Estava sentindo muito frio. O liquido vermelhos e gelado escorria pela sua perna, exatamente onde o ar fresco saía do sistema de refrigeração do carro. Rone tentou apertar com as mãos exatamente sobre o ferimento na coxa esquerda, tentando aliviar a dor e conter o sangramento. No banco da frente Heraldo, um policial calvo com cerca de cinquenta manobrava o volante e trocava de marchas freneticamente, e os prédios passavam depressa lá fora. Podia sentir o carro ziguezagueando enquanto ele e seu protegido eram jogados de um lado pro outro no banco traseiro. Ele manteve a mão direita sobre o ferimento, enquanto mantinha o braço esquerdo apoiado nas costas do prisioneiro. “Quieto, fique abaixado se quiser viver!”

O sedan comum, já de anos de uso ainda corria rápido pelas avenidas da cidade ainda úmidas da chuva leve que tinha caído algumas horas atrás, a noite mostrava que já estava cedendo, e o céu negro começava a de render a um azul escuro ao leste. “Nenhum veiculo, moto, nada... acho que já passou.” Heraldo disse com uma voz rouca, que o entregava como fumante compulsivo a décadas. O motorista mantinha os olhos na pista e nos espelhos, ainda cheio de adrenalina do ataque sofrido minutos atrás. No bando de trás, Rone aos poucos foi levantando a cabeça e explorando com os olhos cuidadosos ao seu redor. Sua pistola ponto quarenta estava no chão do carro, coberta de sangue, ele se esticou com dificuldade e a colocou em cima do banco. Por alguns minutos eles se acalmaram, o prisioneiro ainda estava vivo no chão, Rone o único ferido sentado no banco traseiro, proibindo a cada trinta segundos o protegido de se levantar. Estou salvando a vida de um monstro que ajudei a prender... Pensou ele enquanto avaliava a situação.

“De onde veio os tiros?” Rone indagou ainda incerto. Olhou os olhos de Heraldo pelo retrovisor que apenas fez sinal de negativo. Os vidros traseiros estavam estilhaçados, o para-brisa mostrava quatro furos e o painel também tinha sido alvejado. “É Senhor Carlos Amador, você tem inimigos de respeito...” Roni ironizou enquanto tentava entender o ataque que tinham sofrido. “Quantas cabeças você eliminou?” Roni perguntava a Carlos, que se mantinha abaixado, com as mãos em volta da cabeça, como se a qualquer momento eles fossem passar por mais um ataque.

“Vi dois ou três atiradores, dos dois lados, eles sabiam que estávamos passando por aquela rua... Alguém abriu a boca.” Heraldo disse enquanto mantinha os olhos fixos na rua e atento nos espelhos e continuou: “Quem não vai gostar nada é a sua mulher quando ver o carro...”. “Que se foda... O carro já estava todo destruído mesmo, ela queria troca-lo a um tempão... Quando acabar com ele eu dou um jeito de bater de frente e o seguro cobre.” Rone verificou a arma, apesar de suja de sangue, parecia bem, e nenhum tiro havia sido disparado. “Você tem razão Heraldo, só nos dois sabíamos qual carro... Só nos dois sabíamos da rota... Nem o comandante sabia como estávamos transportando Carlos...” Mal Rone acabou de falar e Carlos no chão começou uma risada em tom agudo: “Se eu fosse você policial, apontava essa bela arma pro motorista do carro.”

Rone olhou para o espelho, e pela primeira vez durante aquela noite percebeu que Heraldo estava estranho, em sua cabeça rapidamente aquilo fez sentido. “Para o carro devagar Heraldo, agora mesmo!” Rone apontou a arma na direção da cabeça do motorista. “Se você acelerar eu atiro, para o carro, eu vou fugir com o prisioneiro e terminar o transporte sozinho...” Rone deu a ordem, e Heraldo sem tirar os olhos do espelho central do carro parou lentamente numa vaga à direita. “E agora Rone, vai sair por ai a pé com ele?” Rone olhou para os lados, e voltou a mirar bem com a arma na cabeça de Heraldo: “Coloca sua arma no chão, do outro banco, com cuidado.” Heraldo pegou uma pistola 9mm que carregava num coldre do lado direito, e a levantou devagar apenas com o polegar e o indicador. Colocou a arma no chão no banco ao lado e voltou a posicionar as mãos sobre o volante. “E agora Rone, como vai ser? Vai me matar companheiro?” Rone fez sinal com a arma para Heraldo sair do veiculo: “Sai do carro, devagar com as mãos sobre a cabeça.”

Heraldo estava a uns dois metros da porta do motorista, em pé com as mãos atrás da nuca. Rone, em pé do lado de fora, apoiado na porta traseira do lado esquerdo do veiculo. “Joga seu celular dentro do carro Heraldo.” O motorista pegou o celular em um dos bolsos calmamente e jogou pela janela do motorista. “Seu verme! Choveu bala em cima de mim, você se vendeu por quanto seu filho da puta? Por quanto?” Heraldo não esboçava nenhuma emoção: “Não foi por dinheiro... Me ameaçaram, tinham fotos da minha filha na faculdade, da minha ex mulher... E eu não sabia que eles iam atirar no carro andando, me disseram que iam nos parar e pegar o prisioneiro... Só isso Rone, eu juro...”

Rone parou, olhou mais uma vez o prisioneiro que esticava o pescoço no banco traseiro e assistia os dois discutindo. Olhou novamente para Heraldo, parceiro de policia a quase duas décadas. “Sai andando meu... depois que eu terminar de entregar ele, agente vai se entender.” Heraldo seguiu caminhando pela rua, e Rone esperou ele andar até a outra esquina. Olhou em todas as direções, a rua estava quieta, se tivessem que nos abordar de novo já teriam feito. Chegou perto do vidro traseiro e avisou Carlos: “Fica quieto ai, vou fazer uma ligação, e já seguimos, não sai do carro!” Carlos o olhou com seu rosto marcado por olheiras de quem não dormia direito a dias, e as cicatrizes e marcas mostravam que a idade e alguns acidentes da vida não foram gentis com ele. Rone se afastou do veiculo e ligou para o comandante, o telefone chamou varias vezes, até que a voz abafada veio: “Cadê vocês Rone, que merda que aconteceu?!” “Comandante, to com o prisioneiro, mas estamos comprometidos, preciso leva-lo pra outro lugar, tentaram nos interceptar num carro particular, Heraldo tava vazando informação...” No outro lado da linha o comandante se manteve em silencio, mas Rone podia ouvi-lo respirando, como se estivesse pensando no que fazer.

TÁ TÁ TÁ TÁ. Quatro estalos abafados soaram. Rone empunhou a arma e se abaixou. Olhou para os lado, mas não viu nenhum movimento. Esperou alguns segundos e correu para o carro. Encontrou Carlos ensanguentado caído no chão entre os bancos dianteiro e traseiro. Claramente dois tiros no peito, e dois na cabeça deixando furos na testa e em um dos olhos. Ele voltou a olhar ao redor. Nenhuma janela la fora aparentava vida, nenhuma porta aberta, nenhum carro em movimento, apenas uma rua deserta e as luzes de postes. Olhou novamente dentro do carro, tentando entender a trajetória dos tiros. Na mão esquerda, o telefone ainda estava ligado, e a voz do comandante parecia uma voz de brinquedo gritando: “Que que está acontecendo ai? Rone?! Onde que você está?”.

Rone se manteve atento, em pé ao lado da porta traseira esquerda do veiculo, tentando entender, com a arma em punho quando ouviu um barulho abafado: TRON. O porta-malas se abriu. Rone apontou a arma e se manteve imóvel. Aos poucos algo foi surgindo. Um capacete preto, mascara e viseira. Ombreiras, cotoveleiras, joelheiras e uma roupa grossa cobrindo todo o corpo, colete a prova de balas, tudo preto. “Parado!” Rone gritou incrédulo com o que via. O homem calmamente mostrou uma arma também e fez um sinal batendo com o punho esquerdo na roupa: “Tudo a prova de balas, cerâmica!” O homem nem se deu o trabalho de apontar a arma para Rone, retirou algo do porta malas que Rone não definiu, o desdobrou, era um patinete motorizado. Montou e saiu andando com uma das mãos para trás apontando a arma para o policial caso ele tentasse algo.

A voz do comandante continuava: “Rone você ta ai?!” Rone abaixou a arma devagar a colocou o telefone no ouvido: “Comandante, o prisioneiro está morto.” Enquanto o comandante gritava e pedia explicações Rone apenas respondeu: “Assassino profissional”.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.