Asgard Dirty Secrets
9 So goodbye yellow brick road
Notas iniciais
Váli ouviu um forte estrondo e, quando abriu os olhos, viu apenas o robô desabar no chão.
– Ei! Fique mais atento, pequeno! — Thor deu uma gargalhada.
Váli fez uma careta e anuiu com a cabeça. Ele sabia que tinha baixado a guarda e que por pouco tal erro não lhe custara a vida.
– Agora falta pouco.. — o rapaz trancou os dentes olhando Thor voltar e partir para cima de outro robô — Vamos tio Tony e tio Bruce.. Já levamos tempo demais.. Isso tem que acabar. — resmungou e foi socorrer Nicolas.
No mesmo dia, à noite, Aredhel recebeu notícias de Midgard. A filha, Einmyria, sempre mantinha a mãe atualizada sobre o conflito que acontecia na Terra. A imagem de Myria surgiu diante de Aredhel e ela percebeu que a filha estava abatida. Perguntando sobre o ocorrido, descobriu que Nicolas havia sido ferido em batalha, mas que estava sendo devidamente cuidado por ela e os irmãos. A jovem também revelou que tinha sido finalmente encontrada uma solução para dar um fim àquela guerra contra Ultron.
– Um vírus? — sorriu Aredhel – Claro.. Essa é a única saída.. — anuiu – Por se tratar de um programa de computador, ele sempre poderia se transferir. Vocês ficariam nessa busca eterna. E o único ponto fraco mesmo, seria um vírus que destruísse esse programa. — pensava alto — Só espero que Tony e Bruce tenham conseguido criar um vírus que se espalhe rapidamente e não dê a chance de Ultron criar um antivírus ou outra forma de defesa. — disse pensativa.
– Você está me subestimando, raposinha? — Tony falou surgindo na projeção – É claro que pensei nisso! — cruzou os braços fingindo indignação – Sentimos a sua falta. Seus conhecimentos da área poderiam ter nos ajudado a chegar a essa solução de forma mais rápida. — sorriu.
– Eu jamais subestimaria sua inteligência, Tony. — Aredhel deu um meio sorriso – Eu pouco ajudaria. Já faz anos que estou longe dos computadores. — meneou a cabeça negativamente – Além disso, tenho motivos fortes para não deixar Asgard. Não posso entrar em detalhes.. — mordeu os lábios – ..mas você sabe que se eu pudesse estaria aí. — afirmou.
– Imagino que sim.. Você nunca fugiu de uma briga. Até mesmo quando a rena diva ficava contra, você o ignorava e vinha ajudar. — ele riu – Mas pelo menos pudemos contar com a ajuda de seus filhos e da família de Thor. — deu de ombros.
– E quanto tempo levará para saber se o vírus foi eficaz? — Aredhel questionou.
– Creio que até amanhã cedo as máquinas e robôs irão parar de funcionar um a um. — ele informou – Quando retornar Váli lhe explicará melhor o funcionamento do vírus.
– E quando vocês voltam? — ela perguntou se direcionando à filha.
– Creio que os meninos voltam em um ou dois dias. — Einmyria deu um sorriso fraco – Vamos ajudar a reorganizar algumas cidades.. E.. — começou a explicar.
– E você vai cuidar do Nick.. — Aredhel completou – Está tudo bem, filha. Eu imaginei que faria isso. — riu.
– Ainda bem que a senhora entende mãe.. — a moça corou.
– Prometo cuidar bem de minha futura nora, raposinha. — Stark voltou a falar – Seu pai já sabe sobre vocês? — indagou à Myria.
– Er.. Ainda não, tio Tony.. — riu sem graça.
Stark deu um assovio e franziu o cenho.
– Não quero estar na pele de vocês. — deu um tapinha nos ombros dela – Vamos torcer para que a raposinha consiga segurar a fera. — riu e retirou-se.
Aredhel se limitou a apenas dar um leve sorriso. Ela sabia que as coisas não andavam fáceis e que seu poder de persuasão sobre o marido parecia cada vez menor. Ainda não conseguira resolver o problema de Hela e Jim e lhe angustiava a ideia de ter que enfrentar Loki novamente por Myria e Nick. “Parece que os problemas estão longe de acabar..”, lamentou mentalmente.
Na mesma noite, na vila, Katarina pegou o prato do pai, serviu duas grande conchas de sopa e pôs à frente dele. James olhava distraído pela janela da cozinha, absorto em seus pensamentos. A jovem o olhou longamente e deu um suspiro triste.
– Pai.. — ela chamou.
– Oi, filha.. — Jim olhou para ela, saindo de seus devaneios e a viu indicar com a cabeça o prato – Ah.. Obrigado. — começou a comer meio sem vontade.
James tomou rapidamente sua sopa e retirou-se da mesa, indo para seu quarto. Katarina e Wagner continuaram à mesa.
– Eu não aguento mais ver o papai imerso nessa tristeza toda. — Katarina deu um suspiro.
– Não adianta, Kat. Ele ama Hela e só vai sossegar depois que resolver isso. — Wagner balançou a cabeça.
– Mas eu já estou cansada de vê-lo sair todos os dias, ir até o palácio escondido e retornar com essa cara de derrota. Estou começando a ficar com raiva de Hela. — desabafou Kat — Ela nem ao menos deu a chance a ele de se explicar.
– É.. Mas convenhamos.. A cena que ela viu deve ter sido demais. Só complicou mais ainda o mal-entendido. — Wagner meneou a cabeça.
– Sim, o papai deu azar. — ela murmurou – A situação com a Hela piorou e para completar agora tem o problema com a madrinha. Antes papai pelo menos ficava animado ao ver a madrinha, agora ela não pode vir vê-lo e eles mal se veem. — bufou – Acho muito arriscado ele continuar indo até lá. Ele deveria se conformar em falar com a madrinha por projeções e com as notícias que nós e Eisa trazemos de lá. — concluiu.
– É.. O tio Loki proibiu mesmo a entrada do papai.. — disse o rapaz dando uma colherada na sopa – É tão estranho.. Eu gosto de morar aqui, mas sinto falta do palácio. Sinto falta de conviver com o pessoal. — murmurou triste.
– Mas podemos ir lá. — rebateu Katarina — O tio Loki não nos proibiu de ir até lá. Na verdade ele me trata super bem quando vou até o palácio. É como se nada tivesse acontecido. — deu de ombros.
– Mas não é a mesma coisa que morar lá. — ele fez um muxoxo – Sinto falta de conversar com a Eisa. — confessou.
– Hum.. — Kat deu um sorriso cínico – Vocês dois.. Essa amizade de vocês ainda vai terminar em namoro. — riu provocativa.
– Somos apenas amigos. Só isso. — retrucou ficando vermelho.
– Sei.. — ela riu.
No quarto, James estava deitado em sua cama e pensava em sua amada. Não saía de sua mente o estado de Hela quando a vira pela última vez. Espantou-se com a sua palidez e sua extrema magreza. Não deixou de notar também as olheiras e a apatia dela. Entretanto, nada o havia preparado para o choque da ameça de morte que Hela lhe fez. Jim sentiu algo revirar dentro de si ao ouvir as palavras dela. Decepção e desespero resumiam seus sentimentos. James temia que o amor que ela um dia sentiu por ele tivesse se tornado ódio.
A Hela que estava ali diante dele naquele dia, em nada lembrava a mulher doce e espevitada que conhecera. James não se esquecia das constantes investidas que sofrera da jovem e do jeito provocante dela se insinuar para ele. Ele lutara por muito tempo contra um sentimento que crescia de forma descontrolada. O jeito meigo e ao mesmo tempo confiante de Hela o enfeitiçava. A inteligência e a perspicácia dela o encantavam. Todavia, Hela era, entre outras coisas, a menina que ele vira crescer e filha de seus dois melhores amigos. Desta forma, Jim lutou com todas as forças contra aquela paixão proibida, até não suportar mais e sucumbir ao amor de Hela.
– Eu preciso desfazer toda essa confusão e rápido. Mas como? — Jim murmurou pensativo.
Hela não saía mais para os jardins desde aquele dia. Na verdade, ela não deixava nem o próprio quarto. Não comia e nem dormia, remoendo suas mágoas. Ainda amargava o ciúme e inveja que sentiu da própria mãe ao ver James defendê-la. Um ato instintivo de proteção, enuviado pelo rancor, fora interpretado como uma prova de amor. “Ele a ama mesmo.. Estava disposto a morrer por ela..”, torturava-se em pensamentos. Hela nunca desejou tanto estar no lugar de sua mãe. Na cabeça da jovem, Aredhel tinha o amor que Hela levara anos tentando conquistar. Um ressentimento cego crescia e sufocava Hela e o amor que ela tinha por James. Naquele momento Hela olhava para trás e começava a acreditar que tudo havia sido uma perda de tempo. Tinha a crença de que desperdiçara sua juventude tentando conquistar um homem que nunca seria seu.
A moça abraçou o travesseiro e levou as pontas de seus dedos até seus lábios. Ainda os sentia queimar ao relembrar o seu primeiro beijo. Já havia algum tempo que Hela se insinuava descaradamente, mas Jim fingia não perceber. Ela imaginava os motivos que o levavam a ignorá-la, mas nunca se deixou intimidar. Hela o queria e afirmava que o teria para si.
Hela suspirou ao lembrar a expressão de surpresa de James, quando ela declarou seu amor a ele. Ela ainda podia sentir o toque dele em sua face e a forma indecisa como ele a encarava. Parecia estar preso em uma guerra imaginária, travada entre sua razão e sua emoção. Aqueles olhos azuis a prescrutaram por inteiro, parecendo querê-la devorar. Até que, repentinamente, James deslizou a mão que tocava o rosto de Hela até a nuca dela e com a outra mão enlaçou a cintura da jovem. Ele se inclinou sobre Hela e tomou os lábios dela em um beijo cheio de desespero e desejo contido. A moça mal podia acreditar, na fúria apaixonada que aquele homem parecia ter guardado por tanto tempo. A forma como a língua dele invadiu a boca dela, conduzindo-a naquele beijo eletrizante, a deixou sem fôlego. Hela, até então inexperiente, não recuou. Entregou-se e aprofundou o beijo, deslizando as mãos sobre o peito dele, dando a ele mais incentivo para continuar. Jim seguiu alisando o corpo da jovem com luxúria, até que pareceu cair em si e separou-se dela.
Ele olhou para o rosto rubro de Hela, perdido em um misto de excitação e arrependimento. James não tinha mais dúvidas, ele a desejava ardentemente. Amava Hela e não podia mais refutar a verdade. Jim a queria para si e desejava muito mais que um beijo, almejava ir mais além. Porém, seus preceitos morais o impediam de seguir adiante. Não faria isso sem antes resolver algumas pendências com os pais da moça.
Hela agora encarava suas melhores lembranças com amargura. Passara a acreditar que o amor, que outrora vira nos olhos de Jim, sempre fora direcionado à sua mãe. Tinha a crença de que ele, quando a olhava, desejava Aredhel.
A jovem se levantou e foi até sua penteadeira. Sentou-se silenciosamente, pegou um pequeno frasco que continha um líquido de cor azul e ficou o observando por um tempo. Hela baixou os olhos e lágrimas desceram por seu rosto.
– Talvez seja a única saída.. — pensou alto e voltou a depositar o vidrinho sobre o móvel.
Na manhã seguinte, Aredhel estava em seu quarto e conversava com James através de uma projeção.
– Daqui a cinco dias? Hela se casa em cinco dias? — Jim indagou perplexo.
– Sim.. — afirmou Aredhel com pesar – Ela não sai mais do quarto e Loki dobrou a vigilância no palácio. Ele soube por ela que você esteve aqui naquele dia. — revelou.
– Por Deus, Aredhel.. O que faço? Não posso deixar que ela se case! — ele disse sobressaltado.
– Eu tenho uma ideia.. — ela começou – O casamento será realizado em Alfheim, a pedido do rei. Como Eric é o herdeiro do trono, o rei pediu que o casamento fosse realizado lá. Depois de amanhã, pela noite, ela partirá daqui de Asgard. Ficará hospedada no palácio de Alfheim até o dia do casamento. — contou — Essa é a sua chance! Pode aproveitar a saída dela para conversar e resolver isso de uma vez. Afinal, ela já vai estar fora do palácio, longe da vigilância de Loki e sozinha. Assim você evita que esse casamento absurdo se realize e põe um fim nesse sofrimento de vocês. — deu um suspiro.
– Excelente ideia, Aredhel! — Jim se animou – Sim, essa será a minha grande chance! — sorriu.
– Resolvida a questão de vocês, poderei resolver o casamento de Váli com Sigrid e o namoro de Einmyria com o Nicolas. — ela disse visivelmente cansada.
– Myria e o filho do Stark estão namorando? — espantou-se Jim — Minha nossa, quando Loki souber será uma nova confusão. Ele nunca vai aceitar. — coçou a nuca – Fico preocupado com você no meio dessas brigas todas. — franziu o cenho.
– Eu estou bem. Sei me virar, Jimmy. — cortou rapidamente – Estou com saudades.. — disse de repente, mudando de assunto – Sinto sua falta.. — confessou.
– Também sinto sua falta. — ele deu um suspiro – Espero que tudo isso se resolva logo. — meneou a cabeça – Eu tenho que ir. Vou para o ensaio. Cuide-se. — sorriu.
– Você também.. Até e bom trabalho. — despediu-se.
A projeção se desfez e Aredhel deixou escapar um lamento.
– Além de me desobedecer e continuar falando com ele, você mais uma vez está escondendo as coisas de mim! — rosnou Loki atrás da esposa.
Aredhel virou-se assustada e encarou o marido. Ele se aproximou lentamente dela e agarrou o seu braço.
– Mas a senhora está me saindo uma excelente alcoviteira, Aredhel! — sibilou – Primeiro o traidor com Hela! Agora Einmyria e aquele moleque do Stark? — gritou – Eu cheguei bem a tempo de ouvir James comentar! E ele tem razão, eu jamais irei concordar com isso! Quero Myria longe do filho do Stark! — sacudiu-a – Já estou cansado de você ficar escondendo as coisas de mim, Aredhel! Cansado! — berrou – Eu não tenho uma esposa! Tenho uma inimiga que abrigo sob meu teto e que trama constantemente contra mim. Começo a me arrepender de ter me casado com você. — disse entredentes e largou-a.
Loki saiu do quarto da esposa bufando de raiva. Aredhel, visivelmente abatida, passou as mãos pelos cabelos. Sentou-se na cama. escondeu o rosto entre as mãos e começou a chorar.
– Meu Deus.. O que eu faço? — soluçava vencida.
Pela noite, Loki estava em um dos muitos salões, bebendo sozinho. Tivera um dia exaustivo e a discussão logo cedo com a esposa só fizera piorar o seu dia. Ficara furioso com a novidade sobre o namoro de Einmyria e Nicolas. E o fato de Aredhel saber disso e apoiá-los só o deixou com mais raiva dela. Loki continuou bebendo hidromel de forma ávida, remoendo as discussões com Aredhel que tivera ao longo daqueles quase dois meses. Era tempo demais para ele continuar suportando, Loki já estava em seu limite.
Perto da madrugada, já bêbado, tomou coragem para ir atrás da esposa. Ele bateu à porta do quarto de Aredhel, ela abriu e ficou espantada ao vê-lo àquela hora. Ela fez menção de dizer algo, mas o marido a agarrou. Loki tomou os lábios da esposa em um beijo sôfrego e cheio de saudade. Aredhel, pega de surpresa, a princípio não o rejeitou, também sentia falta dele. De forma afoita, Loki desceu a boca pelo pescoço da esposa, enquanto abria os primeiros botões de seu vestido. Recuperada do susto inicial, Aredhel lutou contra os próprios desejos de ceder e empurrou de leve o marido.
– Loki.. Espere.. Precisamos conversar.. — ela disse pondo a mão sobre o peito dele – Eu tenho que lhe falar.. — começou.
– Chega! — ele gritou – Basta! Você vai mesmo continuar insistindo nessa história toda? — rosnou entredentes e a sacudiu.
Chocada, Aredhel se limitou a encará-lo.
– De que me adianta ter uma esposa que não me serve como mulher? — ele continuou — Eu já estou farto de você e sua rejeição! Farto! — berrou – Se não tenho com você o que preciso, irei procurar em outra! — rosnou e largou-a na cama.
Loki saiu marchando furiosamente para fora do quarto. Aredhel levou a mão ao peito estarrecida. Não conseguia acreditar nas palavras do marido. Loki sempre lhe fora fiel e até aquele momento ela não dera muito crédito às ameaças dele. Entretanto, receava que talvez tivesse levado o marido às raias da loucura e que dessa vez ele pudesse cumprir o que dizia. Desesperada, Aredhel pensou que talvez fosse melhor ceder.
No corredor, a caminho de seu quarto, Loki saiu derrubando tudo o que encontrava. Estava possesso, lívido de raiva. Ao virar a esquina, trombou com uma serva, Astrid. A serva, na verdade, o estava observando desde o início da noite e ao ouvir a discussão do casal, armou o encontro acidental. Fingindo surpresa, ela se curvou diante dele.
– Meu rei, me perdoe. — ela disse baixando a cabeça e inclinando o corpo de forma exagerada, exibindo e salientando o decote profundo de seu vestido.
Os seios avantajados da mulher não escaparam ao olhar de Loki. Ele franziu o cenho e engoliu seco. Não podia negar a atração física que vinha sentindo pela serva já há alguns dias. Ela tinha curvas voluptuosas e de fato era muito bela. A moça já vinha a algum tempo se insinuando para ele. Entretanto, ele continuou ignorando as indiretas da serva. Não era de sua natureza se deixar envolver por tentativas tolas de sedução e Loki detestava esse tipo de mulher: fácil.
– Meu rei.. — murmurou Astrid tirando-o de seus devaneios – Vossa majestade precisa de algo? Há alguma coisa que eu possa fazer para servi-lo? — sorriu com malícia levando uma das mãos ao rosto dele.
Loki estava quase desesperado. A falta de intimidades com sua esposa o havia conduzido ao seu limite. A raiva de Aredhel era latente e queria puni-la por isso. Essa sua exaltação, somada aos efeitos da bebida, o fizeram reagir de forma diferente diante daquela situação. Ele empurrou a jovem contra a parede, pressionando o próprio corpo contra o dela. Agarrou os cabelos de Astrid e aproximando o nariz de seu pescoço, sorveu o perfume adocicado dela. A serva deixou um sorriso de vitória escapar dos lábios.
Assim que o perfume dela atingiu seu âmago, quase que como por encanto, Loki pareceu recuperar sua lucidez. Astrid não tinha o cheiro que ele tanto amava, ela não possuía o cheiro de Aredhel e não cheirava a jasmim. Ele ergueu a cabeça e fitou a serva nos olhos. Loki também não encontrou os olhos castanhos escuros de sua esposa, mas sim os olhos verdes de Astrid a lhe fitar com cobiça. Ele finalmente caiu em si. Por mais que estivesse excitado, a quem ele desejava com luxúria era Aredhel.
– Vá dormir.. — ele disse largando o cabelo da mulher e afastando-se dela.
– O quê? — Astrid indagou incrédula.
– Você ouviu.. Vá dormir. — Loki disse pausadamente.
– Meu rei.. Eu posso lhe dar o que deseja e o que precisa. — ela disse com urgência, o tocando no rosto – Posso ser melhor que sua esposa. — afirmou cinicamente.
Loki deu um sorriso malicioso e aproximou o rosto de Astrid.
– Você não pode me dar o que desejo e preciso. — levou os lábios próximos ao ouvido dela – O que eu preciso só minha esposa pode me dar. E você está longe de ser melhor que ela. Não chega nem aos pés dela, sua vadia imunda! — rosnou.
Astrid trincou a mandíbula com raiva. Deu uma olhada de esguelha e avistou uma nova oportunidade surgindo no corredor. Sorriu vitoriosa diante da nova situação. Em um movimento rápido ela agarrou o rosto de Loki, o puxou para si e tomou os lábios dele em um beijo cheio de lascívia. Depois de se recuperar do susto, Loki a segurou pelos ombros e separou-se dela.
– Loki.. — ele ouviu Aredhel murmurar atrás de si.
Loki arregalou os olhos estupefato. Aredhel levou ambas as mãos à boca e saiu correndo. Astrid mordeu os lábios e riu silenciosamente, comemorando o êxito de sua estratégia. Loki se virou em direção à serva e fechou a cara irritado.
– Você fez de propósito, sua vagabunda.. — murmurou com raiva e deu uma bofetada na mulher.
Astrid o olhou boquiaberta e levou a mão ao rosto. Loki prontamente saiu atrás da esposa e, ainda no corredor, ele a alcançou e agarrou-a pelo braço.
– Aredhel, espere! — ele pediu – Eu posso explicar.. — começou.
– Largue-me! — ela gritou se desvencilhando dele – Nunca mais toque em mim! — berrou – Eu não quero ouvir mais nada de você! Nada! — tremia.
– O quê? — indignou-se – Ah, mas você vai me ouvir! — tentou agarrá-la novamente.
– Você não manda em mim! Eu já disse para não me tocar com essas suas mãos imundas! — ela o empurrou – Seu canalha! Sujo! Imundo! — sibilou.
– Veja como fala comigo, Aredhel! Você é minha esposa! Deve-me respeito! — Loki retrucou.
– Se deseja ser respeitado, que se dê o respeito! — Aredhel rebateu — Estava se agarrando com uma serva pelo corredores! Onde está o seu respeito a mim? Hein? Vai negar que a beijou? — bufava.
– Não.. Ah! — ele ergueu as mãos impaciente — Isso tudo é culpa sua! — gritou — Se tivesse deixado sua teimosia de lado, nada disso teria acontecido! Foi você que faltou com seus deveres esposa para comigo! Enquanto você se negava a me dar o que era meu de direito, várias servas me procuravam se oferecendo! A culpa é toda sua! — rosnou.
Aredhel deu uma bofetada em Loki e explodiu de vez.
– Suma daqui! — ela berrou – Saia da minha frente! Desapareça! Não quero te ver! — gritava histérica.
– Suma você! Saia você daqui! — Loki rebateu entredentes – Você não é nada e nem ninguém aqui! Eu sou o rei de Asgard e soberano nesse palácio! Você não é nada além de minha esposa. Ninguém além de alguém com quem eu me deitava todas as noites. — disse venenosamente – Cansei! Estou farto de você! — rosnou.
As palavras de Loki atingiram Aredhel mais dolorosamente que um soco. Ela o olhou inexpressivamente por alguns instantes, limpou uma lágrima que escorreu por seu rosto e retirou-se com rapidez. Loki, ainda bufando de raiva, deu um berro e passou ambas as mãos pelos cabelos. Com seus poderes fez os móveis e demais objetos ao redor, voarem e estilhaçarem contra as paredes. Revoltado com Aredhel e consigo mesmo, saiu quebrando tudo o que encontrava pelo caminho.
Aredhel retornou ao seu quarto e fechou a porta atrás de si. Ela ergueu a cabeça, escorando-se contra a porta e exalou o ar lentamente, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto. Aredhel levou as mãos até o ventre e acariciou, rompendo em soluços.
– Ele não me ama mais... — choramingou em um fio de voz – Acabou.. — soluçou.
Após um tempo, ela limpou as lágrimas, caminhou até o guarda-roupa e despiu-se. Pegou seu velho vestido verde e preto, com detalhes em dourado e recostou seu rosto nele. Era a roupa com a qual havia chegado àquela realidade. Silenciosamente ela o vestiu e depois se aproximou de sua penteadeira. Sem coragem para se encarar no espelho, Aredhel manteve os olhos baixos e retirou do dedo a aliança que Loki havia lhe dado. Passou a ponta do dedo indicador pelas runas que escreviam o nome do esposo e franziu os lábios em uma linha. Com pesar, depositou a aliança sobre a penteadeira e encaminhou-se para fora do quarto.
Ficando invisível, Aredhel seguiu caminhando pelos corredores do palácio. Deslizava os dedos pelas paredes e colunas do local, enquanto relembrava os bons e maus momentos que vivera ao longo daqueles mais de trinta anos. Mais lágrimas desciam incessantemente pelo rosto dela. Por muito tempo ela acreditara que havia encontrado o lugar ao qual pertencia, mas agora já não tinha mais essa certeza. “Talvez eu não pertença a lugar nenhum”, pensou com amargura.
Aredhel, se sentindo culpada, perguntava-se onde teria errado e o que fizera para merecer tal destino. E, quando finalmente alcançou a entrada principal do palácio, havia concluído que isso não importava, que nada mais importava. Que mais uma vez, estava diante de uma nova derrota em sua vida.
Chovia torrencialmente do lado de fora do palácio. Aredhel atravessou os jardins em silêncio. As gotas que caíam do céu, não poderiam esconder o seu sofrimento. Seu coração estava dilacerado e cheio de mágoa, mas ela ainda o amava cegamente. “Talvez você nunca saiba o quanto ainda te amo..”, lamentou.
No caminho, ela colheu algumas flores de jasmim e as observou por um tempo. Lamentavelmente suas flores prediletas a lembravam dele. Ela cerrou os olhos com força e deixou escapar um soluço. Aredhel abriu as mãos lentamente e deixou que as flores caíssem. E, juntando os cacos que ainda restavam de si, deu uma última olhada para seu antigo lar: o palácio dourado. Ela, chorando incansavelmente, passou pelo portão e seguiu caminhando por aquela estrada reluzente, desaparecendo em seguida no meio da floresta.
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