Assassin's Creed: Aftermath
35 Reencontrando Benjamin Franklin
Notas iniciais
Minha mãe, como era de se esperar, parecia insegura. Ela estava, pela primeira vez, vestida completamente como uma mulher branca. Sim, era verdade que ela costumava usar um vestido tradicional quando andava pela Homestead, mas ela fazia questão de pôr um xale de pele, ou mesmo algumas penas adornando suas tranças, para mostrar quem verdadeiramente era por trás daquela máscara.
Mas, desta vez, ela estava vestida como uma mulher branca, totalmente. Seu cabelo estava preso em um coque, parecido com o que Tessa costumava usar, o que me deu a entender que fora minha irmã quem lhe ajudara a se arrumar. Ela usava sapatos, não mais botas, e seu cordão de dentes de puma não estava mais em seu pescoço. Por mais que sua beleza ainda estivesse lá, era estranho vê-la desta forma. Tessa também tivera cuidado em se produzir, vestindo um de seus melhores vestidos e um chapéu delicado.
Era uma manhã de domingo ensolarada quando saímos de casa para seguirmos para Boston. Pegamos uma balsa, porque sabíamos que iria adiantar metade do tempo normal de viagem, ou seja, ainda à tarde estaríamos em Boston. As passagens costumavam ser caras, por isso pouco fazíamos uso de balsas, preferindo a carruagem ou mesmo o cavalo para chegarmos á Boston.
Eu já estava familiarizado com a cidade, mas Tessa parecia ainda abobada – tal como minha mãe, embora ela estivesse disfarçando muito para evitar seu estado de perplexidade com aqueles prédios enormes. Isso me lembrava de minha primeira vez na cidade, da forma como eu olhava para os prédios e para as pessoas nas ruas.
–Espero encontrar Benjamin Franklin. Nos últimos tempos, ele andava sendo embaixador na França, mas soube recentemente que estava de passagem em Boston. Espero que não tenha partido de volta à Paris.
Finalmente, chegamos ao monumental prédio do governo, onde segundo meu pai, Benjamin Franklin poderia estar trabalhando, pelo governo britânico.
–Connor, aguarde aqui na recepção com os outros. – ele pediu, dirigindo-se formalmente a um funcionário após meu assentimento.
Percebi que minha mãe, Tessa e Amália estavam pouco à vontade naquele ambiente, especialmente minha mãe. Alguns homens, altos funcionários do Governo, olhavam para ela com certo asco, mas minha mãe não se sentia intimidada por isso. Ainda assim, aquele não era o clima que eu desejava submeter à minha família. Decidimos sentar em alguns bancos e aguardar a volta de meu pai, desejando que ele trouxesse boas notícias, e quem sabe alguma luz sobre as origens de Amália.
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–Mr. Kenway! – exclamou Benjamin Franklin, em seu sotaque britânico inconfundível. – Há muito tempo não o vejo.
Ambos trocaram um educado aperto de mão.
–De fato, Mr. Franklin. – disse Haytham, educadamente. – Os negócios vêm tomando muito o meu tempo ultimamente.
–Apenas os negócios? – sondou Franklin, levando Haytham a sorrir em assentimento. Diante desta reação, Benjamin Franklin pareceu contente.
–Então? Decidiu seguir meus conselhos a respeito das vantagens de uma mulher mais velha?
–Er... Não. Na verdade, eu me encontro casado com uma mulher quase de minha idade. – disse Haytham, surpreso ao ver que Franklin se lembrava de uma conversa que tivera em seus primeiros dias nas Colônias. Decerto o fato de ter recuperado seu Almanaque o fez marcante ao diplomata.
–Hum... Você perguntou sobre filhos naquela época, e desculpe a franqueza, mas notei que estava em seus planos possuir herdeiros...
Haytham assentiu.
–Não posso negar que a idéia, por mais difícil que me parecesse à época, me seduzia. E realmente, eu tenho três filhos... Dois, quero dizer. Um deles se foi, infelizmente.
Franklin pareceu triste.
–Oh, mas que infelicidade. Sou da tese de que um pai jamais deve ver seu filho morrer. Se há alguém que deve partir antes, são os pais, jamais os filhos.
–Sou de mesma opinião. – disse Haytham, com convicção. – Mas enfim, Mr. Franklin, gostaria de pedir-te um favor, se não for tomar seu tempo...
–Oh, mas de forma alguma! Sempre és bem-vindo, Mr. Kenway.
–Esplêndido. – disse Haytham, retirando do bolso da casaca a carta de Amália. – Gostaria de saber se és capaz de traduzir o conteúdo desta carta.
Benjamin Franklin assentiu, tomando a carta e ajeitando os óculos.
–Hum... Português... Creio que seja capaz de traduzi-la, sim. Tenho ainda algumas horas até uma reunião com o secretário de Finanças, portanto posso aproveitar minha ociosidade e faze-lo agora mesmo.
Dirigindo-se à sua oponente mesa e tomando pena e papel, Franklin começou a escrever, traduzindo rapidamente o conteúdo da carta.
Demorou menos de uma hora até que a carta estivesse completamente traduzida para o Inglês. Demonstrando contentamento, Haytham o cumprimentou, ao receber a carta traduzida em mãos.
–Muito obrigado, Mr. Franklin. – disse Haytham, apertando sua mão.
–Não há de quê, Mr. Kenway. E mande meus cumprimentos à sua esposa, e também aos seus filhos. Aliás, se não for incomodar, gostaria que fizesse algo para mim...
Haytham aguardou, enquanto Franklin procurava por um conteúdo em uma gaveta. Pôs sobre a mesa um envelope lacrado. Não seria nada demais, se aquele envelope não tivesse o selo dos Templários.
–Poderia entregar esta carta ao seu amigo, Shay Cormac? Acabei não encontrando tempo para encontra-lo e entrega-la...
–Shay? – Haytham arregalou os olhos. Não sabia que Shay estava em Boston. Aliás, havia muitos anos que ele não via Shay Cormac. Acreditava que ele estava na Europa, em busca da Caixa Precursora.
Será que ele conseguiu encontra-la, depois de tantos anos?
–Ele está residindo na York Street, segundo soube. Encontrei-me com ele estes dias, naqueles arredores, e acabei me esquecendo de entregar esta carta. O problema é que ando tão ocupado...
–Entendo. – disse Haytham, escondendo seu nervosismo com a situação.
–Se você puder levar esta correspondência a ele, agradeceria muito. Sei que são amigos, por isso posso confiar no senhor. – disse, entregando a carta a Haytham.
–Pode confiar em mim, Mr. Franklin. Esta carta estará em boas mãos.
Enquanto caminhava pelos corredores do edifício, já tendo a carta de Shay guardada, Haytham aproveitou para ler o conteúdo da carta de Amália.
Sua reação não foi outra, senão de pasmo.
15 de Setembro de 1757.
Minha cara Maria,
Foi com grande surpresa que recebi sua carta, há alguns meses atrás. Fazia muito tempo que não tinha notícias suas. Creio que a última vez que nos vimos foi em Lisboa, no casamento de meu antigo patrão Senhor Pedro Duarte, na velha Igreja do Carmo. Aquela foi uma ocasião maravilhosa e memorável.
São tais lembranças boas que me fazem continuar a caminhar, a buscar uma vida melhor. Desde o grande terremoto que destruiu nossa Lisboa, minha cidade tão querida, tenho andado triste. Perdi minha irmã e meu pai naquele terremoto, e só Deus sabe o tamanho de minha dor. Folgo em saber que você escapou. Tenho certeza de que tomara a decisão certa, quando decidiu levar sua filha para a América. Esta é uma terra próspera e de muitas promessas, local perfeito para recomeçar.
Como tinha te dito, estou há alguns anos morando na região das Colônias Britânicas. Meu atual posto no Exército não me permite ter um endereço fixo, por isso posso dizer que conheço, quase por completo, toda a Colônia, por minhas andanças como soldado de artilharia. Portanto, creio ser difícil que eu consiga receber a resposta desta carta.
Como você me pediu, andei a investigar o paradeiro do pai de sua filha, Amália. Minhas pistas me levaram à região de Massachussets. É uma região um tanto distante dos pequenos centros, predominantemente rural. Decerto te espantará saber que ele está enclausurado na mata, mas esta é a mais pura verdade. Andei a ouvir nas tabernas que ele está participando de um grupo um tanto peculiar. Queria poder entregar-te maiores informações, mas confesso que as tenho pouco. Só o que sei é que este é um grupo que costuma agir com violência, e que se reúne em uma herdade na região de Massachussets. Este grupo é liderado por um negro, cujo nome não me vem à mente, e também tem um forte laço com os índios. Você sabe bem o desprezo que tenho por pessoas assim.
Há homens bons na Colônia, que podem te ajudar a viver uma vida decente. Sei que devo ser mais um a reforçar o côro, mas você precisa se casar, se realmente deseja ter uma vida decente. Sei que a gravidez não foi planejada, mas discordo do argumento de seu pai de que sua vida acabara. Há homens decentes que podem aceitar sua filha, dá-la um nome honrado. Eu conheço um deles, inclusive. Chama-se Rodolph Lawler. Trabalha na cidade de Boston como comerciante e estava à procura de um casamento. Quando ele souber que eu apoiaria uma eventual união entre vocês dois, tenho certeza de que pedirá sua mão.
Portanto, minha cara Maria, eu desaconselho que você insista nesta busca infindável pelo pai de sua filha. Não há nada de bom a se esperar de pessoas que se reúnem com negros e índios, e toda sorte de gente desqualificada. O que ela precisa é de um homem de verdade, que lhe dê um nome, abrigo e um futuro decente. Não um marinheiro qualquer, mulherengo e sem eira nem beira, que ainda se afilia a grupos de homens estranhos.
Meus maiores cumprimentos,
Peter de Sousa Connally
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Consultei o relógio de parede, da recepção do prédio. Duas horas já haviam se passado desde que meu pai adentrara atrás de Benjamin Franklin. Sua demora era um claro sinal de que estava tudo dando certo, mas confesso que deixava a todos nós aflitos.
Tessa e Amália decidiram se entreter, caminhando de um lado a outro e fitando alguns quadros monumentais que adornavam as paredes. Minha mãe, entretanto, parecia entediada, sendo obrigada a lidar com olhares hostis de alguns que passava e estranhavam a presença de uma “selvagem” em seu meio. E quanto a mim, me restava esperar. Se uma coisa aprendi com os Assassinos, foi a ser paciente.
–Olhe, ele chegou. – disse Amália, esperançosa.
Meu pai não trazia o semblante satisfeito, eu percebi. Será que tinha dado tudo errado?
–E então, Mr. Kenway? – perguntou a moça.
–Infelizmente, Benjamin Franklin não conseguiu traduzir o conteúdo.
–Mas então, porque a demora? – perguntei, desconfiado.
–Ele tentou ajuda de um funcionário, mas infelizmente ninguém aqui fala Português o bastante para traduzir a carta.
–Oh... – ela disse, claramente desapontada.
Meu pai sorriu, tentando confortá-la.
–Mas ele disse que irá procurar alguém que consiga. Quem sabe, ele não ache? Mr. Franklin conhece tantos intelectuais...
–É, quem sabe... – disse Amália, um tanto decepcionada.
O resto da viagem de volta à Homestead foi feito por meu pai em aparente silêncio. Um silêncio um tanto intranquilo, pelo que notei. Sabia que, devido ás conversas animadas entre minha irmã e Amália, aquela carruagem não era o local certo para abordá-lo e saber o que verdadeiramente se passou em sua visita à Franklin.
Eu estava prestes a dormir, tarde da noite, quando notei-o conduzindo-me pelo ombro até um local reservado. “Precisamos conversar”, foi só o que disse.
Quando ele me contou que mentiu sobre a carta, fiquei indignado.
–Mas por que fez isto? Como pôde mexer com as esperanças dela?!
Como sempre, ele ignorou minha agressividade, e simplesmente me entregou o conteúdo da carta.
–Veja com seus próprios olhos a razão da minha... Omissão, digamos assim.
Assim que terminei de ler, eu a devolvi. Aquilo ainda não era o bastante para justificar toda aquela mentira.
–Ao que me parece, esta carta se refere à Ordem dos Assassinos, há cerca de 20 anos atrás. Mas então, o que há de mais nisto?
–Tudo, Connor. Exatamente, tudo.
–Não entendo, pai. Sinceramente... Não vejo por que mentir desta forma. De todo modo, eu procurarei saber com Achilles sobre essa identidade. Pode ter sido um dos Assassinos que morreu naquela época... Foram tantos, não é? – disse, sarcasticamente, causando desconforto em meu próprio pai. – Bom, eu sei que será difícil dar esta notícia a ela, mas ela merece saber a verdade.
–Não é necessário procurar Achilles, Connor. Eu sei quem é o pai de Amália.
Arregalei os olhos. – Sabe, mas como?
Meu pai andou de um lado a outro no cômodo, com as mãos solenemente reunidas atrás de suas costas, como um nobre inglês. Isso me irritava algumas vezes, mas eu sabia que era este o seu jeito de ser.
–O único Assassino que esteve em Lisboa, da Ordem comandada por Achilles Davenport, se chama Shay Patrick Cormac. Não tenho certeza o quão a par você está dos fatos do Expurgo, meu filho, mas... Enfim, Shay era um Assassino, assim como você. Um Assassino que abandonou a Irmandade para se tornar um Templário.
–Um traidor, então. – decretei.
–Seria simplifica-lo demais, Connor. Digamos que... Ele teve suas motivações para abandonar a Ordem. Boas motivações, inclusive. Uma longa história, que tenho certeza de que Achilles jamais iria te contar, mas que eu, como seu pai e uma importante testemunha ocular daqueles acontecimentos, posso te contar. Mas esta é uma longa conversa que devo adiar, por hora. Ainda não cheguei ao ponto que desejo. – ele disse, enquanto mexia no outro bolso de sua casaca.
–Agora que sabe sobre Shay, leia isto aqui, também. – pediu meu pai, entregando o envelope Templário. Ao notar o símbolo, senti curiosidade, e continuei.
Caro Shay Cormac,
Felicita-me saber que já está em Boston. Há muito o que fazer, e sua presença aqui apenas revigora o ânimo dos membros da Ordem. Todos se lembram de seus feitos no Expurgo, e saiba que todos nós estamos mui contentes de vê-lo outra vez a nos auxiliar.
Como deve estar informado, infelizmente Haytham Kenway não é mais Grão-Mestre Templário do Rito Colonial. Abandonou a Ordem, segundo disse oficialmente, para “cuidar de sua vida pessoal”, mas já sabemos que seus últimos passos apontam, para nossa tristeza, a algo muito diferente do que justificara.
Sei de seu apreço e de sua admiração por Haytham – por muitos anos eu tive, também – mas infelizmente, não podemos mais chama-lo de “irmão”. Ele está morando em uma fazenda de tabaco em Massachussets, muito próxima a casa do velho Achilles Davenport, o que levantou nossas suspeitas inicialmente. Suas atividades permaneceram normais por muito tempo, até uma recente alteração em seu comportamento nos últimos anos deixar-nos alertas.
Soube que você pediu pessoalmente a Haytham para poupar a vida de Achilles Davenport, acreditando que o velho se tornaria inofensivo. Infelizmente, Achilles ainda teve fôlego o bastante para treinar mais um Assassino. Um único Assassino, você deve menosprezar, mas acredite: este Assassino, embora esteja atuando sozinho, tem causado grande tumulto e desastre aos nossos negócios e nossas tentativas de evitar a Guerra, movido pelos arcaicos e equivocados ensinamentos de Achilles. Sabemos que é um nativo, mas pouco posso dizer de seu nome.
Este Assassino de sangue ruim pertence à mesma tribo que a esposa de Haytham (sim, o Grão-Mestre está casado com uma índia...), o que reforça nossa tese de que Haytham mudou de lado.
Tememos que os Assassinos mudem de idéia e voltem a se concentrar nos Locais Precursores outra vez, o que faria reverter o seu progresso. Por isso, minha insistência em requisitar seus serviços de Caçador de Assassinos outra vez. Sei que será difícil enfrentar Haytham, numa situação claramente oposta a qual vocês estiveram na Guerra dos Sete Anos, mas confio que você tem fibra moral o bastante para distinguir as coisas. Haytham Kenway não é o mesmo homem que você conheceu. Aquela índia mexera gravemente com sua cabeça, e ele tornou-se ainda mais cego depois que ela lhe entregou herdeiros – todos mestiços. Agora, Haytham e este Assassino representam à nossa Ordem uma clara ameaça de trazer Paz e Ordem à este Novo Mundo.
Espero encontra-lo na Green Dragon Tabern, onde poderemos iniciar nosso plano de ação para expurgar, outra vez, os Assassinos e seus ardilosos planos.
Que o Pai da Compreensão Guie a todos nós,
Charles Lee
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