Assassin's Creed: Colony
9 Caçado
Notas iniciais
Itália, cidade de Roma, alguns meses mais tarde.
Ettore não saberia dizer com exatidão como foi que um dia aparentemente normal e corriqueiro se transformou subitamente em um inferno.
De uma hora para outra, uma tarefa simples se convertera em pesadelo.
Estava na biblioteca do Esconderijo Assassino na Ilha Tiberina, entretido com um livro de filosofia no meio de uma tarde encalorada e tediosa, quando viu seus irmãos encapuzados saudarem reverenciosamente alguém prestes a passar pela porta.
O jovem Assassino nem teve que olhar para saber que era Ezio quem se aproximava.
Ao longo do tempo e da convivência, aprendera a discernir com precisão os sinais da chegada do Mestre. Seus ouvidos treinados captavam a grande distância o som dos passos do Mentor.
Ezio tinha uma maneira única de andar, e o som que seus passos produziam era diferente de todos os demais.
Outro fator interessante é que alguma coisa no ar parecia mudar quando o Maestro se aproximava. Como se sua presença provocasse uma espécie de atmosfera elétrica.
E havia ainda a solene reverência nos olhos e na postura de seus irmãos do Credo quando eles o avistavam antes de Ettore, como era o caso naquele dia.
Mal a figura de Ezio despontou à soleira da porta do cômodo, o rapaz se pôs de pé para se inclinar respeitosamente:
— Salute, Maestro!
— Salve, Ettore!
— Como posso ser útil hoje à Ordem e ao Credo, messere?
— Estou indo ver Gilberto e gostaria que me acompanhasse.
— Ma certo. — assentiu Ettore de imediato, sem esconder que estava um pouco confuso — Não prefere enviar um mensageiro?
— Não. Tenho assuntos a tratar com ele. Pessoalmente.
— Molto bene, signore. Como quiser. Quando partimos?
— Imediatamente. Estamos de saída.
Deixaram a segurança do abrigo para, dentro em breve, percorrer cuidadosamente os telhados de Roma, evitando ser vistos pelos guardas que infestavam a cidade, fosse nas ruas, fosse nos terraços. O desespero de Cesare Borgia chegava ao seu ponto máximo, e o número exagerado de sentinelas nas vias evidenciava isso.
Ezio Auditore era um homem a caminho dos cinquenta anos de idade, mas suas habilidades, principalmente as de corrida, pareciam intocadas pelo tempo.
Ettore, quase vinte anos mais jovem, tinha dificuldade para acompanhá-lo.
Então era aquela a famosa velocidade mortal do Mestre?
Se Ezio estivesse determinado a perseguir ou escapar de alguém, não havia como impedir. Sequer escapar. O Ladrão Traidor Vincenzo que o diga.
— Essas vias romanas são muito largas, o que torna os telhados muito distantes. — reclamava Ezio ocasionalmente quando precisavam atravessar com um salto maior de uma esquina para outra — Tenho saudades da minha Firenze, onde as ruas são mais estreitas e pitorescas, e pular entre telhados não parece tão difícil para um velho como eu.
Em resposta, Ettore apenas ria.
Depois de algum tempo, divisaram enfim o telhado do prédio imponente do La Volpe Addormentata (A Raposa Adormecida), a bases de operações da Guilda Romana dos Ladrões, liderado pelo lendário Gilberto.
Conhecido por La Volpe, esse homem era um Ladrão habilidoso e importante membro do Credo, sendo considerado até mesmo um dos Assassinos mais notáveis da Renascença Italiana.
Algumas lendas giravam em torno da pessoa de Gilberto o qual, quando indagado a respeito, apenas esboçava seu peculiar sorriso enigmático. Ezio e ele eram amigos de longa data, já haviam lutado juntos algumas vezes antes.
O local escolhido por Volpe para montar sua base de operações situava-se em um extenso campo do Distrito Antico, um complexo de casas e prédios abandonados em algum ponto na região sudoeste de Roma.
Em uma das edificações, o que a princípio não passava de uma taverna de aparência e procedência duvidosa, com o tempo, o dinheiro e a imaginação de Ezio Auditore, transformou-se em uma chamativa instalação, mistura de bar e estalagem, de três andares, totalmente ampliada, redecorada, culminando no que parecia uma pequena torre.
Ali inaugurou a taverna La Volpe Addormentata, sempre movimentada e frequentada inclusive pelos homens dos Borgia, que apareciam para comer, beber e apostar. A iniciativa fora ideal porque o local, além de servir de fachada para as verdadeiras ações da Guilda, ainda fazia com que tivessem em suas portas informações frescas a respeito de Cesare, já que o lugar vivia repleto de soldados.
O próprio Gilberto já os esperava na entrada, e veio saudá-los ainda nos degraus diante do estabelecimento.
Adentraram o recinto enfumaçado e mal iluminado, ocupando uma mesa do canto, onde podiam conversar sem ser perturbados.
Gilberto mandou servirem pão, salame, queijo e cerveja.
Conversando animadamente com os irmãos da Ordem, Ettore comeu com apetite e bebeu com avidez.
A partir daí, as coisas fugiram totalmente de rumo.
***
— Vittoria Agli Assassini*(1)! — gritou inflamadamente alguém de algum canto da taverna tumultuada, elevando sua voz acima do alvoroço.
Ettore jazia caído. Sentia a cabeça pesada. Os olhos lacrimejavam.
Estava zonzo. Seu estômago se revirava em náuseas.
Não conseguia concatenar as ideias nem raciocinar com clareza.
O conflito generalizado urgia à sua volta.
Precisava tomar uma atitude.
Reagir.
Sair dali.
Entretanto, seu corpo não se mostrava disposto a obedecer a sua vontade.
Apesar de todo seu esforço, deu-se conta também de que era inútil tentar lembrar como chegara àquela situação.
Havia uma grande lacuna em sua memória de curto prazo. Um misterioso buraco negro no mais íntimo de seu córtex.
Em um instante estava reunido com os Assassinos, tomando cerveja e comendo do prato de La Volpe.
Então havia um vácuo, um salto improvável no fluxo de recordações ainda tão recentes.
Lembrava apenas de subitamente sentir-se muito cansado, sonolento, os olhos quase fechando sozinhos.
As vozes, bem como as risadas de seus companheiros, começaram a ficar distantes, como num sonho.
Os rostos dos amigos se tornaram borrões, vultos difusos.
Um zumbido fino castigava irritantemente seus tímpanos.
Um clarão indefinido de luz anunciava que as portas da taverna tinham sido abertas.
Apesar de estar grogue, Ettore divisou o corpo da guarda que adentrava o recinto. Notou as armaduras polidas brilhantes, a postura ameaçadora dos soldados. Reconheceu o Brasão Borgia nos escudos e estandartes.
O elegante capitão seguia à frente. Percorreu o lugar com os olhos e, quando viu o rapaz, indicou-o aos companheiros, berrando com autoridade:
— É aquele lá do canto. O encapuzado de olhos verdes. Matou um de nossos homens. É um dos Assassinos! Prendam-no imediatamente!
Ettore ainda pensou em reagir, mas as forças lhe faltaram e ele simplesmente escorregou para o chão enquanto suas vistas escureciam.
***
O grito de guerra de um dos amigos arrancou Ettore de seu breve apagão.
Estivera desacordado por poucos instantes, mas a cabeça doía como se o tivessem golpeado de surpresa.
Uma briga generalizada entre Assassinos, Ladrões e Guardas Borgia parecia ter tomado a taverna.
Alguém tivera a brilhante ideia de atirar ao chão uma bomba de fumaça em local tão pequeno, e agora se via uma nuvem densa sufocante a obscurecer o ambiente.
Girando o corpo, o jovem Assassino loiro começou a rastejar.
Todos os seus instintos estavam disparados, alarmados, exigindo que se mexesse, que escapasse o quanto antes.
Aqueles eram homens de Cesare Borgia, e tinham vindo especificamente ao La Volpe Addormentata para prendê-lo, sob acusação de matar um guarda.
Ele não se lembrava de ter matado nenhum guarda.
Não recentemente, pelo menos.
Não obstante, levando-se em consideração as circunstâncias atuais, era difícil confiar em sua memória para qualquer coisa.
Não dispunha de tempo para alegar ou tentar provar sua inocência.
Eles queriam sua cabeça. De um jeito ou de outro.
Precisava fazer algo. E rápido.
Sabendo que seu estado era crítico demais para lutar, pelo menos a princípio, ele rastejou para longe da confusão.
Mantinha o ventre colado ao chão, exatamente como uma serpente, medida prudente por dois motivos: o primeiro e mais óbvio, era o fato de que, tendo a sua visão prejudicada pela confusão, os soldados poderiam disparar às cegas contra a cortina de fumaça para impedir que fugisse e acabar acertando-o. E o segundo motivo estava no fato de que, se avançasse rente ao chão, pouparia sua visão e seus pulmões do efeito sufocante da duradoura bomba distrativa Assassina.
Com alguma dificuldade passou a engatinhar, depois a se locomover meio agachado.
Dirigia-se para os fundos da taverna, onde estava situada a adega. Geralmente sempre havia dois Ladrões bem armados guardando a porta, porque era nesse cômodo que aconteciam as discretas reuniões acerca das verdadeiras atividades da Guilda, mas naquele dia, em plena confusão, a área parecia desguarnecida.
Ettore não vira sinal de Ezio ou La Volpe.
Isso o preocupou. Sentiu uma pontada de medo por estar só naquela situação.
Precisava fugir. Sobreviver.
Alcançando a porta que levava os fundos do estabelecimento, um guarda surgiu não se sabe de onde, tentando sacar a espada para atacá-lo.
Ettore, apesar de trôpego, usou o ombro para atingi-lo com força, atropelando o homem com a força de um estouro de manada.
Ouviu gritos atrás de si e tentou correr, cambaleante.
Sua visão estava duplicada.
Cruzou a adega em direção às escadas que davam acesso aos próximos andares da edificação.
Mais uma dupla de guardas surgiu em seu caminho. Lutou com eles nos degraus, guiado muito mais pelos instintos do que pelos sentidos propriamente.
Nocauteou os dois e continuou subindo o mais rapidamente que podia.
Ofegava.
Seus sentidos estavam embaralhados e ele via o mundo rodar depressa.
Continuou subindo.
Uma mão repentinamente agarrou sua capa por trás.
Virou o corpo e chutou por rumo, sem mirar.
O bico de sua bota atingiu o queixo do soldado, que desceu rolando os degraus, arrastando consigo uma leva de companheiros logo atrás.
Em pouco tempo estava no telhado, começando a escalar a pequena torre.
Uma vez de pé no topo, usou a ampla visão que tinha da cidade estendida diante de seus pés para se localizar e orientar, sincronizando-se ao panorama.
Bem ao longe, a noroeste, divisou meio oculta por tantas torres e domos de igrejas a silhueta do Esconderijo Assassino na Ilha Tiberina, recortado contra o céu vespertino muito azul e quase sem nuvens de Roma.
O rapaz gravou tudo aquilo em sua retina, criando no mesmo instante uma espécie de mapa mental.
Assim que os guardas finalmente alcançaram o telhado, ainda puderam vislumbrar atônitos, a figura de Ettore.
Tendo dado as costas ao abismo, estando de pé exatamente na beirada, ele os contemplava com um sorrisinho enigmático.
Antes que os soldados pudessem esboçar qualquer tipo de reação, o jovem Assassino, abrindo os braços, deixou-se cair para trás, mergulhando de costas no abismo.
Ainda sorria quando sumiu de seu campo de visão.
Os guardas se dirigiram correndo até a borda e olharam para baixo. Viram Ettore emergir ileso do palheiro que amortecera sua queda de quase vinte metros.
Executara um salto de fé perfeito, às cegas.
Aterrissou com precisão sobre a palha, mesmo estando de costas na hora de saltar.
O Assassino tratou de continuar em movimento, ou se tornaria alvo fácil para os arqueiros e atiradores Borgia.
Pouco além do local onde fora erigido o La Volpe Addormentata, havia uma sucessão de lojas como banco, ferraria, posto médico, alfaiataria e mercado de arte. Tais empreendimentos sempre atraiam vasta clientela, o que gerava enorme multidão transitando pela área.
Misturando-se à turba, Ettore usou suas habilidades furtivas para se tornar anônimo.
Sabendo que os guardas o tinham perdido de vista, mas que aquilo não duraria muito tempo, tratou de escapar por um beco que passava nos fundos da estrebaria.
A tentadora ideia de alugar um cavalo lhe perpassou a mente por um instante. Desistiu dela em seguida, porque sabia que fugir a galope seria um erro. O descobririam e o prenderiam em questão de minutos. Ainda que Roma fosse uma cidade grande demais para ser percorrida a pé normalmente, aquele era um caso à parte.
Ettore teria de ser discreto.
Deveria permanecer nas sombras.
Era perigoso demais fazer qualquer coisa que atraísse atenção sobre si.
Apoiando-se a uma parede próxima, respirou fundo.
A primeira coisa a ser feita era recuperar o autocontrole e tentar purgar o organismo de alguma forma.
Tinha certeza de que algo na comida ou bebida o intoxicara.
Era melhor que La Volpe não soubesse nada sobre aquilo, pois, se tal envenenamento tivesse sido intencional, Ettore o caçaria até o inferno. Não importava se o Ladrão era uma lenda ou não; amargaria por ter feito aquilo. Ia morrer sentindo a lâmina oculta do jovem Assassino a estraçalhar sua garganta. Não teria tempo nem de se arrepender.
Curvando-se no beco, Ettore meteu dois dedos profundamente na própria goela.
Como esperava, a reação foi imediata.
Sentiu o líquido amargo subir queimando por sua garganta, e então vomitou como nunca, mais do que costumava quando acordava de ressaca após as noites insanas de bebedeira em companhia do Mentor.
Obrigou-se a expelir praticamente tudo que estivera em seu estômago até então.
Enxugou a boca na manga da túnica.
Inspirando fundo, sentiu-se consideravelmente melhor.
Colocou-se de novo em movimento, torcendo para que o suor ajudasse a expulsar os agentes tóxicos em seu organismo.
Voltou a se mover furtivamente, embora sem abrir mão da velocidade.
Duzentos metros adiante, infelizmente foi reconhecido por um trio de guardas que patrulhavam a área atentamente.
Para despistá-los, jogou uma porção de moedas ao chão. Imediatamente uma multidão de passantes se aglomerou no local, agitada, gritando e brigando pelo dinheiro. Aquela confusão massiva bloqueou o caminho dos guardas, impedindo que eles pudessem perseguir Ettore.
Os minutos transcorriam com a lentidão de um século.
O suor empapava as axilas do Assassino e gotejava de suas têmporas.
Parecia que todos os soldados de Roma tinham se mobilizado para caçá-lo.
Calculando mentalmente suas chances de sobrevivência, viu que não eram animadoras. Qualquer atirador ou besteiro que o visse, atiraria primeiro e perguntaria depois.
Tinha que evitar a todo custo ser visto, o que era um grande desafio, já que aquele distrito era muito extenso e aberto, com poucos edifícios, bastante arborizado, composto por casas, fontes, piazzas, monumentos e lojas bem espaçados, distantes uns dos outros.
Ettore não tinha muito mais para se esconder do que árvores, ruínas e carroças de palhas ocasionais pelo caminho. Seria um trajeto difícil até que chegasse aos limites entre o Distrito Antico e o Distrito Centro, que era onde se localizava o Esconderijo Assassino, e onde havia mais casas, prédios, lojas e multidões com os quais pudesse contar para se manter oculto.
Cautelosamente se pôs em marcha, evitando as patrulhas atentas e numerosas.
Um pouco além, ao atravessar uma pequena piazza em ruínas, divisou um grupo de cinco guardas os quais, bem armados, vigiavam o arco arruinado que dava acesso à próxima área. Ettore precisava ir justamente por ali se quisesse chegar mais rapidamente ao Esconderijo Assassino na Ilha Tiberina.
Ao ver os soldados do outro lado da praça, percebendo que um deles lhe lançava um olhar desconfiado, o rapaz loiro recuou dois passos, deu as costas para o grupo e posicionou-se estrategicamente atrás de uma fonte destruída pelo tempo, como se não passasse de um cidadão qualquer distraído com o movimento de passantes.
Abaixando ainda mais o capuz sobre os olhos a fim de tornar seu semblante irreconhecível, vasculhou os arredores com a vista, tentando encontrar uma forma de passar despercebido pelos homens de Cesare que vigiavam a estrada.
Para sua sorte, naquele instante um grupo de belas mulheres chegou ao local cantarolando, interagindo com os homens transeuntes. Notando as vestes demasiadamente ousadas, a maquiagem excessiva e o comportamento escandaloso das recém-chegadas, ele concluiu que só podiam ser cortesãs do Rosa in Fiore.
Embora servissem ao bordel mais requintado de Roma exercendo a segunda mais antiga profissão do mundo, Ettore sabia bem que aquelas garotas, a mando de Cláudia, também atuavam como espiãs informantes do Credo.
Sabendo que as cortesãs poderiam ajudá-lo, Ettore não hesitou em abordá-las discretamente. Passou então uma moeda às mãos da cortesã que liderava o bando, uma loura curvilínea de seios fartos e coxas firmes, antes de indicar com o queixo o grupo de soldados montando guarda mais adiante.
Ela acenou que sim. Chamando as amigas com um gesto de mão, caminhou graciosamente em direção à patrulha Borgia.
No início, o capitão da guarda tentou manter a postura, ficar sério, enérgico, pediu que se afastassem porque estava em serviço. Mas logo seus olhos e seu juízo se perderam no balançar hipnótico daqueles quadris largos, que se moviam em frenesi enquanto, rodeada pelas amigas que aplaudiam, a loira dançava provocativamente diante dos soldados boquiabertos.
Um perfume suave e envolvente emanava dela, embriagando e embevecendo seu público.
A estonteante mulher então ergueu um pouco a saia para exibir suas coxas roliças, bem torneadas. Sorriu com luxúria. Esbanjava feminilidade e sensualidade. Não havia como resistir a seus encantos. Ela sabia.
O Capitão Borgia e seus soldados estavam magnetizados pelas cortesãs. Entretidos demasiadamente para notar o jovem encapuzado se esgueirando insuspeito a seu lado, cruzando a área que eles estavam ocupados demais no momento para vigiar.
Ettore seguiu em frente.
Por mais lento que seu avanço fosse, era contínuo.
Cada sentinela evitada, cada metro vencido representava uma vitória, um passo mais perto de casa e da segurança.
Depois de mais algum tempo de deslocamento feito com discrição e nas sombras sempre que possível, chegou ao Porto Fluvial Tevere.
Não distando muito do Foro Romano, aquele era o maior local de fornecimento hídrico da cidade na época, que se abastecia com as águas do Tibre. Além disso, o Porto Tevere servia também como ampla porta de entrada e saída, ferramenta importante de comunicação e comércio para os habitantes da Cidade Eterna.
Naquela tarde, o movimento ali na antiga zona portuária de Roma era intenso.
Ettore pensou em se deslocar ao longo da margem. Porém, a presença maciça dos guardas o fez mudar de ideia. Se pudesse, desceria o rio numa gôndola, ou mesmo a nado, porque assim logo chegaria à segurança de seu esconderijo. No entanto, preferiu evitar riscos e optou por realizar uma grande volta para despistar ocasionais perseguidores. Não podia se dar ao luxo de arriscar ser seguido e levar o inimigo direto às portas do refúgio da Irmandade. Aquilo poderia representar o fim da Guilda Assassina de Roma, já tão castigada pelos adversários e circunstâncias.
Felizmente o jovem Assassino pensava desse modo, porque o que mais temia, aconteceu: Foi detectado quando estava prestes a cruzar o rio.
Correu pelo porto saltando caixas, derrubando mercadorias pelo caminho atrás de si, a fim de atrasar seus perseguidores. Duelou ferozmente com diversos soldados, lutando para abrir caminho.
Percebendo que o cerco estava se fechando, encontrou uma rota de fuga alternativa. Ganhando velocidade, enquanto tiros e flechas passavam zunindo rente ao seu corpo, disparou em direção ao rio.
Dotado de sua agilidade Assassina extraordinária, deslocou-se à flor da água, pisando nos postes de madeira que emergiam da superfície nos quais geralmente se amarravam gôndolas e botes.
Seu equilíbrio era impressionante, cada pé se apoiava em uma das vigas sucessivamente, permitindo que o Assassino se deslocasse sem perder velocidade. Quase se tinha a impressão de que o encapuzado corria sobre a água. Alguns guardas, bem menos treinados, tentaram imitá-lo e, o máximo que conseguiram foi se desequilibrar e cair no rio.
Das vigas de madeira, Ettore passou a saltar entre gôndolas que desciam o canal impelidas a remo, cruzando-se no caminho. Os gondoleiros, assustados, contemplavam aquele jovem veloz que, mal saltava a bordo de suas embarcações, já tomava impulso para pular para a próxima, fazendo seus barcos balançarem com seu peso, quase derrubando os tripulantes.
Após saltar sequencialmente de uma gôndola para outra e passar por seis daquelas compridas e estreitas embarcações, Ettore saltou para pendurar-se no cordame de uma bojuda embarcação de carga ancorada ali.
Escalou rápido como uma aranha. Ouviu um estampido seco enquanto subia. Alertado por seu instinto, saltou para a esquerda, pendurando-se novamente, os pés apoiados no costado do navio. Muito embora os reflexos lhe tivessem salvado a vida mais uma vez, o tiro passou raspando seu quadril, fazendo minar sangue de sua cintura.
Rangendo os dentes, Ettore tratou de alcançar logo o convés da grande embarcação. Seu quadril ardia. Ainda que superficial, o ferimento incomodava.
Correu pelo deque repleto de marujos trabalhando para trazer cargas a bordo. Saltou então para o outro lado do rio.
Arriscando uma olhada para trás, viu os guardas agitados, muitos deles ensopados por tentar segui-lo, correndo ao longo da margem do outro lado. Certamente encontrariam uma ponte, a fim de dar a volta para prosseguir em sua caçada.
O loiro então encontrou uma aglomeração de pessoas mais à frente e se misturou a elas, desaparecendo em plena vista.
Movendo-se cuidadosamente, indo de uma multidão a outra para se manter oculto, cobria os últimos metros que o separavam das primeiras ruas do Distrito Centro.
Alcançou uma nova piazza, na qual funcionava um dos últimos mercados do Distrito Antico de Roma, praticamente na divisa com o distrito central.
Tratava-se de uma área aberta bastante extensa e em formato semicircular, permeada por pilares quebrados e arcos antigos, repleta de arbustos e cercada por casas e prédios, onde a enorme quantidade de pessoas se esbarrava a todo o momento, acotovelando-se junto às barracas de vinho, de verduras, artigos de couro, lojas de arte, ferrarias, alfaiatarias e postos médicos.
Apesar da enorme concentração de pessoas no lugar, com um rápido olhar Ettore concluiu que seria arriscado tentar atravessar a praça. O lugar estava repleto de guardas a pé, sendo que dois capitães, a cavalo, patrulhavam de um extremo a outro, indo e vindo sem cessar.
Também havia vigias nos terraços, observando atentamente a piazza.
Parecia impossível passar por ali sem ser notado.
Ettore então resolveu seguir pelos telhados. Mesmo sendo a rota mais perigosa, também era a mais rápida.
Ágil e silencioso como um felino escalou a parede mais próxima.
Uma vez no terraço do prédio, parou agachado, à escuta. Todos os sentidos em alerta.
Avançou cautelosamente, estudando a trajetória dos inúmeros guardas.
Manteve-se fora de vista escondendo-se atrás de chaminés, bem como se aproveitando de pontos cegos das sentinelas bem armadas.
Saltou sem ruído para o telhado vizinho, depois para ao outro, e logo para o terceiro. Tudo certo até aí.
No quarto salto, ao pousar, a telha não suportou o peso de seu corpo e escorregou com ele.
Ettore desastrosamente viu-se então perigosamente pendurado na beirada de um telhado a, no mínimo, doze metros do solo.
E essa nem foi a pior parte.
O som rascante da telha se deslocando antes de se espatifar na rua abaixo chamou a atenção de uma sentinela. Era um guarda besteiro, o qual cometeu o erro de investigar a origem do barulho.
Quando a sombra do militar assomou na beirada, bem perto de onde Ettore estava, o jovem Assassino não teve dúvidas: num piscar de olhos ejetou a lâmina oculta com a mão esquerda e a cravou profundamente no pé do adversário.
Soltando um grunhido doloroso, o surpreso homem viu a lâmina romper sua sandália de couro e transfixar seu pé de um lado a outro. Ato contínuo, o loiro puxou o guarda pela beirada, comprometendo totalmente seu equilíbrio.
Apavorado, o soldado bracejou desesperadamente por alguns segundos antes de despencar berrando no abismo. Caiu de cabeça. Seu crânio se destroçou e o pescoço partiu. Morte instantânea.
Obviamente isso atraiu mais guardas. Por isso, o Assassino tratou de subir ao telhado já se preparando para o pior.
Por mais que tivesse se sentindo um pouco melhor, alguns sintomas da intoxicação ainda estavam lá.
Ele tinha a sensação de que o tempo passava mais devagar.
Parecia que o ar estava denso, e que seus passos eram pesados, como se ele caminhasse dentro d’água.
Abaixou-se junto de uma chaminé para tentar pensar com clareza por um instante.
Ouviu passos atrás de si e se levantou rapidamente, por puro instinto.
Deparou-se com um guarda besteiro, que ficou um segundo sem reação.
Um segundo era tempo mais que suficiente para um Assassino agir, ainda que fosse um Assassino intoxicado.
Ettore agarrou e ergueu a besta ainda segura pelas mãos do guarda, evitando ser atingido por um eventual disparo. A seguir, tomando a arma para si, golpeou com ela o rosto do guarda, atordoando-o.
Olhando alguns metros adiante, viu outro besteiro fazendo mira sobre si e reagiu rapidamente, girando para abraçar o adversário que desarmara, usando-o como escudo; isso tudo aconteceu um milésimo antes que a flecha cortasse o ar.
Apanhado no fogo amigo, o besteiro imobilizado pelo Assassino teve a garganta perfurada fatalmente. Apesar de gorgolejar, agonizante, ainda dispôs de tempo para ver Ettore disparar a besta por cima de seu ombro, protegido por seu corpo.
Tiro certeiro.
O inimigo adiante levou a mão ao peito, soltando um grito agudo. Depois rolou pela borda do telhado.
— Sua morte foi necessária. — murmurou o jovem loiro pesaroso, depositando o corpo do besteiro no chão de forma cuidadosa, acrescentando quase com ternura. — Requiescat in Pace.
Ouviu vozes agitadas trazidas pelo vento.
Olhou para trás.
Viu mais soldados se aproximando, saltando velozmente entre os telhados.
Colocou-se mais uma vez em marcha, mas não antes de deixar um par de bombas de fumaça atrás de si, criando uma nuvem que ocultou temporariamente sua fuga, além de confundir os perseguidores.
O próximo prédio para onde seguiu ficava distante demais para se alcançar com um salto. Desse modo, ele precisou avançar sobre um varal de madeira, equilibrando-se como um artista circense.
Ia o mais rapidamente que podia. Mesmo assim, quando estava na metade do caminho, divisou a figura de um guarda à frente, parado, espreitando-o como uma raposa faminta encararia uma galinha.
O soldado portava algo. Levantou o que segurava na altura dos ombros. Fez pontaria. Claro, era uma das armas de fecho de roda inventadas por Da Vinci. Tinha que ser.
Mortal e precisa.
Daquela distância Ettore não tinha para onde correr.
Era impossível retroceder, bem como continuar avançando.
Cogitou saltar, mas estava longe demais do chão. Uma queda de tal altura oferecia grande probabilidade de ferir-se com alguma gravidade. Arriscar-se a uma fratura enquanto fugia de um batalhão furioso era definitivamente mau negócio.
Olhou novamente para o atirador.
Ele estava sorrindo. Parecia prestes a atirar.
Fechou os olhos por um instante.
Iria morrer.
Teve certeza disso.
Sua cabeça explodiria como um melão maduro.
Então haveria somente as trevas.
Depois, mais nada.
Fale com o autor