Notas iniciais
Primeira original publicada. =)
Boa leitura!

asfixia [ks] ; nome feminino

Suspensão dos fenómenos da respiração; sufocação; Restrição ao livre desenvolvimento ou atuação; opressão

(Do grego asphyxía, «paragem de pulso»)

In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-03-13].

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Inclinada sobre a banheira vazia de água, borbulhante em seu líquido erótico opressor, Ella asfixiava, lentamente. Dolorosamente.

A sua respiração eram suspiros, gemidos e gritos indolores de súplicas em desespero. Enquanto o seu corpo se contorcia em tensão reprimida, Ella asfixiava uma pouco mais. Mergulhada na banheira seca e limpa, Ella se molhava cada vez mais, perdida nos desvairos absortos da sua mente doente. Ella alucinava, um pouco mais. Ella se desprendia em direção a algo que ela queria desesperadamente alcançar sem saber como e de que maneira.

A sua mente, misto de vácuo e de preenchimento, vagava, mais uma vez. A mão dela percorria a canela dormente e fria, buscando chegar ao entendimento de tudo aquilo que a asfixiava. Para se libertar. Para se sufocar, irremediavelmente. A palma da sua mão suada e quente, contestando o seu coração, vagava. Livre, mas presa, ainda assim.

Ella deixou que os seus olhos se fechassem, se comprimissem como cada pedaço do seu corpo despido e nu. Molhado. E aquela mão, trémula e hesitante, buscava a sua asfixia em desespero. Contínuo.

Pelas memórias dela, entorpecidas pelas sensações carnais e libidinosas do seu corpo em alerta constante, a opressão e a culpa a asfixiavam. Só mais um pouco, enquanto a mão dela subia pela perna bem torneada em direção ao joelho cicatrizado. E a banheira enchia.

Ella se debatia, em sufocação, privada do desejo que a consumia por dentro. Naquele lugar, só dela, estrangulado em asfixia. E Ella sabia o motivo, mas não sabia.

A dor que Ella sentia; o sufoco; a falta de ar era incontrolável, ao mesmo tempo que a mão dela tentava subir, ancorando contra a vontade na coxa ensopada em água salgada. As suas lágrimas.

Ella procurava se concentrar agora, buscar lá dentro das suas memórias, escondidas, recalcadas nos traumas da sua asfixia. Porque se sentia suja daquela maneira? Ella se questionava. E no mesmo instante, a imagem do filho do homem da carne a preenchia enojadamente. O membro ereto daquele homem surgiu comprimido na sua mão, desviando a atenção da sua própria coxa, onde minutos antes Ella tinha ancorado a sua mão. O ar escorregou para fora dos pulmões dela na mesma hora que ouvira uma voz grave e repugnante perguntando-lhe se estava gostando daquilo. E a garganta dela fechava deliberadamente, asfixiando o oxigénio que tentava entrar para permitir que Ella permanecesse. Mas Ella não queria, porque permanecer significava sentir aquilo. Aquela imundice. Ella precisava asfixiar, depressa.

Porque o filho da carne é depravado, corrompido em pecado desvirtuoso? Ella se perguntava, enquanto tentava mover novamente a mão em direção à sua virilha. Transgredindo os limites da própria sensatez, Ella se entrou em si mesma. E a sua garganta abriu novamente, fazendo com que todo o oxigénio, permitido pelo pequeno espaço onde estava, a consumisse novamente.

Asfixiando, no ato predador e sexual da sua própria mão, Ella esquecia. Ella asfixiava a sensação de miséria e de nojice do mundo que os homens transformaram. E as suas lágrimas escorriam pela sua face no mesmo momento que a sua mão saía e entrava, ritmada. A coordenação motora, psíquica e emocional que Ella precisava para isso, a asfixiava.

Consternada pela falta de algo que nem sabia bem o que era, Ella chorava, e bem fundo, lá dentro dela, guardado a sete chaves, ela pedia e rezava. A Ele. Para Ele. Por Ele.

Ella suplicava pelo perdão, mas não sem antes pedir, implorar pela compreensão. Pelos porquês. Ella precisava ascender de uma forma tão metaforicamente dolorosa que ela orava cada vez mais. E com cada estocada doente dentro do seu sexo dorido e exausto, Ella asfixiava. Mais, com mais força, e de forma, quase, permanente.

Ella precisava descobrir, desvendar os mistérios indissolutos de tudo aquilo que contrastava com a natureza humana. E talvez aí, Ella se perdoasse. Talvez, dessa forma, com a ajuda d’Ele, Ella conseguisse seguir em frente com um sorriso sincero nos lábios. Talvez ela pudesse descobrir a verdadeira forma de amar. E nessa altura, talvez Ella, se “DES-asfixiasse”.

No entanto, enquanto isso não acontecia, da borda da banheira emergia a água das lágrimas de Ella. E Ella, asfixiava, mais uma vez, em espasmos ensopados de prazer.

Notas finais
Sem mais a declarar,
obrigada por lerem!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!