Aspas e Reticências

1 Capítulo 1 - Não somos legais


Notas iniciais
Bom, demorei dois meses para postar esse primeiro capítulo. Sou perfeccionista e reescrevi esta fanfic umas quatro vezes. Espero que gostem, dependendo do resultado, continuo.
:)
xoxo,brubs.

Era um final de tarde, já se considerava quase noite e eu já não suportava mais estar no mesmo lugar que ele. Porque sempre nos poucos insuportáveis tempos que ele me olhava, conseguia me fazer sentir como uma estátua de cera. Não era como se ele me paralisasse, era como se ele apenas pudesse me admirar e de maneira alguma pudesse falar comigo sem que ele parecesse um idiota falando sozinho. Por que ele não falava comigo logo? Eu juro que não sou uma estátua de cera.

Não sou de me importar com atenção das pessoas, não explicitamente.Mas é que todos possuem seu ápice de paciência, e a única coisa capaz de chegar no meu ápice é me encarar sem motivo como se quisesse algo e não fazer nada a respeito.

Eu na varanda, e ele passava a todo o tempo, em frente ao meu jardim, encarando minha casa. Tentava escrever, como sempre faço, mas não conseguia me focar. Sentia como se olhos me seguissem por toda a parte e sim, isso é sombrio. Cheguei até a achar que ele estava a me rondar por fazer parte de um tráfico de pessoas, e ele no caso seria o que vigia a vítima. Me deixem exagerar, tenho direitos.

Eu entrava pra tomar o meu chá e ele passava, desfilando com a sua petulância. Eu não o conhecia. E parece que isso se tornou rotina para ele. Já não suportava mais, só o fato de vê-lo toda tarde já me irritava. Lembrar a voz dele quando falava alto na rua. Que sofrimento inútil, eu sei. Inevitável.

Então, estrategicamente parou com a bicicleta na minha calçada e sentou no meio fio e observando percebi o que ele queria.
Que era eu ir e começar a falar com ele.

— Oi-

- Hum’- murmurou.- oi-

- Por que… Por que passa aqui todo tempo?- eu disse ajeitando minha mecha de cabelo.

- Deu pra começar a me notar agora?- aquele seu olhar de canto irritante, porém tentador.

- Impossível não notar, já que passa todos os dias encarando minha casa, abra o jogo, o que há? – cruzei os braços na tentativa de parecer um pouco mais bruta. O que na verdade não traz brutalidade alguma.

Me deixem tentar, tenho direitos.

— Pois bem, não é de sua conta o que decido fazer com meu livre arbítrio -

Arqueei as sobrancelhas, e ele com desdém voltou a se sentar como se pusesse um ponto final, e dissesse : É isso, tchau.

Me virei, respirei fundo, e fui para dentro de casa. Minhas esperanças idiotas de que ele pudesse até então ter uma conversa normal com alguém normal. Não que eu seja normal. Ele me faz sentir normal. Pelo ou menos perto dele me sinto normal. Mesmo assim, elas se foram.

Em outro dia mesmo, estava sentada com Celine na calçada ouvindo get Lucky, e ele vinha em nossa direção com sua bicicleta azul Royal “Pop-gay”¹

— Ai meu Deus – Celine disse, prestes a entrar em estado inconsciente.

Ele era tudo o que qualquer garota já sonhou em ter, do tipo que cairia bem em qualquer terno de casamento. Do tipo que eu levaria pra passar uns dias em Veneza. Um príncipe que mede 1,68, de pele bronzeada, olhos cinza–esverdeados, cabelo castanho cacheado com um corte estilo nick jonas em 2010 ², corpo definido como de quem malha faz tempo. Conseguiria facilmente imaginar seu corpo por debaixo daquela regata azul cavada, e aquele jeans azul levemente rasgado. Get Lucky se tornou uma música completamente temática no momento como se ele desfilasse em uma fashion week, me senti em Venice Beach olhando os caras lindos que passam como nos filmes. Seus lábios e seu sorriso eram o par perfeito aumentando cada vez mais a probabilidade de desmaios de meninas virgens. Eu apenas encarava, tentando não babar, ou tirar uma foto pra fazer um pôster que seria colado na minha parede. Ele parecia garoto capa de revista teen, que realmente me motivaria a comprar a revista mesmo que tivesse um tópico sobre “A primeira vez com o seu gatinho/boy magia”.

— Ciao - ele disse me acordando — Lindo dia, não?-

— Até que estava – disse.

- Ok, sou culpado. Me perdoe por ter sido rude aquele dia, maus momentos – ele tinha um sotaque diferente.

- Furou o pneu da bicicleta e não pôde mais me rondar “disfarçadamente”? – disse e ele sorriu.

— Não sou um stalker, se é isso o que acha que sou –

- Problemas com o chefe do tráfico ou algo assim? – Celine disse assentindo como se dissesse, “cara, te entendo”.Juro que às vezes suspeito que ela seja a dona da boca de fumo.

— Celine! – disse entre os dentes.

- Você que disse que ele provavelmente seria...

- Era uma teoria!- sussurrei interrompendo.



— Você acha que eu sou um traficante? – ele disse.

— É..hm..acho que.. –

- De pessoas. – Celine assentiu e juro eu poderia matá-la ali naquele exato momento.


— Ah – ele virou os olhos pra mim – É mesmo?

— Celine, sabe a hora de calar a boca? Essa é a sua hora! – ela concordou e ficou quieta.


— Enfim, vim me desculpar, por te... rondar-

- Por que fazia isso? –

- Minha mãe disse que devia vir falar contigo porque eu devo me enturmar e segundo ela “A Bruna é uma garota legal”, “ Ela vai te acolher super bem, tenho certeza”, “ ah ela é um amor!” –

- Ah, então, você é o filho da An -

— Pois é minha mãe estava totalmente errada –.

- Como é? Tá dizendo que eu não sou legal?–

- Ah claro, super legal uma garota que supostamente seria “um amor” achar que eu fizesse parte do tráfico, per favore! –

- De pessoas!- Celine complementou, não, ela não cala a boca.

— De pessoas!- ele repetiu e riu. – Não sei se você sabe, mas isso não te torna uma pessoa legal.


— Nossa como você me ofendeu – sorri – Escuta, você não me conhece, então não venha tirar pré-conceitos -

— O mesmo pra você. –


— Touché – ergui as mãos – Mas fique sabendo, você não me conhece.

- E isso é ótimo, estou evitando catástrofes –.


— Na verdade está perdendo muito-

— Não parece- ele pôs a mão no bolso. Seus músculos se realçaram. Me irrita perceber cada detalhe.

— As coisas nem sempre são o que aparentam ser-

— Shakespeare?-

— Idiota?- revirei meus olhos.

— Se acha tão inteligente, mas não entende uma ironia! Dio mio! –

- Dá pra parar de falar em italiano? Obrigada –

Do latim, “Dá pra parar com esse sotaque extremamente lindo? Obrigada”

— Vim falar com você porque minha mãe, ingênua, crê que você seja uma menina culta, inteligente, ou algo do gênero. E sinceramente me arrependo de ter sequer pensado que você por ter me encarado tanto nesses últimos dias quisesse.. -

— Que eu quisesse algo de você? Não, não tenho nada a ver com o que você faz com seu livre arbítrio — eu o interrompi e encarei com um sorriso efêmero.

Ele soltou uma gargalhada expondo seus dentes dignos de protagonizar comerciais da Colgate, porque obviamente se lembrou de quando disse isso pra mim. Touché.

- Para de ser besta – Celine me empurrou – Querido, seus dentes são lindos! – bufei. Ela praticamente babava por ele.

— Ora, Grazie mille – ele pegou a mão de Celine e delicadamente depositou um beijo sem tirar os olhos dos olhos dela. Óbvio que ela se afogou em risadinhas.

— Argh – reclamei.

— Me desculpe qualquer incomodo, jurei que você seria culta o bastante pra ter uma conversa normal — ele fez a cara de que pensava ter superioridade por qualquer coisa que eu dissesse. Acho que não deu muito certo pelo fato dele dizer isso subindo na sua bicicleta anos 70, bem pop-gay.

— A recíproca é verdadeira — Eu o interrompi na sua fala — E não é Shakespeare.

Ele sorriu e se virou indo embora.

Minha amiga me bateu, porque disse ela que eu fui seca demais. Eu até poderia acreditar que fui, mas não sou culta o bastante para perceber isso.

O que ele achou que poderia fazer? Me hipnotizar com aqueles olhos cinza-esverdeados ? Ou me fazer de irritada pelo nervoso que me dava de ver aqueles cabelos castanhos bagunçados? Se for isso que ele queria, conseguiu. Sei que sou rude na questão orgulho. Mas tenho também consciência de enfrentar a verdade. E a verdade é essa. Eu fiquei pensando, no que ele estava fazendo, no que eu faria depois, se ele falaria comigo. Se ele viria me perturbar novamente, se iríamos discutir. Pensei nele, em seu sorriso. Pensei se ele era do tipo que gostava de sorvete de flocos, eu sou desse tipo. Comecei a pensar, se ele podia ter algo a ver comigo, e como seria legal se tivesse. Pensei também que eu estava sendo uma idiota me deixando levar por tais pensamentos, porque na verdade eu não estou nem aí pra ele.
Eu acho.

Notas finais
Vocabulário:
¹ Pop gay : Celine costuma utilizar essa expressão para coisas homossexualmente gritantes.
² Com um corte estilo nick jonas em 2010 : Desculpa, só consegui explicar desse jeito haha
-
Se vocês quiserem saber quem é ele, e por que ele fala italiano o tempo todo, se quiserem saber a história, eu continuo.
Espero que tenham gostado :*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.