Assisto Do Destino.
1 Capítulo 1
Observou ao longe o metrô chegando e o coração palpitou. Sabia que logo teria que correr para se meter no meio da multidão, no entanto, não era isso que lhe afligia o coração. Voltar para casa. Este era o maior dos problemas. Passava tanto tempo na rua, trabalhando, estudando, vivendo que, quando o relógio marcava dez e meia, a hora que ela saia do colégio rumo a estação para uma viagem de mais de uma hora, o seu coração mais do que ardia, pedia que não.
“Ele já vai estar dormindo quando eu chegar.” –Pensou a menina e suspirou enquanto esperava a porta se abrir. Adentrou correndo, a mochila pulando sobre os ombros e avistou um lugar em pé menos cheio, para qual se dirigiu. Quando o metrô partiu novamente, ela só conseguiu suspirar, olhando a janela. Seus pensamentos estavam sobrecarregados na tentativa de entender todo seu sacrifício com tão pouca idade.
“Eu tranquei o meu quarto?” — Esse pensamento a deixou alarmada. Seria tenebroso se ela tivesse esquecido este pequeno detalhe. Estava com tanta dor de cabeça. Poderia ser provável.
-Quer que eu segure sua mochila? Ela parece estar pesada. — Ouviu. De certo modo não era mentira. Carregava um caderno, uma apostila, uma marmita já vazia, o crachá do trabalho, bem como a roupa de servente. Também trazia consigo outra muda de roupa, caso não conseguisse entrar em casa, poderia vagar pela madrugada e no outro dia trocar de roupa no trabalho, bem como tomar banho. Entregou a mochila ao dito cujo, que, ao olhar aquele que a pedia com tanta formalidade, sentiu o rosto ruborizar.
O jovem rapaz possuía os cabelos bem negros tal como a escuridão da noite. Os olhos eram mel, de uma cor invejada e ofuscante. Estava com uma blusa três quartas azuis marinha, parecia um estudante de Direito, muito embora ela não tivesse certeza. Até por que se encontrava no término do ensino médio. Possivelmente não teria dinheiro para conseguir fazer uma faculdade, mas ainda não se preocupava com isso. Percebeu no garoto também, assim que ele sorriu vendo-a o encarar, pequenas covinhas delicadas. Tirou o olhar do mesmo, sabia que ele tinha percebido o olhar curioso e atento dela.
-Obrigada. –Respondeu ao garoto sem o encarar. Ele, por sua vez, parecia completamente entretido com a jovem a sua frente. Os olhos negros, embora brilhantes, os cabelos castanhos mel ondulados, a leve timidez, a mão delicada. Olhava cada detalhe, embora não soubesse o que a linda garota fazia àquela hora no metrô. Era muito tarde para ele, quem dirá ela?
O jovem mocetão também não podia ser considerado com a vida mais fácil do mundo, no entanto, com certeza fora mais fácil do que a da menina. Levando em conta que sua madrasta esquecia-se de sua presença, dando atenção apenas aos dois filhos que tivera com seu pai, e, sua mãe, casada com outro homem, vivendo na Europa, não mais no Brasil, sua única alternativa era andar por suas próprias pernas. Seu pai que tanto o amava conseguiu manter um tratado com o rapaz. Contanto que ele estudasse fervorosamente e usasse do dinheiro do estágio apenas para manter as necessidades pessoais, ele não seria atrapalhado no seu quarto, no andar de cima, muito menos perderia o cartão de passagens que utilizava, já que fazia Direito numa faculdade pública.
-Estudas para cá? –Perguntou à garota. Sabia que pareceria um louco, mal a conhecia e já lhe fazia perguntas íntimas, todavia pressentia uma vontade imensa de conhecer ainda mais daquela jovem. Ela o olhou, estranhando a pergunta e não o respondeu. Ele sabia que era falta de educação agir assim, assim, preferiu se apresentar primeiro:
-Me chamo Jonatas. Chamam-me de Atas. — A menina voltou a olhar-lhe. Supunha que o mesmo poderia ser um homem aproveitando-se de sua pouca idade, mas decidiu arriscar, algo a impelia a tentar algo desse tipo, uma crescente onda sob o peito.
-Luzia. –Respondeu enquanto se agarrava ainda mais a barra de ferro. –O senhor mora por aqui? –O homem, satisfeito, sorriu. Finalmente a conversa fluía.
-Moro daqui há dois pontos. E você?
-Três pontos. Um pouco mais que você.
-Sente-se aqui. –Ele se levantou. A conversa voltou a fluir. Ainda tímida por estar conversando com um estranho, Luzia respondia e falava pouco, contudo, ao passar da conversa sentia que o mocetão também era um homem de bem e que mais do que ela sofria na realidade que seu cérebro a fez esquecer, não haveria de existir.
A conversa continuou. O homem mostrou-lhe a identidade de estagiário e disse onde trabalhava. Ela também falou brevemente sobre seu caso. O garoto tomou a iniciativa de levá-la até a casa, visto que já era quase meia noite, mas a menina negou. Ele mesmo assim deixou passar seu ponto. Luzia não se sentiu bem com isso. Sabia que o bar em frente a sua casa estaria aberto, não queria uma má impressão agora que havia conhecido um garoto que não se importava com seu estado de estudante noturna.
-O senhor vai me desculpar, mas acho muito cedo para que me acompanhe. Deixe para a próxima viu? –E o metrô mal se abriu e a menina correu. Sentia de certa forma o coração palpitar, mas era humilhante já apresentar a sua vida horrível logo agora. A realidade, por sua vez, caía como um peso sobre seus ombros. Dezoito anos e enfrentando uma vida de cão.
Jonatas, por sua vez, viu a menina partir sem reação alguma. Ela correra tão rápido, como se estivesse fugindo de um monstro. Eles estavam conversando tão bem, por que isso logo agora? Estaria ele sujo, fedendo? Ou ela o achou estranho quando ele mencionou que o cerne de sua batalha se chamava Afrodite? Saiu em busca do metrô que pudesse o levar para a sua estação já passada.
Quase no meio do caminho para casa lembrou que a menina ainda segurava o seu currículo, o qual ele mostrara para comprovar sua vida integra. Sorriu. Com sorte a menina veria seu número de telefone e seu nome todo. Talvez a encontrasse no outro dia. Estava radiante com a idéia. Aquela menina era mais do que especial, era misteriosa, ao mesmo tempo alegre e tímida. Tão sofrida e com menos idade do que ele. O que ela poderia estar fazendo naquele momento? Pensou.
Luzia parou de correr quando chegou à esquina de sua casa. O coração mais calmo olhou para trás. Nada do jovem rapaz. O que de certa forma já sabia. A mão estava pegajosa e ela percebeu que tinha um papel sobre a mão. Colocou dentro do bolso da calça, para ver assim que entrasse no quarto, e decidiu enfrentar todos os problemas.
Seu pai estava rindo com os amigos numa mesa mais adentro do bar. Sentia nojo do que o pai tinha se transformado logo após a morte da mãe. Ele só tinha se afundado, sabia que só assim para ele não morrer. Sentia de certa forma, pena do homem, que mais bebia do que lucrava, ficando a cabo da menina tentar pagar a conta de luz e de água quando o homem não tinha nem como isso pagar.
-Onde estava guria que chega a essa hora? Tava dando para alguém vagabunda? –Os amigos bêbados começaram a rir com o homem, a risada tinhosa e maliciosa. Ela sabia que se não desse confiança o homem não ia enchê-la, contanto que a porta do seu quarto estivesse trancada, pois ela jurava que a noite seu pai gritava que via o espírito de sua mãe e batia incessantemente na sua porta, querendo ficar com ela, ou, às vezes, dava de achar que ela era igual à mãe e tentava a bater, ou esparramar todas as coisas de seu quarto no chão, achando que ela escondia algo ali.
Respirou fundo ao perceber que havia trancado a porta do quarto. Fora tomar um banho com um sorriso melhor sob os lábios. Só depois que vestiu sua camisola e colocou a roupa do dia para lavar, bem como separou as roupas sujas do pai que então se trancou no quarto. Pegou o papel na barra da calça e sorriu ao ver a letra de computador. Era o currículo que o homem havia mostrado-lhe. Prometeu olhar com mais calma antes de ir dormir e foi à cozinha preparar um almoço rápido para levar ao outro dia, além de deixar para o pai, caso ele quisesse comer. Macarrão ao óleo e Carne Moída. Rapidamente a comida ficara pronta, à hora já avançado para pouco mais de meia noite e meia, quando, finalmente, ela deitou sob a cama, trancando a porta antes disso.
O coração palpitou sob o peito de maneira estranha. Ela não sabia como se portar quanto a isso. De fato já havia perdido o seu bv, mais por achar um garoto bonitinho na quinta série e o beijar. Após isso, ou seja, após a morte de sua mãe, quando ela tinha já doze anos de idade, sua vida só foi piorando.
No começo seu pai se mostrou forte em querer criá-la, decidiu construir o bar, começou a trabalhar como eletricista. Ela aprendeu os ofícios de casa, já que era filha única. Todavia, ao completar catorze anos, seu pai desandou completamente. Com essa idade a menina começou a trabalhar como jovem aprendiz e ensinar aos sábados e domingos. Aprendeu como lidar com seu pai bêbado, e, nunca mais teve tempo e vontade de se apaixonar. Temia que conhecessem seu pai, que soubessem da tormenta que era sua vida. Quanto mais ela pudesse estar livre da situação e mais dinheiro conseguisse juntar para que finalmente pudesse se mudar dali melhor. No entanto, o máximo que havia conseguido em quatro anos de economia fora uma quantia de quatro mil reais, juntando as migalhas que sobravam, economizando nas roupas horríveis que usava, já que quase o dia todo usava uniforme de servente, e, quando saia, quase não encontrava ninguém, bem como sábado e domingo, quando ensinava os outros. Logo, sempre saia com a mesma calça jeans, uma blusa básica daquelas lojas de três reais, e o sapato –geralmente Tênis – era o que ganhava todo o ano de servente, escuro e feio. Olhou novamente o currículo, curiosa pelo que havia ali dentro. Leu cada linha:
Nome: Jonatas Lildas Corrêa.
Idade: 22 anos.
Endereço: ---
Telefone: ----
Aptidões: ---
Passou algumas horas olhando para cada ponto daquele papel, os pensamentos pareciam percorrer em um turbilhão. Não soube em exato quanto tempo já havia passado quando ouviu os passos apressados de seu pai, logo após as batidas na porta, esmurrando-a com toda a intensidade que podia:
-Abra a porta Luzia! Abra a porta! –Encolheu-se sob a cama, sentindo todos os músculos clamarem por socorro. Uma pequena lágrima escapou de seus olhos quando ela abriu o criado-mudo velho ao lado da cama, pegando o retrato da mãe. Aquela mulher linda de cabelos curtos mel e olhos azuis brilhantes. Sorria e, de certa forma, isso acalmava a garota, como se a sua realidade fosse outra completamente diferente.
-Santo anjo do senhor... –Começou a menina. Por ter tido a mãe morta muito cedo não pode terminar a comunhão e, de qualquer forma, só conhecia aquela oração. Acreditava em Deus, mas não sabia nem como pedir de tão leiga que era. Apertou ainda mais forte o retrato sob o coração e fechou os olhos, continuando com a oração singela de quando um dia fora criança.
Não demorou a que as batidas parassem e que ela pegasse no sono. Todavia, seu sono fora pouco, acabou acordando mais cedo do que o costume, a noite bruxuleante, as estrelas, tão poucas tremeluzentes, caindo sob o suspensório do azul-celeste. Suas olheiras pareciam mais profundas e, aproveitando do momento que acordara mais cedo, Luzia aproveitou a deixa para colocar a roupa na corda, terminar os trabalhos do colégio e tomar um bom banho. Embora não sentisse vontade alguma de se arrumar, uma leve ardência sob o peito acudiu-lhe esse sobressalto.
Procurou por entre as poucas roupas que tinha a roupa mais bonita que poderia ter. Acabou se entristecendo e pondo uma calça jeans escura e uma blusa vermelha escura, ocupou-se de ajeitar os cabelos, procurar um batom que tinha por aí, e, por último algum resquício de maquiagem. O pouco que havia de sua infância era realmente bem infantil. Um batom rosa- lilás, uma sombra da mesma cor e um batom vermelho da mãe. Com o batom vermelho conseguiu a artimanha de molhar num algodão e passar sob o rosto deixando levemente vermelho, tal como uma bonequinha, e, levando o batom rosa- lilás para passar depois, trancou a porta do quarto, pronta para a labuta.
Seu pai ainda dormia e, ainda zelosa com o homem, deixou a comida separada para ele, bem como algumas mudas sob o sofá, onde sempre deixava. Saiu de casa e, com toda a calma que poderia ter seguiu para o trabalho.
Para pequenas coisas da vida, o direito de viver parece imensuravelmente egoísta, atarefando as almas mais puras da tarefa de coincidir com o vazio, sem nenhuma promoção por isso, ocupando-se de razões desgastantes, quando o fazem apenas pelo sacrifício de viver. Luzia lembrava-se sempre de sua mãe, sua única esperança junto de Vó Vanice, a quem lhe traziam um pouco de forças para agüentar o dia-a-dia. Toda vez que o leve ardor da alma dilacerante ofegava-lhe uma súbita vontade de atenuar o árduo caminho, diminuindo-o com a súbita morte e o encontro com sua querida mãe, Luzia se lembrara de quando sua mãe afável passava-lhe as falanges sob a tez e murmurava com o vento, as palavras mais singelas que poderia ouvir:
-Quão glorioso é o mundo dos perseverantes na fé Luzia, que trazem no sorriso toda a cordialidade da vida, quando trazem a tristeza sob a funda no farfalhar. A vida não é fácil, minha pequena, mas injustos são aqueles que teimam passá-la, já que o final é sempre compensatório.
-O que é ser perseverante, mamãe? –Perguntava inocentemente. A mãe sorria-lhe com a leve pureza sob o olhar e tomando a mão da menina, beijando-a com lágrimas sob os olhos, respondia:
-É não desistir nunca, mesmo que você perca sua mãe Luzia, mesmo que você perca tudo, mesmo que você se perca. Mas não desistir do seu objetivo. Nem que este seja nos fazer feliz.
E, tomada de compaixão, os olhos de Luzia se tornavam quase água, como se a qualquer momento a pura face de sua mãe pudesse ocupar-lhe a vista e, mesmo que por um instante, ela se sentia completa, quase como se tivesse um motivo para não se arrepender de toda a agonia que sofria para continuar passando por todas as dificuldades.
O celular começou a tocar e, mesmo não tendo crédito algum, Luzia até achou, de certa forma, estranho que o celular ainda recebesse ligação por causa disso. Até por que, ainda era pouco mais de cinco e meia da manhã e, a não ser que fosse Vó Vanice, era muito provável que havia acontecido algo de ruim no trabalho.
-Alô? –Respondeu.
-Lu, é você? –Ouviu a voz de Fátima ressoar aflita. Arqueou uma sobrancelha ainda curiosa sob o motivo de tamanha ligação àquela hora e, com voz tão aflita.
-Sou eu sim Fátima. Aconteceu alguma coisa? –Tomara que não. Pensou consigo. Um problema poderia lhe afastar do emprego para sempre e, tomada as circunstancias de sua vida e, os seis meses que se encontrava efetiva no trabalho, ser despedida naquele momento não lhe daria direito a nada, se não uma vasta desolação.
-Na verdade sim Lu. Você já está vindo? –Lu engoliu em seco, parecia que algo lhe sufocava. Quando as coisas estão ruins, dizem que para piorar é necessária apenas uma ajudadinha. Essa porventura, ela acabara de ter.
-Estou sim Fátima. Diga-me o que aconteceu. –A mulher suspirou e, fofoqueira do jeito que era, esperava apenas aquele mandato para dizer tudo. No entanto, naquele momento não queria mencionar só por isso, Mas por que estimava muito a amiga e sabia que depois daquela notícia, as coisas só tinham a piorar.
-Carlos apareceu morto hoje dentro da sala dos serventes. Por sinal, com o seu material de limpeza ao lado dele. Mesmo que eles não vejam isso como todo o maior problema, nós todos, inclusive você, será apontada como possível culpada do crime. Vão investigar para ver o verdadeiro culpado.
Luzia só não caiu na rua por que havia parado frente a um poste, escorada nele. Seu mundo parecia prestes a ruir, formado de todas as mais horripilantes idéias daquele homicídio. Como e quem? Seu coração apertou. Carlos era o diretor dos serventes dentro da Companhia de Alimentos por ali. Era um homem bom, centrado e benevolente. Não era possível que ele tivesse inimigos.
-Como isso aconteceu? –Perguntou a menina surpresa. Fátima suspirou também afligida por notícias tão esmagadoras e difíceis de engolir. Parecia que o mundo de todos caia. Antes de tudo aquilo continuar em mais conversa, mais lenga- lenga e nada fosse de fato resolvido, como a polícia, os bombeiros e a perícia por ali chegavam, Fátima preferiu sair do telefone para não levantar suspeitas, terminando a conversa com as palavras que extinguiriam aquele assunto até certo momento.
-Vem logo Luzia que eu te conto tudo o que sei. –Luzia concordou, desligando o telefone. Seu coração estava em frangalhos quando ela percebeu que havia sentado na calçada. Levantou-se, sentindo as pernas bambas, tal como se seu mundo tivesse caído. Convivera tanto tempo com Carlos, gostava tanto dele. Não parecia ainda cair à ficha de tal crime. Ainda não havia visto a cena, por isso, talvez, acreditava que tudo ainda parecia uma mentira. Não, estão brincando comigo. Mas cada vez que dava mais um passo ao metrô, parecia que essa idéia parecia cada vez mais certa. Por mais que não quisesse acreditar, tudo parecia verdadeiro. Fátima não mentiria sob algo assim, era óbvio e, Luzia, esperta como era, sabia que por ser tão cordial com o homem seria a primeira suspeita, bem como a primeira a ser vista como culpada.
Para piorar tudo aquilo, o dia não estava nem um pouco lindo e a chuva derramara-se cada vez mais forte e cintilante, tal como na noite passada. Um momento de solidão extrema.
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