Asiática vermelha

1 ASIÁTICA VERMELHA


“Minha nossa mãezinha! Essa mulher é um avião!”, dizia o bêbado aos passageiros sóbrios do ônibus. “Eu poderia me casar com ela se não fosse por esses olhinhos fechadinhos que ela tem”, a asiática séria, de pé a se segurar nas barras, o olhava para o bêbado com o canto dos olhos durante alguns segundos, depois voltava a fitar a janela a sua frente. “E eu nem me importaria se ela fosse uma sádica que gosta de pôr coleira de cachorro nos seus homens e de queimar o pinto deles com cera quente, porque ela é mesmo um mulherão e eu me daria por satisfeito se, ao menos, pudesse ver aquele corpinho magro metido em um espartilho e meias arrastão. Mas o problema mesmo são aqueles dois olhos nipônicos abaixo de sua testa. Não é que eu seja algum tipo imundo de preconceituoso, mas é que quando eu vejo uma mulher com aqueles olhos eu tenho pesadelos... Ééé! Eu tenho pesadelos a noite toda e, isso é uma coisa que eu nunca vou conseguir entender. Acho que é porque quando eu era criança e os meus pais me forçavam a dormir cedo, eu fazia exatamente o contrário. Eu ficava deitado no escuro com os olhos abertos e esperava até que a luz do corredor fosse apagada. Porque quando a luz do corredor se apagava era porque os meus pais tinham ido dormir. Aí eu esperava por mais uns dez minutos pra ter certeza de que eles tinham pegado no sono. Aí então eu ia até a sala e ligava a televisão pra assistir aos filmes que passavam de madrugada. E num desses filmes tinha uma chinesa, ou talvez fosse uma japonesa, eu nunca vou saber a diferença, mas ela usava um blazer vermelho com ombreiras largas e a sua saia era tão curta que eu tinha certeza que uma hora eu acabaria vendo o ‘moranguinho’ dela...”

“Hei, amigo! Tem crianças no ônibus e elas não precisam ouvir esse tipo de histórias”, reclamou um dos passageiros.

“Tudo bem, colega, você não quer que eu conte a história da japonesa moranguda?”, provocou o bêbado. “Então eu não falo mais do morango de garota nenhuma. Nem mesmo do belo e doce moranginho que aquela asiática ali deve ter embaixo da...”

“Agora basta!”, esbravejou o passageiro impaciente. “Motorista! Pare o ônibus porque este bêbado vai descer!” e segurou o bêbado pela gola e começou a arrastá-lo pelo ônibus até chegar à porta.

“Hei! Espera aí, rapaz!” protestou o bêbado. “Eu paguei a minha passagem como todo mundo! Eu tenho direito de descer apenas quando chegar à minha parada.”

“Porque não vai pra casa a pé? Quem sabe você não fica sóbrio se suar um pouquinho?”

O ônibus parou e a porta de trás se abriu e o homem irritado lançou o bêbado desbocado para fora do coletivo.

O bêbado caiu de joelhos na calçada. Ergueu o punho fechado na direção do ônibus e gritou, amaldiçoando o motorista, o cobrador, o homem que o jogou pra fora e todos os passageiros que estavam no ônibus, inclusive as crianças inocentes.

Sentado miseravelmente no chão e recostado em um poste de luz, o bêbado olhou em volta e não viu uma viva alma. Era uma noite sem estrelas e tão fria quanto o aço de uma katana. Do asfalto, subiam vapores medonhos e, quebrando o funesto silêncio, de chofre, ouviu-se o som de saltos agulha batendo no chão e tornando-se mais e mais intensos. E, no meio do vapor, um vulto surgiu. Uma silhueta humanoide de cintura fina e ombros largos fizeram os ossos do Bêbado estremecerem.

Então um vento bateu e soprou o vapor que cobria a imagem do vulto. E o bêbado viu claramente a imagem de uma mulher estonteante, trajada como aquela do filme mencionado pelo próprio bêbado. Traje social vermelho, com largas ombreiras, uma saia curta e muito justa, meias-calças floridas, luvas de couro e, pendurado a tiracolo, aquilo que tanto amedrontava o bêbado: um fuzil SIG Sauer 550 com lançador de granadas.

A asiática vermelha olhou para o bêbado e disse:

“O que faz aqui, bêbado idiota? Você devia estar em ônibus pra casa, né?”

“Hei! Espera aí, dona asiática! Tá certo que a senhora é toda formosinha e cheirosa, mas não tem o direito de me chamar de idiota. Eu estava indo pra casa quando fui atirado do ônibus. E pra falar a verdade, eu não faço nem ideia de onde eu estou agora. Será que a senhora não está motorizada? A senhora podia me dar uma carona até em casa! Se você quiser, pode até passar a noite lá comigo. A cama é de solteiro, mas quanto mais apertadinho, melhor. O que você acha?

“Calado, bêbado idiota! Ele está vindo para cá, né?. Você deve se esconder. Ande logo!”

“Ué? Do que é que a senhora tá falando? Quem tá vindo...”

Um repentino tremor de terra fez o bêbado se calar. A terra balançava apenas uma vez a cada dois segundos, como se o chão estivesse sendo açoitado por uma bola de aço de demolição. Em segundos o bêbado e a asiática sedutora, viram surgir na esquina um demônio azul de cinco caldas e boca semelhante à de um crocodilo.

As pernas do bêbado fraquejaram e ele caiu sentado no chão, sem força para agir. Pondo-se a frente do bêbado, a fim de protege-lo, a dama nipônica empunhou a SIG Sauer e puxou o gatilho. O bêbado, que antes tinha a clara visão do inferno diante de si, agora admirava a beleza glútea da asiática heroica.

As balas cravavam-se na carne do demônio, mas era como se ele não as sentisse. Permanecia inerte e sorrindo malignamente.

Frustrada com a falta de êxito de sua investida, a asiática gritou uma série ofensas em japonês que poderiam ser traduzidas como:

“Porque não morre, demônio maldito? Está caçoando do meu ataque? Eu vou mostrar a você quem aqui é o melhor! Engula isso demônio nojento!”

Ela fez mira na boca aberta da criatura e se preparou para lançar a granada, mas o bêbado, como não tinha juízo, agarrou-lhe o traseiro e a fez errar o alvo. A granada voou por cima do bicho e foi bater na coluna de um prédio.

“bêbado idiota! Bebado idiota!” ela repetia enquanto agredia o homem ébrio com a coronha do fuzil.

Neste momento, o demônio achou que já era hora de atacar. Lançou-se contra a asiática e desferiu um golpe com suas longas garras. Ataque que a dama nipônica conseguiu evitar que fosse letal. Esquivou-se como um gato e as garras do demônio apenas rasgaram sua blusa na altura do busto, fazendo que um dos seus seios pulasse para fora da roupa.

Grande como uma manga rosa e com um biquinho cor de goiaba, aquele seio parecia uma salada de frutas. Sua dona trocou o pente de balas e voltou a atirar, mas o demônio não estava mais inerte como antes.

Como as balas não atingissem a besta em movimento, a asiática lançou-se contra o demônio. Num salto digno de uma ginasta olímpica, atingiu dois chutes fulminantes na besta: um atingiu o peito, o outro atingiu o queixo. Com a força sobre-humana do segundo chute, o demônio foi lançado contra a coluna que antes fora danificada pela granada.

Com mais alguns tiros, a coluna se partiu e uma chuva de escombros despencou sobre o monstro.

O bêbado ficou assombrado ao ver que o corpo do monstro, encoberto de pedras, passou a emitir uma luz intensa, como uma espécie de LED gigante. A misteriosa dama oriental ficou séria a olhar a besta cuja matéria se desfazia em raios de luz até que o menor resquício de sua existência desaparecesse para sempre.

“Caramba!” desembuchou o bêbado. “Minha filha! O que foi isso?”

A asiática vermelha dependurou a SIG Sauer no ombro e voltou para as sombras de onde viera. E o bêbado continuou a falar sozinho.

“Espera, minha querida! Aonde vai? Eu pensei que eu ia ganhar uma carona! Escuta! Pelo menos me deixa na Praça da Bíblia! De lá, eu me viro sozinho! Então tá! Pode deixar! Eu durmo aqui mesmo! Não vai ser a primeira vez que eu durmo na calçada!”

“Que garota metida!”

FIM

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