Nova York, 1751

O'Brien estava animado para dar a boa notícia à Jenny, suas pernas caminhavam o mais rápido que conseguia sem chegar ao ponto de correr enquanto o vento frio e cortante uivava feito um lobo e por mais uma vez o inverno que se anunciava era tão rigoroso quanto o anterior. Mas agora Liam tinha sempre um alguém para lhe esquentar as noites, mesmo as mais frias. Sua vida se transformara drasticamente nos últimos doze meses. De festas e bebedeiras regadas a sexo, seu ritual passara para um bom prato de comida quente, conversas diversificadas e mais um bom punhado de sexo, com a diferença que agora era sempre com a mesma mulher. Sua mulher.

Ainda que o casal tivesse dispensado uma cerimônia formal e religiosa, ambos já eram vistos comomarido e mulher, mas não como uma família devido à ausência de crianças. O fato em si não o incomodava, mas às vezes Liam a pegava olhando o quarto vazio como se estivesse a imaginar uma bagunça infantil. Contudo ela era orgulhosa demais para admitir, mesmo para ele, que sentia falta da maternidade que um dia a mesma chegou a experimentar.

E quando ele chegou a sua casa e não ouviu som algum vindo da cozinha ou da sala de treino, presumiu que ela estivesse novamente parada na entrada daquele cômodo vazio. Ele seguiu silenciosamente para a escada e com cuidado subiu até o segundo nível da casa, mas não havia ninguém parado no corredor. Desse modo ele seguiu para a sala onde a Kenway guardava armas, mapas e tudo mais que fora deixado pelo pai e dado pelo Assassino Miko.

A porta estava ligeiramente aberta e pela fresta da mesma, Liam a viu sentada de costas. O cabelo estava preso e bagunçado, o que indicava que a loira esteve a treinar recentemente. Além disso, suas vestes não eram femininas, resumindo-se a uma calça barata e uma camisa velha que ele reconheceu como dele.

O rapaz bateu sobre a madeira da porta, porém não aguardou nenhuma resposta para entrar. Jenny se virou e deixou seus apetrechos de navegação de lado, fazendo-o ficar intrigado ao ver o mapa que estava estendido por sobre a mesa.

— Olá Liam. – Disse Jenny ao se erguer para recebê-lo. – Chegaste cedo hoje.

Logo lhe veio à mente o motivo que lhe trouxe para casa tão rapidamente, havia uma ótima notícia que ele gostaria de compartilhar com ela.

— Sim, vim o mais rápido possível, pois tenho uma surpresa. – Ela arqueou a sobrancelha, contudo não houve tempo para perguntas. –Shay é agora um Assassino.

Repentinamente ela torceu o lábio e sua língua estalou em total desagrado com o que havia acabado de lhe ser noticiado.

— Não posso dizer que estou feliz por ele.

— Pude perceber.

— Não acho que ele merecesse se envolver nisso e muito menos o acho maduro o suficiente para assumir um manto.

— Ele foi bem treinado por mim.

Jenny suspirou como se estivesse cansada, parecia prestes a falar qualquer coisa, mas tudo o que fez foi se virar de volta para a mesa onde estava. Liam a seguiu e viu por completo o desenho que o mapa detalhava. Para sua surpresa eram as ilhas do Caribe, com uma nítida rota partindo do ponto denominado de Nova York.

— O que é isso? – Ele lhe questionou.

Ela deu uma olhada do mapa para ele e por fim de volta para o mapa. – Um planejamento de viagem baseado nas velhas anotações de meu pai.

— Por que estás fazendo isso?

— O dinheiro que trouxe de Londres está perto do fim e não restou nada dele naquela cidade. Contudo, meu pai tem uma casa em Nova Inagua e há algum tesouro dele lá.

— Mas não precisamos do dinheiro do seu pai.

A Assassina se virou para encará-lo e ainda muito séria o respondeu. – Não irei depender do dinheiro que consegues sob as ordens do Achilles.

— Devias deixar o seu orgulho de lado. Estamos em paz não estamos?

— Por quanto tempo Liam? Achilles está espalhando homens e mulheres por cada esquina dessa cidade. Homens e mulheres que muito mal aprenderam a se camuflar e saltar do topo de um telhado. E você é a principal ferramenta dele para isso.

— Achilles os espalhou para ter maior alcance de tudo o que acontece, saber mais cedo e ter alguém sob nossa ordem para agir em qualquer lugar.

— É o que ele diz para você e sua irmandade? Diga-me Liam, quantos templários realmente encontraste ao longo de seus anos como Assassino? Pois eu lhe digo que não importa quantas dezenas recrutem, não estão preparados para os Templários ingleses.

— Te ouvindotu falares desse jeito, sinto-me até tentado a acreditar se Hope não estava certa quanto a seu respeito.

— Liam! Jenny! – Soou a voz jovial e alegre de Cormac.

— É o Shay, tente não o desanimar.

Os passos apressados do jovem ecoaram pelo corredor até que o próprio ali estivesse com um largo sorriso estampado na face assim que abriste a porta. Todavia, ao adentrar o recinto e captar as expressões sérias do casal, o rapaz se conteve e pigarreou.

— Interrompo algo?

— Certamente nada importante Shay, a propósito, Liam contou-me a novidade. — Ele voltou a sorrir como uma criança ao receber um abraço da Kenway. – Tenho certeza que será um ótimo Assassino.

— Obrigado Jenny, mas vim levar seu homem para uma missão.

— Oh, por favor, tome conta dele por mim. – A loira deu uma piscadela ao rapaz e se virou para encarar um O’Brien ainda muito sério.

— Jenny, espere. Encontrei um menino que tinha uma carta para você. – O moreno estendeu a mão com um envelope amassado por entre os dedos e a Assassina o pegou intrigada.

— É de Londres... – Disse aos cochichos mais para si do que para eles. – Obrigada Shay.

— Vamos Liam?

— Sim, irei em um instante Shay. – Respondeu-lhe o mais velho que se aproximou da loira enquanto o Cormac deixava o cômodo. – Miko?

— Sim. Ele parece tão...

— Tão?

— Não sei bem. Parece obsessivo com o artefato, questionando-me quanto aos meus estudos... – Ela suspirou e deixou o papel sobre o mapa para massagear as têmporas. – E eu não tenho uma única notícia boa para lhe dar. Apenas mais do mesmo.

Liam acariciou seu braço gentilmente até lhe alcançar os dedos e por fim segurar fortemente sua mão. – Espere meu retorno e eu irei para o Caribe com você. Talvez lá possamos encontrar mais pistas sobre a chave.

Os olhos dela se ergueram para encontrar os deles. Jenny se levantou e deu um forte abraço nele, ela inspirou profundamente o cheiro do rapaz, deixando as pontas de seus dedos deslizarem por entre os curtos fios dele e para finalizar um beijo longo para se despedirem.

— Eu posso esperar, apenas tenha cuidado e cuide do Shay também.

O’Brien lhe assentiu e mesmo que não fosse de seu desejo, separou-se dela por uma vez mais. Em geral suas missões demoravam alguns dias, mas os conflitos entre franceses e ingleses cresciam cada vez mais, seja nas colônias ou na Europa, de acordo com as atualizações que Miko enviava de Londres. Gradativamente os dias que passava fora de casa aumentava, no começo um ou dois dias eram o suficiente, depois de três a cinco e agora suas ausências já alcançavam a marca de duas semanas.

Tanto tempo longe de Jenny o preocupava. Primeiramente porque ela tinha razão, os ingleses eram astutos e cada ataque parecia mais difícil que o anterior. De seguida havia a insistência dela em achar que Achilles os estava afastando um do outro pouco a pouco. Era verdade que nunca antes Achilles lhe atribuiu tantas tarefas sequenciais quanto agora, mas a Kenway também já não estava presente nas conversas que ambos tinham entre uma missão e outra.

Certamente a saudade sempre era algo que lhe incomodava e a principio a ela também, mas seus reencontros estavam cada vez mais estranhos. Isso porque a loira não concordava com as estratégias estabelecidas por Davenport e qualquer menção a isso ocasionava em discussão. Em contrapartida ela não avançava em seus estudos e sua única missão como uma Assassina de fato mostrava-se infrutífera ao passo que as atitudes de Achilles que caminhavam conforme planejado. Ela não lhe admitia, mas sentia-se humilhada e seu orgulho só piorava tudo.

Contudo, ela ainda era especial. Inteligente como poucas mulheres que ele já conhecera na vida, mesmo ele tendo conhecendo muitas e possuía todo aquele controle sobre si, uma independência que as mulheres em geral não tinham oportunidade de ter. Sua beleza era tão diferente do comum, um misto de elegância e selvageria lhe compunham a graça e o fazia desejá-la para si todos os dias.

E todas as discussões e problemas se dissipavam no ar quando ela lhe beijava. Pelos instantes que eles eram apenas um, Liam lembrava a si mesmo que em todo mundo não haveria para ele uma mulher que se combinasse tão bem com ele quanto Jeniffer Kenway e tudo estaria resolvido quando a Inglaterra perdesse.

Fevereiro, 1752 – Fazenda Davenport

— Shay, devo dizer que estou feliz com o que Liam contou-me sobre seu desempenho em recuperar o navio perdido de Chevalier. – O homem levantou-se de sua cadeira e caminhou até a janela com as mãos atrás das costas. De lá ele contemplava o brigue Morrigan ancorado no cais. – Conseguiram uma boa aquisição para nossa irmandade ao trazerem esse navio. Sua velocidade certamente se sobrepõe ao Man'o War de Chevalier.

— Algumas velas novas e uns canhões podem tornar esse brigue tão mortal quanto o Man'o War dele. – Disse Liam ao seu mentor.

Davenport se virou e encarou o rapaz por instantes, em sua mente pairava a dúvida se aquilo fora aprendido ao longo da convivência com a Kenway ou se era um conhecimento adquirido antes dela. De qualquer forma não importava a origem, ele estava certo.

— Creio que tens razão e por isso irei deixar o navio sob seus cuidados, quero que o comande Liam.

Tanto O'Brien quanto o Cormac transformaram suas feições de orgulhosas e alegres para incrédulas e após se entre olharem estupefatos, o mais velho tornou a falar.

— Shay invadiu e subjugou a tripulação remanescente sozinho, ele tem todos os créditos e o direito de comandar a embarcação.

Achilles arqueou a sobrancelha e lhe respondeu. – Se esse é o caso, então ele será o capitão, mas você será seu contra-mestre, um posto deveras importante que não pode ser ocupado por um reles leigo. Espero que tenhas adquirido algum conhecimento dos mapas de sua mulher nos últimos meses.

— Se já vistes um dos mapas dela sabes que ela é uma navegadora de primeira qualidade, melhor que muitos oficiais da marinha. Tê-la ao nosso lado seria de grande ajuda nas batalhas marítimas, campo onde os ingleses continuam a ter vantagem.

— Tu se esqueces que ela mesma é inglesa e diz fazer parte da esquecida irmandade de Londres.

— Ela lutaria contra os Templários de bom grado, sejam ingleses ou não.

O mentor deu alguns passos para ficar a poucos centímetros do Assassino e calmamente proferiu. – Não na minha Irmandade.

Liam se virou e deixou o recinto com Shay a lhe seguir em um silêncio pesado. Seguiram os dois juntos para as escadas e em poucos instantes estavam fora do casarão. O'Brien fora para os fundos do edifício, contemplou o mar e o Morrigan a balançar no ritmo das ondas suaves do cais. O vento frio puxava seu manto como se quisesse arrancá-lo de si enquanto pequenos flocos de neve serpenteavam pelo ar. Cormac ainda estava ao seu lado, tendo a mesma visão e provavelmente pensando o mesmo que ele, mas não estaria sentindo o mesmo.

— Há alguns anos eu adoraria ganhar aquele navio. Velejar sobre os ventos da liberdade enquanto cantava e bebia.

— Tens um porto fixo agora e ele está em Nova York. – Liam não lhe respondeu nada, sua mente deveria estar à milhas de distância. – Não precisa ser o meu contra-mestre, posso me virar sozinho. Não te esqueças que velejei com o meu pai.

O mais velho riu e se virou para o amigo enquanto cruzava os braços à frente do tórax. – E quem mais o seria? Kesegowaase? Hope?

— Bom, pode trazê-la a bordo, tenho certeza que ela navega melhor do que tu.

— Provavelmente sim, mas não posso deixar essa intriga entre eles recair sobre tu. É melhor partimos, se os ventos nos favorecerem poderemos fazer uma breve parada em Nova York.

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Por bom senso, Shay deixou o amigo a seguir sozinho para sua casa, onde encontraria e contaria os últimos acontecimentos à Kenway. O jovem havia criado uma boa amizade com ela, pois de certa forma a loira fazia parte de sua família. Em certas noites os três ficavam a jogar e beber como três marinheiros, em outros momentos ele até mesmo pôde praticar suas habilidades com a espada contra ela, recebendo um e outro conselho de movimentação. E claro, Jenny sempre estava mais disposta a falar sobre suas pesquisas e mesmo sobre o credo dos Assassinos do que seu próprio mentor.

Enquanto Achilles acreditava que a expansão da irmandade lhe garantiria mais poderio contra os Templários, ela fora ensinada por um homem que por anos se manteve nas sombras e agindo sozinho sobrevive até hoje em Londres. Tal atrito estratégico causava danos em seu relacionamento com Liam, colocando-o por vezes​ entre a cruz e a espada e nesse instante ele rumava para mais um desses momentos.

A casa estava em silêncio quando O'Brien cruzou a porta e deixou seu pesado casaco pendurado ao lado desta. Não havia nenhum cheiro delicioso vindo da cozinha ou o som de golpes de espadas do nível superior. Então ele seguiu para as escadas e chegou ao corredor que estava com quase todas as portas fechadas, exceto a sala de treino.

Lá estava ela, de pé a encarar algo sobre a mesa. As espadas estavam embainhadas em um canto da parede e dado pelo fato dela estar trajando um vestido, concluiu que não houve treinos naquele dia. Jenny se virou e Liam aproveitou para se aproximar.

— Desculpe pela demora. Tivemos que reaver o navio de Chevalier e libertar alguns contrabandistas.

— Contrabandistas? Agora estão a ajudar contrabandistas?

Ele arqueou a sobrancelha e respondeu-lhe com certo ar de espanto. – Dentre todas as pessoas do mundo, pensei que tu serias a última a questionar quanto a isso.

— Oh não... Meu pai viu de perto as consequências de se afiliar a homens que se vendem por algumas moedas. Se os Templários oferecerem uma melhor quantia a eles, não pensarão duas vezes antes de aceitar.

— Precisamos de toda ajuda marítima que nos é ofertada. A França pode ganhar as batalhas campais e os cercos, mas a vantagem em alto mar é nitidamente da Inglaterra.

— Os franceses estão acostumados a baterem em italianos que nunca se mostraram como um grande desafio afinal. Os Templários mandam e desmandam na Inglaterra, eles sabem se aproveitar dos pontos fracos e são astutos demais para permitirem alguma armada se equiparar a deles.

Jenny se virou e voltou a encarar o mapa sobre a mesa. Liam posicionou-se atrás dela e deu uma olhada no detalhado mapa da Europa que continha marcações e bandeiras fixadas em pontos espalhados.

— O que é isso?

— São os locais onde os exércitos, sejam ingleses ou franceses batalharam. Holanda, Itália e outros reinos estão se aliando e tomando lados nessa guerra.

— Miko te passou todos essas informações?

— Sim.

— E irás partir?

A loira ergueu a face e seus olhos se encontraram com os dele, estavam inquietos e sérios. Quando Liam não estava sorrindo, sua expressão ficava rígida, parecia uma estátua esculpida por Michelangelo.

— A coisa que Miko mais quer é me ver longe da Europa. Por isso ele insiste avidamente na minha pesquisa infrutífera.

— Não irei mentir para tu, mas também não a quero se envolvendo nessa disputa.

— Não tente me prender Liam O'Brien. – Ela sorriu-lhe, mas naquelas circunstâncias era difícil desvendar o tipo de malícia que havia em seus olhos. – Além do mais, eu voltaria para cá ou para onde pudesse te encontrar.

Foi o suficiente para os ouvidos do rapaz e ele não perdeu o momento propício para envolver a cintura dela e colar ambos os corpos. – Fico feliz em saber, mas ainda sim prefiro que fiques. – Seus lábios encontraram os dela em um beijo atrevido, mas ligeiro. – A propósito, tenho uma surpresa para tu, mas fiquei muitas noites longe e não quero mais perder tempo.

— Então é melhor começar a tirar nossas roupas. – A loira enlaçou o pescoço do rapaz para se render totalmente aos desejos carnais que ambos nutriam em nível de igualdade um pelo outro.

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Quando Jenny despertou, se negou a abrir os olhos para sentir melhor todo o seu corpo ainda relaxado, para se concentrar no cheiro de Liam que ainda estava no lençol e em sua pele ela ainda podia sentir o toque dele. Lentamente ela esticou os braços e as pernas, mas encontrou um espaço vazio ao seu lado. O sol já brilhava do lado de fora, ela se levantou enrolada na brancura da roupa de cama e se espantou ao ver uma escura mancha no local onde estava deitada.

Seus dedos tocaram a mancha ainda úmida e rubra. Não satisfeita, Jenny deslizou os mesmos dedos na parte inferior de suas coxas. Seus olhos se arregalaram ao sentir o local molhado com aquela viscosidade que ela não via há anos.

— Não pode ser... Eu não deveria...

A porta se abriu repentinamente, fazendo-a sentar em igual velocidade sobre o local sujo de sangue. Liam franziu o cenho e entrou no quarto.

— Está tudo bem? Parece pálida.

— Está, eu só estou faminta. Não comemos nada ontem à noite.

O sorriso malicioso dele se desenhou nos lábios antes de lhe responder. –Verdade, acho que perdemos a noção do tempo. Eu irei preparar algo enquanto se vestes.

— Tudo bem, te encontro lá embaixo.

O rapaz assentiu com um leve menear de sua cabeça e a deixou no instante seguinte. A Kenway imediatamente enrolou os lençóis sujos em uma muda e a escondeu dentro do armário, visto que não podia se demorar. Pegou o primeiro vestido que teve à vista e improvisou uma compressa para usar por dentro das roupas íntimas.

Uma hora depois e o casal se aproximava do porto de Nova York. As ruas estavam mais movimentadas a cada dia que passava e o volume de ingleses parecia sobrepujar os nascidos em outras localidades.

Liam e Jenny mantinham o passo apressado simplesmente para seguir o ritmo da multidão que os rodeava, desviando de marujos a carregaram caixotes sobre os ombros ou grandes sacas de comidas variadas.

Pelos cantos das construções ratos se deliciavam com o lixo deixado da noite anterior, muito mal sendo enxotados pelos comerciantes locais. Vez e outra um gato conseguia pegar um e garantir sua refeição daquele dia.

A Kenway já havia visto muitos portos em sua vida, todos em geral eram sujos e populosos, o que atraía animais como aqueles. Mas ainda sim lhe era surpreendente como ninguém parecia se importar, a não ser que algum roedor lhe mordesse ou entrasse em seu caminho. Não há muitos séculos dezenas de centenas de pessoas morreram por não se importarem com esse tipo de coisa, mas a peste negra era agora uma mera lembrança ruim para os vivos e nada mais. Os homens eram inegavelmente sujos e isso se refletia ao seu redor sem nenhum escrúpulo aparente.

— Jenny!

A voz amigável de Shay encerrou seu transe momentâneo e trouxe a tona seu sorriso para cumprimentar o rapaz. Ele veio até ela e lhe cedeu um apertado abraço, a loira sentiu o típico cheiro de vinho barato em suas roupas misturado ao suor. Certamente ele estivera a aproveitar a noite de maneira similar a Liam.

— Então? Onde está o Morrigan? – Ela o questionou ainda sorridente quando seus corpos se separaram.

— Por aqui.

O trio percorreu alguns metros pelo cais até chegarem à plataforma de madeira poucos centímetros acima do nível da água e onde estava ancorado o brigue. A Assassina deu um longo assobio ao pôr os olhos na embarcação. Os três seguiram para a rampa de acesso enquanto meia dúzia de homens limpava e arrumava o convés.

— São Assassinos? – Questionou a Liam em tom baixo.

— Não, marujos apenas.

Ela foi até o mastro central e deslizou sua mão pela madeira. De seguida seus olhos se ergueram para as velas que naquele instante estavam murchas. As cordas foram o item que suas mãos escolheram para analisar logo depois, quando ela deu uma careta de desaprovação.

— Os cordames não irão durar por muito tempo e as velas estão gastas em igual maneira. Mas a madeira é boa e um bom quebra gelo seria ótimo logo abaixo da proa. – Os dois se entre olharam e ela notou o tom cômico que pairava entre eles. – Eu cuidei do Gralha por muito tempo junto com Anne Bonny depois que partimos.

— Desculpe, mas é que nunca eu havia lhe visto tão séria assim. –Respondeu-lhe Cormac.

— Onde está a cabine mestra?

O mais novo tomou a dianteira e a levou até os degraus que davam acesso ao par de portas, estas que resguardavam o local reservado ao capitão. Ele as abriu e Jenny logo passou à sua frente. Primeiro ela foi até o mapa naval estendido na mesa logo a frente do trio. À sua esquerda havia um baú e à sua direita um pequeno navio que representava o brigue em si.

— Eu poderia dizer que estou a reviver o exato momento que entrei no Gralha pela primeira vez. Mas há mais conforto aqui do que meu pai um dia se preocupou em ter quando navegava.

Mais alguns passos e a Kenway chegou ao par de camas no fundo da cabine com algumas vestes jogadas aqui e ali, dentre elas reconheceu facilmente algumas como de Liam. Ela pegou uma destas, que fedia terrivelmente, e ergueu para seu dono.

— Estão dividindo a cama também?

— Espero que não sejas ciumenta. – Respondeu Shay que recebeu uma cotovelada brusca do amigo.

— Sorte sua eu não ser.

— Eu faço minha própria sorte, Jenny.

Ela riu ao ouvir pela enésima vez aquela frase que o rapaz tanto gostava de usar, quase lhe servia como um mantra pessoal.

— Passamos muito tempo a discutir nossas rotas e nossas missões aqui, por isso dormimos aqui.

— Não tentes explicar, Liam. Ele já estava em sua vida quando eu cheguei de qualquer modo.

Novamente Shay se divertia juntamente à ela enquanto Liam cruzava os braços e estampava uma careta engraçada na face.

— Temos muito que comprar antes de partimos de volta para a fazenda, melhor que comecemos cedo. – Disse o O’Brien já rumando para fora da cabine.

Cormac e Jenny trocaram um último olhar de divertimento após a bem sucedida cumplicidade e seguiram para o convés em seguida. Antes que a loira desembarcasse, o mais novo se aproximou para se despedir

— Ah... Obrigado pelas observações quanto às velas e tudo mais.

A Kenway lhe sorriu e deu um par de leves tapas em seu ombro. – Não há de que agradecer, Shay. Cuide do Liam por mim, por favor, e tenham bons ventos.

Ele lhe meneou brevemente e após ouvir Liam dar algumas ordens aos marinheiros, seus pés a levaram diretamente para o Assassino mais velho, dando-lhe um demorado e intenso beijo de adeus. Os marujos ao redor pausaram qualquer coisa que estivessem fazendo para observá-los, o que resultou em algumas reclamações por parte de Shay.

— Tenho certeza que eu poderia vos ajudar a encontrar e comprar bons materiais. Poderia até ajeitar os nós dessas velas. – Ela lhe disse em baixo tom.

— Tu sabes que há Assassinos em todos os cantos desse cais e Achilles simplesmente rejeita a possibilidade de te ver envolvida com os assuntos marítimos da irmandade. – O'Brien respirou profundamente e acariciou a face dela. –Shay já é por deveras chamado de indisciplinado, não gostaria de lhe acrescentar mais uma reclamação seja de Hope ou de nosso mentor.

Ela lhe anuiu com um claro pesar nos olhos enquanto seus dedos deixaram os dele para trás. – Preciso responder Miko de qualquer modo.

— Temo que não conseguiria me concentrar se permanecesse aqui ao meu lado. E os marujos também, presumo.

Lá estava o riso fácil dele, que lhe cativava todas as vezes que ela o via. Fazendo-a rir feito uma jovem boba, fazendo-a sorrir feito uma apaixonada tola.