Assisto Do Destino.
2 Capítulo 2
Acordou indisposto, com febre e muita gripe. Tendo feito aquela fantasia do outro dia de querer acompanhar a menina só o fez passar por uma chuva desgraçada e, ao chegar a casa, estando sem luz, tomar um banho frio. Com isso, o final de tudo fora passar a noite em claro. Sentia o corpo arder, dilacerando. Virava para todos os lados tremendo, como se estivesse enfrentando uma geada e, por horas acreditava que via um vulto no quarto. Como não queria chamar a atenção de ninguém, só teve que chamar alguém quando jurou ver a porta abrindo uma boca grande, saindo da parede e tudo voltando ao normal. Estava vendo coisas, a febre parecia quase impossível.
-Afrodite... –Chamou o homem ao estar escorado na porta com a pouca voz que restara da dor de garganta. A mulher, sempre atenta a tudo da casa foi ao encontro do garoto com ligeira irritação.
-O que há Jonatas? –Respondeu revirando os olhos. Este tendo visto alguém que pudesse atestar que estava vivo, adentrou ao mundo escuro que suas pálpebras pestanejavam encontrar e adentrou o mundo obscuro dos sonhos, desmaiando a frente da mulher.
-Ah Meu Deus do céu! –Gritou a mulher e, movida pelo ímpeto humano de ajudar ao próximo, natural em situações pragmáticas como tais, acudiu aos filhos que ainda encontravam-se em casas, logicamente, já que eram mais letárgicos do que o coração da mãe. – Flávio, Fabiano! –Gritou e os homens abriram as portas de seus quartos, levemente sobressaltados.
Ao verem a cena não tiveram como não ajudar a mãe. Levaram o meio irmão até a cama, agasalharam-no muito bem, inclusive com outros cobertores e, enquanto um constatava os locais de compromisso do homem, indicando qual problema se passava com este, o outro descia para fazer um chá que melhoraria a garganta do irmão quando esse acordasse. Afrodite limitou-se a limpar o suor do homem por todo o corpo de forma possível com o pano molhado e frio, passando panos sob a cabeça enquanto este não acordava e, de quando em quando, tirando-lhe a temperatura para ver se baixava. Encontrando-se essa estancada em trinta e oito ponto cinco, a mulher sentiu-se mais aliviada, passando manteiga de cacau sob os lábios do homem para que não se ressecassem frente a tanta perda d’água.
-Afrodite? –Ressoou a voz do homem depois de algum tempo. Estava com quase nenhuma voz, forçando para que tudo saísse por dentre os dentes.
-Fique quieto Jonatas. Sentes-se melhor? Chamarei Fabiano para dar-lhe o chá que meu querido faz com tanto empenho. Dar-te-ei também uma aspirina. Com licença.
Jonatas já sabia que os cuidados da mulher eram apenas remorsos por ser tão leviana quando deveria ser mãe também. Poderia não ser sua mãe –e obviamente não era –Mas os cuidados que certas mulheres dão para seus agregados, por menor que sejam eram muito melhores que Afrodite acreditara ser necessário empenhar no mocetão. Ele também não sentia falta. Tinha passado por uma situação ruim, fora por isso que necessitou da mulher.
-E aí Jonatas? –Perguntou Fabiano. Jonatas deu um leve sorriso e sentou-se na cama. Entendia-se bem com Fabiano, possível médico da família, embora estivesse apenas no segundo período ainda. Era um homem simpático, que tratava todos bem, muito embora por ser de certa forma muito inteligente, nunca assistia os primeiros tempos até nove, dez hora da manhã, pegando depois e estudando sozinho. Considerava preguiça, já que o jovem mocetão só queria esse momento para dormir, mas se comparado a Flávio que nada queria da vida, Jonatas gostava de Fabiano.
-Olá. –Respondeu com um fio de voz. Aceitou o chá feito com as aprendizagens poucas que teve e bebericou com muito esforço, visto que o chá era forte, verde escuro e denso. Pequenas folhinhas ocupavam a parte mais acima do copo. Dando um cheiro de força e masculinidade ao produto. Embora o gosto não fosse nenhum pouco agradável, quase como se estivesse se alimentando de jiló.
-Do que é feito isso? –Perguntou tossindo, o que de certa forma parecia bom, pois aos poucos o homem recuperava o fio de voz. Fabiano riu, com gracejos e sorrisos e respondeu:
-O mestre nunca pode revelar seus segredos. Perderia a graça saber de meus conhecimentos, por hora, não necessitaria de meus cuidados e, os poucos momentos que temos juntos seriam reduzidos a nada, visto ao Jonatas autossuficiente aqui presente, não?
O homem riu, concordando. De fato, aprendera desde cedo a se virar sem dar trabalho para ninguém. Sonhava um dia encontrar Luzia novamente, embora estivesse ainda preocupado com seu estado de saúde. Sabia que queria vê-la à noite, mas duvidava que o deixassem sair do ambiente pouco depois das dez da noite. Remexeu a cabeça e olhou a televisão no quarto. Quase como se o coração acordasse, decidiu pedir ao irmão:
-Poderia ligar a TV para mim? –O homem concordou ligando a televisão. Afrodite entregou uma aspirina para o homem que não tardou de tomar para que abaixasse a febre. Ainda tremia muito.
Naquele mesmo momento Luzia acabava de chegar ao trabalho. Tomada por uma coragem que ela mesma não sabia de onde vinha passou por todos e atônita olhou para o corpo. O repórter mencionou que muitos eram suspeitos ali, mas que ainda não havia aberto um inquérito policial e que as devidas pistas estavam sendo coletadas. Foram então ao encontro de Luzia, pois aparentemente a leve maquiagem que outrora havia pensado em colocar deixou-na com a aparência mais bonita daquelas que ali se encontravam, conquanto sendo entrevistada.
-A Srta. Como se chama? –Perguntou o repórter e Luzia olhou a câmera, como que exaltada com aquela tecnologia. Jonatas arregalou os olhos enquanto apontava para a Tela tremendo. Luzia estava deslumbrante sendo mostrada na TV. Os olhos negros, a pele sem espinhas, embora a sobrancelha fosse clara e fina, era meio falhada. Os cabelos mel caiam em cascata sob o ombro, além da pele clara tremeluzente, os leves lábios rosa- lilás, entretanto, entreabertos naquele momento demonstrando uma jovem assustada.
-Lu-Luzia. –Conseguiu responder depois de um esforço.
-Sabe o que aconteceu? –Perguntou o repórter e sem dar tempo para ela responder continuou: -Sabe que também está como suspeita para o crime? Tem advogado? Por que a barra é pesada, matar um chefe assim. Podem acabar te culpando, já que seus produtos estavam perto do homem.
-Carlos morreu. Não foi minha culpa. Eu, eu juro! Não tenho advogado, mas espero que possam acreditar em mim. –Atônito Jonatas discordou. Sabia que a justiça não era cega, e que geralmente era injusta, acusando aqueles que não eram os culpados em prol de dinheiro. Luzia não conseguiria se livrar se acreditasse nisso. Mas sabia que a sua condição também não era fácil. No entanto, acreditava nela! Embora a conhecesse por pouco tempo, sabia que ela não era a criminosa. Precisava ajudá-la. Onde ela trabalhava, por sinal, era bem perto de onde ele trabalhava.
-Sabe que eles vão interrogar todo mundo e manter todos presos enquanto isso? –Luzia arregalou os olhos e balançou a cabeça negativamente. Não respondeu mais nada, com vergonha, saindo correndo das câmeras, todavia sem fugir de dois policiais que a seguraram pelos braços, colocando-a dentro do carro. Jonatas bateu o braço sob a cabeceira da cama, ligeiramente irritado. Afrodite sabia que o garoto fazia Direito e achou normal, ele devia ter se estressado com algo mal dito, contanto Fabiano sabia o que aquilo queria dizer, além disso, Jonatas planejava fazer algo bem ruim.
Jonatas se levantou desligando a televisão. Afrodite concordou dizendo que a TV logo de manhã já mostrava mortes, o que era um absurdo. Jonatas não a ouviu, a mulher estava mais preocupada em perguntar a Fabiano se queria uma roupa passada.
-Não. Você ainda está doente. Eu te proíbo de sair Jonatas! –Disse Fabiano e Jonatas riu enquanto colocava uma blusa azul de manga comprida, um terno preto por cima. Fabiano tentou se colocar na frente do homem para que esse não vestisse calças, mas Jonatas revirou os olhos.
-Eu preciso! É o meu dever!
-Só por que você faz Direito isso não quer dizer que é o seu dever Jonatas! Ora, você quer ajudar os outros, mas antes precisa ajudar a si próprio! –Fabiano o olhou acusador, e, tentando ainda continuar com este, continuou, — Aliás, você nem conhece ela. Não vai conseguir ajudar em nada. Só gastará tempo e poderá morrer.
Jonatas riu e olhou nos olhos do homem e depois para Afrodite que na verdade estava mais concentrada em analisar um enfeite de elefante azul que Jonatas tinha na cômoda. Acostumada a nunca entrar no quarto, a mulher nunca havia visto.
-Esta é a diferença Fabiano! Eu a conheço sim! Eu a conheci ontem! Será que não é muita coincidência de Deus? Ora, Fabiano, ou ela é alguém que tenho que ajudar, ou estou enlouquecendo ao pensar nela em todos os minutos.
-Você diz isso por que a viu agora na TV. — Considerou Fabiano, sendo sensato. Jonatas negou.
-Eu digo isso por que algo me diz que eu preciso. Eu não vou largar minha única chance de ser feliz! –Num ímpeto impulso Jonatas pegou a calça vestindo-a. Colocou o sapato rapidamente, pegando a carteira, o celular e colocando na maleta que levava ao trabalho.
-Qualquer coisa eu te ligo e você vem me ajudar. Só espero que saiba que sou grandinho demais para ser barrado. –Jonatas saiu. Fabiano não conseguiu entender. Olhou o homem partindo, o ímpeto de não deixá-lo partir. Mas acabou ficando ali só. Afrodite pareceu acordar de sobressalto e Fabiano murmurou:
-Jonatas saiu. Mesmo doente, ele decidiu ajudar. –Afrodite deu uma leve risada.
-Ah, meu querido. Não vê que seu irmão é menos ajuizado que você? É mal da mãe dele. Deixe-o. Se morrer, já tem idade para cuidar de si. Nada poderás fazer. Você que está certo. Onde já se viu ficar ajudando pobre? –Riu com gracejo.
Embora Fabiano custasse muito, não conseguia achar o mesmo da mãe. Toda vez que pensava nesse sentindo lembrava-se, portanto, que, na verdade, a escolha de sua profissão deveria o levar a usá-la em prol dos mais necessitados, mesmo pobres. Todavia, só se preocupava em estudar, desocupado da vida. Seguindo-a sem se importar com o que os outros iam achar. Cuidava do meio — irmão, na medida do possível, mas não se via como o irmão. Fazendo coisas para os outros, tendo caridade. De certa forma, isso pesava tal como um remorso no mocetão que respirava fundo, tomado, entretanto, pelas palavras da mãe:
-Querido, venha, vamos tomar café da manhã. Mamãe está com saudade de tomar café com os seus filhinhos queridos. –Fabiano olhou a mulher a sua frente. Tão diferente de alguns anos atrás. Mais acabada, por sinal. Possuía os cabelos negros, com chamarizes de branco. Outrora, quando decidiu conquistar Sr. Jacque, Afrodite parecia, realmente, a personificação da mulher perfeita. Os cabelos negros bem cuidados, lisos até a bunda, os olhos verdes claros pareciam reluzir a alma jovem, a pele clara, o nariz fino, sem nenhum pé de galinha ou marca de idade, já presentes na pele de agora, assim como os cinco, sete quilos que havia ganhado com a idade. Sua mãe só vivia para eles, como se nunca tivesse um objetivo de vida.
Jonatas já havia dito isso, discutido feio com a mulher, visto sua personalidade de ser, de falar logo de uma vez tudo o que sente, e sair depois disso. A mulher disse que era mentira, que tinha um objetivo de vida e esse era ver os filhos encaminhados. Por sinal, o homem terminou a conversa dizendo:
-E depois? E quando eles já estiverem encaminhados? Vai entrar em desgosto profundo, pois a única meta de sua vida fora alcançada e você nunca se preocupou com outra. –Pegou o terno para seguir para o estágio e partiu. A mulher chorou o dia todo. Flávio ficou amargurado, tivera vontade até de comentar o ocorrido com Jacques, mas Fabiano pediu calma e disse que o faria. No final, ânimos restaurados, ele preferiu não fazê-lo.
Agora percebia como o caminho que Afrodite trilhava era o mesmo que Jonatas alertava. Não sabia também porque por ora esses pensamentos vieram a si, nunca se preocupou tanto com isso, vivia alheio ao universo. Balançou a cabeça saindo do estado de inércia e seguindo a mãe para o café da manhã.
-Tudo bem. Você vai chamar Flávio mãe ou quer que eu chame? –Flávio. Fabiano bem sabia como o jovem irmão o preocupava. Sempre dormindo tarde, chegando bêbado, com amizades estranhas, sempre vivia estressado e arrumava dinheiro do que ele chamava seus bicos. Não era o irmão a pessoa mais confiável a conversar ou talvez lidar, mas Afrodite estava alheia a todo o mal de Flávio e achava que era coisa de crise dos dezoito anos. Fabiano não concordava com isto.
-Vai descendo querido, eu chamo.
Fabiano concordou. Seus pensamentos estavam muito transtornados. Lembrou de mais tarde ligar para Jonatas ou sua namorada. Só podia ser crise de pensamentos, precisava fazer algo para esquecer.
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