Passava das onze, mas algumas poucas almas ainda permaneciam no pub “Adam & Eve”, em Westminster. Aquele era um dos pubs mais arrumados da cidade, onde homens da boa sociedade londrina costumavam frequentar para uma caneca de cerveja após o expediente, e encontrar velhos amigos enquanto se alimentavam ao som de uma música animada tocada pelo pianista do pub. No início, Jacob sentia-se desconfortável com aquele pub e todo o seu requinte, mas a cerveja de boa qualidade a um bom preço parecia compensar todo aquele luxo que não combinava consigo. Além disso, o pub ainda tinha um ringue clandestino de lutas, tão discreto que Jacob só soube da existência após três idas ao pub.

Naquela noite, Jacob tinha optado por beber sua caneca de cerveja no “porão”, local onde as lutas clandestinas aconteciam. O ar abafado, misturado ao cheiro de cigarro e do suor dos oponentes do ringue, tornavam aquele local péssimo para quem desejava apenas apreciar uma cerveja gelada, mas Jacob parecia ser a única exceção à regra, sentado em um banco de madeira gasta, bebendo sua caneca com devotada calma enquanto colocava as idéias no lugar, ao som de socos, murros e urros de dor vindos do ringue.

“E agora, que livramos Londres dos Templários, o Conselho aparece, querendo colocar as cartas na mesa. Se Evie pensa que irei acatar de bom grado as decisões daquele bando de velhos gordos, ela está enganada. Não precisamos deles. Não precisamos de mais Assassinos. Eu já tenho os Rooks. Eles são leais à mim, leais à ela.”

Os pensamentos de Jacob foram interrompidos pelo súbito silêncio, vindo dos presentes ao redor do ringue.

—O que houve? – perguntou Jacob a um homem ao seu lado.

—Não ouviu? Parece que alguém conseguiu a proeza de derrotar todos os oponentes em dez segundos.

Jacob quase se engasgou com sua cerveja, ao ouvir isso. Dez segundos?! Robert Topping só poderia estar exagerando, ou não deveria ter feito a contagem direito. Dez segundos?! Nem ele mesmo seria capaz de tal façanha.

Terminando de esvaziar a caneca, Jacob a pôs sobre o banco e se levantou, indo em direção ao ringue, precisando se espremer entre os presentes, que pareciam atônitos, ainda em silêncio. Quando finalmente conseguiu colocar seus olhos no ringue, Jacob foi contemplado com uma visão surpreendente. De todos os lutadores, apenas um havia restado. Estavam todos desmaiados ao chão, tinham levando uma boa surra. Jacob poderia até dizer que aquele tinha sido um trabalho seu, mas ele sabia que não era.

-Mas que diabos! – exclamou um, por fim. – De onde esse sujeito veio?

-Perdi todo o meu dinheiro!

-Eu também! Alguém deve ter apostado nele, não é possível.

-Eu não apostei. – ouviram-se várias vozes. Ao que tudo indicava ninguém naquele pub apostou no vencedor. Ou seja, toda a aposta seria arrecadada pelo próprio lutador. Jacob estava cada vez mais surpreso. Aquilo era como a vitória de um cavalo azarão. E põe azarão nisso, afinal nem de longe o tal rapaz parecia um lutador vitorioso. Pálido, magro e um tanto alto. O tipo de lutador que seria espancado sem dó por ele. Mas contrariando a todas as expectativas, ele venceu. E agora, sairia dali com uma fortuna em mãos. Jacob daria tudo para ter visto aquela luta.

Robert Topping interveio.

-Er, meus senhores, acalmem-se...

Enquanto a plateia protestava, acusando trapaça, Jacob pensou em procurar Topping e pedir para desafiar aquele oponente, mas quando prestes a fazê-lo, sentiu alguém a colocar uma mão firme em seu ombro. Em seu instinto de Assassino, Jacob quase sacou sua lâmina oculta, mas ele voltou a si quando se deu conta de que estava diante de um rosto familiar.

-Harry. – disse Jacob, enquanto seu amigo sentava-se ao seu lado. Em sua mão, estava uma caneca com cerveja quase transbordando.

-Bebendo sozinho agora?

-Só queria colocar os pensamentos em ordem. – disse Jacob, dando mais um gole em sua caneca.

-Ah, sim. Faço uma idéia do que está pensando. Nos Rooks.

-Também. – assentiu Jacob. – Há outras coisas me preocupando, apesar disso. Mas não posso negar que estou mais preocupado com os Rooks.

-Claro. Mas acho que sei como colocar um fim à sua preocupação...

-Ah, Harry. Se você está pensando em...

-Não, nada disso. Nada que envolva bebida. Mas mulheres...

-Harry, é sério. Não estou com cabeça para uma noitada em algum bordel ou...

-Pare com isso, Jacob. Daria para se passar por sua irmã Evie se colocasse um vestido e raspasse sua barba.

Jacob fez uma nota mental que Evie não usava vestido, mas deixou de fazer o comentário. Sentia que Harry estava prestes a falar algo importante, então o Assassino preferiu aguardar a resposta de seu amigo, enquanto terminava com sua caneca de cerveja em lentos goles.

-Diga.

-Sabe, eu tenho uma velha amiga aqui em Londres chamada Chelsea. Ela trabalha em um bordel. Ele não fica muito longe de Devil’s Acre, então provavelmente você o conhece.

-Há muitos bordéis perto de Devil’s Acre. Terá de ser mais específico.

—Tudo bem. Estou falando do Cabaré Vermelho. Uma mulher chamada Ruth Stapleton cuida dele. Uma cafetina, como deve imaginar. O problema é que ela não é a cafetina apenas deste bordel, mas também de outros três, espalhados por Westminster. Há também um bordel de luxo perto da Igreja de St. James que...

Enquanto Harry recitava tranquilamente os nada menos que dez – ou seriam doze? – bordéis que havia em Westminster, Lambeth e Whitechapel, Jacob pôs-se a pensar. Não à toa os templários sequer se atreveram a controlar a prostituição na cidade. Era algo muito descentralizado e desconexo. Um cafetão ou cafetina controlava ao menos dois ou três bordéis, no máximo. E em certos bairros como Whitechapel, havia de quatro a cinco bordéis em uma mesma rua. Uma coisa Jacob tinha certeza: ouvir a listagem de seu amigo Harry o deixava mais tonto do que vinho barato.

-Por quanto tempo esteve estudando os bordéis da cidade?

-Não é muito difícil conhece-los. Além de ter, é claro, seu grau de prazer em tal tarefa. Mas enfim, já andei sondando com algumas meninas insatisfeitas em terem suas vidas controladas pelas cafetinas e cafetões. Boa parte delas acaba tendo de se submeter à violência e exigência de porcentagem nos ganhos em troca de segurança. A fama dos Rooks, e especialmente a sua fama, tem deixado muitas prostitutas dispostas a uma parceria conosco. Para elas, os Rooks poderiam oferecer a mesma segurança – claro, sem a mesma hostilidade.

Jacob deixou escapar um suspiro cansado, antes de beber mais cerveja. Harry continuou.

-Mas, é claro, para tornarmos nossa oferta ainda mais tentadora, seríamos obrigados a abrir mão de, pelo menos, 10% do que as prostitutas ganham.

-Os cafetões não aceitarão de bom grado uma concorrência desse tipo. Duvido muito que eles fiquem parados enquanto nos assistem a roubar suas garotas e abrir nossos próprios prostíbulos.

-Em nenhum momento eu disse que iríamos abrir nossos próprios prostíbulos, Jacob. – disse Harry, dando mais um gole em sua cerveja. – Eu pensei em algo mais... Drástico.

-Como o quê?

-Tomar os negócios deles. De modo definitivo. Entendeu?

Por estarem em um pub, o tom de Harry se tornou algo mais secreto, confidente. Não era necessário muito para que Jacob entendesse onde Harry queria chegar.

E mesmo assim, ainda havia Evie, pensou Jacob. O Assassino duvidava muito que sua irmã iria aceitar adicionar prostituição aos ganhos dos Rooks – e consequentemente dos Assassinos. Ele a conhecia bem o bastante para saber que ela não aceitaria. Apesar disso, Jacob preferiu não trazer o assunto “Evie” à tona naquele momento.

Dane-se. Evie está longe, cuidando de encontrar aquela tal armadura. E além do mais, isso não será para sempre. Tudo que preciso é de capital, dinheiro. Quando os Rooks se reergueram, eu abandono essa atividade e tudo voltará a ser como antes. Isso é só uma emergência, Jacob. Só uma emergência que Evie não precisa saber.

Jacob esboçou um sorriso animado.

-Quando começamos?

-Bom... Esta é uma boa noite para começarmos. Combinei de encontrar-me com Chelsea no bordel dela. Parece que esta noite Ruth Stapleton estará lá. Ela costuma aparecer em seus bordéis de tempos em tempos para saudar os clientes mais especiais. Chelsea poderá nos dar uma boa cobertura para agirmos.

-Perfeito. – disse Jacob, terminando sua cerveja e jogando sobre a mesa algumas moedas.

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Uma música alegre tocada no piano preenchia o ambiente do Cabaré Vermelho, um bordel barato e de pouco requinte, mas que era capaz de atender as necessidades mais primitivas de seus frequentadores. Algumas dançarinas dançavam animadamente, lançando seus saiões ao alto e exibindo com pouca sutileza suas pernas envoltas em sensuais meias-arrastões. Os cavalheiros que não se divertiam com o “espetáculo” no pequeno palco pareciam ter suas atenções ocupadas para as inúmeras prostitutas de todas os tipos, tamanhos e gostos que trabalhavam na casa.

Como não sabia escalar coisa alguma, Harry Carter entrou pela porta da frente, como um cliente normal e frequentador esporádico, sem levantar suspeitas. Havia combinado com o amigo que a janela de seu quarto estaria aberta, já que o prostíbulo era, afinal, completamente fechado. Aproveitando-se das ruas mal iluminadas, Jacob iniciou sua escalada.

Assim que entrou no quarto, Jacob fechou a janela. No mesmo ambiente, estava a tal prostituta, Chelsea, usando um vestido com um decote generoso.

-Senhorita. – brincou Jacob, guardando a cartola no bolso e pondo sobre a cabeça seu capuz de Assassino. A moça deu uma piscadela.

-Então, este é seu amiguinho, Hally... Poderia tê-lo apresentado em circunstâncias mais amigáveis. – brincou Chelsea com Harry, ajeitando sua vasta cabeleira cacheada. Como resposta, a mulher recebeu de Harry um estalado tapa na bunda, fazendo-a soltar um gritinho escandaloso.

-“Hally”? São tão íntimos assim, é? – questionou Jacob, fazendo piada da situação.

-Cale a boca, Jacob. Agora, foco. Temos um assunto a tratar aqui.

-Realmente. Sabem quantos vigias tem pelo prostíbulo?

-Cinco. Dois no segundo andar, dois no primeiro e um na porta, a fazer a guarda.

-Ótimo. Senhores, eu não vou mais atrapalhá-los em suas... Ocupações. Passar bem. – disse o Assassino, fechando a porta rapidamente atrás de si, ainda a tempo de ouvir um gritinho animado de Chelsea.

Risadinhas e suspiros femininos de prazer – possivelmente fingidos – abafavam os passos de Jacob no assoalho velho do prostíbulo. O Assassino que tinha na furtividade seu ponto fraco achava-se abençoado por aquele ser um local pouco vigiado. Como Chelsea disse, no segundo andar havia apenas dois seguranças. Um deles, claramente embriagado demais para se constituir um problema. O outro provavelmente trabalhava no emprego dos sonhos, pois mais assistia pelo buraco da fechadura a performance de suas protegidas do que vigiar propriamente o local.

O bêbado só precisou de um golpe para sucumbir. Jacob o jogou da janela. O segurança mais assanhado seria um problema maior. Escondido atrás de um móvel, o Assassino assobiou. Não adiantava. O barulho do ambiente o impediria de ouvir qualquer coisa. Tirando do bolso um xelim, o Assassino o atirou para longe, fazendo a moeda tilintar no chão. De imediato o segurança se sobressaltou.

-Tem alguém aí? – veio a pergunta clássica.

Mas em segundos, o segurança voltou à sua distração. Jacob rolou os olhos. Nunca pensou que desejasse pessoas que realmente fizessem a segurança correta do local. Um segurança normal teria caído em seu truque, mas não um relapso como aquele homem.

Tentando uma tática diferente, o Assassino derrubou um vaso de flores.

-Quem taí, porra? Aparece!

Um pequeno sorriso se desenhou nos lábios de Jacob. Com a destreza costumeira, o Assassino enfiou sua lâmina no pescoço, fazendo um jato de sangue manchar o papel de parede envelhecido do corredor.

Agora, era a vez do primeiro andar.

Como o local estava cheio de pessoas, Jacob preferiu uma abordagem mais direta. Desceu as escadas, onde duas prostitutas observavam ao pequeno espetáculo de polca debruçadas no corrimão. Assim que desceu as escadas, as atenções dos homens voltaram a si. Claro, ele ainda estava com o rosto parcialmente coberto pelo capuz. Um deles caminhou, de modo desconfiado. Foi recebido com uma garrafada por Jacob.

Instalou-se a confusão, do jeito que o Assassino apreciava. Outro segurança do bordel veio para acudir o colega ferido, enquanto as prostitutas gritavam e os clientes saíam correndo dali. Jacob socou o segurança, que tudo que pôde fazer foi socar o ar até que recebesse um pontapé e caísse desmaiado do outro lado do balcão. O segurança da porta sacou um revólver, mas a confusão de pessoas a correr o impediu de atirar rapidamente, dando tempo a Jacob, menos cauteloso, de sacar seu próprio revólver e acertar um tiro entre os olhos do segurança.

Reforços. Nada que Jacob não estivesse preparado. Tirando o kukhri do bolso, Jacob fez uma verdadeira carnificina. Sua arma, de lâmina bem afiada, causou um verdadeiro estrago. O carpete tornou-se escorregadio de tanto sangue. Por fim, o Assassino havia acabado com todos. Da luta, apenas seus punhos estavam avermelhados pela pancadaria. As poucas prostitutas que permaneceram e assistiram a dar cabo da vida de todos os seguranças observavam a Jacob, temendo por suas vidas.

-Não há o que temer, garotas. – disse Jacob, pegando uma garrafa aberta de uísque cima de uma mesa e dando um vagaroso gole nela. – Estou do lado de vocês. Os tempos de exploração e castigo cessaram

As prostitutas observavam Jacob com clara confusão.

-Mas... E quanto à Miss Stapleton?

Jacob sorriu de modo malicioso, fazendo uma das prostitutas rirem.

-A vez dela há de chegar, não se preocupe. Agora, os Rooks controlam este prostíbulo. Portanto, a partir de hoje, vocês trabalham para nós.