Asfixia

1 Asfixia


O cão deu as costas ao corpo cujo cheiro, insuportável, afastava a todos os outros animais. Até mesmo aos urubus. Talvez a curiosidade canina fosse maior do que aquela que mata tantos gatos na boca de velhos deitados por aí. Aquele velho continuaria deitado por muito tempo.

Também deitado o Fim, encapuzado, empapuçado, observando com Preguiça a Lâmina recostada na parede, que encarava de volta de maneira perspicaz. A quem pertenceriam os olhos nela refletidos?, uma ponta de sanidade bruxuleante perguntava, em vão — a inconsciência se sobrepunha algoz num golpe de misericórdia.

Um tiro. Gritos. Pneus desafinados cantando no Asfalto. Depois os uivos de sirenes, mais gritos, o aparelho marcando o passo da vida. Bip…Bip…Bip…

As Nuvens, indiferentes, continuam seu calmo passeio pelo Céu. Diferente da Fumaça, sempre apressada, voando baixo e rápido e dispersa e desfeita, volátil presença fugidia. Já a moça não fugiu. Não conseguiu. O vapor de suas lágrimas foi encontrar as Nuvens, acima da Fumaça, que não pensavam chorar tão cedo por ali.

A Seca, parada, apenas assistia. Pior que morrer de sede em água salgada é conhecer a tifoide em reserva envenenada — Rio asfixiado pelos bueiros e fábricas da Cidade desenvolvida não envolvida no próprio processo de sobrevivência. A criança bebeu um gole da lágrima suja no Córrego de trás e voltou para casa beirando o esgoto para não se perder.

A cortina subiu quando o Vento passou para velar o amigo. Não apareceu para brincar por semana, uma pipa a menos. A mãe, zelosa, expulsou a visita e fechou a janela. O corpo queimava. Chorava, quando tinha forças para tanto. Cagava água, agora sangue. Dormia a maior parte do tempo — talvez desmaiasse. Ficava no Sofá, desconforto do lar; longe do hospital e sua lotação ainda pior.

Terço, búzio, carta, vela, varejeira zunindo alto, gota de suor na página sagrada. Escuro azul girando rápido. Uns morrem, uns vivem. Alguns delongam, empalhados. Ela não; seu filho é mais para si. Batá. Palha nos olhos protege Cavalo, conversa de Santo de Espelho e Algodão. Nem qualquer um faz isso não; a gente faz — um por um, troca justa.

Enfermeira sente o peso das pálpebras mesmo com a agulha na mão. Já não há condições de trabalhar. Emergência lotada, repórteres cheios de frescura fazem acusações e retornam às suas casas, limpas, seguras, isoladas da Plebe, carregando no peito a certeza do dever cumprido. O relógio não pára, mulher baleada no seio esquerdo, flecha de chumbo no coração. Dever comprido cansaço leva consigo. Turno segue, adrenalina, sôfrego arrastar desperta com cheiro de morte. Estanca. Pulso. Cirurgia. Ninguém morre. Não há Sono, de fraqueza ou Fim. Por reza brava de banca de jornal. Vira Dia, vira Noite: ninguém dorme.

Bip…Bip…Bip… O que é a dor do corpo frente à da alma? Como discernir?, pergunta de volta, Você é como minha filha que outra enfermeira não soube salvar. Quem salva é o médico. Quem salva é quem age, médico fala mas não suja as mãos. Quem é você? Eu rezei e você vive. De branco a figura se afasta, sozinha mas passando a estranha impressão de acompanhada. Meio cá, meio lá. Deixando a viva com suas lembranças e Pesadelo.

Bonita pequena no banco do carro – aqui ninguém te escuta gritar. A mão é pesada como deveria ser a consciência. O sorriso denuncia: não é. Deveria. Em algum lugar Acaso ri, Loucura se espalha, e sabe-se lá o que mais. Os Donos do mundo gozam como gostaria o velho, quem lhe dera. Se não dão o que quer ele compra. Se não vendem ele toma. Vontade é pra quem não pode nada. Mas diga tal máxima a quem já não tem o que perder. Existe Coragem e existe isso, essa certeza inominável daqueles que não têm o que abandonar ou considerar nem desculpas às quais se apegar. Nesse estado Medo esquiva Parcimônia foge Paz remite, mal menor por bem maior. Ainda que o vidro blindado suporte, o barulho da pedra no transparente escudo cria seu instante de tensão.

Esforço por nada que nada levanta mirrado alquebrado. Olhos não abrem, só lasca em metal, observar. Lado de lá janelas também, pregadas na fé de quem não sabe o que quer, encontram resistência que nunca sentiu. E o trabalho fica, vai ficando, vão ficando, enche que enche esse mundo de cá; de dor, sofrimento, angústia sem fim pra quem quer se livrar e deixar levar e quem sabe não ancorar assim. Tristeza maior é enterrar infante. Ou não, que o corpo ‘tá aqui. Não come, não bebe, não mexe mas está. Ainda geme, chora sem choro que tudo já secou. Só osso; e mãe também. Foi lá e não voltou. Precisa descanso. Não é só trocar, tem que buscar.

Carro derrapa no chão de sangue. Atropela. Levanta. Braço esquerdo pendurado, costelas fraturadas, dentes no chão. Carro. Atropela. Levanta. Crânio afundado, desfigurada. Rasgados pele e pano. O velho no carro conhece aquelas coxas, já apalpou, apertou, bateu. Pegou à força, a lei é do mais forte, é de quem pode pagar. E as coxas se lembram, a memória se enraíza em todo o corpo. Lembram com desgosto, com revolta, ânsia e ódio. Se lembram mais, não deviam estar lá. Apaga, voz do velho esfumaça longe na memória rasa, que quero deitada e calada. Alguém. Tiro. Flash. Carro. Atropela. Levanta. Ninguém morre.

De branco, sentada, corpo descansa peso da alma. Outro grito! Ecos e ecos no fundo da insanidade. Lâmina, roubada, apreende vida. Eco de débil mirar pueril busca fantasmas em prisão disforme sem interrupção de agonizante viver sem vida. Muitos, tal qual mesmo, nada mais a atuar que não peça de avassalador tormento. Noutro além, casulo de aranha de cabaça de baobá ata fim do Fim, de outrem. Tudo branco. A fé é o medo com força de ação, de angústia enraizada que move os alicerces do que não há, mas está, presença imposta expiatória.

Atrás dela vozes tantas, semelhantes, vontades impróprias crescendo em multidão, inqualificável aflição. Doutro lado abismo pálido rindo portentoso terror de eternidade. Luta injusta de poderes irreais. Pisado, jornal velho. Ninguém morre!

Charco, tormento, explosão no céu ecoa luzes ásperas do chão quente de um anoitecer estranho. Restos, caídos, não movem como antes. Vai tarde. Fede escorre e córrego, mato alto tudo oculta, lodo enterra. Quina escondida lá de cima da favela.

Súplicas replicadas na força de uma mãe encontram Lâmina terminal. Velho chuta em trapo de gente. Última vez cuspi no cú, agora na cara pra ensinar. Muque de bater roupa não arrefece com louca, cabo, cabeça, sangue brota fio de saber de quem precisa aguentar e lutar. Vozes e vozes, fé do mundo luta junto. Lembrança de horror, capacho humano, vontade de viver. Lágrima escorre novamente, evapora como outra vez. Seca hoje dá as costas, deixa o céu gritar também. Lâmina ao chão, mãe vira bicho, urra e vai. Sombra descorada sente peso bruto de luta truncada. Solta ele, ouve e ri. Não pode perder, imóvel Fim nada impõe. Histérica sabe, nunca acaba. Mãos no pescoço, boca Seca. Velho ao chão, não cospe mais. Língua enrola. Gesto mesmo, cá e lá, imoladas niveas vestes em lama escura. Mãe preta enforca velho, moça enforca salvadora. Olhos nos olhos, órbitas já sangrentas vêem alma despedaçada de quem não suporta mais. Busca verdade, rente ao corpo, foice que acaba tudo. Criança. A ruína de quem precisa morrer encontra santa mãe moça velho num repente de trovão. Impiedoso, espírito impede chorar. Sofrimento. Compreende. Asfixia. Fim.

Pequeno se despede, medo e alegria. Moça cai, rio leva. Outra, do carro, foge. Velho deitado lá apodrece — só um cachorro a visitar.

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