Assassin's Creed: Aftermath
24 Meu Verdadeiro Papel
Notas iniciais
Achilles parecia visivelmente perturbado quando bati em sua porta. Poderia pensar que minha presença repentina tivesse causado tal perturbação, mas quando notei seu semblante, logo duvidei que tivesse sido apenas isso. Em uma de suas mãos, ele trazia uma espécie de bilhete, que tratou de amassar e lançar ao bolso ao notar meus olhos sobre ele. Se o Velho soubesse que eu já o conhecia o bastante para saber suas artimanhas...
–Connor, é bom vê-lo.
–Ao senhor, também. – eu disse, finalmente adentrando.
–Vejo que o destino tem me favorecido por trazer sua presença aqui antes que eu me movesse para tal. Estava mesmo precisando de você, rapaz.
–Em que posso ajuda-lo, senhor? – perguntei, com minhas mãos educadamente levadas ao peito. Andando devagar, de um lado a outro, ele voltou seus olhos para mim, seriamente.
–Creio que seu treinamento como Assassino já esteja completo o bastante para desempenhar uma missão mais delicada do que enviar meros bilhetes pela cidade.
–Compreendo. – disse, tentando esconder minha expectativa.
–Saiba, Connor, que o destino da reconstrução da Irmandade na Colônia está a depender de seu sucesso nesta empreitada. Sabendo de suas capacidades, eu não confiaria em melhor pessoa. Por isso, caso ocorra tudo bem, marcaremos sua cerimônia de Iniciação ao Credo para o mais breve possível.
–Sim, senhor. Basta dar-me a ordem. – disse, com seriedade.
Achilles se sentou cuidadosamente sobre sua poltrona.
–O Assassino que nos ajuda foi preso pelos templários. Armaram-lhe uma armadilha, e agora, ele está sendo acusado de armar uma conspiração contra o General George Washington. Sua sentença foi anunciada hoje. Como era de se esperar, a forca. Entretanto, os Templários trataram de apressar as coisas, e ele será executado amanhã, ao meio-dia, em Boston.
Assenti, sabendo que, se quisesse chegar a Boston antes do meio-dia, deveria partir ainda hoje. Ele continuou.
–Haverá reforços no local, portanto será difícil libertá-lo. O plano que tenho em mente é arriscado, mas pode dar certo. Pensei em utilizar suas conhecidas habilidades de arco e flecha e livrá-lo do enforcamento, acertando e rompendo a corda antes que ele seja enforcado. Aproveitaremos do estado de abismação dos soldados para retira-lo dali. Então, Connor... Eu posso contar com você?
Aquele plano era surpreendente. Eu vivi exatamente naquele momento, mas na pele do Assassino misterioso. Agora, eu era o responsável por salvá-lo. Mas havia algo mais que me deixava ainda mais ansioso: finalmente eu saberia sua identidade.
–Sim, senhor. Pode contar comigo. – disse.
–Ótimo. Iremos agora mesmo, caso não se importe. Se partirmos agora, chegaremos à Boston pela manhã. Dará tempo de você reconhecer o terreno, e eliminar eventuais ameaças ao sucesso do plano. O que acha?
–Ótimo, senhor, mas... E quanto aos meus familiares? O que direi a eles a respeito de meu sumiço?
Achilles parecia relevar. – Direi que você foi a sua Aldeia. Conheço pessoas que podem sustentar minha mentira. E então, estás pronto?
§§§§§§§§§§§§§
Nem precisei voltar para casa para buscar qualquer coisa. Eu tinha o habito de andar sempre com meu arco, devidamente carregado com quinze flechas. Adentrei à diligência de Achilles, ciente do que deveria fazer.
Eu conhecia bem a cidade de Boston. Sabia onde era a praça onde costumavam enforcar os criminosos, bem como os telhados em suas cercanias. Poderia até escolher os pontos privilegiados e matar os Casacas-Vermelhas que ousassem se meter. Não seria tão difícil.
Achilles me entregou um manto escuro, mas me alertou:
–Este não é seu manto definitivo.
Eu sabia que não. O meu manto era, certamente, o mesmo que deveria estar em seu porão, esperando por mim, como naquele dia em que ele brigou comigo quando eu o toquei pela primeira vez, em meus treze anos. Ou ele estaria já de posse desse tal assassino?
–Por que não me fala mais desse Assassino?
Ele riu. – Ele pediu-me para não contar a ninguém sua identidade. Nem mesmo a um dos nossos.
–Uma vida dupla, então?
–Exatamente. Ele tem sua própria vida, sua privacidade. Não quer desperdiçá-la. E se deseja saber, ele segue a regra geral, e evita usar o Manto quando não está prestando serviços à Ordem. Sua identidade é uma incógnita até aos Templários.
–Talvez não seja mais.
–Realmente, ela já não é mais. Creio que depois desse enforcamento, ele terá de escolher qual vida seguir. Mas confio que ele escolherá o lado dos Assassinos.
–E quanto ao meu pai?
–Terei de convencer o Assassino a não considera-lo como alvo. Suas suspeitas estavam corretas, rapaz. Seu pai não presta mais nenhum serviço aos Templários, simplesmente mantém a velha amizade com alguns eles. Menos com Charles Lee.
–Deveras? – perguntei, surpreso. Eu sabia que ambos eram amigos próximos, mas depois recordei-me da discussão que tiveram em Lexington, sobre suas escolhas. Dificilmente poderia ver uma amizade sobreviver àquilo.
–Haytham ficou um tanto pesaroso pela morte de Willian Johnson. Pelo que me lembre, Johnson prestou-lhe grande ajuda em sua busca pelo terreno precursor, especialmente no que tange os Mohawk. Mas saber que ele não possui sequer amizade com o Grã-Mestre já o descarta como alvo. Mas ainda assim, há que se ter cuidado. Ele fez sua escolha, mas duvido que tenha abandonado suas convicções. Ainda pode voltar às atividades.
A conversa voltou a ficar estéril. Percebi que Achilles estava sonolento. Pensei que algumas horas de sono seriam benéficas, por isso, virei-me e arranjei uma posição confortável, e entreguei-me ao sono.
Quando acordei, já estávamos perto de Boston, e o dia começava a raiar.
Na entrada da cidade, dei conta de quantos soldados já estavam ali, se preparando. Era um verdadeiro exército.
–Os Templários querem se certificar de que tudo ocorrerá bem. – ele disse.
§§§§§§§§§§§§§
Boston. 17 de Abril de 1776.
Havia uma grande agitação nas ruas.
Lembrei-me, de imediato, do dia de meu enforcamento. Parecia que a cena estava se repetindo, porém minha posição era bem diferente. Eu não estava surrado, metido em roupas de prisioneiros, sendo cuspido, agredido e xingado por aquela multidão enfurecida, ou ouvindo deboches de Thomas Hickey. Eu estava no alto de um telhado, onde um Casaca-Vermelha estava estendido com o pescoço aberto, já em posição. Meu arco e flecha também estavam preparados. Matei todos os atiradores que poderiam me detectar, furtivamente. Nada parecia me impedir.
Quando percebi a multidão mais exaltada, tive certeza de que o prisioneiro tinha chegado. E lá estava ele, recebendo as mesmas ofensas e agressões que eu recebera. Ele andava de cabeça baixa o tempo todo, tentando se desviar de tomates e ovos podres atirados contra si, e também de cuspes dos mais agressivos. Eu sabia bem o que era esse sentimento de frustração, e também humilhação.
Era um homem forte, e para minha surpresa, tinha a pele morena, de um completo nativo. Seu cabelo era grisalho e comprido a ponto de ultrapassar a altura dos ombros, com algumas tranças. Quando notei Achilles se aproximar dele, eu pude ver seu rosto.
Era Minowhaa!
Aquele parecia ser um dia de lembranças. Eu soubera depois, pelo Diário, que quem me salvara da forca não fora a flecha do amigo de Achilles, mas a faca atirada por meu próprio pai, Haytham Kenway – meu maior inimigo. Agora, que estava ali, diante de Minowhaa, e conhecendo sua inimizade com Haytham, eu tinha certeza de que meu pai iria atirar uma faca, mas contra seu coração, e não a corda.
Sim. Eu deveria salvar Minowhaa. O Assassino de Achilles Davenport.
Enquanto eu preparava o arco, Charles Lee fazia seu odioso e hipócrita discurso que deixava a multidão ainda mais exaltada e furiosa. Minowhaa olhava firme, destemido, a todos, mas não dissera qualquer palavra. Tal como eu, parecia abraçar seu destino, sem medo. Quando o carrasco cobriu seu rosto, eu coloquei a flecha em estado de disparoo. Bastava soltá-la, que ela voaria para a corda. A mira estava perfeita, sem interferências.
Quando o baque do alçapão silenciou a todos, eu atirei.
Diferente de meu enforcamento, meu tiro foi dado com maior precisão, de modo que a corda se arrebentou perfeitamente. Talvez Minowhaa fosse mais pesado do que eu e tivesse favorecido o romper da corda, ou talvez aquele fosse um dia de sorte mesmo.
Quando Charles Lee notou a flecha presa à madeira, seus olhos diabólicos se voltaram diretamente para o telhado. Infelizmente, ele me viu.
–Assassino! – gritou, alertando os guardas. – Peguem-no!
Imediatamente, eu corri, porém deixando minha aljava de flechas para trás. Saltei pelos telhados de Boston, matando todo atirador ou guarda que aparecesse em minha direção. Um deles recebeu uma machadada em seu pescoço, que praticamente lhe transformou em uma verdadeira cachoeira de sangue, expelindo um pouco de si sobre minha roupa. Depois de matar outro grupo de Casacas-Vermelhas, e provocar a fuga do único sobrevivente, escondi-me em alguns arbustos, e lá fiquei até que tivessem me perdido de vista completamente.
–Ele se foi! – um deles gritou.
–O chefe não vai gostar nada disso! – disse o outro soldado.
Respirei fundo, consciente de que o perigo já tinha passado. Talvez fosse hora de voltar para casa. Desfiz-me do manto negro de Assassino e voltei às minhas conhecidas vestes civis, porém com a consciência de que tinha que deveria ir embora logo dali. Encontrei uma balsa que me levava ao interior e comprei uma passagem. Quando estava prestes a embarcar, já no fim de tarde, ouvi dois homens conversarem sobre o ocorrido na praça. Fingindo estar atento a um jornal velho, escutei a conversa.
–E além de sobreviver a uma forca, o condenado ainda teve tempo de matar desesperadamente a outro homem.
–Céus! – disse o outro, horrorizado.
–E pensa que irá para a cadeia? Muito pelo contrário! Ele conseguiu provar sua inocência, e o homem que ele matou em praça pública era o verdadeiro conspirador de George Washington! O General até lhe agradeceu! De condenado, passou a herói.
–Que grande reviravolta! Impressionante!
E assim, morreu o asqueroso Thomas Hickey. Mas ao menos, me confortava saber que eu participei de alguma forma. Como mero coadjuvante, reconheço, mas de alguma forma.
§§§§§§§§§§§§§
Era madrugada quando eu subia, sorrateiramente, as paredes de minha casa. Todos os cômodos estavam escuros. Sem dúvida, todos estavam dormindo àquela hora, o que era muito natural. Estava cansado, pois tinha feito uma bela caminhada pela fronteira, onde a balsa me deixara, e sabia que até Kanatahséton ainda precisava de mais uma boa caminhada. Poderia gerar especulações ao meu povo, se aparecesse ali com minhas roupas manchadas de sangue humano. Por isso, decidi voltar para casa.
Assim que adentrei ao meu quarto, fui surpreendido por uma voz.
–Onde você estava?
Sem dúvida, era meu pai, Haytham. Minha suspeita se confirmou quando ele, que estava sentado em minha cadeira, caminhou para próximo de mim, e me viu. Tendo apenas por luz o luar que escapava da janela, notei que seu semblante não era nada satisfeito.
–Estava em Kanatahséton.
Ele franziu os olhos, debochadamente. Sabia que estava mentindo.
–Mesmo? E quem pode confirmar isso? Um homem morto?
Óbvio. O álibi de Achilles para minha estadia em Kanatahséton era Minowhaa. E meu pai, que ainda deveria ter amizades com Templários, sabia que Minowhaa era o Assassino que tinha sido levado à forca, mas não sabia que ele ainda estava vivo.
Antes que eu pudesse raciocinar, ele agarrou-me pelo cabelo, pegando-me completamente desprevenido.
–E todo esse sangue, sobre sua roupa?
–Estava caçando. – menti outra vez, recebendo um puxão mais forte em meu couro cabeludo. Mais uma vez, eu não o convenci.
–E onde estão os espólios de sua caçada? Pois eu sei que seu povo não mata animais meramente por matar. E não é apenas isto, Connor. Eu não sou tão tolo a ponto de não saber distinguir sangue humano de sangue de animais.
–Porque já vira sangue humano o bastante, não é? – provoquei.
Ele me empurrou contra a cômoda, fazendo alguns objetos caírem bruscamente. Minha provocação claramente o tinha deixado furioso.
–Estou cansado de sua rebeldia, Connor! Você não é mais uma criança, já é um homem adulto! Não tem o direito de me julgar pelas coisas que fiz!
–Você ao menos se arrepende delas? – perguntei, francamente.
–Não. – ao ouvir sua resposta sincera, eu bufei, em descrença.
–Como posso saber que não é mais um Templário, então? Ou que não voltará a ser em um futuro próximo?
–Que diferença faz a você, o fato de eu ser um Templário ou não? Você não é um Assassino. Não tem Credo algum para justificar essa ojeriza às minhas convicções.
–Você deseja restringir a Liberdade das pessoas. Isso dá ojeriza a qualquer um.
Ele riu, o que me deixava ainda mais irado.
–Me achas um tirano, porque acredito que o mundo precisa de ordem? Todos acreditam nisto, Connor. Todos precisam de ordem e propósito para viver. Quando for mais maduro, irá compreender que digo a verdade. – disse com dedo em riste.
–Falou e disse o Templário que vive dentro de você.
Foi com bastante alívio que vi minha mãe chegando, vestida em sua camisola. Ela trazia um candelabro na mão, que iluminou instantaneamente todo o ambiente. Nossa discussão se encerrou ao notarmos sua presença.
–O que está acontecendo? A discussão de vocês está assustando as crianças...
Meu pai pareceu aturdido.
–Desculpe, Ziio. Não foi minha intenção.
–E o que significa todo este sangue em suas roupas, Ratonhnhaké:ton? – ela perguntou-me, nada feliz em me ver desta forma.
–Estava voltando de Kanatahséton e fui abordado por um assaltante na estrada. Apenas me defendi. – menti outra vez. Não sei se era um péssimo mentiroso, mas minha mãe também não parecia convencida.
–Amanhã conversaremos.
–Eu já conversei. – disse meu pai. Os dois trocaram um breve olhar.
–Ótimo. Agora, voltem a dormir. Amanhã temos um dia cheio nos esperando.
No mesmo instante, minha mãe saiu do quarto. Meu pai ainda permaneceu, por mais alguns segundos. Quando minha mãe já estava longe o bastante, ele disse, em voz baixa.
–Estou decepcionado com você, Connor. Não foi para isto que te treinei.
E assim, fechou a porta.
Fale com o autor