Ascensões & Quedas
1 Capítulo 0 - I
Notas iniciais
Capítulo 0
Parte 1 – Vulnerabilidade
A pequena biblioteca estaria vazia, não fosse a sombra em frente à grande janela. Acompanhada de um bem desenhado copo de cristal, contemplava a noite avançada com insistência. A sua volta apenas os livros e uma velha poltrona testemunhavam seu silêncio.
O homem agitou delicadamente o resto do líquido no copo, observando divertido o lento movimento. Após alguns segundos, levou à boca, cerrando os olhos no processo disposto a saborear até a última gota. Quando voltou a abri-los, os orbes, antes totalmente âmbares e brilhantes, escureciam lentamente até se tornarem totalmente negros.
Os olhos correram do pulso ao torso, as bandagens que os envolviam levemente avermelhadas. Apoiou o copo, agora vazio, no parapeito da janela e tocou o ferimento sobre o peito. Conseguia sentir resquícios do formigamento anterior, mas não conseguia decidir se era real ou apenas mais uma memória física. Como a de suas asas.
A consciência de algo úmido dentro de sua palma chegou tardiamente, as unhas já haviam encravado na pele e a rompido. O sangue escorria da mão aberta enquanto ele observava os cortes, mas sem os ver realmente. Estava pensando em sua fuga.
Voltara a ser uma sombra na biblioteca.
Uma mancha vermelha se formava aos seus pés: o tapete encardido absorvia aquilo que não se importara em impedir de fluir. O copo vazio ainda no parapeito. Os livros ainda testemunhas. E a poltrona velha.
Estendeu a mão para a capa que jogara sobre a poltrona assim que chegara. Estava rasgada e suja, no entanto foi com extrema delicadeza que a segurou. Era negra como agora eram seus olhos. Estes apertaram em irritação enquanto segurava com mais força a vestimenta.
Rasgar aquele pedaço de pano velho fora mais difícil que abandonar seu dono. A dor que sentia ao cobrir a mão sangrenta com a tira de pano nada tinha a ver com o ferimento.
A entrada súbita da criança o despertou de seus pensamentos. Lançou-lhe um breve olhar ausente, apenas para voltar-se mais uma vez para a janela, pisando nos restos da capa no caminho.
Estranhamente quieta, a menina andou até seu lado, atravessando a pequena biblioteca com passos hesitantes. A presença dela era opressora e a cada passo que se aproximava amplificava as dores que deviam ter desaparecido. Conseguia sentir os ferimentos abrindo e voltando a sangrar, não apenas os físicos. E por isso ele a odiava.
Era pequena e negra. Como sua capa, como seus novos olhos. Os cabelos cacheados mal chegavam aos ombros. Os olhos eram grandes, brilhantes e inocentes. Caramelo. O corpo miúdo, pequeno demais para uma garota de sua idade. Frágil e doente.
“Cheiro de morte.”
– Quantos anos um demônio pode viver?
A voz dela soou melodiosa como sempre, nada que pudesse surpreendê-lo. Não se atrevia a fitá-la, apesar de sentir o peso dos olhos dela sobre si.
– A pergunta não é quanto ele pode, mas quanto ele quer.
Soara-lhe como se um desconhecido estivesse falando por ele. Não reconhecia mais a própria voz.
– Quantos anos você quer viver?
Sem alternativa, analisou-a. A garota o fitava com os grandes olhos inocentes cheios de curiosidade mal disfarçada. As mãosinhas agarravam a barra da camisola enquanto ela tentava manter o contato visual. No entanto foi a primeira a quebrá-lo. E aquele gesto deixou-o satisfeito.
Era um demônio no final das contas.
– Vou viver mais do que gostaria.
– Mas se não quisesse viver, por que veio para nossa casa?
Conseguiu ouvir sua consciência repetindo a pergunta da maneira certa:
“Se você queria morrer, por que fugiu?”
Deu por si analisando a mancha escura no tapete: seu sangue. Quantos lugares já tinha marcado daquela forma?
O toque gentil sobre seu braço o trouxe de volta a realidade. A garota estava visivelmente perturbada e parecia esperar alguma resposta para a pergunta muda que lhe fazia. Mas como responder algo que nem mesmo ele sabia a resposta?
– Não havia outro lugar para ir.
Não era uma mentira, mas não respondia o que ela gostaria de saber. O que ele gostaria de saber.
– Meus pais choram a noite por minha causa. Descobri não tem muito tempo. – sussurava, a voz falhando em alguns pontos – Seria melhor se eu desistisse, mas eu não consigo. Por quê?
Os olhos estavam vermelhos e cheios de lágrimas. Não era inocência o que via refletido em seus orbes caramelo: via apenas o seu próprio rosto. Tão claro como se olhasse para um espelho. Odiou-a ainda mais depois disso.
Continuou calado, sabendo que só teria a oferecer palavras vazias. Palavras vazias com as quais vinha se alimentando. Palavras vazias que não eram suficientes para ele sozinho e por isso não as dividiria.
Ela era apenas uma humana, ainda que não completamente.
O controle que havia se imposto aos poucos ia se dissolvendo. Enterrou nervoso ambas as mãos nos bolsos da calça que usava, apenas para não deixar que a menina soubesse de sua fraqueza. Ainda não se acostumara com a aura que envolvia aquele lugar, seu corpo não conseguia mais se recuperar na mesma velocidade e ao lado dela os efeitos eram ainda piores.
Se adaptar a um lugar com tanta carga sagrada junta seria extremamente difícil. Entretanto era o único modo de manter-se longe das vistas dos perseguidores.
“Mas para quê se dar ao trabalho?”
Respirou profundamente. Deixou-se ler as expressões da menina, que não mais lutava com as lágrimas. Ela fazia o mesmo que ele vinha fazendo desde que chegara naquela casa: observava através da janela o vale que se estendia até o horizonte.
– Você ainda pode sair, não é?
Analisou bem aquela pergunta. Ele poderia?
– Você pergunta demais, pirralha.
Levou a mão boa aos cabelos, correndo o dedo por todo o seu comprimento, desalinhando-os no processo. Segurando uma mecha da franja, pensou que seria bom cortá-los: as pontas mais compridas já lhe batiam abaixo do ombro. A mão tremia levemente, mas já não se importava se a garota veria ou não. Teria que aprender a conviver com ela, querendo ou não, pois não sairia dali. Não, ele não podia sair.
Entregara seu mais precioso bem para compensar o sacrifício que fizera. Deixara seu servo e amigo por conta própria, mesmo sabendo que desde o início havia lhe garantido que estaria sempre ao seu lado. Quebrara sua palavra e transformara sua honra em lixo. Para quê?
“Por ela...”
Dobrou-se sobre si mesmo, apertando o ferimento do peito. Aquela dor era mais uma memória que seu corpo teimava em se apegar, não existia, não poderia existir. A criança ao seu lado segurou-lhe o braço, nervosa.
– O senhor está bem?! Quer que eu chame meu pai?
Seus olhos se encontraram com os dela. A criança calou-se e soltou seu braço abruptamente, virou-lhe as costas e correu para fora do quarto. Havia feito mais uma vez...
“Assustei uma criança humana apenas por diversão, onde está você para me repreender?”
O tapete mais uma vez absorvia aquilo que não impedia de fluir. Uma poça escura se formava ao lado da mancha de sangue aos seus pés.
O riso ecoou na biblioteca. Um som assustador.
Os livros, o copo, a poltrona e o tapete testemunhas de uma impossibilidade.
“Lágrimas de um demônio, huh?”
Fale com o autor