Assassin's Creed: Aftermath
5 A Vida De Um Templário
Notas iniciais
“Não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida.”
Bob Marley
Um cavalo rompia fortemente as colinas da Fronteira, em um trotar apressado, desesperado.
Ziio estava montada ao animal, esperando que pudesse chegar à Davenport Homestead o mais rápido possível. Ela não tinha certeza se Minowhaa sabia a exata localização da casa de Achilles Davenport, e isso lhe dava esperanças de poder alcançar o velho Assassino antes dele. Muito embora ela duvidasse de que isso teria algum efeito. Algo lhe dizia que a mera menção de seu nome já dava como derradeiro o destino de Haytham.
Já era noite alta quando finalmente, ela viu despontar no horizonte a mansão de Achilles, outrora imponente e que agora precisava urgentemente de uma reforma. Mesmo seus olhos de nativa apontavam para este diagnóstico, diante das rachaduras e fissuras pela fachada. Entretanto, ao se aproximar, ela notou que o cavalo de Minowhaa já estava atrelado à cerca.
Dane-se. Ela não iria embora sem ao menos tentar.
Ziio bateu a porta, demorando a ser atendida. Depois de alguns minutos de espera, finalmente foi o próprio Achilles que a recebeu. Fazia alguns anos desde sua última visita, e ela notou que ele estava triste, com o semblante tão abalado quando na época que sua esposa e filho morreram. Parecia ter envelhecido vinte anos. Notou também que ele andava com dificuldade, devido a um ferimento recente em seu joelho.
–Minha querida Ziio. Pode entrar. Já esperava por sua presença.
Quando Ziio adentrou à mansão, deparou-se com Minowhaa na sala, em pé. Sobre a mesa de centro da sala, estava o inseparável chapéu tricórnio de Haytham. Com toda a certeza, àquela altura, Achilles já sabia quem era o prisioneiro dos Mohawk.
–Minha criança, eu confesso que estou abismado e surpreso em saber que seu povo conseguiu deter este homem. Estava contando a Minowhaa o quanto Haytham Kenway e sua organização são deveras perigosos à sua aldeia. Eliminá-lo seria um bem a todos.
Minowhaa trazia um sorriso vitorioso. Ziio sabia que a intenção dele, desde o princípio, era eliminá-lo, e que ele faria com grande prazer, especialmente agora, com aval de Achilles e, consequentemente, da Mãe do Clã.
–Achilles, você sabe que este homem é...
Achilles assentiu, com desgosto, interrompendo-a. – Sim, eu sei. Todos nós cometemos erros, Ziio. Eu cometi muitos erros em minha vida, assim como você também cometeu. Entretanto, uma vez reconhecidos, devemos nos arrepender e seguir em frente, não mais cometendo-os de novo. Entendo que você desconhecia suas reais convicções quando se... Envolveu com ele naquela época, mas agora, você sabe que Haytham Kenway é um mau que merece ser expurgado desta terra. Então, porque estás hesitante?
–Ele merece uma segunda chance.
O velho pareceu momentaneamente surpreso, mas depois sorriu.
–O fato de ele ser pai de seu filho mexe com seus sentimentos, ainda que não goste de reconhecer isto. Mas encaremos os fatos: homens como Kenway não merecem uma segunda chance. Você dará a ele, e ele a aceitará, vislumbrando apenas escapar. E depois? Certamente voltará ao seu caminho de disseminação do Mau.
–Mas Achilles, ele...
O mais velho a interrompeu.
–Não reparou em nada, Ziio? No quanto esta casa está vazia e triste?
Ziio tinha reparado, na verdade, desde antes de adentrar à Mansão, mas não comentara. Achilles continuou.
–Liam, Hope, Kesegowaase... Lembra-se deles, Ziio? Todos Assassinos, benfeitores desta terra. Mortos à mando de Haytham. Ele não os matou pessoalmente, mas esteve por trás da lâmina, ordenando, planejando, controlando... Aliás, Ziio, sabe como eu adquiri este ferimento? – ele perguntou, apontando para sua própria perna. – Um tiro em meu joelho, dado pelo próprio Haytham Kenway. E sabe o que mais? Ele me disse que... Ele me disse que isso serviria para que eu não me esquecesse. E de fato, eu não vou me esquecer, mas retribuir à altura tudo que ele me fez, um dia.
Após seu discurso, Achilles virou-se para Minowhaa.
–Diga à Mãe do Clã que Haytham Kenway é uma ameaça, e que precisa ser eliminado o quanto antes. – disse Achilles, devolvendo o chapéu a Minowhaa.
–Com gosto, senhor. – disse Minowhaa, causando repugnância em Ziio.
Do lado de fora, já longe das vistas de Achilles, Minowhaa aproveitou a relativa privacidade e confrontou Ziio.
–Como pôde? Este tempo todo, e você se envolveu com um Templário... Um maldito Templário! E não um Templário qualquer, mas o líder deles!
Ziio sabia que Minowhaa sempre foi fascinado pelo Credo dos Assassinos, e que só não entrara de vez para a Ordem porque amava seu povo mais do que tudo. Portanto, ele era um dos poucos que sabia, verdadeiramente, o que significava um templário.
–A sua raiva não consiste nisto, Minowhaa. Consiste no fato de que eu amo Haytham, e não você. Pois saiba que não importa o que faça, meus sentimentos não irão mudar.
Minowhaa ficou claramente chocado e ferido, mas continuou a resmungar.
–E de saber que aquele homem é quem está ordenando todas as intromissões dos brancos em nossos locais sagrados. Profanando nossos santuários, afrontando nossos deuses! E ainda tens coragem de defende-lo, de leva-lo à nossa Aldeia...
–Eu vou impedir esta execução! – exclamou Ziio, com força.
–Eu não vou deixar!
Com esta frase, Minowhaa desembainhou sua Tomahawk e feriu o cavalo de Ziio, cortando levemente sua pata traseira.
–Minowhaa, não! – disse Ziio, ao ver que seu cavalo estava incapacitado, relinchando de dor. Mas Minowhaa pouco se importou com seu protesto e xingamentos, montando em seu próprio cavalo rapidamente e galopando para longe da Davenport Homestead.
–E eu vou convencer a Mãe do Clã a antecipar a execução. Se este homem estava marcado para morrer no pôr-do-sol, saiba que farei de tudo para que ele morra ao nascer! – exclamou Minowhaa à distância, com raiva, causando a repulsa em Ziio, que de tanta raiva, lançou seu facão contra Minowhaa, mas infelizmente o guerreiro se esquivou.
–Você ainda vai me agradecer por isso, Kaniehtí:io! – exclamava o guerreiro, ao longe, sendo nada mais que um mero ponto, cada vez mais distante, daquele local.
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Era madrugada quando me vi acordado pelo repentino acender de uma vela, que serviu por iluminar toda a oca. Eu continuei fingir dormir sobre a esteira, tentando prestar atenção na conversa que repentinamente começou na entrada.
–O homem que está feito prisioneiro na oca da Mãe do Clã é um inimigo de nosso povo, minha irmã. – observou uma voz masculina, um tanto raivosa, que percebi ser de Minowhaa.
–Sério? Então...
–Sim. A Mãe do Clã disse que deveríamos executá-lo no próximo pôr-do-sol, mas vou tentar convencê-la a fazer isto ainda esta noite.
–Você sabe que nossos deuses se desagradam de mortes ao anoitecer, Minowhaa. Não creio que ela vá aceitar...
–Ele não é um dos nossos, minha irmã. Portanto, faz pouca diferença. Além disso, sua amiga Kaniehtí:io poderá cometer uma loucura se a morte dele demorar tanto tempo. E eu não posso permitir que ela acabe com sua vida por causa daquele homem branco.
Percebi um momento de silêncio.
–Você ainda ama Kaniehtí:io? Mesmo depois de tudo que aconteceu...
Fiquei chocado. Jamais imaginei que Minowhaa nutria sentimentos por minha mãe. Ele era um bom homem, apesar de se mostrar um tanto agressivo e transtornado com a presença de meu pai. Mas agora, tudo fazia sentido. Ele estava com ciúmes.
–Sim, eu a amo. – ele admitiu. – E ainda desejo toma-la como minha esposa, e ajuda-la a criar Ratonhnhaké:ton devidamente. O menino precisa de um pai que lhe ensine a caçar, pescar e a lutar, que lhe conte lendas e histórias, que lhe ensine os costumes e crenças de nosso povo. Um pai que aquele homem jamais poderá ser.
Muito embora eu gostasse de Minowhaa, algo me alertava a impedir a morte de meu pai. Seria o arrependimento de tê-lo matado? Poderia ser, mas este não seria o único fato. Suas palavras na mata ainda voltavam à minha cabeça. “E se eu deixasse de ser um templário?” Será que ele estava realmente pronto a abandonar a Ordem para ficar com a minha mãe? O pensamento era insano, deveras insano, mas possível. Depois que li seu Diário, eu sabia que ele era um homem quebrado e repleto de contradições. Talvez a escolha pelo abandono da Ordem fosse apenas uma, dentre as dezenas de possibilidades que um homem tão complexo como meu pai poderia ter tido.
Será que deixa-lo vivo poderia mudar o meu destino?
De todo modo, eu sentia que deveria ver até onde ele poderia chegar.
Fiquei os próximos minutos pensando em como salvar meu pai. Eu sabia que meu povo era amigo dos Assassinos, mas era praticamente descrente da real pretensão dos Templários, por isso a menção da palavra não era de todo relevante. Certamente, o que estava pesando era a opinião de Achilles. Entretanto, era necessário provar que meu pai era amigo do meu povo, de alguma maneira. Mas qual?
Lembrei-me, então, dos relatos de meu pai a respeito da ocasião em que meu pai conheceu minha mãe. A morte do General Braddock e do mercador de escravos Silas. Sem duvida, a minha mãe teria mencionado isto à Mãe do Clã, mas seu depoimento teria sido irrelevante, por seu... “Histórico” com meu pai. Mas e se um dos nativos que meu pai libertou, junto de minha mãe, aparecesse e confirmasse isso? Certamente não haveria como refutar.
Tentei lembrar. Ninguém do meu povo, além de minha mãe, tinha sido detido e escravizado por Silas, sendo libertado em seguida por meu pai. Certamente, eram nativos de outras aldeias, ou mesmo de outros povos.
Então, um fato veio á minha mente.
Há dois anos – melhor dizendo, daqui a muitos anos – eu encontrei um nativo, sozinho, caçando na Fronteira. Lembro que o salvei de um urso. O homem me agradeceu, e me ofereceu um almoço. Ele me contou que pertencia a uma aldeia dos Kahnawake, e que fora cativo de Silas por um ano, sendo libertado por soldados disfarçados (pelo relato, Templários liderados por meu pai), mas que seu cativo fora tempo o bastante para ter seu povo destruído e fragmentado. Sem lugar para ficar, ele decidiu passar o resto de seus dias na Fronteira, caçando para sobreviver, tal como um Lobo Solitário. Tinha acabado de ver meu povo se diluir também, e o pensamento me corroeu, pois vi naquele homem uma espécie de futuro.
Ele seria capaz de reconhecer meu pai? E se sim, será que escutariam o que este homem tinha a dizer?
Por isso, antes do sol raiar, eu me esquivei, usei-me de meus instintos – que mais tarde soube que meu avô chamava de Visão de Águia – fui até os utensílios de cozinha e tomei uma faca. Embora eu fosse um menino de oito anos, eu sabia o que fazer com ela, talvez até melhor do que um adulto. Esgueirei-me e saí. Percebi que a aldeia estava silenciosa, quase fúnebre. Decidi não pensar nisto, aproveitei uma brecha que eu e as crianças usávamos para escapar do castigo de nossos pais e brincar no vale, e fugi, encarando a noite, desejando que o nativo dos Kahnawake já estivesse no mesmo lugar que estaria quando um certo Connor o encontraria caçando cervos e ursos para sobreviver.
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Haytham embarcara em um sonho doce, e ao mesmo tempo estranho.
Sonhara com seu pai, ensinando-lhe a lutar. Seu árduo treinamento, de todas as manhãs. Curiosamente, o vira também como um pirata – ou melhor, tentava imaginar, pois Haytham jamais viu um pirata pessoalmente.
Um pirata vestido com o Manto dos Assassinos.
“Nada é verdade. Tudo é permitido.”
Era estranho ouvir isso dos lábios de seu pai, naquele sonho (ou pesadelo?) em vê-lo com as vestes de Assassino. Muito estranho, mas era a verdade. Seu pai era um Assassino, e isso lhe atormentava. Ele tinha ido até Ziio em busca de alguém que pudesse conversar abertamente sobre seus conflitos internos, algo que nem mesmo Charles Lee poderia servir. Entretanto, cá estava ele, com uma clara sentença de morte apenas esperando para chegar.
–Acorde, Templário.
As palavras, ditas debochadamente em Inglês, tiraram Haytham de seu sonho/pesadelo e lhe deixaram alerta. Seus olhos, semi-cerrados pelo sono e pela luz que recém-invadira o local, procuravam pelo autor delas. Mas ele não vira ninguém, além do sempre desgostoso Minowhaa, usando uma pintura estranha no rosto e de Tomahawk em punho.
Haytham bufou.
–Aposto que está se divertindo com isto. – ele observou, com graça.
–Não posso negar que sim.
Haytham arregalou seus olhos, ao perceber que, pela primeira vez, tinha entendido o que o nativo dissera.
–Você sabe falar Inglês?!
–Por quê o espanto? Acha-me incapaz de falar sua língua, Templário?
Haytham não estava surpreso com a menção Templário, embora confessasse internamente que estava aguardando a chegada de Achilles Davenport. Talvez o velho estivesse mesmo nas últimas, a ponto de “terceirizar” o serviço.
–Vocês, brancos, acham-se melhores do que nós falando Inglês, mas são incapazes de falar o mínimo de nossa língua. Acabam forçando-nos a ter de adaptar os nossos nomes porque sequer conseguem falar os nossos sem massacrá-los.
–Ziio jamais se importou com a forma como eu sempre a chamei.
Minowhaa exaltou-se, e de repente, socou Haytham no rosto, pegando-o agressivamente pelo colarinho. Haytham estava praticamente pronto para mais socos como aquele, entretanto uma voz repentina interrompeu o que seria uma boa sessão de espancamento.
–Chega, Minowhaa. – era a Mãe do Clã. – Traga-o aqui.
–Eu vou me lembrar disto. – disse Haytham, esboçando um sorriso cansado, enquanto uma gotícula de sangue escorria do canto de seu lábio.
–Possivelmente, se acredita em vida após a morte, Templário.
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