Ashita Hareru Kana
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Nageku you na furi
Nokora no wa koukai dake
(Você pode lamentar
Mas tudo que lhe restará é arrependimento)
Oh, baby. Smile baby
Sono inochi wa towa janai
(Oh, querida. Sorria querida
Essa vida não é para sempre)
Syaoran olhou para Eriol, querendo que ele explicasse, mas ele parecia não saber o que dizer. Tinha absoluta certeza de que não estava louco e Tomoyo não estava ali há... o quê? 10 segundos atrás?
- Eu não percebi você... chegar. – Ele tinha baixado os olhos por alguns segundos, tempo suficiente para perceber algo impossível de se ignorar no dedo anelar da mão direita de Tomoyo que segurava uma taça de champanhe. Sakura usava uma coisa parecida desde que ficara noiva. – Isso... Você... – Ela lançou um olhar ao anel em seu dedo e depois olhou para Eriol com a testa franzida – Vocês? – Syaoran estava chocado demais para formar sentenças completas. Como se adivinhasse o que ele estava pensando, Eriol assentiu discretamente uma vez e ele compreendeu o que estava acontecendo, mesmo que não conseguisse disfarçar bem o choque.
Por coincidência ou não, agora a foto era do dia em que Sakura e Oshima tinham ficado noivos. Os dois estavam sozinhos num restaurante, mas ele nem sabia mais o que pensar sobre nada.
- Li-kun está tudo bem? – Tomoyo perguntou-lhe, parecendo realmente preocupada.
- Aham. – Foi tudo que ele disse, sem encará-la, sabendo que ela não acreditaria, mas a chegada de Meiling a impediu de fazer mais perguntas. Ela se aproximou deles, segurando um prato de camarões fritos e parecia reclamar que o molho tinha acabado. Syaoran percebeu que a situação devia ser bem diferente de antes. Tendo contado a Eriol tudo no passado, ele nem sabia por que estavam todos ali agora e isso o assustou.
- Foi por isso que eu não disse nada. – Eriol lhe sussurrou ao ouvido, aproveitando que as outras duas estavam distraídas – Quero dizer, ao seu eu do passado. Eu desconfiava que não ia lembrar...
- O que é isso? Aquela não seria a última? – O comentário de Meiling chamou a atenção de Syaoran. Ela se referia a foto. O noivado dos dois tinha sido substituído por um evento de algumas semanas atrás. Era a premiação dos vencedores de um projeto de arquitetura. Oshima era um dos premiados e exibia um largo sorriso ao lado da noiva e dos amigos.
- Deveria ser – Tomoyo explicava – Mas Eriol insistiu para pôr essa também.
Syaoran trocou um olhar surpreso com Eriol, que apenas sussurrou em resposta:
- Pensei que podia querer mais uma chance.
Ele não sabia o que responder, mas não precisou. Em um segundo, as luzes estavam se apagando e Yuuko estava de volta mais uma vez.
- Hmmm, até que é bem esperto esse seu amigo. – Ela observava Eriol novamente. – Nós nem deveríamos estar nos encontrando de novo. – Completou, encarando Syaoran.
- Olha aqui, como é que eu posso não me lembrar de nada? – Ele nem parecia ter escutado o que ela estava dizendo, tudo que estava querendo dizer tinha finalmente explodido – Eles... eles estão noivos!!?
Ela se sentou numa das cadeiras do bar com um suspiro, como se previsse que aquela seria uma longa conversa.
– Você não lembra de quando lhe falei que se conseguisse o que queria ficaria sabendo qual seria o preço? Ou seja, se conseguisse mudar o presente, fiaria sabendo que suas memórias seriam este preço. Claro que eu não poderia adivinhar que o que você conseguiria era fazer seus amigos ficarem noivos...
- Por acaso seria nisso que ele estava pensando com aquele papo de como estava no futuro? – Syaoran pensava em voz alta.
- É, pelo visto não era só você escondendo o jogo, né?
- Que droga! – Ele não estava com raiva de Eriol e sim de si mesmo. – Se eu soubesse disso teria preferido pedir a alguém que fosse ao passado me avisar sobre o futuro.
- Fora de cogitação. – Yuuko disse, observando as próprias unhas – Sabe, você nunca se perguntou o porquê de eu ter lhe oferecido essa chance? — Syaoran permaneceu em silêncio e ela continuou: — Porque é o meu trabalho. É raro, mas às vezes acontece de alguém se arrepender tão amargamente por alguma coisa que esse arrependimento acaba se tornando o preço por uma intervenção. O que fiz foi lhe dar a chance de voltar ao passado porque no fundo era esse seu desejo. Você foi a pessoa mais arrependida que eu já conheci... – Ela se levantou e foi na direção da mesa dos noivos – Mas acabou sendo uma decepção... – Disse, sacudindo a cabeça.
- Se tivesse conseguido alguma coisa nem poderia lembrar mesmo. – Syaoran se apoiou com os cotovelos no balcão encolhendo os ombros.
- Ei, por que você está fazendo um melodrama sobre isso? Pensei que estivesse realmente disposto a mudar esse presente a qualquer custo.
- Sim! Mas... – Ele ainda não tinha se recuperado do choque.
- Qualquer um deduz isso sozinho! Nunca assistiu filmes de ficção em que pessoas voltam ao passado? Não ter lembranças do que mudou é um preço básico!
É claro que se pudesse escolher preferia ser ele sentado agora a lado de Sakura, mas pensando seriamente no preço era um pouco assustador.
- Talvez agora eu só deseje que ela não estivesse casando hoje...
- Para um novo desejo, terá que pagar de novo.
Syaoran lhe lançou um terrível olhar de raiva e frustração.
- Bem, então o que você pretende agora? – Ela voltou para lado dele e, também se apoiando no balcão continuou: — Na sua última volta ao passado tive a impressão de que estava tentando algo, mas não entendi o que era...
- Eu descobri que não posso esquecê-la, mas talvez dizer o que sinto só faça ela se sentir mal... – Ele a observava – Ela disse que estava feliz...
- Bem, ela está sorrindo... Eu posso te dizer o que ela está sentindo e pensando.
– Por um outro preço? – Dessa vez, ele não se iludiu nem por um segundo.
- Claro! – Ela respondeu com um grande sorriso.
- Ah, me poupe! – Ele se afastou e ficou bem de frente para a nova foto, com as mãos nos bolsos. Depois de um tempo pensando, acrescentou: — Eu gostaria de voltar a esse dia... Só para estar com ela uma última vez antes de hoje.
- Bem, a escolha é sua. – Yuuko foi até um garçom, ‘congelado’ enquanto terminava de servir mais champanhe a uma mulher sentada – É sua última chance – Ela pegou a taça.
- Você acha isso engraçado?
- Isso é muito engraçado! – E levantando a taça em sua direção, disse com um grande sorriso: — Boa sorte!
A conhecida luz banca veio, mas ele nem percebeu onde estava agora, pois a primeira coisa que viu foi a figura de Sakura num vestido de noiva vindo em sua direção e sentiu seu coração dar um salto.
- Eu já me decidi. – Ela disse, séria.
"O quê? Ela está falando o que acho que está?"
- Definitivamente não vou mudar de idéia. – Parecia determinada.
"I-isso é um milagre??". Tudo que ele conseguia era encará-la com os olhos arregalados.
- Tomoyo-chan! — Ela disse, parecendo de repente um pouco histérica.
"Eeeh??"
- O que você acha? – Só então Syaoran percebeu Tomoyo ali ao lado analisando-a de alto a abaixo com uma mão no queixo.
- Ai, ainda está me parecendo muito simples... – Ela disse.
Syaoran olhou para trás e encontrou um grande espelho, de onde podia ver agora Sakura ficando de costas para analisar a parte de trás da saia do vestido, comentando:
- Eu achei este tão bonito...
Ele bufou, se sentando numa cadeira acolchoada que viu ali perto. Agora reconhecia o lugar em Tóquio aonde tinham ido semanas atrás para providenciar roupas para o casamento. Estavam numa sala de decoração antiga em estilo ocidental cujas cortinas banhavam o ambiente com uma luz azul. Sakura tentava escolher o vestido com que ia casar numa espécie de discussão com Tomoyo e depois com Meiling que surgiu dentro de alguns segundos, também vestida de noiva. Ela estava se divertindo, experimentando-os.
- Com certeza é desesperador começar a escolher o vestido há menos de um mês do casamento... Ainda não entendi isso... – Meiling falava, analisando sua própria imagem no espelho.
- Tomoyo-chan me fez prometer que de jeito nenhum eu escolheria o vestido sem ela.
- Ai, eu queria tanto poder fazer seu vestido de noiva, Sakura-chan. Tinha que ser perfeito! – Tomoyo parecia prestes a chorar. – Devia pelo menos ter desenhado alguma coisa... Mas estive tão ocupada...
- Ah, não fique pensando assim. Vamos encontrar alguma coisa, com certeza. – Sakura tentava acalmá-la, com um sorriso amarelo.
- Não podemos esquecer de pensar na maquiagem e no véu... E esse tecido definitivamente não vai combinar com a tiara!
Sakura suspirou cansada.
- E esse terno, Syaoran? – Meiling lhe perguntou, parecendo só perceber agora sua presença ali. – Não acha que está um pouco fora de moda?
Estava usando o terno que usaria no casamento.
- Desde quando existe moda para ternos?
- Existe moda para tudo!
Neste momento a porta da sala se abriu e Eriol apareceu, parecendo ter saído de um filme inglês do século XVIII.
- Meus cumprimentos e desculpem a demora.- Ele disse, com uma reverência exagerada, agindo como se realmente estivesse num filme.
Todos começaram a rir.
- De onde você tirou isso? Não sabia que também tinham fantasias aqui...
- Mas até que combinou com você, Eriol-kun. – Sakura comentou.
- Está parecendo um príncipe... – Tomoyo disse num tom casual até corar um pouco.
- E você é minha princesa. – Ele deu uns passos até ela e beijou sua mão.
- Aawwww!! – Fizeram Sakura e Meiling vendo a amiga ficar mais vermelha. – Você dois são muito fofos!
- Infelizmente agora estamos enfrentando um momento de crise, vossa alteza. – Tomoyo respondeu, agindo do mesmo modo que ele com um sorriso, mas tentando recuperar a postura.
- Aahh... Vocês ainda não acabaram? – Eriol disse com a voz chorosa, voltando ‘ao normal’ e indo se sentar numa cadeira ao lado de Syaoran – Já não tiveram tempo suficiente?
- Isso não é tão simples...
- Por quê? Esse aí não tá bom?
- Não! Vamos atrás de outro, Sakura-chan. – Ela saiu arrastando a outra até a outra sala e Meiling as seguiu.
- Hum, pelo visto isso ainda vai demorar bastante... – Ele comentou, se jogando numa cadeira ao lado de Syaoran que apenas murmurou um ‘É’, conformado.
Eriol olhou para ele duas vezes até desgrudar as costas da cadeira e dizer, excitado:
- Li! É você, não é? Quero dizer... – Ele baixou um pouco a voz até um quase sussurro — Você veio aqui de novo...?
- Sim. – Respondeu simplesmente. – Estive de volta ao futuro por pouco tempo... Você e a Daidouji... Eu realmente não esperava.
- Ah! – Eriol pareceu um pouco sem graça – Sinto muito. Devo ter bagunçado um pouco o futuro... Mas preciso agradecer a você...
- Nunca pensei que você pudesse ter problemas com esse tipo de coisa... Aliás, vocês dois.
- É, talvez não devesse ter recriminado você... Todos os humanos estão propensos a fazer coisas estúpidas e às vezes pode ser difícil desfazê-las, né?
Syaoran se lembrava perfeitamente de ouvir Yuuko dizendo uma coisa praticamente igual.
- Por acaso você conhece aquela mulher?
- Ahn? Que mulher?
- Esquece.
Depois do que pareceu muitas horas para os dois, eles finalmente saíram dali e Sakura ainda nem tinha escolhido definitivamente o vestido. Elas tinham tirado fotos e por aí iriam se decidir com mais calma depois.
- Um casamento realmente dá trabalho, né? – Meiling comentou, colocando na boca um pedaço de bolo coberto de chantilly e morango. Os cinco estavam agora reunidos numa confeitaria.
- É, e uma coisa que só dura algumas horas... – Syaoran comentou.
- Mas de qualquer jeito é emocionante! Ai, eu não consigo conter a inveja...
- E a cerimônia de hoje? – Tomoyo perguntou a Sakura. – Oshima-kun deve estar empolgado...
- Ele está. Só tem falado nisso na última semana. Ofereceram a ele até um emprego numa empresa aqui de Tóquio...
- E ele vai aceitar? – Eriol perguntou.
- Sim. Isso é como um sonho para ele...
- Mas vocês vão morar mesmo em Tomoeda, né? – Tomoyo parecia preocupada.
- Sim. Afinal é lá que eu trabalho.
- Ah! Vocês precisavam ter visto a Sakura com seus aluninhos! — Meiling parecia se lembrar de algo muito engraçado.
- Meiling-chan foi até a escola?
- Foi no bazar de natal que organizamos... Todos vocês estavam muito ocupados, não é? – Sakura disse num tom acusador – Meiling-chan foi a única que apareceu.
- E você nem nos contou nada antes. – Tomoyo falava para Meiling.
- Eu acabei esquecendo...
- Pensando bem, nós todos nem temos nos falado muito mesmo ultimamente, não é?
- É verdade, nem sequer pudemos estar juntos no ano-novo da última vez...
- É, parece inevitável, afinal, né? – Sakura completou, suspirando, pensativa.
- Desde que comecei a ajudar mamãe na empresa eu entendo porque ela sempre foi tão ocupada... Mas... Nos fale do seu sobrinho! Já tem dois meses... Cresceu muito? – Tomoyo perguntou, tentando animar a amiga.
- Ah, ele está ficando cada vez mais gordinho! – Sakura abriu um grande sorriso – É muito agitado!! Espero que sua personalidade não puxe muito para o lado do meu irmão...
- Logo, logo pode ser você, não é Sakura? Cuidando de um bebê... – Meiling comentou, como se só quisesse rir de vê-la se engasgar, ficando completamente sem graça. – Nossa! Gente, já é minha hora! – Ela se levantou rápido depois de dar uma olhada no relógio – Tenho uma entrevista.
- Entrevista? – Eriol perguntou.
- É para trabalhar na TV! Uma emissora aqui de Tóquio!
- Na TV? Como o quê? Garota do tempo?
- Não. É para apresentar um programa sobre culinária.
- Você vai cozinhar? – Perguntou Sakura.
- Não. É para mostrar aos telespectadores lugares com as melhores comidas... Ha ha! Não dá nem para imaginar alguém melhor do que eu para isso. Esse emprego já é meu.
- Mas você vai aparecer à noite, né? – Sakura ainda perguntou.
- Ah, sim. Vai dar tempo. Até mais.
Depois que ela se despediu, os outros não se demoraram muito. Quando estavam saindo, Eriol disse, de repente:
- Ah! Eu acabei de me lembrar de uma coisa... Eu... deveria aproveitar para ir até o detetive Kushigawa, você lembra que eu falei que ele será muito importante no julgamento? – Eriol sabia soar muito convincente falando qualquer coisa, mas Tomoyo percebeu na hora que alguma coisa estava errada.
- Você tem que fazer isso hoje?
- É, eu realmente deveria aproveitar essa oportunidade. Preciso pegar uns papéis importantes... Você pode vir comigo? Não vai demorar.
- Por mim tudo bem, mas não deveríamos voltar juntos? – Ela se referia a Syaoran e Sakura que os assistiam.
- Eeehh... Não tem problema. De trem é até mais rápido. – Syaoran disse, entendendo o que Eriol pretendia.
- É verdade e eu tenho mesmo que chegar logo. Ainda preciso cuidar de algumas coisas. Não precisam se preocupar. – Sakura disse.
Tomoyo encarava todos bem desconfiada.
- Bem... Tudo bem, então. – Disse, por fim, mas, enquanto eles se afastavam, Syaoran sabia que ela definitivamente não tinha caído na história e Eriol não ia conseguir esconder seu segredo dela por muito mais tempo.
- Então, vamos? – Sakura perguntou-lhe, parecendo animada para algum passeio. – Faz tempo que não no falamos, não é Syaoran-kun? – Ela continuou a falar no mesmo tom, enquanto seguiam seu caminho. – Toda vez que ligo para você está ocupado e quase nunca me liga de volta...
- Eu tenho mesmo estado ocupado. — O que era verdade até certo ponto.
- Mas deve se sentir feliz por estar fazendo o que sempre quis, não é? Mal posso acreditar que um ano depois de nos formamos, os universitários já o chamam de ‘sensei’... Papai me contou sobre seu grupo de pesquisa... Como foram as escavações?
Ela o fez contar tudo e também falou bastante. Syaoran se sentiu bem por não terem mencionado nem uma vez durante todo o trajeto de volta a Tomoeda, Oshima e o casamento. Tinha saudade de falar com Sakura daquele jeito, como sempre tinham costumado fazer antes de começar a se sentir mal quando falava com ela. Era quase como se todos os seus problemas tivessem desaparecido, ele pensava, até que o som de uma nova mensagem no celular dela o obrigou a voltar a encarar a realidade de novo. Ela fez um comentário sobre Oshima, mas ele não prestou atenção. Parecia uma repetição do que acontecera em sua última volta ao passado, quando Sakura recomeçou a andar, mas ele não a acompanhou e ela perguntou qual era o problema.
Estavam de volta a Tomoeda e logo iriam se separar de novo. Quando voltassem a se encontrar mais tarde na cerimônia, Oshima já estaria de novo ao lado dela, aquela era a hora de se despedir de verdade, mas ele só queria que durasse mais um pouco. Se aproximou novamente dela e dessa vez, sem dizer nada, pegou sua mão, começando a correr em frente.
- Syaoran-kun...? O que está havendo? Por que estamos correndo? – Sakura perguntava, confusa, mas não ouviu resposta – Syaoran-kun!
Não demorou muito para que começasse a desacelerar o passo. Tinham chegado aos portões do Colégio Tomoeda.
- O que estamos fazendo? – Sakura ainda estava confusa e um pouco ofegante enquanto andavam pelos corredores vazios da escola. Pelo visto, todos os alunos estavam em aula. Quando chegaram à porta de sua antiga sala, no entanto, ela estava aberta e a sala vazia com as coisas dos alunos nas carteiras – Educação física...?
- Deve ser. – Syaoran finalmente falou alguma coisa, entrando.
- Ah, que nostálgico!! – Ela exclamou, dirigindo-se com um sorriso ao seu antigo lugar no fundo da sala. – Touya-nii-chan devia estar aqui para ver isso... – O assento definitivamente nãos lhe servia mais. – Ele vive dizendo que eu parei de crescer no primário...
Syaoran foi até a carteira atrás dela, onde costumava sentar.
- Parece impossível que mais de dez anos tenham se passado, né? – Sakura se virou de lado para conversar com ele. – Tudo está igual.
- Menos nós.
- Verdade. – Ela concordou, com uma risada e depois continuou, apoiando os cotovelos na mesinha dele. – Parece um pouco misterioso, não é? Se você não tivesse se transferido para essa escola, poderíamos nunca ter nos conhecido...
- Se eu não fosse colocado nessa sala, provavelmente nunca teríamos sido amigos...
- E se não houvesse esse lugar vago e eu não tivesse esquecido minha borracha... – Sakura deu risada de novo da suposição – Será que isso tudo foi coincidência?
- Minha mãe sempre diz que coincidências não existem.
- Ora, então é realmente misterioso, não é?
Com o som da campainha da escola que tocou nesse instante, os alunos logo voltariam e os dois saíram de lá. No caminho de volta, ainda comentavam sobre seus anos de primário e Sakura se animou a ir até os balanços do parque pingüim.
- Eu me lembro de ser bem pequena e implorar ao meu irmão que viesse para cá comigo e me empurrasse beeem alto. – Ela dizia, começando a se balançar. – Tinha me esquecido do quanto é divertido!
- Pensei que fizesse isso sempre com seus alunos... – Syaoran se sentou no balanço ao lado, mas continuou parado, observando-a.
- Ei, ao contrário do que você pensa, meu trabalho não é só brincar, sabe.
- Não foi o que eu quis dizer. – Syaoran disse, rindo.
- Sei. – Retrucou, fingindo estar zangada, mas depois também riu e deu um grande salto para sair do balanço. — Pronto! Agora podemos ir. – Ela começou a sacudir a areia da bolsa que tinha colocado no chão.
- Antes disso... Eu posso... perguntar uma coisa?
- Claro. O que é? — Ela voltou a sentar no balanço, ainda cuidando da bolsa, esperando o que ele tinha para perguntar.
- Há alguma coisa que você gostaria de refazer? – Ela o encarou, parecendo um pouco confusa – Algo de que se arrependa...
- Bem... – Ela colocou uma mão numa corrente do balanço e encarou o chão por um tempo, considerando a pergunta – ...Eu acho que não é certo pensar nisso.
- Como assim?
- Acho que não se deve pensar no passado desse jeito. O tempo não pode voltar atrás, então se há algo que desejamos fazer, devemos aceitar o passado e agir no presente para poder encarar bem o futuro.
Sakura voltou a encará-lo e Syaoran a encarava de volta, surpreso.
- Nunca pensei que você achasse isso. – Ele disse.
- Na verdade, só agora eu parei para pensar nisso. – Ela deu uma risadinha. – Há algo pelo qual se sente arrependido?
Ele ficou se observando revirar a areia do chão com os pés por um tempo e continuou assim enquanto respondia:
- Seres humanos estão sempre fazendo coisas estúpidas e às vezes pode ser impossível desfazê-las... Mas acho que você tem razão. – Levantando o rosto, deu-lhe um pequeno sorriso. O rosto dela estava mais perto, meio encostado na mão que segurava a corrente do balanço e aquilo acabou fazendo-o se lembrar da última vez que algo parecido acontecera. Já tinha quase esquecido até então daquele beijo em circunstâncias estranhas na sacada de seu apartamento, mas a sensação ele conseguiu recriar perfeitamente na memória, o que o fez corar encarando as duas esmeraldas brilhantes diante de si e, sem nem perceber, estava se aproximando mais.
- Está ficando tarde. – Por pouco Syaoran não levantou com um grito ao ouvir a voz dela, de repente. – Desculpe, mas eu realmente preciso ir. – Ela se levantou e ele imitou-a, ainda um pouco atordoado. – Vejo você à noite, certo?
- S-s-sim.
- Até lá! – Ele a observou se afastar até que sumisse de vista e então se jogou de volta no balanço com um suspiro. Estava distraído com seus pensamentos quando uma voz voltou a sobressaltá-lo.
- Parece que tomou uma decisão. – Ele realmente não esperava que fosse Yuuko Ichihara, sentada no outro balanço do seu lado.
- Você!! Pode aparecer aqui?
- Eu estou aqui, não estou?
- Já tinha até se despedido...
- Às vezes esqueço que meu trabalho pode ser imprevisível de vez em quando.
Syaoran olhou ao redor, preocupado que alguém estivesse olhando.
- O tempo não está parado, não é?
- Dá muito trabalho fazer isso em áreas mais amplas... Mas eu estava falando da sua decisão... Parece que admitiu agora que deve investir no presente...
Ele parou para refletir um pouco e depois falou:
- ...Mais do que o fracasso, com certeza é doloroso o arrependimento pelas coisas que deixei de fazer. Voltando ao passado, eu corri atrás da Sakura como um louco, querendo compensar o fato de nunca ter conseguido ser sincero no presente...
- E diante disso você acha que só tem uma coisa que lhe resta fazer...
- Não sei se é a coisa certa, mas acho que é o que devo fazer. Encarar todos os meus fracassos do passado no presente, embora eu não saiba exatamente como.
- O mais importante é aprender com esses fracassos para viver bem o presente, sem ter medo de aproveitar as chances. A chave que abre a porta do milagre está em suas mãos. – Yuuko começou a se balançar de leve enquanto falava – Se fizer o que está pretendendo agora, poderá até economizar um pouco de tempo...
Com a consciência um pouco distante, só depois de alguns segundos, Syaoran perguntou:
- Como assim? – Quando virou o rosto, no entanto, não havia mais ninguém ali, o balanço apenas se movimentava de leve com o vento.
"Por que ela sempre dá um jeito de parecer mais estranha?". Mas ele já estava mesmo decidido a fazer o que pretendia e se levantou de novo, caminhando lentamente para casa. Quando chegou lá, foi direto ao quarto e encontrou logo o que precisava: uma máquina fotográfica. Se sentou na cama e depois de respirar bem fundo apertou o botão, olhando fixamente a lente e só precisou de alguns segundos até que o flash fosse disparado.
Continua...
Notas finais
Bjinhosss
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