Notas iniciais
O primeiro capítulo está aí. Provavelmente, a fic será atualizada semanalmente.

Lisboa — 20 Novembro de 1807

Portugal enfrentava uma crise. Embora poucos soubessem, Junot havia invadido o país e se dirigia á capital, Lisboa. Muitos falavam em fugir para o Brasil, e era o mais provável. A corte discutia regularmente as opções, consciente do apoio inglês. Todos comentavam sobre o caso em qualquer local do país, talvez do mundo. Muitos queriam acompanhar a corte na possível fuga. O caos era total.

Um jovem, porém, estava alheio a tudo isso.

Quase três anos haviam se passado desde que Rodolfo, junto dos irmãos Laura e Ugo, havia sido adotado por um bondoso senhor: Luís. Ele derrotara vários agressores para salvar os garotos.

Naquele dia, Rodolfo voltava com o pai de uma caça. Laura os avistou ao longe. O irmão, montado num puro-sangue lusitano, parecia um verdadeiro soldado real. O pai, nos seus quarenta e dois anos, vinha montado num puro-sangue inglês. Laura os viu ao longe. A criança, que fazia onze anos naquele dia junto do irmão Ugo, correu para alcançá-los.

Durante o ato, porém, a pequena notou que várias garotas do bairro observavam o irmão pela janela. O jovem era, de fato, bonito: tinha lindos olhos cinzentos. Seus cabelos eram de um tom castanho-escuro. O físico era de um verdadeiro soldado. Não era á toa que ele não perdera uma só presa durante a caça.

Ao alcançá-los, a garotinha gritou:

— Venha papai! As empregadas já estão lá!

O homem sabia do que se tratava. A esposa, Joana, entrara em trabalho de parto. Luís logo esporeou o cavalo, indo em direção á casa. Rodolfo levantou a irmã do chão e colocou-a no cavalo. Em seguida, também disparou.

Ao entrar em casa, Rodolfo correu para o quarto. Era um ambiente agradável para um bebê. O piso era de madeira. Um lindo lustre descia do teto. Nas paredes brancas, havia janelas com uma divisória em forma de cruz. Atravessando-as vinha uma luz que parecia iluminar de maneira proposital o bebê, que chorava no colo do pai.

— Seu nome será Raul, como você sugeriu. Raul Aguiar! — disse ele. Orgulhoso, Rodolfo só notou que estava chorando quando o gosto salgado de uma lágrima molhou-lhe os lábios. Ele logo pegou o irmão no colo e o beijou.

Depois de dois dias, as coisas ainda não haviam voltado ao normal. Todos ainda davam amor e carinho redobrados para o recém-nascido. Quando já eram cinco horas, Rodolfo avisou:

— Preciso sair, pai. Irei tomar um ar.

Ele já caminhava há duas horas. Tratou de comprar algumas balas de revólver. Elas haviam acabado na caça. Também reabasteceu o estoque de flechas. Sempre comprava a munição depois de voltar da caça. Nunca sabia quando iria sair em busca de animais. O nascimento do bebê, porém, o fizera esperar mais alguns dias.

Ao chegar a casa, já eram oito horas. Olhou a propriedade de longe, mas não entrou. Ao invés disso, se aproximou, tomando cuidado para não ser visto. Bateu na janela do quarto dos dois irmãos, Ugo e Laura. Dos gêmeos, porém, só estava no local Ugo. O pequeno abriu a janela e o mais velho perguntou-lhe:

— Você vem ou não? Estou esperando faz tempo! Ficou com medo?

— Não! Só estou esperando uma distração do pai para sair!

— Pule a janela!

— Mas…

— Pule logo, medroso!

O garoto saltou e caiu de pé do outro lado. Ele não apoiou as mãos na parede no processo. Aprendera muito com o irmão.

— Vamos escalar a igreja hoje? — perguntou Ugo.

— Você não tem idade para isso! — respondeu o irmão. — Vamos subir em casas!

— De novo?

— Não é só isso!

Eles se apressaram e dispararam pela cidade. Enfim, os irmãos chegaram numa casa um pouco mais alta que as outras. Rodolfo correu para a parede e começou a escalar. Encontrou um apoio numa janela do primeiro andar. Saltou, agarrou-se á janela do segundo andar e subiu no telhado. Enfim, olhou para o irmão, ainda no chão.

— Achas que consegue? — perguntou, zombando. Sabia das capacidades do irmão, mas resolveu testá-lo. Quando o irmão finalmente alcançou o topo, Rodolfo perguntou: — Agora, siga-me!

Ele se pôs a correr, pulando para o topo de outra casa.

— E agora? — desafiou.

Ele olhou atento, enquanto a criança o seguia e rapidamente alcançava-o.

— Cheguei! — disse Ugo, feliz com o triunfo. Espantou-se, porém, quando percebeu que o irmão já corria para mais longe.

Eles foram saltando de telhado em telhado, atravessando toda a vizinhança. Enfim, chegaram numa área em construção. Rodolfo continuou a correr. Quando notou a distância entre um telhado e as obras, que, futuramente, viriam á ser uma igreja, hesitou. Como não podia se mostrar com medo para o irmão, preparou-se para o salto. O chão estava á sete metros. Se ele caísse, iria se machucar de tal maneira que talvez… Não queria nem pensar. Livrou-se dos pensamentos negativos e pulou. Infelizmente, o salto se deu um pouco antes do que ele gostaria. Quando atingiu o auge do pulo (ou seja, não subia nem descia. Estava na altura máxima) ele olhou para baixo e engoliu seco. O solo logo começou a se aproximar. Com um último esforço ele estendeu o braço e tentou agarrar uma plataforma de madeira.

Por sorte, ele conseguiu.

Quando ele subiu na plataforma respirou, aliviado. Olhou para o irmão. O pequeno estava hesitante na ponta do telhado. Tinha medo de saltar.

— Fique tranquilo, irmão. — disse Rodolfo. — Não precisa dar esse salto.

Apesar de não querer demonstrar, o garoto, com apenas onze anos, agradeceu aos céus.

Depois de algum tempo, chegaram novamente em casa. Ugo saltou a janela, escondido. Rodolfo entrou pela porta da frente. Ao encontrar Luís, o jovem deu uma desculpa, com medo de uma punição por demorar tanto:

— Desculpe-me, pai. Fui comprar munição, mas havia acabado na maioria das lojas. Tive que ir num estabelecimento do outro lado da cidade. — disse tranquilamente. Sabia que Ugo estava espiando-os. Ao abraçar o pai, porém, confirmou aos sussurros o que o pai havia lhe pedido: — Estava treinando ele.

Satisfeito, Luís se retirou para o quarto. Rodolfo também foi. Laura já havia se recolhido. O mais velho dos irmãos se deitou e dormiu, sem saber que logo seria acordado.

Já passava da meia noite quando Rodolfo acordou. Havia ouvido um barulho. Levantou-se silenciosamente. Alguns passos vinham de dentro da casa. O ritmo do barulho que os sapatos faziam ao encontrar o chão, porém, não era tranquilo. E havia mais de uma pessoa.

Sorrateiramente, Rodolfo pegou a pistola, pulou a janela e a fechou. Contornou parte da casa até chegar á janela do quarto dos irmãos. Abriu-a silenciosamente e acordou Ugo, silenciando-o com uma mão em sua boca. Fez o mesmo com Laura. Quando os gêmeos estavam acordados, ele avisou:

— Se ouvirem algum barulho estranho, corram para a casa dos Ferreira. — disse, tomando o cuidado de não falar alto. O líder da família Ferreira, Clóvis, era grande amigo de Luís. Além do mais, eles moravam na mesma vizinhança. As crianças podiam chegar lá rapidamente. — Por enquanto, fiquem debaixo da cama.

Como se já estivesse tudo combinado, um grito veio do quarto dos pais. Era a mãe, Joana. Enquanto Rodolfo abria a porta ás pressas, os pequenos saíram pela janela e fugiram.

Ao olhar em volta, ele viu um homem vestido de preto á esquerda. Ele se encontrava no fim do corredor, perto da porta aberta do quarto dos pais. Mais um homem devia estar lá dentro. Quantos mais homens estavam escondidos pela casa, ele não fazia ideia. Sacou a pistola de disparou no rosto do homem. Sem dúvida, tinha uma boa pontaria. Acertou exatamente onde queria.

Um homem saiu da cozinha, que se encontrava atrás de Rodolfo. Tinha um facão em sua mão. Ao ouvir um barulho, o jovem se virou. Conseguiu ver detalhadamente o rosto dele. Tinha olhos castanhos e cabelos pretos. O que chamava a atenção, porém, era o grande nariz. Por isso, apelidou-o mentalmente de Nariz. Outro homem atravessou a porta de entrada, á sua esquerda. Este tinha olhos azuis e cabelos castanhos. Uma cicatriz se projetava na sua face direita. Apelido: Cicatriz. Ele brandia uma espada fina. Sua ponta era extremamente afiada. Não tinha corte, mas servia para apunhalar ou dar estocadas. Um florete. Rodolfo olhou atento para os dois, observando as armas.

Finalmente, Nariz tomou a iniciativa. Atacou, com o facão como arma. O agressor, porém, se transformou em vítima. O adolescente, bem treinado pelo pai, desviou-se da estocada, agarrando-lhe o pulso. Torceu seu braço e tomou-lhe o facão, ficando de costas para ele e de frente para Cicatriz, que avançava com o florete. Rodolfo soltou Nariz e rolou para o lado. O golpe de Cicatriz, que era para acerá-lo, acabou acertando Nariz no estômago, matando-lhe. O sobrevivente olhou surpreso para o parceiro, que jazia á seus pés. Rodolfo aproveitou a vantagem e cravou o facão na cabeça do homem. Naquele momento não reparou o que fazia, mas eram os dois primeiros homens que matava.

Rodolfo retirou o facão do morto e pegou o florete com a outra mão. Correu para o quarto dos pais. Encontrou lá o pai, com dois homens mortos no chão. A mãe, Joana, servia de refém para outro. O filho recarregou a arma, escondido. Em seguida, entrou no local e atirou, acertando o ladrão, que se encontrava de costas para ele.

— Pai, venha! — gritou o jovem.

Eles atravessaram o corredor. Luís avisou que iria pegar outro facão. Rodolfo levou a mãe para fora. Ao chegarem lá, ele olhou para Joana. Ela estava aos prantos, e abraçou o filho.

O que aconteceu em seguida, porém, foi muito rápido.

Rodolfo levou uma pancada na cabeça e caiu de joelhos, quase desmaiando. Dois homens o seguraram. A mãe foi agarrada por um terceiro. Luís apareceu na porta. Olhou desesperado para tudo, mas uma espada atravessou-lhe em seguida. Seu matador levava Raul, que chorava, nos braços.

— Não! — gritou Rodolfo. Naquele momento, os matadores atearam fogo á casa. Logo um homem deu um chute em seu rosto e ele desmaiou.

Naquele momento, Rodolfo não havia morrido por fora, mas por dentro ganhara uma ferida incurável.

Notas finais
Peço que tenham paciência. A capa da fic não é á toa. Daqui á pouco o Brasil vai aparecer.