Assassin's Creed: Aftermath
21 Os Destroços De Uma Boa Ação
Notas iniciais
Davenport Homestead. 6 de Março de 1770.
Naquela manhã, Achilles Davenport terminava de arrumar alguns livros que lera na noite passada. Entretido em sua tarefa, acabou sendo obrigado a interrompê-la quando a porta da frente batera, de maneira rigorosa. Abandonando sua estante momentaneamente, o idoso tomou sua cada vez mais inseparável bengala e caminhou, para atende-la.
Mal sabia ele que um touro indomável em forma de gente estava do lado de fora.
–Você me deixou sozinho! – gritou Minowhaa, esbaforido, com o semblante raivoso e nada amigável. Serenamente, Achilles Davenport apenas saiu do caminho, deixando que o nativo adentrasse.
–Bom dia para você também, Minowhaa.
Ao ver que o nativo estava enfurecido, com a gravata desfeita e ligeiramente sujo e cansado, Achilles achou por bem se explicar.
–Apesar de estarmos treinando há anos, Minowhaa, eu ainda acredito que a prática é a melhor professora...
–Eu poderia ter morrido! Ou ter sido preso, o que daria no mesmo fim!
–Bom, mas você não morreu, morreu? Muito menos está preso... Mas o que houve? Sinto que não está furioso apenas por isso...
Minowhaa concordou, assentindo com a cabeça. Passou a mão por seus densos e longos cabelos negros, agora desgrenhados pela última agitação.
–Você estava certo. Os Templários estavam planejando alguma coisa. Causariam um tumulto, para provocar os soldados. Sabe-se lá o que aconteceria àqueles civis se o plano dos Templários fosse bem-sucedido.
Achilles concordou.
–Quando vi Charles Lee conversando com um dos soldados, diante daquela multidão enfurecida, logo notei que algo de bom não iria acontecer. Mas continue.
–Eu segui o sujeito com quem ele conversara, como você mesmo me pediu. Estava indo tudo bem até que...
Ao notar que Minowhaa interrompera sua própria narrativa, Achilles o encorajou.
–Até que...?
–Haytham Kenway. – disse Minowhaa, com raiva na voz. – Ele apareceu, e tentou me emboscar. Eu desviei, e senti que ele ficou muito surpreso ao me reconhecer. Lutamos, até. Mas o desgraçado usou um golpe baixo e tacou areia nos meus olhos, e depois bateu em minha cabeça. Não pensei que ele fosse tão baixo assim quando lutava.
–Ele é um Templário, treinado desde a infância para este tipo de situação. – observou Achilles. – E a julgar pelo que aconteceu, é uma sorte que você ainda esteja vivo, porque aquele homem não costuma mostrar misericórdia.
–Ao menos ainda arranquei um pouco de sangue de suas mãos. Se não fosse pela minha lâmina oculta...
Achilles pareceu irritado.
–Ele viu sua lâmina oculta?! Maldição, Minowhaa! Por que não usou sua maldita Tomahawk?
–Não tive culpa. Ele apertou meu braço, durante a emboscada, e a lâmina acabou sendo ejetada.
–Agora, ele sabe que você é um Assassino...
–Uma lâmina oculta não me torna necessariamente um Assassino. Afinal de contas, eu sei que ele também tem. Mas isso não importa, Mentor. Foi graças a esse incidente que escapei de seu golpe baixo. Haytham acabou sendo pego de surpresa quando a lâmina foi ejetada, ferindo a mão dele, o que me uma ligeira escapatória. Então, ele tacou areia dos meus olhos, e depois me deu uma coronhada. Acordei no meio do feno, horas depois. Mas não é isso que me deixa aturdido.
Achilles estranhou Minowhaa.
–o que quer dizer?
–Mesmo que ele tenha me impedido, os planos dos Templários foram frustrados. Nada aconteceu. Parece que alguém da multidão conseguiu roubar a pistola de um soldado, e as atenções dos Casacas-Vermelhas acabaram se voltando ao ladrãozinho. E o tal soldado que eu estava seguindo, mas que Haytham me impediu, acabou sendo morto assim mesmo. Será que tem mais algum Assassino a caminhar por aqui, Mentor?
–Não. – disse Achilles, convicto. – Os Assassinos perderam o interesse pela América, desde a Guerra dos Sete Anos. Esperam que a situação política aqui fique mais estabilizada, para fazer outra tentativa de expandir a Ordem. Ninguém quer construir um castelo sobre barris de pólvora.
–Entendo. – disse Minowhaa.
–Mas deixemos de divagar, rapaz. Creio que é chegado o momento de te tornar um verdadeiro Assassino. Você tem se mostrado dedicado, alinhado à Filosofia da nossa Ordem, e o mais importante, focado.
Achilles levou Minowhaa até o porão de sua casa. Lá, havia no centro o Manto de Assassino, além de uma parede lateral, onde ficava uma série de quadros pendurados, com Charles Lee no topo, designado como “Grão-Mestre”. Em um canto, disposto separadamente do grupo, estava o de Haytham Kenway, com um ponto de interrogação.
–Talvez tenha sido bom você ter mantido esse quadro, Minowhaa. – disse Achilles, com os olhos focados no quadro de Haytham. – Talvez você esteja certo quando afirma que eu o superestimo. Há pessoas que simplesmente não mudam, e nem abandonam tão facilmente assim as suas convicções.
Ao perceber que Minowhaa estava colocando, ansiosamente, o quadro de Haytham ao lado de Lee como alvo, Achilles o deteve.
–Mas ainda assim... Precisamos ter mais certeza.
–Mas Mentor... – Minowhaa tentou argumentar, mas foi detido por Achilles.
–Jamais irei me perdoar se algo acontecer a ele e, no fim das contas, ele realmente não pertencer mais à Ordem dos Templários. Não por ele, mas por Ziio e pelas crianças. Não posso cometer tais erros de julgamento outra vez... – disse Achilles, reflexivo, lembrando-se de seu próprio passado. – Entendido?
Resignado, Minowhaa colocou o quadro no mesmo lugar, perto de um ponto de interrogação.
–Está bem, Mentor. O que me resta, senão acatá-lo?
–Ótimo. – disse Achilles. – Agora, pode vestir suas Vestes. Nosso Credo costuma fazer cerimônias neste tipo de ocasião, mas eu e você somos duas pessoas práticas. Creio que isso não seja necessário.
Minowhaa concordou, já vestido devidamente como Assassino.
–É um Assassino agora, Minowhaa. Bem-Vindo à Irmandade.
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Fort George, Nova York. 15 de Dezembro de 1770.
Charles Lee estava sentado à grande mesa. Aquela era mais uma reunião dos Templários, em sua morada em Fort George. Nos últimos tempos, devido a toda a turbulência política, as reuniões se tornavam ainda mais frequentes e acalouradas.
Ele estava prestes a encerrar a reunião, quando a porta se abriu bruscamente.
–Mas o que significa isso? – vociferou, ao ver um homem, elegantemente vestido, entre dois mercenários. Apesar do gesto ousado, ele tinha o semblante calmo, austero. Algo até que lembrava vagamente o ex-Grão-Mestre Templário, Haytham Kenway.
–Charles Lee, eu presumo... – deduziu o homem. – Eu sou Howard Davidson, Grão-Mestre Templário do Rito Inglês.
Charles sentiu-se estremecido. – Sir. Davidson? É uma honra vê-lo aqui. Ouvi falar mui bem de ti...
No entanto, Davidson pareceu rir.
–Eu invado sua reunião, praticamente derrubo sua porta, e você me elogia? Bom, és mesmo o capacho bajulador que Haytham comentou em suas cartas...
Charles ficou chocado com o ultraje e a arrogância. Mas o que esperar de um homem que era Grão-Mestre do mais poderoso reino do mundo? Ele ficou quieto, apesar da ofensa, e também envergonhado, ao notar olhar de diversão nos demais membros.
–Antes que vocês se perguntem porquê eu estou aqui, eu vos explico. Soube da sua bela tentativa fracassada de incendiar os colonos e desencadear uma revolta, em praça pública, contra o regime britânico. Ouço por toda a parte rumores de... Independência, libertação. O que me faz presumir que... Está cansado de receber minhas ordens, não é?
–Nada disso, sir...
Howard, no entanto, parecia ignorar Lee.
–Eu esperava isso de alguém como Haytham, mas confesso que tinha esperanças de que você fosse mais inteligente, Mestre Lee. E não é só este o fato que me desagrada: o quê, afinal, vocês fizeram com aquele traidor? Você parece sempre desconversar em nossas correspondências sobre o destino dele...
Ao notar o silêncio, por toda a mesa, Howard riu.
–Nada, não é mesmo? Fantástico! Haytham Kenway simplesmente decide sair da Ordem, e fica por isso mesmo? Por que ele não foi silenciado?
–Julguei que não havia necessidade, sir. – disse Lee, num tom submisso.
–Ah, você julgou? Que maravilhoso, Mestre Lee. Aquele homem não é de confiança. Nunca foi. O deixamos incumbido de localizar o Local Precursor, e o que aconteceu? Ele encontrou? Não. E você, encontrou? Também não. Estão mais ocupados em criar intrigas, provocar badernas na Colônia... E a troco de quê?
Diante do silêncio mordaz na sala, Howard Davidson tornou a falar.
–Charles Lee, você está destituído do cargo de Grão-Mestre.
Charles arregalou seus olhos, em horror.
–Mas, sir...
–A partir de agora, eu serei responsável pelo Rito Colonial, também. Infelizmente, não poderei estar aqui enquanto não achar um substituto à altura, mas saibam que todas as ordens que vocês receberão partirão de mim, não mais de Charles. Alguns de meus homens de confiança serão responsáveis por elas. De agora em diante, daremos prioridade a conter essa rebelião que vocês queriam provocar na Colônia. A partir de hoje, Templários e Britânicos serão praticamente sinônimos, entenderam?
Ao ver todos balançarem a cabeça, submissos, Howard sorriu, satisfeito.
–Que o Pai da Compreensão nos guie.
–Que o Pai da Compreensão nos guie. – repetiram todos, solenemente.
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Meses se passaram, desde o dia que “deveria ter sido” o Massacre de Boston. Meu pai não mais saiu de casa, creio que ainda estava seduzido pelo encantamento de seu recém-nascido Jim. A cada dia que se passava, Jim crescia forte e curioso. Sua pele, como eu presumi desde seu nascimento, era exatamente da cor de minha mãe, ou seja, um pouco mais escura que a minha. Isso não diminuiu nem um pouco o amor que meu pai sentia pela criança, como poderia ter acontecido a qualquer branco relacionado a uma índia, mas não ao meu pai. Os olhos de Jim, no entanto, eram dos Kenway. Lá estava a cor verde deles, algo que meu pai observou como sendo “idênticos ao de meu pai”, ele dizia. Seu cabelo também era idêntico ao meu, negro e grosso.
Jim já engatinhava, dando trabalho a todos nós. Gostava de pegar objetos e lançar para longe, ou mesmo puxar cortinas e toalhas de mesa. Fora a bagunça que gostava de fazer com papel. Nas palavras de minha mãe, ela jamais tivera um bebê tão agitado.
E assim, caminhava minha rotina. Um bom treinamento de manhã cedo. Espadas, luta corporal, corrida – menos escalar árvores, pois meu pai era, simplesmente incapaz de saltar de um ramo a outro, e se sentia humilhado por isso.
–Eu já disse, Connor! – ele esbravejava comigo, do chão, enquanto eu me encontrava na copa de uma árvore. – Isso não tem a menor graça!
Sobre minha cabeça, estava seu chapéu tricórnio. Eu queria que ele aprendesse. Se ele soubesse o quanto isso foi útil para mim... Mas porquê tamanha relutância em saber andar por entre copas e ramos?
–Por que você não tenta, ao menos? – pedi.
–Você acha que já não tentei? – ele resmungou. – Vamos lá, filho!
–Ora, pai. É só um maldito chapéu! – retruquei. Todo este drama, porque eu tinha tomado seu chapéu?
–Não o chame assim! Esse chapéu merece respeito, é mais velho que você! Tem uma história de vida!
Contrariado, meu pai tendia ao dramático. E confesso que gostava de provoca-lo.
–O que está havendo? – apareceu minha mãe, com Jim em seus braços. Logo, seus olhos se voltaram para a árvore, onde ela me viu, trepado com o chapéu de meu api sobre minha cabeça.
–Connor tomou meu chapéu e não quer me devolver.
–Ora, suba e pegue dele.
–Ziio... – pediu meu pai, em vão.
–Haytham, o que você fez com aquelas malditas horas em que eu te ensinei a andar sobre árvores?
Meu pai riu, maliciosamente. – Você sabe que não era exatamente este o meu interesse naquela época... E que nem eu era um dos alunos mais aplicados.
Céus, os dois flertando na minha frente não...
–Não me importa se minhas aulas foram apenas um pretexto para você. Eu quero que você coloque o que te ensinei em prática.
–Mas Ziio... Isso foi há mais de quinze anos atrás...
Minha mãe o ignorou.
–Connor, desça, mas sem o chapéu. Deixe-o em um galho. Seu pai irá pegar.
Meu pai riu, descrente. – Você não pode estar falando sério, Ziio...
–Bom, você pode subir naquela árvore e pegar seu chapéu de volta... Ou procurar um alfaiate amanhã e te fazer um chapéu novo. O que acha?
Meu pai franziu o cenho, tentando ser ameaçador. O problema era que ele não era capaz de convencer, ou mesmo assustar a minha mãe. Jim soltou uma pequena risada. Sem dúvida, estava se divertindo com aquela confusão. Resignado, meu pai não viu escolha, senão tentar.
Fiz como minha mãe disse, e desci, deixando o chapéu em um ramo alto – mas não tanto assim. Assim que desci, ele começou a subir.
–Cuidado. – disse minha mãe, com a voz autoritária de uma professora, enquanto meu pai subia desastrosamente. Em um dado momento, ele começou a escorregar.
–Não estou conseguindo. Está escorregadio. – reclamou.
–Tente pelo ramo ao lado. Parece ser forte o bastante para aguentar seu peso.
Meu pai não parecia tão confiante. Em especial, quando o ramo estalou.
–Céus, mulher. Você só pode estar querendo ficar viúva cedo!
Segurei uma risada. Sabia que rir naquela situação poderia desconcentrá-lo. Logo apareceu Tessa, imediatamente arregalando sua boca e olhos.
–Meu Deus! Raké:ni está escalando uma árvore! – ela disse, rindo.
Depois de tomar coragem, meu pai fez o que ela disse, se agarrando no ramo do lado, apoiando suas pernas.
–Agora, use as fresas do tronco da árvore para continuar a escalar.
Foi o que ele fez. Ainda assim, sua postura era insegura. Quando estava prestes a segurar em um ramo, minha mãe tentou adverti-lo.
–Haytham, eu não acho bom você se segurar neste galho, e... Não!
Ela gritou, preocupada, ao ver que meu pai caiu. Para nosso alívio, meu pai era tão perito em cair quanto em escalar, e logo soube cair da maneira certa, apoiando-se firmemente nos joelhos e evitando maiores danos.
–Uau! – disse Tessa, ainda se recuperando do susto.
–Nunca mais farei isto, vocês me ouviram? – ele resmungou. – Agora, por Deus, Connor, vá pegar meu maldito chapéu!
–Pensei que seu chapéu não fosse maldito... – brinquei, irritando-o mais que o esperado, fazendo-o cerrar o punho.
–Cale-se e busque logo o meu chapéu, porra!
Fiquei surpreso, boquiaberto. Jamais o vi dizer qualquer palavra chula. Não o Grão-Mestre Templário Haytham Kenway, oriundo dos grandes salões londrinos e de boa educação. Minha mãe deu-lhe uma cotovelada, ao notar Tessa, com os olhos arregalados e as mãos na boca. Sem dúvida, a menina tinha escutado tudo e estava surpresa com o gesto mundano de seu pai.
–Tenha modos, Haytham. Sua filha está aqui.
–Mil perdões. É que este garoto consegue me tirar do sério! – ele bufou, enquanto voltava para casa. – E esqueça o que papai disse, Tessa.
–Tudo bem. – ela disse, mas eu duvidava que ela o fizesse.
E assim, ainda trepado na árvore, eu assistia minha família caminhando para dentro da Mansão. Nem em meus maiores sonhos, poderia dizer, pensei em ter meus pais reunidos, plenamente felizes. “Sempre imaginei como seria minha vida se eu e sua mãe tivéssemos ficado juntos”, ele confidenciou isso para mim, naquele galpão em Nova York. Será que ele também tinha se imaginado tão plenamente feliz assim, com filhos saudáveis e uma bela fazenda para tomar conta, não sendo mais necessário matar, extorquir, roubar ou agredir para atingir seus objetivos? Era difícil saber. No entanto, algo me dizia que ele também não fazia idéia da magnitude do que era aquele tipo de felicidade. Senti uma lágrima picar minha bochecha.
Poderia ser mais abençoado?
Deixe de bobagem, Connor, pensei comigo mesmo. Esse sentimentalismo é completamente fora de hora. Você conseguiu. Sua vida está infinitamente melhor daquela que você deixara. Você tem irmãos, seus pais estão vivos, e até mesmo conseguiu acabar com o plano dos Templários.
Estiquei meu braço, para pegar o chapéu de meu pai. Senti a ponta de meus dedos a tocá-lo, e o chapéu acabou entortando. Minha última lembrança foi ter ajustado meu corpo para tentar alcança-lo, até ouvir o som de um estalo, precedido por escuridão.
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