Asgard Dirty Secrets
24 Hush now, baby, baby, don't you cry
Notas iniciais

Fazia uma manhã ensolarada nos jardins do palácio. O jovem Fenrir passou as mãos pelos cabelos e abriu um largo sorriso.
– Namorando? Vocês estão namorando? – ele perguntou incrédulo – Mas isso é uma excelente notícia! – disse todo esfuziante.
– Ah, você não imagina o quanto estou feliz. – admitiu Hela – Quando eu conheci o Jim e ouvi toda aquela conversa sobre “nosso” passado, pensei que nunca daria certo. – balançou a cabeça – Ele e o papai são tão parecidos fisicamente e o Jim era um estranho. Mas ao longo desses meses ele se tornou praticamente meu melhor amigo. — disse com olhos sonhadores – Percebi o quanto ele é diferente de qualquer pessoa que já conheci. Uma pessoa doce, de riso fácil, extremamente otimista e persistente. – riu.
– Esse é o tio Jim. – o irmão anuiu – Ele é como o “gêmeo bom” de nosso pai. Totalmente opostos. – completou.
– Por falar no papai.. – ela mordeu os lábios – Tenho medo de como ele possa reagir quando souber de nosso namoro. Deu tanta confusão da outra vez. Tantos desencontros. – disse com tristeza.
– Hela, acho que dessa vez será diferente. – fez um afago no braço dela – Nosso pai tem feito tudo para reconquistar nossa mãe e se sente tão culpado com o que lhe aconteceu.. Então duvido que ele faça algo que vá desapontá-la ou que te faça sofrer novamente. Afinal, foi ele mesmo quem convidou o tio Jim para voltar a morar aqui. – lembrou.
– A culpa não é só dele. – a jovem baixou os olhos – Mesmo não lembrando, sei que tive minha parcela de culpa nessa confusão toda. – lamentou.
– Hela, não adianta lamentar o que passou. – Fenrir ergueu o rosto da irmã – Pense no agora e no futuro. Aos poucos nossos pais estão se acertando. Vocês duas são amigas novamente. Você está namorando o tio Jim. – enumerou e fitou as árvores – Nada será como foi um dia, eu sei. Mas é um recomeço. Uma promessa de tempos melhores. O principal foi salvo, o amor entre vocês. – ficou pensativo.
– Você deveria fazer o mesmo. – a irmã o fitou séria – Fenrir.. Você deveria se dar uma nova chance e..
– Hela, eu não quero falar sobre isso.. – ele a interrompeu.
– Há tantas jovens que lhe admiram. – Hela insistiu.
– Hela, não.. – o irmão disse entredentes.
– Embla, do grupo de teatro, ela é tão meiga. – ela continuou – Fica toda embaraçada quando lhe vê..
– Eu nunca amarei outra mulher novamente! – ele gritou e se levantou em um átimo.
– Fenrir.. – murmurou Hela assustada.
– Jamais outra mulher me fará de tolo! Entendeu? – rosnou e se retirou, rumo às árvores do local.
Em um dos muitos salões do palácio, Aredhel depositava calmamente sua xícara no pires.
– Então? – James perguntou ansioso – Tenho sua permissão? – indagou.
Aredhel o encarou com um semblante sério por algum tempo, até que repentinamente começou a rir.
– Eu não acredito que você veio mesmo pedir permissão para namorar minha filha. – ela ria – Jimmy, você sabe melhor do que ninguém o quanto eu apoio o amor de vocês. – segurou as mãos dele – É claro que vocês têm minha benção. – sorriu de leve.
– Obrigado, Aredhel. – beijou as mãos da amiga.
– Essa foi a melhor notícia que ouvi desde.. – ela parou meio pensativa – Desde que tudo aconteceu.. – baixou os olhos – Loki já sabe? – franziu o cenho.
– Não.. Mas não se preocupe. – afagou a mão dela – Você sabe o quanto ele mudou. Devo reconhecer que ele tem feito de tudo para se redimir. – lembrou.
Aredhel esboçou um sorriso leve. Não podia negar o quanto andava esperançosa em relação ao marido. A cada dia que passava, sua confiança nele crescia. Nos últimos dias, Aredhel era vista sorrindo bobamente pelos corredores. Loki fazia de tudo para satisfazê-la. Era como estar de volta aos dias de paz e tranquilidade que um dia ela já desfrutara.
– Post Tenebras Lux. – Aredhel disse baixinho em latim.
– Sim.. – Jim anuiu – Depois das trevas, a luz tinha que voltar a brilhar. Eu sempre acreditei nisso. – deu um suspiro – Que um dia a felicidade voltaria a sorrir para nós. Uma nova chance nos foi dada. É o nosso recomeço. – afirmou sonhador.
– Melhor que isso só quando o bebê nascer e Hela recuperar a memória. – Aredhel o encarou – Mal ia me conter de tanta felicidade. Ainda tenho esperanças de que Loki encontrará uma forma de recuperar a memória dela. – disse toda esperançosa.
– Acredito que ele está bem próximo de encontrar esta cura. – ele falou calmamente.
James e Eisa, conforme solicitado por Loki, ainda mantinham segredo sobre o encontro com Freyja. E, naquele momento, em que estavam tão próximos de ver Hela recuperar a memória, Jim não tinha interesse em revelar a verdade. Temia prejudicar a confiança que Aredhel depositava no marido. Receava a reação dela diante deste segredo.
– E quanto ao bebê.. – Jim fez um afago na barriga da amiga – Creio que a hora já está chegando. Não sei como vocês dois conseguem ficar sem saber o sexo do bebê. – riu – Lembro o quanto estava ansioso antes de Ada revelar que Greta esperava os gêmeos. – disse saudosista.
– Ah, eu e o Loki sempre preferimos esperar nascerem. – Aredhel meneou a cabeça – Acho que deixa a espera mais emocionante. Se é que esperar um filho pode ser mais emocionante que isto. – riu.
– É diferente ser mãe depois de tanto tempo? – ele perguntou curioso.
– Bem.. – empertigou-se – Todas as minhas gestações são bem peculiares, mas a emoção é a mesma. Um amor que cresce a cada dia. – sorriu – A gente esquece alguns detalhes depois de tanto tempo, mas acho que é como andar de bicicleta. Não se esquece nunca. – deu uma risada – Você vai entender quando Hela for mãe. – falou despreocupadamente.
James baixou os olhos e deu um sorriso bobo.
– Vou adorar ser pai novamente.. – ele murmurou.
– Pai! – chamou Wagner se aproximando – O tio Loki deseja falar com o senhor. – anunciou.
– Hora de enfrentar a fera. – Jim deu uma risada nervosa.
– Dessa vez tudo vai dar certo. – Aredhel deu um tapinha no ombro dele.
James seguiu acompanhado por Wagner até o salão principal. Chegando lá se surpreendeu com a presença de Katarina, Rebecca, Siegfried, Broomhilda, Sigrid e dos demais filhos de Loki e Aredhel.
– Então, qual o motivo da reunião? – indagou Narfi meio impaciente.
– Como vocês devem se lembrar, o aniversário de Aredhel está chegando. – Loki começou – Todos os anos, apesar de ser um costume de Midgardians, sempre comemoramos a data. Mas este ano, a comemoração tem um motivo ainda mais significativo para mim. Depois desses conturbados meses, finalmente as coisas começaram a melhorar e em breve teremos mais um herdeiro. – andava de um lado para outro – É do conhecimento de todos que venho lutando dia após dia reconquistá-la e a mãe de vocês tem correspondido a este sentimento. E depois de todos esses meses, creio que eu e ela finalmente podemos dizer que voltamos a ser o casal de outrora. – ouviu Váli fazer um resmungo – Então decidi que, na ocasião do aniversário, eu a pedirei em casamento novamente. – anunciou.
– Vão renovar os votos? – indagou James sorridente – Isso é maravilhoso! – empolgou-se.
– Sim, acho que é esse o nome. – anuiu Loki meio sem jeito – Foi ideia de Eisa e Katarina. – indicou as jovens com a cabeça.
– Ah.. – Váli fez um muxoxo e cruzou os braços meio contrariado.
– Então.. – Eisa tomou a frente de forma apressada, temendo algum comentário contrário do irmão mais velho – Desde o ocorrido.. – moveu uma das mãos no ar – Nossa mãe não usa a aliança de casada. Papai pensou em entregar a ela novamente durante a festa, mas sugeri que fizesse algo mais especial. – disse toda empolgada – Conversei com Kat e pensamos que seria legal fazer uma comemoração tripla: a festa de aniversário de mamãe, o de Narfi e a renovação de votos. – explicou.
– Ah, alguém lembrou que é meu aniversário também. – resmungou Narfi.
– Não esquecemos. – Hela revirou os olhos – Só que em virtude de tudo o que aconteceu, o ponto mais importante é o aniversário de nossa mãe. – ralhou.
– Pelo menos uma vez na vida, pense em outra coisa que não seja em si mesmo. – arrematou Igor.
– Certo. – bufou Narfi – Como será essa festa tripla? – perguntou sem humor.
– Bem.. – começou Katarina – Será uma festa surpresa para a madrinha. – revelou.
– Festa surpresa? – Einmyria pareceu aflita – Acham mesmo uma boa ideia?
– Você viu algo que impeça ou diga que isso não é uma boa ideia? – questionou Fenrir.
– Não.. – Einmyria murmurou – Eu não vi nada. – meneou a cabeça.
– Então acho que não temos empecilho nenhum. – Eisa ergueu os braços em comemoração.
– Como faremos para organizar tudo sem que a tia Aredhel saiba? – indagou Rebecca.
– Nós vamos dividir as tarefas e fingir que nada está sendo planejado. – Kat disse de maneira displicente – E vamos precisar de sua ajuda, pai. – sorriu para James.
– E como poderei ajudar? – ele franziu o cenho.
– O senhor é quem manterá a madrinha distraída. Distante de nós. – Kat ergueu as mãos – Além do pedido, tio Loki tem outra surpresa para ela, então no dia da festa terá que se ausentar por algumas horas. – piscou para Loki – Eisa e eu estaremos ocupadas organizando tudo e os demais ajudarão no resto. – esclareceu.
– De fato nossa mãe precisa de cuidados. – interferiu Fenrir – As crises de hipotermia estão cada vez mais frequentes. Tem que ter alguém por perto para socorrê-la caso algo aconteça. – alertou – E se o senhor de repente ficasse atarefado com algo que não fosse o teatro, ela desconfiaria. – olhou para James.
– Por mim tudo bem. – concordou Jim.
– Eu ensinei a James uma técnica na qual ele pode expandir seu próprio calor, justamente para ajudá-la se necessário. – Loki lembrou – Não é nada comparado como a habilidade nata minha, das gêmeas e de Narfi, mas creio que serve de ajuda. – explanou.
– Só não me coloquem na decoração. – pediu Váli.
– Wagner e eu podemos ajudar nessa parte. – disse Hela – Já montamos vários cenários nas peças.
– Estou à disposição. – aquiesceu Wagner – Por falar em peça, a estreia será dois dias antes da festa, aqui mesmo no palácio. – lembrou.
– Verdade! – exclamou Eisa – Poderíamos fazer uma apresentação especial também no dia! – deu pulinhos.
Depois de devidamente divididas as tarefas para a festa, o grupo começou a se retirar. Hela se aproximou de James, entrelaçou seus dedos nos dele e o casal se postou diante do trono de Loki. O rei de Asgard olhou de James para a filha e obviamente notou o embaraço dos dois. Loki passou uma das mãos pelo rosto, contrariado. Mesmo sabendo que a recuperação da memória de Hela dependia do relacionamento dos dois, ainda não lhe agradava a ideia de vê-los juntos.
– Loki.. – James deu um pigarro – Bem.. Você sabe o quanto amo sua filha e é testemunha de meus esforços para conquistá-la. – viu Loki gesticular para ele ser mais direto – Recentemente, Hela correspondeu aos meus sentimentos e, conforme eu deveria ter feito no passado.. – inspirou o ar lentamente – Vim lhe pedir permissão para namorar sua filha. – revelou.
Hela olhou para o pai e deu um sorriso nervoso. A jovem tremia e suas mãos suavam frio. Conhecia bem o pai para imaginar o pior. Desconhecendo as circunstâncias reais para recuperar sua memória, não acreditava que ele concordaria pacificamente com aquele namoro.
Loki passou a mão pelo queixo e endireitou-se no trono.
– É de sua vontade namorar James? – ele perguntou sem humor para a filha.
O casal o encarou boquiaberto. Nem mesmo James esperava tal reação.
– Sim, papai.. Estou apaixonada por ele.. – Hela disse em um sussurro.
– Sendo assim.. – Loki deu um longo suspiro – O que posso fazer, senão aceitar? – acenou com a mão.
– Mesmo, paizinho? – inquiriu Hela incrédula.
Loki anuiu e revirou os olhos. Hela largou a mão de James, subiu as escadas que levavam ao trono e agarrou o pai.
– Obrigada, papai! – ela exclamou e o encheu de beijos – Eu te amo tanto, paizinho! – abraçava-o forte.
– Está bem. Chega, Hela. – Loki tentava se esquivar, todo constrangido.
– Obrigado, Loki. – disse James tentando conter o riso.
Ao final do dia Hela tomava chá na companhia de James e Aredhel. A rainha ouvia toda sorridente o relato do casal. Ela mal conseguia se conter de felicidade pela boa nova, estava esfuziante. Ainda comentavam sobre Loki, quando um mensageiro foi anunciado. O jovem entrou e entregou um envelope lacrado com o brasão do príncipe Eric. Hela abriu e leu a mensagem em silêncio, sob os olhos curiosos de sua mãe e namorado.
– De que se trata? – perguntou Aredhel não se contendo de curiosidade.
– Bem.. – Hela começou ainda fitando a carta – Ele se desculpa por não ter aparecido hoje e informa que ficará ausente por alguns dias, pois teve que fazer uma viagem urgente. – resumiu.
Aredhel e James trocaram olhares silenciosos.
– Minha filha, creio que você deve uma explicação ao príncipe. – começou Aredhel – Sei que você nunca prometeu nada a ele e que são apenas amigos.. Mas você deve contar a ele o mais rápido o possível sobre seu namoro com Jimmy. – alertou – Afinal, você sempre soube as reais intenções de Eric. Não é justo deixá-lo continuar vindo lhe ver, se não há mais esperanças para ele. Não há nada tão cruel do que alimentar a ilusão de uma pessoa. – meneou a cabeça.
– Aredhel tem razão, meu amor. – concordou James – Além disso, não gosto da ideia dele lhe cercando. As intenções deles vão além de uma simples amizade. Desde o início ele sempre deixou claro que lhe cortejava. – disse enciumado.
– Eu sei. – Hela aquiesceu – Eu esperava ter essa conversa com ele ainda hoje, mas ele não apareceu. – ergueu os ombros – Queria dizer isso pessoalmente. Não quero que fique chateado ou magoado comigo. Ele sempre foi tão gentil comigo. – argumentou.
– Recomendo que assim que ele retornar, você esclareça logo essa situação. – Aredhel foi incisiva – Responda ao bilhete, dizendo que precisa lhe falar sobre uma nova situação. – recomendou.
A jovem aquiesceu e Aredhel se levantou com certa dificuldade.
– Agora vou deixar o casal de pombinhos namorando, enquanto vou atrás de meu esposo. – disse divertida – Hoje, mais do que nunca, ele merece ser mimado. – deu um sorriso malicioso – Até. – acenou e se retirou.
Loki ainda lia alguns papéis em seu escritório, quando Aredhel entrou silenciosamente e o abraçou por trás. Ele se assustou e ficou mais surpreso ainda ao vê-la toda animada. As lembranças dela deprimida ainda o assombravam. Não tinha se acostumado a vê-la tão feliz novamente.
– Meu amor.. – ele tocou o rosto dela – Adoro lhe ver tão alegre.. – disse pensativo.
– Eu não poderia ter outra reação. – falou animada – Estou tão orgulhosa de você. Tão grata. – o abraçou com os olhos lagrimejantes – Obrigada por aceitar o namoro de nossa filha com Jimmy. – fungou – Estou tão feliz. – confessou com a voz embargada.
– Aredhel.. – murmurou o nome dela e afagou seus cabelos.
Ver Aredhel tão emocionada lhe tocou e o arrependimento doeu em seu âmago. Tudo que sempre desejou foi vê-la feliz e agora isso lhe doía tanto. Pois ele sabia que essa felicidade tinha custado caro demais. Se Loki imaginasse todas as tristes consequências de seus atos, teria evitado tamanha dor. Aredhel e Hela pagaram muito caro pela tenacidade dele. Mais uma vez, jamais se perdoaria por tudo o que fez e falou.
Loki encarou aqueles olhos castanhos, tão escuros, mas que brilhavam por ele. “Como pude magoá-la tanto? Fazer-lhe tanto mal?”, questionava-se. Ele se inclinou, beijou a fronte de sua esposa e, em seguida, tomou os lábios dela em um beijo cheio de ternura. Segurou o rosto dela entre suas mãos e deu mais beijos esparsos.
– Ah, meu amor.. Eu te amo tanto.. – ele sussurrou cheio de culpa.
– Eu também te amo Loki. – ela sorriu e voltou a abraçá-lo apertado.
Ele recostou a cabeça na dela, enquanto acarinhava o seu rosto.
– Vamos para nosso quarto. – Loki disse baixinho – Você precisa descansar. – passou o braço pelo dela, conduzindo-a para fora da sala.
Naquela noite, o casal dormiu cedo após muitas trocas de carinho. Aredhel teria tido uma noite tranquila, se não fosse novamente assombrada por seus pesadelos. Entretanto, diferente do usual, este sonho não se tratava de sua discussão com Loki na noite funesta de sua partida do palácio. Esse pesadelo era indizivelmente macabro.
Aredhel estava em um local mal iluminado, deitada sobre uma cama e tinha os braços e pernas amarrados. Servas estranhas circulavam de um lado para outro com bacias, panos e alguns instrumentos. Estava atemorizada, mas não sabia dizer qual o motivo. Uma chuva torrencial fustigava do lado de fora. A rainha podia ouvir claramente o uivo do vento soar tiranicamente.
Amedrontada, ouviu uma serva pedir algumas ervas para que servissem a ela, a fim de amenizar sua dor. Aredhel, ainda se questionava sobre o que ouvira, quando ouviu a voz de seu esposo ecoar no local.
– Não, isso vai demorar! – reclamou Loki saindo das sombras e sendo iluminado por um relâmpago, revelando um rosto frio e severo – Quero que meu filho nasça o mais rápido o possível. – disse impaciente.
– Mas senhor.. Ela sofrerá muito.. – murmurou a serva penalizada.
– Não me interessa! Só o tire dela! – rosnou Loki.
Aredhel, sentiu uma forte dor no baixo-ventre e tentou gritar, mas sua voz não saía. A dor se intensificou e então ela ouviu a serva começar a balbuciar palavras confusas.
– Morto.. O bebê nasceu morto.. – a estranha serviçal falava assustada.
– Não.. – Aredhel gemeu baixinho em desespero – Meu bebê.. – começou a chorar.
– Sua imprestável! – sibilou Loki – Aredhel, você matou meu filho! Matou meu filho! – berrou.
Ainda tomada pela dor da revelação, Aredhel sentiu sacudirem seu corpo e chamarem seu nome. Ela abriu os olhos e viu os de Loki a encará-la assustado.
– O que houve Aredhel? – ele perguntou alarmado – Você estava gritando e chorando. – disse preocupado.
Loki viu a esposa empalidecer, levar ambas as mãos ao ventre e desmanchar-se em lágrimas.
– Aredhel? Está sentindo algo? Pelos deuses, fale comigo. – ele disse com urgência.
– Pesadelo.. – foi tudo o que ela conseguiu dizer, em meio aos soluços.
O rei a abraçou apertado. Havia algum tempo que ele era consciente dos pesadelos de Aredhel, bem como de sua cota de participação neles. O remorso o consumia.
– Shhh.. Está tudo bem, meu amor.. – Loki acalentava a esposa desolada – Foi só um pesadelo.. Só um pesadelo.. – repetia.
– O bebê.. O bebê.. – soluçava desamparadamente – Ele.. Ele.. – não tinha coragem para completar a frase.
– Nosso filho e você vão ficar bem. – Loki a interrompeu – Foi só um sonho ruim. Eu cuidarei de vocês. Eu prometo, meu amor. Nada de ruim acontecerá. – disse com veemência – Não foi um sonho premonitório, não é? – interpelou temeroso.
– Não.. Acho.. Que não.. – balbuciava confusamente – Mas.. Mas.. Foi horrível.. – voltou a chorar.
– Não fique assim.. – ele a apertou entre os braços – Não é uma premonição. Se fosse, você saberia. Você sempre disse que era clara a diferença entre seus sonhos comuns e suas premonições. Reclamava que sofria a tal paralisia durante o sono. Que não conseguia se mexer. Além disso, se fosse uma visão do futuro, não só você veria, como Einmyria também. – lembrou.
Aredhel achou lógica a explicação dele, ou pelo menos, queria acreditar nela. O fato de estar amarrada no sonho e de não conseguir reagir, dificultava o discernimento entre uma premonição e um pesadelo sinistro. Mas com toda certeza, não conseguia acreditar que o marido conspirasse daquela forma contra si. Nem mesmo há meses, ou em seu mais louco devaneio, Aredhel poderia crer em tamanha crueldade por parte de Loki. “Ele não seria capaz.. Não seria.. Ele me ama..”, repetia mentalmente tentando afugentar as lembranças do pesadelo.
– Acalme-se e volte a dormir, meu amor. – sussurrou Loki – Você está segura em meus braços. – afirmou.
Loki a embalou carinhosamente até que se acalmasse. Depois de quase uma hora, Aredhel finalmente aninhou-se nos braços dele e entregou-se ao cansaço, adormecendo novamente.
Na manhã seguinte, longe do palácio. O príncipe Eric apeou de seu cavalo e marchou decidido pelo palácio de uma bela e conhecida mulher. Jactante, ele exigiu que a mulher lhe fornecesse meios para conquistar Hela. Prometeu à bela loira uma grande fortuna, pedindo em troca o amor de sua amada princesa.
– Eu entendo sua angústia, majestade. – começou Freyja – Eu posso lhe oferecer uma infinidade de poções de amor. Entretanto, devo alertá-lo de que nenhuma funcionará se o que a princesa sente for algo puro. – estreitou os olhos.
– Como assim? – inquiriu intrigado.
– Se o que ela sente por tal homem for um sentimento verdadeiro, nada funcionará. – ela meneou a cabeça – O amor verdadeiro, ainda que no início, mesmo sendo apenas uma paixão ainda, é mais forte que qualquer magia ou poção. Nada pode destruí-lo, apagá-lo ou ludibriá-lo. – foi enfática – Na verdade uma poção dada a alguém que ama outrem, pode fazê-la lhe odiar. A empatia pode virar aversão. – alertou.
– Maldição! – rosnou Eric – Eu não tenho ideia dos sentimentos dela. — cerrou os punhos.
– Majestade, acha que com um pouco mais de tempo, conseguiria conquistá-la? – Freyja perguntou com argúcia.
– Sim! O problema é aquela tal de James! – resmungou impaciente – Vive a cercando! Temo que a tenha conquistado e que consiga tirá-la de mim! – bufou.
– Hum.. – a loira passou os finos dedos pelo queixo – Acho que tenho uma coisa melhor a lhe oferecer. – rondou o príncipe feito uma gata – Creio que se casando com Hela, poderá conquistá-la com o tempo. – deu um sorriso malicioso.
– E por que ela se casaria comigo, estando interessada em outro? – ele rebateu de forma impolida.
– Ah.. – riu a loira – Casaria sim. Eu lhe asseguro. Sabendo o que sei, você conseguirá que ela se case com você. – afirmou o encarando com olhos astutos.
– Quanto você quer por este segredo? – Eric sorriu de lado.
Freyja alargou o sorriso e bateu palmas.
– Saga! – ela chamou um serviçal – Traga hidromel para nós! – ordenou – Eu e o príncipe Eric precisamos brindar ao noivado dele. – disse esfuziante – Em breve ele se casará com Hela, a princesa de Asgard! – anunciou.
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