Assim Nascem as Estrelas
2 A carta para Marcus
Notas iniciais
Na manhã seguinte, uma senhora muito bem vestida, desce de um belo carro que acabara de estacionar em frente a uma residência bem simples.
A senhora bate na porta por duas vezes, até que alguém vem atender.
— Bom dia, Marcus. Feliz Natal. Eu vim até aqui trazer a carta da Stella para você.
— Bom dia, Dona Eliza. Feliz Natal para a senhora também. A senhora quer entrar?
— Quero sim, segundo as “ordens” da Stella, você precisa ler a carta para depois ir até o hospital vê-la. E eu sou sua carona.
Marcus deu um pequeno sorriso, era bem coisa da Stella criar esse tipo de situação.
— Entre, Dona Eliza. Tem café passado, quer tomar uma xícara comigo?
— Claro, por que não!
Eliza entrou e foi em direção a cozinha, pois conhecia a casa, já que Stella e Marcus eram namorados há alguns anos.
Marcus pediu que ela sentasse enquanto ele servia duas xícaras de café. Eliza remexia a bolsa para pegar a carta e entregar ao seu genro. Assim que ele lhe alcançou a xícara, ela lhe estendeu a carta.
Marcus a pegou cuidadosamente, colocou próximo ao rosto e aspirou o perfume, a carta tinha o cheiro dela. O cheiro que tanto amava mas que já não podia sentir há quase um mês. Era muito doloroso ficar longe dela, Stella era a melhor parte de sua vida, não podia ficar longe dela por muito mais tempo.
Marcus abriu cuidadosamente o envelope e retirou um papel de dentro dele. No papel, estava a letra dela, a letra tremida e inconfundível de sua amada.
Ele iniciou a leitura já com os olhos marejados.
“Meu amado Marcus,
A primeira coisa que quero te pedir é perdão por te afastar por tanto tempo. Mas tente entender minhas razões, eu não queria que você sofresse, sua vida já era complicada e dolorosa o suficiente, não precisava de mim colocando meus problemas em cima de você. Seria egoísmo meu deixar você sofrer por minha causa. Eu só quero que você me perdoe, te peço de todo meu coração, me perdoe por não deixar você enfrentar a pior parte dessa doença comigo.
Eu não queria que você me visse no estado em que estou. Sem cabelos e sem sobrancelha. Quero que você se lembre de mim com meus “cabelos esvoaçantes”, como você sempre dizia.
Eu quero que em sua memória, eu esteja sempre com o rosto corado e sorrindo, fazendo piadas sem graça sobre coisas aleatórias, reclamando de seu gosto musical.
Eu quero que se lembre de mim correndo na praia, com aquele maiô preto que você me deu de presente. Que lembre de mim rolando na areia e rindo como uma criança.
Quero que lembre de mim quando eu estava saudável, quando o meu maior medo era te perder (e não morrer).
Quero que você lembre de mim demonstrando meu amor por você.
Sei que essa carta parece estranha, parece uma despedida.
E talvez realmente seja, eu tive vários dias bons essa semana. E sempre dizem que após os dias bons tudo piora.
Se essa carta for realmente meu último contato com você, eu quero que saiba que te amo, e sempre vou amar, não importa onde eu esteja. Quero que você tenha a certeza que foi meu único e grande amor.
Talvez, quando chegar ao hospital, pela manhã. Eu já não esteja mais entre os vivos. Não se culpe por não estar do meu lado. Eu escolhi assim.
Eu amo você, com todas as minhas forças, nunca esqueça disso.
Sua eterna namorada,
Stella.”
Marcus olhou apavorado para sua sogra.
— Precisamos ir para o hospital agora.
— O que está escrito ai? Marcus me fala. — Eliza perguntava, mas já se levantando da mesa e indo em direção a porta.
— No caminho eu explico melhor, só vamos, Dona Eliza.
Marcus relatou o conteúdo da carta enquanto Eliza dirigia em direção ao hospital.
O coração de Eliza estava temeroso e pesado, será que sua amada filha estava realmente morta. Ela não podia aceitar isso. Era cruel demais uma mãe perder a filha que lutou tão bravamente pela vida durante tanto tempo.
Assim que estacionou o carro, Eliza pulou para fora, com Marcus em seu encalço. Chegaram na recepção em minutos e logo solicitaram informações sobre o estado de Stella.
A recepcionista pediu que aguardassem um momento, pois ela precisava chamar a enfermeira responsável pelo setor de oncologia que estava de plantão naquela noite.
Logo, uma mulher que aparentava ter cerca de trinta anos, veio até eles.
— Bom dia Eliza e Marcus.
— Bom dia, Luiza — responderam os dois prontamente.
A enfermeira Luiza sempre estava nos plantões noturnos, acompanhou Stella desde o início de seu tratamento. Por isso Eliza e Marcus a conheciam.
— Stella, ontem à noite, meu deu algumas instruções sobre como proceder caso algo acontecesse com ela. Vou explicar exatamente o que ela pediu para mim e depois deixo vocês fazerem perguntas.
Luiza explicou resumidamente o pedido de Stella na noite anterior e então passou para a notícia sobre o estado da jovem.
— Stella lutou bravamente, mas durante a madrugada teve uma parada respiratória e não resistiu. Ela veio a óbito às 5 horas da manhã. Não os avisamos imediatamente pois o desejo de Stella foi que o Natal de vocês fosse preservado.
Marcus e Eliza só puderam fazer uma coisa, chorar. Chorar pela perda da mulher maravilhosa que Stella foi, da guerreira que lutou até o fim por sua vida.
Assim que Eliza consegui se recompor um pouco, ligou para o marido e deu a notícia. Pediu que ele a esperasse chegar para contar as meninas o que tinha acontecido com irmã mais velha delas.
Eliza foi ver a filha antes de ir para casa, Stella estava deitada em uma maca, em uma sala fria. Parecia que ela apenas estava dormindo. Era tão doloroso saber que ela nunca mais ouviria a voz de sua doce menina e nunca mais veria seu sorriso radiante.
Marcus não foi vê-la, respeitou o desejo de Stella, que havia pedido na carta que somente as memórias boas fossem ser preservadas, só os bons momentos deveriam ser lembrados.
Eliza voltou com os olhos marejados e pediu para Marcus ir para casa com ela. Afinal, ele era seu genro, parte da família.
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No dia do velório de Stella, ela estava linda, deitada no caixão. Como se fosse uma princesa adormecida. Marcus não conseguia parar de admirá-la, não acreditava na sorte que teve de conhecer uma mulher tão linda e incrível, que mudou sua vida e sua maneira de ver o mundo.
Chegou bem próximo ao caixão e beijou a testa dela, disse um último “eu te amo” e se afastou vagarosamente. Precisava dar um tempo para seus pensamentos, então foi para o jardim da capela onde ocorria o velório.
As irmãs de Stella o seguiram e assim que possível se aproximaram de Marcus.
— Você sabia que a Stella virou uma estrelinha, ela não vai embora. Ela vai estar sempre perto de nós, cuidando da gente, de você também, Marcus. — Disse Mariana.
— Sim, tenho certeza que ela virou uma estrela, uma linda estrela, a mais brilhante. Mas quem contou essa história para vocês? Foi a sua mãe?
As duas meninas riram, mas quem respondeu foi a pequena Milena.
— Não, seu bobo, foi a Stella que contou para nós. Ela que disse que não era para ficarmos tristes quando ela fosse embora, por que ela sempre iria cuidar de nós, lá do céu.
Marcus achou linda a atitude de Stella, mas queria saber quando que ela falou isso para as meninas, já que elas não podiam visitar a irmã no hospital, pois eram muito jovens.
— Quando a Stella falou isso para vocês?
— Foi no Natal, antes do Papai Noel chegar, a Stella já era uma estrelinha quando veio dar tchau para nós duas.
Marcus ficou sem palavras para responder as duas meninas. Apenas as abraçou carinhosamente.
Assim que as meninas voltaram para a capela, Marcus passou a admirar o céu de final de tarde, algumas estrelas já estavam brilhando lindamente, sua Stella com certeza estava lá, brilhando com as demais.
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