Notas iniciais
Olá!!!! Gostaram do suspense do final do último cap?? Como disse, estarei compensando minha ausência na última semana com dois caps neste fim de semana. E este em especial, um pouco maior do que o normal. Preparem-se para boas surpresas - e também a aparição de um personagem especial e pouco explorado pela Ubisoft.

Acordei sobressaltado, com uma forte dor aguda na região de meu pescoço. Numa região preferida pelos Assassinos para causar uma morte rápida, mas engana-se quem pensa que sem dor. A dor era intensa, e só passou quando notei que tudo que vivera não passara de um sonho. Não havia dúvidas de que os Templários trariam enorme desgraça aos Assassinos quando estivessem com a Maçã em mãos.

Ainda estava ofegante quando levantei-me da cama, mas não menos determinado a impedir que uma tragédia acontecesse. Sem me preocupar em me vestir, sai de meu quarto vestindo apenas uma calça, e caminhei até o quarto onde o causador de boa parte da minha desgraça dormia profundamente.

Sem pensar duas vezes, ao notar a porta fechada – mas não trancada – eu a abri com um chute, que fez Shay Cormac despertar rapidamente. Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, eu dei largos passos em sua direção, saltando na cama e o pressionando pelo colarinho. Quando o sacudi, notei-o dar um grito de dor e surpresa por minha reação, mas pouco me importei.

–Onde está a Maçã? – eu gritei, apertando seu pescoço com força, mas brando o bastante para permiti-lo falar.

–Que... Que Maçã?! Acaso estás louco, rapaz?!

–Responda! – gritei, sentindo minha voz trêmula de raiva.

–Eu não sei de Maçã alguma! – ele disse, também em voz alta.

Tolo fui eu, por pensar que poderia domina-lo tão facilmente. Mesmo ainda se recuperando de uma ferida grave, Shay me empurrou, dando-me um chute, e correu para a gaveta. Eu sabia que deveria haver ali algum tipo de arma, o que me fez correr em sua direção e impedi-lo. O que se seguiu foi uma sucessiva briga com empurrões e socos dados naquele quarto tomado pela escuridão, que me obrigava a usar minha Visão de Águia enquanto eu o atacava e me protegia de seus socos.

–Que confusão é esta? – não me virei para saber quem era, pois não era necessário. Era meu pai, aparentemente surpreso com minha atitude. Só o que senti foi meu braço sendo deslocado, provocando dores súbitas em mim e me fazendo ficar prostrado de joelhos. Eu sabia que ele poderia quebra-lo, apenas forçando-o um pouco mais, mas isso não me impediu de resistir.

–Não reaja mais, Connor. Se eu tiver de quebrar teu braço para evitar essa briga desnecessária, eu o farei.

–Briga desnecessária?! – questionei. – Os Templários estão prestes a possuir uma Maçã! Eu tenho certeza de que este homem sabe de alguma coisa!

–Eu já disse... – respondeu Shay, ofegante e tocando em suas costas, na região de seu ferimento. – Eu não sei de nada!

–Você está mentindo! – gritei.

–Pare de gritar, Connor. Quer que Tessa acorde assustada fazendo perguntas? – exigiu minha mãe, soando ameaçadora. Tarde demais, pois do outro lado da porta, eu pude ouvir a voz de Tessa a se perguntar “Ista, o que está havendo?”, fazendo minha mãe correr em sua direção e saindo do quarto.

–Connor, meu filho, eu não entendo. Maçã, com os Templários?! Como pode saber de tal coisa? Quem te contou isso?

–Um Assassino chamado Pierre Bellec. – disse, não dizendo uma completa mentira. Percebi que o semblante de Shay e de meu pai se empalideceram, e devo dizer, rapidamente. Os dois pareciam ainda mais confusos.

Meu pai, no entanto, largou rapidamente sua surpresa e adotou um semblante ameaçadoramente sério.

–Shay... – ele pediu, com sua voz autoritária. – Deixe-nos às sós, por favor.

–Sim, senhor. Estarei lá embaixo. – ele disse, saindo andando levemente mancando e sentindo dor nas costas. Decerto uma briga inesperada no meio da noite tinha sido estripulia demais p ara sua ferida.

Dando dois passos para o lado, e andando de um lado a outro, meu pai começou.

–Posso saber como conheceu Pierre Bellec?

–Você o conhece? – respondi fazendo outra pergunta. No entanto, ele era esperto demais para cair em minha estratégia.

–Sou eu quem faz as perguntas aqui, rapaz. Então, como conheceu este Assassino, Pierre Bellec?

–Achilles. – disse, com forte insegurança. Ele pareceu relevar, mas ainda não estava satisfeito.

–E como Pierre Bellec se comunicou com você? Cartas?

–Sim. – disse.

Minha simples resposta o fez parar de andar imediatamente. Ele se voltou para mim, e para minha surpresa, desferiu em mim nada menos que um tapa. No entanto, não foi tão forte a ponto de me fazer sangrar. Foi apenas uma tentativa de me humilhar e de me repreender.

–Achilles cortou relações com o Credo Francês há muito tempo. Portanto, você está mentindo. Agora, eu quero que me explique: como conheceu Pierre Bellec?

Impressionante, como ele poderia me conhecer, saber quando eu estava mentindo. Ou talvez, eu era um péssimo mentiroso. Sem alternativas, decidi ceder e contar a verdade, por mais tola que pudesse parecer.

–Foi em um sonho. Eu o vi.

Meu pai pareceu descrente. Como eu esperava.

–Péssima escolha, filho. De tudo que poderia me dizer, você...

–Como eu saberia que ele é branco, possui o cabelo e barba negra, além de uma cicatriz no lábio?

Minha descrição de Pierre Bellec – com o máximo de informações que pude captar neste sonho – o fez dar dois passos para trás, embasbacado.

–Por Júpiter... – o ouvi balbuciar. – Como é possível que...!

–Você o conhece, pai?

–Apenas de vista, em minhas andanças como Templário. Ele vivia aqui, nas Colônias, na época do Purgo. Fazia parte da Irmandade dos Assassinos francesa e conseguiu escapar. Eu mandei Shay atrás de uma coisa e... – notei que ele parecia reticente – ...e esse Pierre Bellec foi uma das pessoas que Shay investigou, na França.

–Então, é uma história antiga...

–Não é este o ponto, rapaz. Como você pode ter tanta convicção em sonhos?

Aquele era um ponto sensível. Precisava tomar o caminho mais previsível.

–Meu povo acredita no poder dos sonhos, pai. Eles podem nos alertar, nos avisar... Ou mesmo nos revelar coisas...

–Seu povo... – ele disse, com um pouco de desprezo. – Detesto quando fala assim, como se suas raízes ingleses não significassem nada.

–Desculpe se feri seus sentimentos. – disse com sarcasmo. – O fato é que este Pierre Bellec mencionou uma Maçã em poder dos Templários daqui, das Colônias Britânicas. A Ordem dos Assassinos estará dizimada por isso, em questão de tempo.

–E provavelmente, a Revolução seria dissolvida, tornando-nos lacaios do Rei Jorge para sempre.

–Pouco me importo com a Revolução, pai. O que quero é impedir que os seus “velhos amigos” Templários voltem a controlar este lugar. E que meu povo seja prejudicado neste processo.

–Não ouse chamar Davidson e seus homens de meus amigos novamente, Connor. Estou falando muito sério. – por fim, meu pai deixou escapar um suspiro. – Que seja. Se tens tanta convicção assim de seus... “Sonhos”, então pode sossegar. Você jamais teve contato com um Artefato Daqueles Que Vieram Antes, por isso não entende a magnitude de seu poder. Se uma Maçã realmente estivesse em poder dos Templários, a uma hora destas más notícias já teriam chegado, ou mesmo sequer estaríamos vivos aqui, tendo esta conversa. De todo modo, comece a investigar. Creio que não fará mal averiguar.

Senti um tom ordenador em sua voz, não propriamente aconselhador. Devo tê-lo deixado alarmado, embora ele não estivesse evidenciando isso para mim. No fundo, eu sabia que ele jamais deixaria tal coisa muito clara.

–Mas é claro, começará esta investigação amanhã. Por hora, vá dormir.

–Mas eu preciso comunicar Achilles...

–Agora, de madrugada? Por Deus, Connor, não vá perturbar aquele velhote tao desnecessariamente. Sua busca pode esperar algumas horas. Faça isto amanhã.

Assenti, retirando-me do quarto de Shay junto a ele. Antes de sairmos, porem, ele se virou para mim.

–Ainda penso que não precisava ter agredido Shay por causa de um maldito sonho. Ele é meu hóspede, você se agrade ou não.

–Hóspede? Este agora é o título que você confere ao homem que tentou te matar dias atrás?

–Shay é um homem de bem, e provará isso, quando entender o que está acontecendo ao seu redor. Se não o fosse, tenha certeza, ele teria te matado ali mesmo, durante essa sua “briguinha” desnecessária. — Meu pai soava convicto.

Isso me indignou.

–Vejo que você tem mais fé nele do que em mim.

–Não fique com ciúmes, Connor. Eu reconheço seu potencial, sua habilidade. Mas você não tem a mesma experiência que Shay. Não mesmo. Agora, vá dormir. Amanhã, pensarei em uma punição adequada ao seu comportamento desnecessário.

Ri com a menção dos “ciúmes”, e ri mais ainda da tal punição. Ele, no entanto, ignorou meu deboche, não fazendo qualquer ameaça.

Recostando-me novamente no travesseiro, procurei ordenar as idéias em minha mente. Provavelmente, eu passaria a noite em claro, vigiando o retorno do sol e das obrigações que eu tinha, já cedo.

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O dia tinha acabado de raiar quando me levantei. Como eu previra, passei a noite em claro, assustado com o destino que se desenhara em meus sonhos. Vesti-me rapidamente, e tomei meu cavalo com um rumo certo: a Mansão de Achilles Davenport, meu Mentor. Se os Templários realmente obtiveram a Maçã em Kingston, eu deveria ir até lá. O problema é que eu não tinha um navio. Claro, havia o Áquila, porem eu não era o Capitão. E ainda havia o agravante de que Minowhaa, o capitão, estava morto. Apesar de não haver argumentos que sustentassem de que eu poderia ser um bom capitão, eu tentaria fazer de tudo que fosse possível para convencer Achilles a me deixar atracar rumo à Kingston, embora não houvesse sequer um plano formado em minha mente para isto.

Comecei a me assustar com o vislumbre da possibilidade de ter de revelar minha identidade. Minha verdadeira identidade. O que Achilles poderia pensar? Será que ele acreditaria de que eu venho de outra realidade e que estou alterando o curso da história graças a uma Maçã? Eu sabia que era complicado convencê-lo. Sabia, mas caso não houvesse escolha, teria de fazê-lo.

A Maçã não pode ficar com Davidson. Não pode...

Para minha surpresa, encontrei três carruagens paradas na entrada da Mansão dos Davenport. Fiquei sobressaltado no início com esta cena incomum, mas me tranquilizei ao perceber que uma delas era a carruagem de Amália.

Amália. Nos últimos tempos, eu a mantive ocupada com intermináveis trabalhos para a Irmandade, apenas para evitar qualquer encontro com Shay em minha casa. Ainda era duro saber que o homem que matara Minowhaa, que causara tanto mal à mim e a Irmandade da América era o pai da mulher que eu amava. E eu sabia que isso teria de vir à tona, uma hora ou outra. Só não sabia como fazê-lo.

E para completar, eu tinha certeza de meus sentimentos. Desde que aquele delírio da Maçã me mostrara como seria a minha vida ao lado dela, da filha que teríamos juntos, eu me senti mais encorajado a contar sobre meus sentimentos.

Quando entrei, encontrei todos os Assassinos reunidos. Todos aqueles olhos expectantes, diante de mim, me fizeram engolir minhas palavras de desespero.

–Eu...

–Connor, que bom que você veio. Pensei que não mais viria. – disse Achilles, sentado a uma cadeira, levantando-se com dificuldade.

Claro! A reunião! Tinha me esquecido completamente!

Dias atrás, eu tinha recebido uma convocação para uma reunião extraordinária, o que era algo esperado. Desde a morte de Minowhaa, a Irmandade estava sem liderança. Quando observava o semblante de todos, havia luto e tristeza, pois todos ainda tentavam absorver a perda de Minowhaa. Ele era muito importante, afinal. Capitaneava o Áquila, tinha um senso de liderança e inspirava confiança nos demais Assassinos, além de ter uma relação muito próxima com nosso Mentor, Achilles. Mas o velho não estava mais em condições de liderar. A cada dia que se passava, sua saúde se tornava mais delicada, e para minha infelicidade, não havia nada que eu pudesse fazer por ele. Seus dias estavam contados. Eu sabia que ele não viveria por muito tempo. Só esperava que ele tivesse sorte de ver a Ordem dos Templários finalmente erradicada, como antes.

Sem dúvida, essa reunião trataria dos rumos da Ordem.

–Perdoem-me pelo atraso. – disse, me sentando ao lado de Amália. Achilles decidiu começar.

–Recentemente, perdemos um grande amigo. Minowhaa foi o primeiro homem que treinei, após anos em reclusão. Treiná-lo, coloca-lo no caminho dos Assassinos, trouxe à minha vida esperança. Fez-me sentir útil outra vez, como há algum tempo eu não me sentia.

Eu escutava a tudo, com atenção. Seria este o mesmo discurso que Achilles diria, se eu tivesse morrido antes de destruir os Templários por completo?

–Entretanto, eu acredito que o próprio Minowhaa não desejaria que nosso trabalho terminasse. Por isso, apesar de toda a tristeza em nosso coração por sua partida tão precoce, precisamos seguir em frente e honrar a memória de Minowhaa. Eu reconheço que todos vocês tem se mostrado empenhados em honrar a menória dele, combatendo os Templários e trazendo paz à Colônia, mas vejo como necessário a existência de uma liderança entre vocês.

Silêncio. Depois, Achilles voltou a falar.

–Sou Mentor por muitos anos e não recuso o cargo. No entanto, não me encontro mais em saúde para lidera-los como deveria. Por isso, gostaria de uma votação. Eu indicarei um nome, e quem concordar com ele, por favor, levante a mão. – mais uma pausa de Achilles. – O escolhido por mim, para liderar a Ordem dos Assassinos é você, Connor Kenway.

Senti o meu coração disparar. Finalmente, após estar sempre em segundo plano, fui escolhido para liderar os Assassinos. Agora, eu assumia a mesma posição que possuía, em minha outra realidade. Cheguei a pensar que isso jamais aconteceria, que Minowhaa tinha tomado esse lugar definitivamente. Mas lá estava meu nome, posto no mesmo lugar outra vez.

–Quem concorda com essa escolha?

Percebi todos levantarem suas mãos, sem qualquer hesitação. Achilles sorriu.

–Connor, você é o Mestre Assassino agora. Sua tarefa será liderar a Ordem. Pode me consultar, sempre que quiser ou se sentir em dúvida. Mas saiba que confio em você para dar à nossa Ordem os dias de glória outrora perdidos. Você já fez muito por todos nós. Recrutou, com paciência e cuidado, todos os homens presentes nesta sala, mostrou sabedoria na escolha de todos eles. Confio que fará um bom trabalho, a partir de agora.

Assenti, com convicção. Enquanto observava os olhares contentes de todos os Assassinos, Achilles se dirigiu à uma caixa, que estava sob a mesa.

–Soube por sua mãe que seu Manto foi arruinado.

Ele estava correto. Para meu profundo desgosto, a empreitada de meu pai como “Assassino” destruiu o único Manto que eu possuía, e para completar, uma Herança de família.

–É verdade. – disse. Ele assentiu.

–Bom, um Assassino precisa de um Manto, não?

Ele me entregou a caixa de madeira. Ao abri-la, notei que estava dentro dela nada mais que o Manto usado por Minowhaa. Meu Manto.

Assistindo-me passar os dedos pelo tecido bege e azul, Achilles deixou uma observação.

–Tenho certeza de que Minowhaa aprovaria. – ele disse.

Quando terminei de colocá-lo sobre minhas roupas comuns, todos os presentes vieram me cumprimentar. Depois de ter recebido os parabéns de todos, Amália se aproximou de mim.

–Mestre Assassino... Uau!

Sorri. – Impressionada, é?

–Claro! Está melhor do que eu, que ainda sou chamada de noviça... Por favor, agora que subiu de posição, faça alguma coisa por mim...

Cruzei os braços, em diversão.

–Você ainda não está pronta.

–Ora, mas eu já sei matar com eficiência, já sei me mover nas sombras, já...

–A mudança que precisa, Amália, não está em seu corpo, mas em sua mente. Há ainda alguns pontos de nossa filosofia que não vejo você praticar. Mas não se preocupe, em breve você conseguirá subir. O que foi?

–Sabe qual é o seu problema, Connor? Você fala demais.

Percebi que seu rosto se aproximara de mim, devagar. Quando apertei gentilmente sua mão, percebi sua intenção. Ela queria me beijar. Esta era a primeira vez que ela tomara a iniciativa, ou melhor, que nós dois tomávamos a iniciativa. Com o coração disparado, de tanta ansiedade, decidi fazer o mesmo.

Com nossos rostos a centímetros um do outro, no entanto, uma pigarreio surgiu por trás de nós dois.

–Er, Connor?

Senti minhas bochechas arderem, além de uma raiva que certamente faria esfaquear o intrometido que interrompera nosso momento privado – ouso dizer, o momento que mais aguardava. No entanto, respirei fundo, antes de me voltar a um também constrangido Clipper Wikinson.

–Sim?

–Há um navio estranho ancorado na Baía.

Aquilo fez meu coração disparar. Droga! Por causa dessa reunião, eu me esqueci quase por completo do meu verdadeiro objetivo ali! E agora? Que navio poderia ter ancorado ali? Não estávamos esperando por ninguém, afinal! Temendo que fosse uma retaliação templária, ou mesmo o terrível delírio da Maçã começando a aconteceu, rapidamente segui Clipper em direção ao penhasco que dava para a Baía, onde o Áquila estava ancorado, aparentemente intacto.

–Onde está Mr. Falkner? – questionei, enquanto me reunia aos demais Assassinos aparentemente preocupados com o navio que estava ancorado ali.

–Foi comprar provisões em Boston. Aliás, ele dera folga á tripulação. Muitos sequer estão por aqui. Desde a morte de Minowhaa a tripulação está dispersa. – me explicou Achilles.

–Droga! – exclamei, sabendo que o Áquila estava muito desfalcado para entrar em combate. Achilles me emprestou uma luneta, que me permitiu analisar a situação.

Aquele era um navio de médio porte, sem dúvida. No entanto, estava bastante danificado, indicando que tinha passado por um intenso combate há pouco tempo. Boa parte de sua população era negra, o que me fazia desconfiar se ele era africano ou mesmo das Índias Ocidentais. Mas apesar de seu estado, era capaz de abrir fogo contra nós sem dificuldade, pois estava em um bom ângulo.

–Á esta distância, eles já poderiam abrir fogo contra nós. Por que não o fazem?

–Porque não somos inimigos.

Uma voz masculina e jovem, de forte sotaque caribenho nos interrompeu. Notamos que era um rapaz negro, acompanhado de outro pequeno grupo de homens. Mas o que mais nos tranquilizou foi o fato de todos ali vestirem capuzes, assim como nós.

–Vejo que são Assassinos. – disse Achilles. – Poderiam nos dizer de onde?

O mais jovem nos respondeu.

–O senhor provavelmente é Achilles Davenport. Pois bem. Somos Assassinos de São Domingos. Estes são Boukman, Toussaint Bréda e Georges Biassou. Eu me chamo Eseosa e...

–Espere... Eseosa? Então, és o neto de Adewalé. – disse Achilles, surpreso e bastante contente.

–Sim, sou neto dele. Eu não o conheci, infelizmente, mas tenho muito orgulho de sê-lo. Aliás, o meu pai falou muito a respeito de ti, Mestre Davenport. É uma honra conhece-lo, e também perceber que a Ordem dos Assassinos por aqui está restabelecida. Mas infelizmente, não é uma visita cordial que me trás aqui, para as Colônias Britânicas.

–Não? E o que seria, então?

O jovem Eseosa entreolhou-se com os demais Assassinos.

–Houve um incidente em Kingston. Um grave incidente, que ecoou por todo o Caribe. A Irmandade de lá mantinha um Artefato do Éden guardado em uma selva, muito bem-guardado, por sinal. Mas a ilha foi recentemente invadida por Templários muito poderosos e... Eles ameaçaram bombardear a cidade, caso os Assassinos não entregassem a Maçã.

Aquilo me deixou completamente atordoado e preocupado.

Não. A Maçã... A mesma que usei para criar esta realidade... Na mão de Templários?! Isso não poderia estar acontecendo... Cheguei tarde demais...

–Er, rapaz? Você está bem? Parece pálido...

Quando dei por mim, o próprio Eseosa, que mal me conhecia, notou minha preocupação.

–Er, estou. Foi apenas uma indisposição.

–Bom, então presumo que os Templários foram bem-sucedidos e conseguiram retirar a Maçã de suas mãos. – concluiu Achilles.

–Infelizmente, Mestre Davenport. Eles possuíam um Man O’War entre eles, bastante poderoso como jamais visto por nossas águas. Jamais vi um navio com tamanho poder de fogo. Apesar de termos lutado contra ele, com uma frota de dez navios, fomos derrotados. Eles invadiram Kingston e levaram a Maçã.

Todos os demais Assassinos ficaram espantados, e temerosos.

–Será que perderemos vantagem?

–Ouvi dizer que esses Artefatos são poderosíssimos...

–Por Deus, será o nosso fim...

–Não poderemos detê-los agora...

–Seremos exterminados...

–Chega! – esbravejou Achilles, deixando escapar uma tosse em seguida. Decerto o temor dos demais Assassinos o deixara irritadíssimo. No entanto, eu notei que havia preocupação em seu semblante também. – Prossiga, Eseosa.

–Há um fato que preciso contar, Mentor. – disse o jovem. – Mas em privado. Quando Eseosa retirou do bolso nada menos que meu diário, engoli em seco.

Este tempo todo, meu Diário estava com os Templários... Enquanto concentrei esforços em destruí-los aqui, eles procuraram uma alternativa para reverter os rumos que apontavam para sua destruição... E eu mostrei a eles onde encontrar.

–Vamos para a minha biblioteca. Connor, tente apaziguar os ânimos. Tudo que não precisamos é estarmos abalados agora. Está bem? – disse Achilles, tentando esconder sua própria preocupação.

Engoli em seco. Meu diário estava em Inglês, e pelo pouco que pude perceber, Eseosa possuía bom Inglês... Sem dúvida, ele leu tudo que escrevi. E com toda a certeza, compartilharia de seu conhecimento sobre mim com meu tutor.

–Você está branco como uma folha de papel, Connor.

Virei-me, para encontrar Amália rindo para mim. Ela era realmente muito inexperiente nos negócios Assassinos, para estar tão leve assim.

–Estamos no meio de um grave problema, Amália. Tudo que não preciso é de piadas. – disse, sem pensar direito. Quando terminei de falar, notei que o semblante dela ficou sério, enfezado. Arrependi-me de minha rispidez no mesmo instante.

–Tudo bem, Mestre Assassino. Eu vou me recolher para a minha insignificância.

–Espere, Amália... Eu... – tentei, em vão. Ela deu meia-volta e se aproximou de um grupo de Assassinos que conversava, longe de mim.

Agora, eu estava sozinho.

Notei que todos estavam ocupados demais, conversando sobre os recentes acontecimentos. Não havia ninguém por perto para reparar em minhas atitudes, por isso decidi me esgueirar para a porta lateral e ficar agachado próximo à janela lateral, que dava para a Biblioteca. Estava curioso demais para saber o que Eseosa estava conversando com meu Mentor, e também – devo confessar – com a reação dele ao saber o tipo de realidade que eu tinha presenciado. Isto é, se ele realmente acreditasse em meus escritos.

Conhecia bem aquela casa, para saber como escutar aquela conversa sem ser percebido. E foi o que fiz, silenciosamente me escondendo em minha moita. Por sorte, ambos estavam sentados à mesa, o que me permitiu ouvir boa parte da conversa com clareza.

–... Bem que senti uma áurea estranha nele. Não sei... Como se... Como se ele soubesse o que estava por vir. Sem dúvida, ele realmente possuiu este Artefato. – dizia a voz de Eseosa.

–Isso parece absurdo, Eseosa. Uma Maçã, que pode voltar ao passado e alterá-lo... Nunca soube que os Assassinos de Kingston possuíam tal coisa. Meu falecido Mentor Ah Tabai jamais mencionou nada do tipo.

–Era um segredo bem guardado, Mr. Davenport. Os boatos quanto ao Artefato começaram a surgir exatamente após a morte dele, mas até então eram só boatos. Foi surpreendente saber que esta Maçã realmente existia e estava escondida na selva.

–Ainda assim... Connor... Ele sempre se mostrou tão comprometido com a Ordem... Deveria ter me dito sobre isto.

–Ele deveria estar com vergonha, ou medo de se passar por louco aos seus olhos. Dá para perceber por seu boato que o que ele testemunhou fora terrível.

Um silêncio. Pude ouvir algumas páginas sendo viradas.

–Você o leu?

–Por completo, sir. E se deseja saber, não desejaria estar na pele desse... Desse Connor Kenway. Não mesmo.

Senti um súbito misto de vergonha e decepção. Minha história de vida era triste, de fato, mas ser digno de pena alheia era ainda pior que ser taxado de louco.

–Quero lê-lo depois, com calma. – pediu Achilles. – Mas vejo que quer me dizer mais coisa...

Eseosa assentiu. Notei que havia perturbação em sua voz, quando ele retomou a palavra.

–Interceptamos uma carta que estava direcionada para cá. O destinatário era um homem chamado Charles Lee, que reconhecemos como sendo um templário. Ele diz que está seguindo à risca a localização da Maçã fornecida pelo diário, é só o que ele diz. Presumo que o diário que ele esteja se referindo seja este, que está em suas mãos.

–Então, os Templários do Rito Colonial estão por trás dessa invasão à Kingston, e tudo graças ao diário de Connor. – senti decepção na voz de Achilles. Decepção que partiu meu coração.

–Sim, Mentor. Não sabemos como ele deixou que tal conteúdo comprometedor caísse nas mãos dos Templários, mas não há dúvidas de que foi este diário que denunciou a localização da Maçã para eles. Ainda assim, sinto-me culpado por não ter sido capaz de impedi-los.

–Não se martirize, rapaz. Tenho certeza de que você fez o que pôde. – consolou Achilles.

–O máximo que consegui fazer foi segui-los, e percebi que eles ancoraram em Boston. Como estávamos em desvantagem, e também bastante desabastecidos e danificados, decidi não entrar em combate. A América é uma terra estranha para mim, por isso, procura-lo me pareceu a melhor alternativa. Espero que o senhor não se incomode em ter a nossa tripulação descansando por aqui, pelo menos por tempo suficiente até que possamos retornar a São Domingos.

–De forma alguma. Os senhores são os meus convidados.

–Fico feliz em ouvir isto, senhor.

Notas finais
Agora essa parada ficou séria!!! Ferrou, Connor! Você chegou tarde mais!! Agora eu quero ver o que você vai fazer. Sem dúvida, Achilles irá chamá-lo para conversar e colocá-lo por duas horas com a cara virada para a parede por não ter dito toda a verdade. Mas de boa, eu entendo o Connor. Todo mundo iria me chamar de louco se eu dissesse que usei uma Maçã para voltar no tempo e mudar tudo. E sim, o Eseosa realmente existiu e foi o Assassino responsável pela Revolução no Haiti. Ele é o neto do Adewalé. E mais uma coisa que gostaria de adicionar: em 1804, Eseosa irá procurar o Connor na Homestead para receber treinamente adicional. Sim!!! O neto de Edward Kenway e Adewalé são grandes amigos!!! E a Ubi JAMAIS explorou isso!!! Simplesmente colocou isso no Initiates!!! Nem uma DLC que seja!!!! Até o próximo!!!