Ashley N.Y
1 Uma Garota Nada Tradicional
Notas iniciais
Eu digo que Nova York é a cidade retrô que conquista visitantes leais a ela desde sempre, quem vem aqui dificilmente quer voltar para de onde veio. Bem aventurados aqueles que vêm para ficar. Aqui seus sonhos criam dimensões maiores, nunca como antes. A cidade está cada vez mais iluminada e apreciada, com cada vez mais arte e cultura, mais empregos e moradias, e claro, mais gente. Nova Iorque é a terceira cidade mais populosa do mundo, Composta por cinco províncias: Bronx, Brooklyn, Manhattan, Queens e Staten Island.
Mesmo com essa imensidão de pessoas minha vida sempre aconteceu em um lugar. Saint Barbara School é uma escola centenária onde estuda os alunos mais ricos na ilha de Manhattan, os corredores da tal era todo meu mundinho até que acabou porque minhas notas foram ruins o suficiente para estar fora de lá em uma estalar de dedos. Meus pais não queriam de jeito nenhum pagar escola particular para mim de novo. — O que seria de mim em uma escola pública? — Eu estive tão assustada e levantando várias hipóstases do que poderia acontecer comigo, até que parei. Simplesmente não pensava mais nisso, não pensava mais no que tinha acontecido e nem no que poderia acontecer. As vezes precisamos parar de tentar adivinhar o futuro porque quando eu tentei, só fiz com que minhas idealizações mudassem ainda mais e acabei onde estou: No fundo do poço.
A esperança tem cheiro de arroz queimado
_Como aconteceu? — Perguntou Olivia enquanto passava um batom meu.
_Foi estranho, foi uma sensação que jamais achei que iria passar. Minha mãe abriu a porta do quarto e disse "Você repetiu de ano, está tudo acabado".
Olivia tinha um jeito que só conseguia imaginar ela agindo, dura e rígida com um toque de compaixão que nos faz querer dizer pra ela que está tudo bem, mesmo que não estivesse. Ela fez a pergunta que mais tinha medo.
_E o que vai ser de você agora?
Terminei de dobrar o último vestido e pus no guarda-roupa e sentei na cama, como se não faltassem ainda as saias para dobrar. — Sinceramente, não sei. Eu acho que ir para uma escola publica onde todos irão me odiar. Não sei se você já se sentiu assim, mas é como se eu tivesse acordado só agora e percebido que estou no fundo do poço! Eu fui fazendo as coisas e nem percebi onde estava me metendo. Eu deveria ter me esforçado mais, mas eu estava tão mal com tudo. Eu simplesmente tinha desistido e agora tudo isso aconteceu. — Eu não conseguia chorar, mas minha voz estava tremula de vergonha. — O que vai ser de mim Olivia?
_Vamos descobrir... — Interrompeu minha mãe — Ashley! Vem almoçar — Ela nunca sobe as escadas para me chamar, ela sempre precisa gritar.
_Posso levar esse batom? Adorei. — Pediu Olivia. — Pode claro, você precisa ver os com efeitos matte.
Assim que descíamos as escadas Olivia refletiu e me perguntou.
_Sabe por que você acordou só agora?
_Por que? — instantaneamente perguntei.
_Porque não existe mais nenhum Adny D em sua vida.
Comecei a me servir, eu sempre pego primeiro o arroz. — Mãe? Cadê o arroz integral? — ela logo responde — Está ali no fogão, não pus na mesa porque acabou queimando. Vais mesmo querer comer esse arroz? Você não precisa emagrecer! Você vai ficar anoréxica.
_As vezes você exagera de mais mãe.
Sentei na mesa, realmente estava muito queimado o arroz. Minha irmã jogou no ar uma noticia.
_Vocês ouviram falar nessa escola nova que abriu? Eu preciso falar disso, é uma escola particular e que você pode fazer a matéria que você não conseguiu alcançar a nota. — Espera ai? Essa é a melhor noticias de todas! É como se eu visse uma luz no fim do túnel.
_Mas ela repetiu, e não vamos pagar uma escola particular pra alguém que não se dedica — Minha irmã interrompe — Mas ai é que se encontra a parte boa dessa notícia! Eles oferecem uma bolsa pra quem faz estágio lá! — Eu deveria fica feliz ou triste? Eu nunca trabalhei na minha vida. Eu nem sei o que é isso.
_Bom, acho que vale a pena. Vamos dar uma olhada — Minha mãe encerra o assunto, para evitar que eu precipite a minha felicidade. Alias, eu estava de castigo.
Metrossexuais é a nova Nova York
_Alô, quem fala? – perguntei com voz de sono para uma ligação não identificada pelo meu celular. Podia ser qualquer pessoa.
_Bom dia! Nos conhecemos no salão de beleza Britney hair’s. É o Taylor, aquele cara que você ficou papeando enquanto esperava para cortar as pontas duplas do cabelo.
_Como você tem meu número? – perguntei sem entender nada do que estava acontecendo, era a ligação mais aleatória que recebi em minha vida.
_Você mesmo passou seu número, você disse que estava pensando em fazer umas mudanças na coloração do cabelo. – responde ele.
_Verdade, mas ainda não criei coragem pra isso. Aliás eu pedi para você me ligar? Desculpa-me ser insensível, é que eu tenho amnesia.
_Na verdade não é nada disso, eu estou ligando para convidar você para almoçar comigo nesse sábado. Você topa?
Não entendia o porquê desse convite, talvez todos os gays precisam de uma amiga e ele estava querendo conhecer uma garota como eu.
_Ta bom, vai ter salada?
No sábado revirei todo meu armário, foi como se todas possibilidades de roupas que meu guarda-roupa poderia proporcionar desaparecesse. Eu não sei o que vestir para um almoço na casa de um amigo gay que mal conheço. Ele é bonito de mais e se veste como um galã do ultimo filme daquele diretor novo.. esqueci o nome. Qualquer filme comercial onde os dois do casal são lindos e bem vestidos e um deles morrem de câncer.
Qualquer coisa que eu colocava me fazia sentir algo diferente, o macacão que comprei na semana passada fez parecer que eu vestia um saco de batata. O vestido vermelho e azul faz parecer que eu vim diretamente dos anos oitenta por uma maquina do tempo. Quem eu pensava que era quando comprei isso? A Madonna?
Optei por um vestido preto básico que esconde e aperta todas minhas gordurinhas do abdome, acreditei ser uma boa escolha. Era simples, porem eu tinha os sapatos, que peguei no armário e vi um desastre. A sola estava caindo do sapato, me fez acreditar que não tenho tantas opções e que sempre uso as mesmas roupas. Por isso nada dura!
O carro dele buzinava na frente da minha casa, eu estava botando um batom rosa quando minha mãe bate na porta do quarto.
_Já sei mãe! Eu já estou indo. E desde quando você vem até meu quarto?
Quando eu namorava Adny D eu passava noites fora do meu quarto andando por ai e ela nunca percebeu se quer.
Sentei no carro, ele estava como imaginei. Elegante, vestindo uma calça que marcava mais que suas pernas. A moda slean pegou mesmo nos homens. Pelo menos os homossexuais.
_Boa tarde Ashley, preparada pra se empanturrar-se de lagostas e champinhons?
Só podia estar brincando. Era isso mesmo que eu iria comer? Eu estaria satisfeita se fosse um hambúrguer gigante cheio de barbecue. Questionei ele:
_Bom, e onde vamos?
_Para minha casa, é aniversario da minha mãe. Ou você acha que lá em casa é servido lagosta todo champinhons? – Fiquei chocada. Eu iria conhecer toda a família dele, da pra ser mais aleatório que Taylor?
_Não sabia que iriamos para sua casa.. – Ele interrompe — Eu devo ter esquecido de mencionar. Sei que é estranho para um primeiro encontro, nada comum. Mas você não parece ser uma garota comum. Nenhuma garota conversou comigo sobre os filmes underground de Andy Warhol.
Eu não tinha me dado conta! Era um encontro! Eu estava saindo com um Gay!
_Desculpa Taylor, eu entendi tudo errado. Por que um gay me convidaria para um encontro? – Perguntei sem entender. O semblante dele era de incompreensivo. Ele falou o que me chocou.
_Eu não sou gay! – não sabia o que fazer. Abrir a porta e pular dramaticamente na quinta avenida lotada de carros não seria a melhor opção. Mas era o que eu queria fazer. – Por que você achou que sou gay?
_A análise que eu tinha vindo feito resultou nisso. Primeiro, você é bonito de mais. Segundo, você se veste bem de mais e usa calça slean. Terceiro, você estava em um salão de beleza feminino. Provavelmente você é cabeleireiro.
_Bom, Britney Murfin é minha mãe. A dona do salão, eu cuido da parte financeira. E você acha que héteros não podem ser bonitos e ter algum senso de moda? Com que tipo de homens você vem saindo?
Bang! Explodiu minha mente! Ela foi aberta para um novo tipo de homem que se desenvolveu no século XXI chamados Metrossexuais.
Metrossexuais são homens héteros que descobriram que não vão virar gay se ver a ultima coleção masculina da Versace. Eles usam cuecas da Calvin Clain e terno da Dior. Começaram aparecer nos campos de futebol e agora estão em todos os lugares. Algumas mulheres ainda não aceitam o fato de que homens podem cuidar das sobrancelhas, barba, cabelo, cílios, pelos do bracos, da perna, do peito e de outros lugares que o sol não bate também. (até parece mesmo que esses caras não são dos tipos que nadam nu no verão em Los Angeles em alguma praia de nudismo)
Os cabelos geralmente são cheio de pomadas modeladoras. São como gays que gostam de mulheres. Ai está uma novidade que as vezes não é muito bem aceita para atrasados mentais e mentes fechadas.
_Certo, então vamos fazer isso certo? – Fazia tempo que não tinha um encontro de verdade. Se ele não era gay, por que não?
Assim que botei o pé no chão de pedras onde ele estacionou o carro, eu pude fixar meu olhar para grande casa que estava na minha frente. Branca com janelas enormes, fomos entrando pela garagem e eu já podia ouvir o barulho das pessoas conversando que vinha lá da sala de jantar.
_Ainda bem que você chegou, você trouxe sua amiga Elizabeth! — Disse desesperadamente a Britney Murfin. Com seus cabelos esvoaçantes e loiros, cachos perfeitos e sua raiz tão bem tonalizada que quase acreditei que ela era uma legitima albina.
_Mãe, o nome dela não é Elizabeth. É Ashley. — Rebateu Taylor como quem já esperava essa confusão da própria mãe. Eu me sentei, estava totalmente tímida e quieta — deve ser por isso que não levamos o primeiro encontro para sala de jantar da sua casa — Taylor trocou algumas piadas marotas ridículas que me fizeram querer sair dali correndo, mas eu sou paciente.
Depois de cinco minutos ele finalmente me deu atenção, me ofereceu comida e disse que iria me servir — okay, isso foi fofo — Eu estava intrigada com uma coisa, quem era Elizabeth?
_Bom, por acaso a Elizabeth era sua primeira opção? — perguntei para ele com um sorriso maroto.
_Não! Minha mãe é louca, eu não conheço nenhuma Elizabeth.
_Você chama sua mãe de louca? Isso é hostil.
_Bom, tente trabalhar com sua mãe e você verá que começará a se irritar com um simples "bom dia" pela manhã.
Taylor demonstrava um interesse por tudo o que eu falava, conseguimos manter uma conversa sobre vários assuntos durante três horas. Aos poucos as pessoas da mesa iam saindo e quando observei estávamos sozinhos lá. Britney tinha ido em alguma convenção de motos antigas com o namorado — Taylor me contou que já era o terceiro em um ano — Fomos até a sala de estar onde tinha um pequeno bar, ele me ofereceu um drink e eu aceitei.
_Bom, eu nunca bebi antes... Estou um pouco assustada.
_Ei, você não precisa fazer algo que não queira. Não vamos beber muito, não tem com o que se preocupar.
_ Eu sei disso, mas é que não me sinto bem mentalmente para beber agora. Eu passei muito tempo condenando alguém que fazia isso e simplesmente começar a beber não é a melhor opção agora. — Ele devia estar pensando que eu era louca! Não há nada de errado em tomar algumas taças de de vinho sua tola. — meu ex namorado sempre bebia e eu achava que as traições eram por conta da bebida. — expliquei para ele.
_Bom, ele não te traiu porque bebeu. Ele te traiu porque é um babaca. Estou convidando você para beber um copo de vodca com alguma coisa e não fumar alguma erva. — Eu sabia que estava exagerando, por isso acabei bebendo. Nos três primeiros copos eu jurava que não estava fazendo efeito nenhum, mas a hora que saí daquele banco gigante com estampa verde escuro que pude perceber que estava tonta. Nunca gostei de carrossel quando era criança porque ficava tonta, então porque ficar tonta bebendo parecia ser tão atrativo?
Ele me levou embora, estacionou o carro duas casas antes da minha — Eu já tinha entendido tudo — Ele queria um beijo. Estava na hora que eu temia, eu não sei se queria beija-lo.
_Bom, muito obrigado por hoje. Fazia muito tempo que eu não me divertia tanto. Não sei como uma garota como você está sem nenhum namorado — Ele falou isso porque mal sabe que não consigo respirar dentro desse vestido e a maquiagem que está no meu rosto foi tão cara quanto uma cirurgia plástica.
_Eu que agradeço! Obrigado pelo almoço e por me embebedar. Foi incrível.
_"Incrível"... Bom, acho que está faltando algo para ser perfeito.
Estava?
Ele colocou a mão no meu rosto suavemente e mirou um beijo, eu deveria ter fechado os olhos e estar no mesmo clima que ele e tudo o que podia pensar era "nossa, a sobrancelha dele é perfeita". Mas ele nem viu que eu estava reparando no rosto dele com aquele bico de beijo, ele encostou os lábios dele no meu e respirei fundo. Aconteceu, eu beijei o terceiro menino da minha vida!
_O que vocês acham de Metrossexuais? — Perguntei para Olivia e Kimberly no domingo.
_O que é isso? É alguma nova opção sexual? — Pergunta Olivia.
_Não sua tolinha, Metrossexuais são homens que cuidam da aparência, eles se depilam, vestem grifes e as vezes até se maquiam! — Explica Kimberly para Olivia — Eu acho "mara"! Eu apoio meninos lisinhos.
_Bom, então você está falando de gays? — Pergunta de novo Olivia, só que agora com um toque de sarcasmo.
_Não! Quase todo gay é metrossexual, mas nem todo metrossexual é gay. — Expliquei.
_Por que a pergunta querida?
_Bom, eu sai com aquele garoto da Britney's Hair... — Kimberly interrompe! — Sério? E você não fala nada? Quando ia contar?
_Calma, eu estou contando agora!
_Ele não é gay? — Olivia pergunta pela terceira vez
_Eu também achei que fosse, mas não é. Nós almoçamos na casa dele, era aniversario da mãe dele.
_Que péssima escolha de primeiro encontro! – disse Olivia – Eu não teria coragem de ir.
_Bom eu também acho que não seja a melhor escolha para o primeiro encontro, mas é isso que quero falar. Porque tem que ser do jeito que é com todo mundo? A mesma coisa os homens, porque tem que ser todos peludos e fingirem que não entende nada de moda?
_Bom, isso se chama senso comum. – Disse Kimberly, a rainha do obvio.
_Bom, não deveria ser assim.
_Você disse que Adny D sempre se depilava – Interrompi – Por favor, podemos não falar mais dele? Eu estou tão cansada de o assunto sempre acabar nele, podemos fingir que nunca tive um namorado. Que tal?
_Bom, desculpa mas não da. Você rodou de ano por conta desse cafajeste e a única coisa que ele disse foi o que mesmo? – Me perguntou Kimberly.
_”Engole o choro, não adiantará para nada”- Respondi enquanto revirava os olhos.
_Querida não queremos deixa-la mal. Só queremos que você aprenda com seus erros. – Disse Olivia.
_ Você esta dizendo então que não deva sair com o Taylor porque ele se depila? – Perguntei.
_Não é isso, estou querendo saber se você esta preparada pra ter um relacionamento.
Era uma boa pergunta. Olivia e Kimberly me deixaram confusa, eu acabava de sair de um relacionamento estressante, sera mesmo que é hora de me encontrar com alguém?
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