Notas iniciais
Utilizei essa música tema para a cena que destaca a música tocada no vinil: Etta James - At Last. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=S-cbOl96RFM E música tema para o final do capitulo: Édith Piaf - Ne me quitte pas. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=slHjkszSAKs

“Quando olho para minha esposa, eu penso, o que passa em sua cabeça, o que pensa sobre mim, tenho vontade de desvendar sua mente, conhecer seu passado e entender seus planos, seu sorriso me faz querer ficar, mas sei que já quis fazer assim antes.”

—Por que me trouxe aqui? – Questiona Carolina, olhando fixamente para Gustavo

—Achei que você iria gostar, apenas tentei ser mais romântico, eu te assustei? — Pergunta Gustavo.

— Papai, costumava andar de barco comigo, ele dizia que o mar passava o dia todo esperando a lua aparecer, assim como eu o esperava toda noite para me contar uma história, antes de dormir — Diz Carolina, num tom de voz baixo, enquanto olhava para a luz da lua que refletia sobre o mar.

—Seu pai realmente a amava muito, eu percebi isso.

—Você conhecia ele? — Interrompe Carolina, rapidamente.

—Não! Pessoalmente não, quis dizer que percebi isso pela maneira como você fala, pela forma que seus irmãos falam da sua relação com seu pai. — Diz Gustavo, apressadamente, tentando reparar a gafe que acabava de cometer.

Um ano antes da morte de Mauro, Gustavo havia o conhecido, em um desses hipódromos. Mauro era um homem de muitos poderes aquisitivos, trabalhou para dar a sua família, o suporte necessário que queria. Em seus momentos de folga, costumava ir fazer apostas em competições de cavalos, geralmente ganhava, mas também sabia se divertir quando não ganhava, sua falecida mulher, não gostava dos hobbies do marido, mas que não pudera impedir, já que ele fazia isso escondido. Em uma das vezes que foi fazer aposta, encontrou Gustavo, ele estava ali, como se tivesse apenas acompanhando a corrida, ele gostava de ficar observando. Antes que Mauro pudesse fazer aposta, ele se aproximou e disse.

— As pessoas geralmente apostam nos puro sangue mais velhos, talvez por sua fama, ou então, por medo de arriscar. Muitas vezes o cavalo mais novo pode surpreender.

— Por que diz isso, rapaz? Os mais velhos têm mais experiências, e acumulam vitorias, as pessoas são inteligentes o suficiente para saber que arriscar em algo novo, pode trazer problemas — responde Mauro.

As pessoas mal sabem como os cavalos são tratados, não sabem como foram os anos de treinamentos para eles estarem aqui, uma hora eles irão adoecer, e aí terão que apostar em outros, sem mesmo saber seus nomes — dispara Gustavo, enquanto se aproxima mais de Mauro.

— E qual é sua aposta, meu rapaz? — questiona Mauro, olhando para a pista de corrida.

Não tenho condições de apostar, mas posso observar, faço isso muito bem! Geralmente acerto quem ganha, parece menos arriscado.

Então, qual você tem observado mais, que pode ganhar essa corrida? Tenho apostado no puro sangue trovão a muitos anos, sempre me deu vitorias, mas também derrotas — diz Mauro.

— Eu diria que o puro sangue vermelho tem chances, percebi que é novo por aqui, parece bem cuidado, eu acredito nele.

— Apostarei nele, pois você me convenceu rapaz, é ótimo nisso!

— Em observar? — pergunta Gustavo.

— Não, em convencer, deve ter muitas pessoas acreditando em você — fala Mauro, enquanto faz sua aposta no cavalo chamado vermelho.

— As pessoas acreditam no que elas acham que é melhor pra elas — termina Gustavo.

É dada largada, eles olham atentamente, os cavalos Trovão e Vermelho disputam a vitória. No entanto, o vermelho ultrapassa o velho trovão e vence. Mauro não esconde sua exaltação por ter vencido a aposta. Gustavo apenas mantem sua postura e ri de forma sarcástica, enquanto planeja seus próximos atos.

Após passeio de barco, Gustavo vai até o quarto das crianças e avisa Aline para que ficasse preparada.

— Quando você perceber qualquer movimentação suspeita, pegue as crianças e vá até o lugar que havíamos combinado — diz ele. Aline não esconde o quanto está nervosa e preocupada.

Enquanto isso, em outro quarto, Francine ajuda Carolina a se preparar, que está bastante ansiosa. Diego volta a sala, Eliane vai ao seu encontro e lhe mete um tapa na cara, ela ama seu marido, mas sabe que ele não é fiel.

— Devo lhe perguntar como foi? Você é um fraco e sujo, deveria ter vergonha de ter ao meu lado — diz ela com feição irritada.

— Não tem, pois, sabe que somos iguais — responde Diego, olhando atentamente nos olhos de Eliane, quase sussurrando.

Laisa e Rui chegam a festa, praticamente ao mesmo tempo, Tais, avista a chegada e vai encontra-los, mal sabe ela que eles estavam em sua cama, minutos antes. Já na sala de jogos, Marcos, Nilton e Flávio continuam suas conversam, mas não demora muito para que Nilton comece a provocar seu irmão.

Meu pai tinha preferência por Marcos, pois sabia que assim ele poderia gastar mais da metade do seu dinheiro em apostas, que você não saberia administrar todo seu dinheiro, apenas um pouco dele — diz Nilton em tom de deboche.

— Carolina me disse que ele a deixou mais do que estava previsto em seu patrimônio, pensei que soubesse disso — Ironiza Marcos, ao mesmo tempo que joga sinuca.

Francine desce até a sala de festa e anunciam a todos que os noivos irão descer, então todos se movem até as escadas, logo após o casal aparece. Carolina está deslumbrante, totalmente emocionada, Gustavo demonstrando total confiança em si, eis que ele inicia um discurso.

Prometo a todos aqui presente, uma noite marcante em suas vidas, que possamos compartilhar sobre nossas fantasias, nossos medos e principalmente, nossa alegria — diz Gustavo, sorridente, pegando na mão de Carolina.

O jantar vai ser servido, todos os familiares se preparam para sentar na Mesa. Carolina questiona onde estavam as crianças, pois não havia visto eles desde que a festa começou. Gustavo diz que estão dormindo, que já haviam jantado, que não suportaram o sono, mas que Aline estava cuidando muito bem deles. A mesa era composta por um delicioso banquete, tudo escolhido criteriosamente por Carolina, ela sabia o que cada convidado seu gostava de comer, e não teria poupados esforços para preparar, diante daquela mesa, as conversar vão aparecendo, se espalhando. O primeiro pontapé, vem de Eliane que não consegue esconder seu descontentamento na escolha de seu pai.

— Talvez seja nossa última refeição digna, irmãos, com exceção claro de nossa bela irmã, Carolina — diz ela enquanto pega o copo de bebida e olha para sua irmã.

— Espero que Caroline me convide mais vezes para jantares como esse. Percebi que não tivemos conversado muito desde que nosso pai morreu, creio que até Marcos que mora em outra cidade, saiba melhor de como minha irmã está do que eu — Fala Nilton, em tom alto, aproveitamento o momento para provocar seus irmãos.

— Pode ser que assim como nosso Pai, Carolina não confie em você — diz Marcos, não suportando mais as provocações e continua – Pelo que percebi você não tem conversado muito com sua esposa também, creio que só a agredido. Carolina, é uma pessoa muito boa, ela poderia pedir investigação dos pequenos roubos que fizeste na empresa.

Carolina, não sabe muito bem como reagir a tudo aquilo, talvez a dedicação ao banquete não fosse suficiente para agradar seus irmãos, ela segurava na mão de Gustavo. Nilton tentava manter a postura, era conhecido por sua agressividade, mas saberia que qualquer ação sua, demonstraria que seu irmão estava certo, que não queria que todos ali acreditassem. Para Gustavo aquilo era um prato cheio, era o que queria naquela noite, ele esperava por esse momento, fazia parte dos seus planos, colocar um contra o outro. Para que a confusão continuasse, mas de forma mais contida, fingindo tentar descontrair, começa suas provocações em forma de perguntas a Diego.

— Diego, fiquei sabendo que será pai, poderia te dar alguns conselhos, mas acredito que saiba lidar melhor com crianças do que eu, você já é um ótimo tio, será ainda melhor como pai — diz Gustavo, enquanto olha para Marcelo. Diego, não sabe como reagir a fala de Gustavo, que logo, pergunta sorrindo – Você está bem, Marcelo? O que achou de nossas rosas no jardim?

Marcelo, se sente constrangido, mas mantem em silêncio. Gustavo continua, agora seus alvos são o jovem casal, Rui e Tais.

— E você, Rui, pretende um dia ser pai? Posso lhe dizer que todo homem só se realiza completamente sendo pai — diz isso, pois, sabe que Tais, não pretende ter filhos, o que gera muito desconforto e discussões diárias entre ela, Rui e seus pais.

Incomodada com a situação, Tais, pede para se retirar, Rui pede licença, e vai atrás dela. Carolina, começa a ficar preocupada com a situação, pois, sente que será impossível manter a harmonia no ambiente, com sua família reunida, e pior sente que nem mesmo Gustavo está colaborando. Não era o que ela planejava para sua festa de casamento, no entanto, mantem sua classe e muda de assunto, assim é feito. Após muitas provocações e pensamentos cruéis, se retiram da mesa, a festa continua ao som de muito Jazz no Vinil. Ao passo que vai passando o tempo, os convidados vão embora, e assim, ficam só os familiares. Gustavo, após vários copos de whisky, convida Carolina pra subir, diz que tem uma surpresa para ela naquela noite.

Francine, está parada na escada que leva aos quartos, Carolina e Gustavo passam por ela, os olhares entre Francine e Gustavo são perversos, ela não estava ali por acaso, esperava para que pudesse fazer o que lhe foi pedido. Eliane, como era bastante observadora, nota que há algo errado, poderia sentir o que ruim aquela noite ainda guardava. Ela percebe que Francine recebe algum comando, e então, após notar que o caminho está livre, resolve subir atrás dos noivos. Marceli, ao ver sua irmã subir, desconfia que ela estaria planejando algo, resolve se retirar, para que não sobre nada para ela, vai em direção a seu marido, o convida para ir embora, ele não entende muito, mas percebe que sua esposa está bastante nervosa, e não questiona, apenas vai com ela, chamar suas filhas. Nilton observa a sala, percebe que ela fica cada vez mais vazia, pede licença a Diego e diz que irá ver como está a sua mulher.

No quarto, enquanto a banheira enche, Gustavo e Carolina conversam. Ele se oferece para ajudá-la a tirar o vestido. No quarto ao lado, Breno, acorda com a movimentação das pessoas, que por ali passam. Gustavo começa a tirar o vestido de Carolina enquanto fala.

— Eu sempre quis saber o que havia dentro de você, sempre imaginei seu sangue vermelho como sua boca — diz ele, enquanto passa seus dedos sobre os ombros de Carolina, que não entende e fica desconfortável, para não dizer assustada, porém, ele continua.

— Você nunca quis saber o que eu penso? Quais são meus planos, o que fiz no passado? Eu acho que isso foi seu erro.

Carolina fica em choque naquele momento, milhares de pensamentos passam em sua cabeça. O homem dos seus sonhos agora representa perigo a ela. Antes mesmo dela reagir, ele corta o pescoço dela. Após seu corpo cair no chão, ele se retira rapidamente do quarto. Eliane, ao perceber, se esconde no mesmo momento atrás de um armário que ficava no corredor. Assim que Gustavo passa, ela entra no quarto e vê sua irmã no chão, já morta, com sangue saindo do seu pescoço. Gustavo vai até o quarto que está Aline e sua filha dormindo.

— Onde está o menino Breno? — pergunto ansiosamente.

— Não sei, ele estava dormindo — diz ela apavorada.

— Não importa! Pegue Carol, iremos sair agora, tem um carro nos aguardando lá fora, tente não a acordar — diz ele, olhando para o corredor do quarto.

Os três então saem do quarto e fogem pelas portas do fundo. Nilton resolve perseguir eles. Eliane desce rapidamente, ela está apavorada com que acaba de ver e vai até a sala de jogos, chama por Diego, dizendo que precisam ir embora o mais rápido possível dali. Ele pergunta o motivo, ela apenas diz que uma grande confusão irá surgir e que é melhor eles não estarem presentes. Na parte de fora da casa, Francine, começa a espalhar galões de gasolina, então, ela põe fogo e as chamas começam a atingir a casa. Breno entra no quarto de sua mãe e a vê morta, a criança entra em desespero e começa a chorar desesperadamente. Marcelo percebe o fogo e vai até seu tio Marcos que estava sozinho tocando piano. Marcos não consegue acreditar no que está acontecendo, tudo passava diante dos seus olhos, eles sobem em direção aos quartos. Ao perceber que estava sendo seguido por Nilton, Gustavo o surpreende com uma paulada na cabeça, que desmaia no mesmo instante.

Marcos ouve os gritos e choro do seu sobrinho e vai ver o que está acontecendo, enquanto Marcelo vai até o quarto que sua mãe estava dormindo, quando abre a porta, não a encontra mais ali. Marcos ao chegar no quarto de sua mãe, presencia ela morta e com Breno ao lado dela, coberto por sangue, chorando de forma agoniante e entra em choque com aquela cena, por alguns segundos. Marcos sabe que não há muito o que se fazer, a casa está em chamas, ele precisa salvar seu sobrinho, mas não poderá fazer o mesmo com sua irmã, precisa deixar o corpo dela ali, pois sozinho não seria capaz de move-lá do lugar. Ele chama por Marcelo, que também está desesperado, porque não consegue encontrar sua mãe em nenhum quarto, tenta acalma-lo, dizendo que pode já ter saído com seu pai. E pode estar o procurando lá fora.

Eles saem rapidamente, a casa está quase toda em chamas. As passagens ficam difíceis, mas eles conseguem sair. A casa era enorme, e as paredes ainda suportavam ficar em pé. Já na parte de fora, ele não consegue mais se controlar e se joga aos prantos de choro. O pior aconteceu, ele não sabe exatamente como reagir, mas Marcelo, Marcos e Breno compartilham do mesmo desespero.