi seu dia? –Luzia tornou a possuir uma cor vermelha sob o rosto que o homem achou tão natural e bonito que teve medo de parecer um idiota ao olhá-la. Luzia, por sinal, voltou a falar, tentando fugir do olhar. Sabia que, por mais que seu coração batesse forte ao lado do garoto, não poderia tê-lo. Sua situação era complicada, afinal. Por isso, preferiu não comentar nada de quando saiu de casa, nem por que saíra tão bonita, quando ele a elogiou. Limitou-se a contar como se sentiu por alto. Novamente seus pensamentos a acusavam de que se mantivesse uma conversa educada com ele não o faria gostar dela e ter que enfrentar seu pai.

O homem, por sinal, ao perceber isso, tentou manter-se agradável e a elogiá-la, mostrando que não desistiria tão fácil. Contou sua história também, como era o ambiente em casa para que talvez a garota pudesse se abrir, mas ela não o fez. Parecia um mistério tão grande a vida da menina que ele percebeu que o melhor para desvendar tudo era acompanhá-la em casa.

-Me preocupas como você está. Permita-me levá-la em casa. –Luzia arregalou os olhos, ficando pálida. Por alguns segundos Jonatas pensou que na casa dela ela sofria muito, mas depois mudou de idéia achando que ela tinha medo de ele ver sua casa pobre. Mesmo assim não desistiu, quando ela disse:

-Não é preciso. Afinal, você se encontra bem pior do que eu e nem por isso insisto em acompanhá-lo em casa. –O homem riu.

-Ora, se te interessar, podemos tomar café em casa. Receio que Afrodite não veria problemas em ter mais alguém para o café. O que me diz? –Luzia tinha muita vontade de conhecer ainda mais o garoto que estava a sua frente, porém, machucando todo o seu desejo, o seu cérebro lhe acusava de esquecida, de que estava alimentando desejos e que ele fugiria assim que visse onde ela morava e de quem era seu dever cuidar até a morte.

-Não é preciso Jonatas. Agradeço o pedido, no entanto, prefiro ir a casa, tomar um banho. –Jonatas a olhou nos olhos, vendo o brilho o olhar dela se apagando, como se ela se auto machucasse.

-Se você não tomar café conosco te acompanharei até em casa contra sua vontade. O que me diz? Podemos ficar de bem, afinal, pense como um favor que me faz ter sua presença perto de mim. Não posso imaginar o porquê me queres longe de sua casa, mas adianto-lhe que lutarei mesmo assim. Nunca perderia nossa amizade por questões familiares.

Talvez só perdesse o amor. Seu coração gritou. Luzia decidiu investir um pouco. Preocuparia com sua consciência depois. Precisava resfriar a cabeça. Ficara tanto tempo em estado de choque por causa da morte que era só o que pedia. Deu a desculpa ao seu cérebro que só assim teria certeza que o homem ficaria em casa e cuidaria do seu estado complicado. Quanto a seu caso, ele nem havia comentado.

-Tudo bem. –Respondeu com vergonha. –Mas depois você fica em casa e eu vou para casa sozinha. Tudo bem? –O homem, tentando não mostrar que estava extremamente eufórico deu um leve sorriso para a mulher, assentindo.

Ao chegarem, Afrodite adorou a visita. Reclamou dizendo que se sentia tão só, que geralmente tomava chá apenas com Jacque, seu marido, que os outros dois estavam, respectivamente, na faculdade e no bico, e que Jonatas só chegava por volta de meia noite em casa. Só o via finais de semana. Jacque ficou feliz em ver o filho, abraçando-o contente. Adoraram a jovem garota, que parecia simpática e decerto inteligente. Perceberam, sem comentar, o brilho no olhar de Jonatas, vendo a menina. Depois de conversarem sob assuntos banais, enquanto Luzia se oferecia para lavar a louça, o que fez Afrodite gostar ainda mais dela por não ter que sujar as unhas feitas há pouco tempo, Os adultos deixaram os dois sozinhos enquanto Luzia aproveitava para perguntar sobre seu caso.

-Bem, ele vai ser resolvido. Agora que você tem um advogado, fica mais fácil. Não poderão colocar a culpa em você, por que sendo defendida, você mostrará que não tem nada a ver com isso, que é inocente e não passível do que a Justiça determinar. Já encaminhei seu caso para onde trabalho.

-E eles aceitaram mesmo eu não podendo pagar nada disso? –Perguntou Luzia assustada. Jonatas ficou meio transtornado, não havia contado isso para ela.

-Claro. Eu estou cuidando do processo, não se preocupe. –Disse. Não queria mentir para ela, entretanto não queria vê-la mal sabendo que ele estava tirando do próprio bolso para pagar tudo aquilo.

Logo mais, assim que terminaram de arrumar a cozinha, Luzia decidiu que estava tarde e que iria para casa para descansar para o outro dia. Jonatas concordou enquanto sorria. Ela se lembrou de pegar a bolsa e ele se ofereceu para pegar. Ela concordou, ele a entregou e ao tocar sua pele para lhe dar a bolsa, e abrir o guarda-chuva, pois estava chovendo, para ela não se molhar. Luzia não pode deixar de se perder naquelas atitudes tão formais e gentis.

Desde pequena nunca teve a gentileza de ninguém. Às vezes Vó Vanice, mas esta sempre fora amiga de sua mãe e viu com a morte desta um dever de cuidar da menina. No entanto, ninguém nunca fora tão gentil assim com ela. Seu coração se apertava, trazendo-lhe a lembrança da mãe querida. Lágrimas voltaram a cair sob seus olhos, molhando a face e Jonatas pensou ter feito algo errado. Ela discordou enquanto apertava um lábio sob o outro. Aquele dia tinha sido um dia cheio de emoções, não lhe fazia pensar como estava abalada emocionalmente.

-Não. Eu... Lembrei da minha mãe. –Disse e então completou — Ela está morta. Nunca ninguém foi tão gentil comigo como agora depois da morte dela. Só ela. -Jonatas se sentiu abalado. Achava tantas vezes que a sua situação era ruim, mas ao menos tinha o pai que o amava. A mãe longe. Sentia compaixão pela menina que aos poucos mostrava quão delicada e sofredora era a sua vida. Ele reclamava de ter a mãe em outro estado, quando nem havia a conhecido direito. Pior seria se lembrasse dela. Luzia sofria muito mais que ele.

Limpou as lágrimas que corriam do rosto da menina enquanto sorria, murmurando:

-Agora você tem a mim Luzia. Esta é a minha promessa. Eu não poderia vê-la de outra forma, visto como me sinto com você. –Respondeu. Luzia, com os olhos marejados soltou o guarda chuva da mão. Jonatas era aquele amigo que ela sempre sonhara em ter, no entanto sua sorte nunca aceitou.

-Obrigada. –Respondeu. –Eu não sei, mas eu me sinto tão bem com você. Como se estivesse protegida. Desculpe-me o desabafo. –Jonatas negou e então tocou as mãos quentes sob a bochecha da menina e, tendo seus olhos sob o dela, murmurou da forma que pode:

-Você está protegida. Eu nunca deixaria nada acontecer com você. –Respondeu o garoto e, sem dar tempo para os pensamentos racionais, tocou os lábios da menina. O toque simples mexeu sob o corpo da menina, arrepios que subiam até o peito, sob os braços. Ela não negou aquele sentimento tão sublime, deixando-se levar pelo beijo. Nunca havia sentido aquele sentimento.

Jonatas tocou-lhe o cabelo, beijando-lhe ternamente. Sem terem coragem de descolar os lábios, unidos por um sentimento de angústia e amor que os completava, o beijo cresceu em suas amplitudes. Jonatas sabia que sua mão já passava pelos cabelos da menina, enrolando-se nas ondulações. Luzia, também. Decidiu então dar tempo àquelas emoções. Tinham sido muitas para um dia só.

Soltou dele, com vergonha, que a beijou sob os cabelos e lhe deu um selinho. Luzia pegou o guarda-chuva colocando em sua frente, enquanto mencionava:

-Até amanhã Jonatas. Pare! Logo nos veremos. Acalme-se. –E ria, quando ele continuava teimando beijar-lhe. Correu casa a fora quando se viu solta dele e sorriu. Olhou a chuva que caia rala e sorriu.

Havia muito tempo que não havia sentido um sentimento, uma felicidade tão boa como aquela. Mesmo o dia sendo abarrotado, tudo tinha sido tão perfeito. Não tardou a chegar a casa. Um sorriso sob os lábios só de pensar: No outro dia verei Jonatas.

E assim foi.

Notas finais
Obrigada as reviews *-*
Espero que este capítulo não tenha sido tão ruim rs
Bjoos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.