Ascensão - Descobertas
2 Águias
Notas iniciais
E aqui estamos. Valond, o último lugar onde eu iria querer estar em toda minha vida. Todos os que me caçam estão aqui e agora eu sou obrigada a andar pelas ruas como se nada pudesse acontecer a qualquer momento. Não gosto disso.
– Ah, a cidade dourada – falou Tillie, claro que isso chamou minha atenção imediatamente.
– “Dourada” não é exatamente a palavra que eu usaria. – realmente, de dourada essa cidade não tinha nada, afinal, qualquer coisa que fosse dourada era roubada.
– Tinha que ter visto quando o rei Adrian era vivo, essa cidade era linda, sempre limpa e era tão harmoniosa que diziam que ela brilhava.
– Ele era um homem bom... para um humano. – disse Zander logo atrás de nós. Ele está querendo dizer que nós humanos somos o mal encarnado? Eu deveria ficar ofendida ou concordar?
– Vamos nos focar no nosso objetivo. – Tillie chamou a atenção de todos – Aida é perigoso andar sozinha por aqui, mas se quisermos que você consiga entrar para As águias é assim que faremos. – ela me entregou um tecido preto que estava dobrado – use isso e não tire esse capuz a menos que queira problemas. Descubra tudo o que puder sobre eles e então nos encontre aqui no final do dia, certo?
“Certo?” Eu não tenho outra opção, tenho? Isso está me dando um pouco de medo, mas ao mesmo tempo me excita a ideia de poder andar pelas ruas novamente. Vesti a capa longa e coloquei o capuz sobre os cabelos, escondendo-os. Respirei fundo e olhei para Sky.
– Certo.
– Tenha cuidado, ok?! – falou Sky me abraçando.
– Ei, fique calma, até parece uma despedida final...
– Cale a boca. Ouça, se alguma coisa der errado, apenas corra, certo? Não posso perder você também. – o tom dela me fez concordar imediatamente, Sky nunca usava aquele tom sério. Olhei para Zander e sorri de lado, não me cansava de olhar para ele.
– Não morra Aida. – ele falou, arrancando uma risada minha.
– Não vai ser hoje, elfo.
Eles se afastaram e eu fui caminhando pelo beco para então sair na principal rua da cidade. Extremamente movimentada, por pessoas, comerciantes, bêbados, crianças, cachorros e soldados. Aposto que metade dos que andavam ali não viam a hora de roubar alguém. Estou desarmada, isso não é nem um pouco bom, apesar de ter dito para Sky que fugiria caso algo desse errado, o que eu mais queria era uma boa briga, fazia tanto tempo que eu estava vivendo totalmente contra minha filosofia. “Bata primeiro, pergunte depois”, minha vida nos últimos seis anos era algo como “corra antes, pergunte depois”.
Entrei numa taverna, pois tenho certeza de que estava sendo seguida por um homem mal encarado. Logo vi um homem baixo, gordo e careca discutindo com outro alto, de pele branca e cabelos loiros, ele usava uma camisa preta com um decote que chegava até sua barriga, era do tipo que eu levaria para a cama numa noite qualquer.
– Nós não somos amigos e eu não vou te dar desconto nenhum, saia do meu bar! – vociferava o homem baixo.
– Ora vamos, não pode me expulsar – o loiro olhou para mim – eu tenho uma ótima noticia para dar! Eu vou ser pai e olha só, minha mulher acabou de entrar!
Que diabos? Já vi que ele é daquele típico cara chato de bar que não pode ver um rabo de saia que já cai em cima.
– Você! – apontei o dedo para ele – Vai ter que começar a ser mais responsável a partir de agora ou eu não vou deixar você ver esse bebê! – segurei o riso quando vi a cara de confuso dele – O que pensa que está fazendo da vida? Eu vendo flores de porta em porta todos os dias e você fica o dia inteiro bebendo no beco!
– Está louca garota? Eu nem te conheço e você está me acusando! – ele acabou se entregando ao ficar furioso com o que eu disse.
– Eu sabia que você era um vagabundo salafrário, saia já do meu bar! – vociferou o dono.
– É melhor se cuidar garota, se eu te encontrar na rua vai ver! – o loiro ameaçou.
– É melhor você se cuidar, não sabe quem eu sou. – retruquei, olhando-o sair irritado. – Quem é ele afinal? – perguntei para o dono.
– Ah, ele é um problema. Quando não está bêbado pelos becos está com as “mulheres da noite”, se é que me entende. – ele respondeu indo para trás do balcão cheio de clientes.
Aquele homem que me seguia já deve ter ido embora ou ido atrás de outra pessoa. Saí do bar e analisei o que havia em volta, vários estabelecimentos, mas o que mais me chamou a atenção foi um ferreiro. Entrei na loja e dei de cara com um par de adagas penduradas na parede ao fundo. Eram lindas, a lâmina tinha a cor preta e o cabo era de prata talhado com arabescos. Preciso delas.
“Caham” ouvi atrás de mim e dei um pulo, olhando para um homem de meia idade parado com as mãos na cintura.
– Pelos deuses... achei que era um urso! Não sabe que não se assusta damas desse jeito?
– Uma “dama” não estaria babando tanto assim por essas adagas. – eu encarei tanto assim? Não havia como contra argumentar com aquilo, afinal de dama eu não tenho nada.
– Você as fez? São lindas. – falei voltando a olhar para as armas.
– Sim, as forjei para uma jovem como você, quando eu ainda era jovem também. – ele respondeu com sua voz de trovão. O homem estava vestindo apenas calças, tinha os cabelos encaracolados e loiros, uma barba espessa cobria seu rosto. Notei que ele me olhava com certa dúvida na expressão – o que uma nobre iria querer nesta parte da cidade?
“Uma nobre?” como ele... passei a mão pelo capuz e notei que uma fina mecha do cabelo estava caída para fora. Ele tinha um olhar realmente atento. Eu não sabia o que responder.
– Engraçado, você tem a aparência de um nobre, mas não se parece com um. – já ouvi isso.
– Como é aparentar ser um nobre?
– Além dos cabelos brancos... nunca encontrou um nobre? – ele perguntou me olhando de cima abaixo, por algum motivo eu baixei o olhar, me lembrando do dia em que conheci Sky.
– Sim, uma vez...
– Você se sente como uma criança indefesa, seu estômago revira e os pelos do seu corpo ficam arrepiados. Mas com você é diferente, sinto só meu estômago embrulhado, mas provavelmente é meu almoço.
Isso me faz pensar o motivo de as pessoas não chegarem perto de mim em qualquer lugar que eu vá... se eu não tenho a presença de um nobre, por que ter medo de mim?
– E então, o que posso fazer por você? – ele perguntou.
– Bem... achei as adagas muito interessantes, podia me dar um desconto... – sugeri.
– Elas não estão à venda. – isso me desanimou. – Mas foram originalmente feitas para uma nobre... talvez eu as dê para você.
– E com isso vem um favor, aposto.
Ele riu – Exatamente. Me faça um pequeno favor e eu te darei, elas ficaram nessa parede por muitos anos, está na hora de verem um pouco de ação.
– Certo. Quem quer que eu mate?
– Ninguém! Olhe, eu tenho uma filha, Anissa, ela é dona de uma loja de vestidos nessa rua, brigamos semana passada e desde então ela não me deixa ver meus netos. Convença-a a falar comigo e então as adagas são suas.
Eu ri – isso vai ser fácil.
– Certamente você não a conhece.
Saí da loja do ferreiro e andei até a loja de vestidos por onde havia passado alguns minutos antes. Uma mulher loira me recebeu.
– Como posso te ajudar?
– Por um acaso você é Anissa? – ela fechou a cara.
– Quem pergunta?
– Seu pai me mandou aqui para falar com você...
– Ah, bem típico dele. Mandando os outros para resolver seus problemas. O que ele te ofereceu, dinheiro, armas? – ela pareceu bem irritada. – Olha, esqueça isso, não é problema seu...
Ah é sim, preciso daquelas belezinhas.
– Sabe, eu não conheci meus pais, nunca tive contato com eles, mas tenho uma amiga há muito tempo e por mais que nós briguemos as vezes, sempre podemos contar uma com a outra, nos importamos e cuidamos uma da outra. A última coisa que eu desejaria nesta vida, seria morrer sem ter dito tudo o que devia à ela ou então enquanto estivéssemos brigadas. Não importa o motivo, o laço que vocês compartilham supera tudo. – não sei de onde tirei esse discurso.
– Isso é... realmente muito tosco, mas vou pensar no assunto. Mais alguma coisa que possa fazer por você?
– Não... isso é tudo. – saí da loja e resolvi dar uma volta na feira, sempre me certificando de que meus cabelos estavam devidamente escondidos debaixo do capuz. Roubei uma maçã no caminho de volta para a ferraria, estava com fome. Quando estava entrando na ferraria, Anissa estava saindo, ela me cumprimentou com um aceno de cabeça e sussurrou um “obrigada”. Entrei na loja e fui recebida com um sorriso do ferreiro.
– Bem, como eu prometi, as adagas são suas. – ele falou me entregando o par. – Tome cuidado nobre, seja lá o que pretende fazer com elas.
– Terei.
Saí daquela rua e cheguei à uma praça com alguns outros estabelecimentos, mas em sua maioria hotéis. Não havia nada por ali que indicasse a presença das Águias e isso começava a me perturbar, como uma gangue que controlava toda uma cidade não dava nem sinal de existência? Caminhei pela praça observando a movimentação das pessoas, tive a infelicidade de me aproximar da porta de um hotel e encontrar com o loiro do bar.
– Veja só quem está aqui, a gracinha do bar. – ele veio falando alto como se fosse arrumar a maior confusão, mas então parou no meio do caminho, seu olhar não estava mais fixo em mim, mas em algum ponto acima da minha cabeça, foi então que eu notei que a praça havia ficado silenciosa.
“Coisa boa não pode ser” pensei comigo mesma.
– Adorei essas adagas no seu cinto, não quer me emprestar uma? – confusão, é claro. Me virei, já sacando as duas adagas e me deparei com seis homens bem mais altos do que eu.
– O chefe quer a garota viva, podem matar o outro. – ouvi um deles falar. Não conseguia ver seus rostos, estavam todos encapuzados.
– Podem tentar. – falou o loiro, partindo para cima dos seis homens e derrubando dois deles no chão. Claro que não me restou muita alternativa além de entrar na briga, mas não é como se eu estivesse achando ruim. Entre socos, rasteiras, chutes e cortes os seis acabaram correndo depois de apanharem bastante. – Você briga feito uma garota, gracinha.
– Era pra me insultar? Se quiser podemos nos insultar com os punhos! – falei já me irritando com ele e pronta para brigar, mas alguém me segurou pelos braços.
– Quanta exaltação. – reconheci a voz de Zander.
– Você está bem? Viemos assim que ouvimos a confusão! – falou Sky toda preocupada.
– Estou ótima. – respondi cerrando os dentes. Só queria bater naquele loiro. Percebi então que Tilie o encarava, do mesmo modo que me encarava na caverna antes de perguntar sobre os nobres.
– O que um Cavaleiro faz aqui? – ela perguntou, analisando a tatuagem que ele tinha no ombro direito – achei que as Águias haviam acabado com toda a Ordem.
– Eles acabaram. Pouquíssimos de nós sobreviveram. – o loiro respondeu.
– Ah eu sinto muito, imagino que tenha perdido muitos amigos. – Tillie nem o conhece e já está derretida assim? Me sinto ofendida, minutos atrás eu podia jurar que ele estava me provocando.
– Sim... perdi. – oh, vejam só, ele tem sentimentos. Me sinto ainda mais tentada a bater nele agora.
– Desculpe a intromissão, mas... como sobreviveu?
– Meu irmão, ele... – o vi morder os lábios.
– Não devia ter perguntado me desculpe.
– Oi? Alguém explica isso!? – me intrometi.
– É melhor nós conversarmos no Falcon, aqui pode não ser seguro. – falou Tillie, se dirigindo a um estabelecimento isolado.
“Pode não ser seguro”? Acabei de quase morrer para seis homens da gangue à qual preciso me juntar, é mais que óbvio que não é seguro!
– A ordem estava enfraquecida, estávamos obcecados em desmascarar a farsa as Águias e nem nos demos conta de que aquela pista podia ser uma armadilha. – ouvi Tillie conversando com o loiro num canto.
– Sinto muito por isso, Jace. Eu conhecia seu líder, ele era um bom homem. – a vi sorrir enquanto “consolava” ele – Bem, as Águias sabem sobre Aida, se descobrirem que você fazia parte da Ordem saberão que estamos tramando contra eles.
– Estão tramando contra eles? Ficou maluca? Eles acabaram com a Ordem! – Jace se exaltou, mas eu nem me importei.
– Não se preocupe, não vamos lutar contra eles, apenas queremos uma coisa que eles têm. Pegaremos o que é nosso e então vamos embora. Não deixarei você estragar nossos planos, Jace, ficará conosco até conseguirmos terminar isso.
– Não acho que está me dando opções, então...
Realmente, Tillie não estava dando nenhuma opção. Mas não sei por que esse idiota nos seria útil.
– O que foi? – ele se virou para mim. Será que eu o encarei demais?
– Como é que um cavaleiro se torna um babaca bêbado? – coloquei pra fora o pensamento.
– Muito legal da sua parte me entender, gracinha. – ele falou e saiu de perto.
Resolvi ir falar com Sky que estava sentada numa mesa num canto. Provavelmente pensando no pai.
– Oi. – sentei de frente para ela.
– Oi. Ei Aida, eu estava falando com Tillie, sabia que ela foi estudante em Ildis? Foi onde meu pai aprendeu alquimia. Sabe, eu sempre quis ser uma ladra como minha mãe, porque ela sempre pareceu forte, um pouco como você. Mas agora estou pensando, talvez eu sempre quis ser como ela porque nunca a conheci, então quando isso acabar, talvez eu vá para Ildis. Tillie disse que nunca é tarde para aprender. – ela falou sorrindo.
Eu sorri, era raro Sky ter algum plano para a vida e quando tinha, eles rapidamente se desfaziam.
– Sabe, toda vez que você arrisca sua vida, eu me sinto fraca.
– Ah, aqui vamos nós... – falei revirando os olhos, o que fez ela rir.
– Não vou chorar! É sério, Aida. Sempre me sinto assim, mas prometo que me tornarei uma mulher forte, alguém de quem possa sentir orgulho.
– Sky... você é mais forte do que imagina. – e eu não estava mentindo, realmente achava que ela era forte, apesar de chorar sempre, ela aguentava bem as situações mais pesadas.
– Enfim. E bem, falando em magia e essas coisas... Zander tem olhado muito “intensamente” para você. – ela me olhou com cara de quem pretendia levar a conversa para outro lugar.
– Provavelmente eu fiz alguma coisa errada. – me fiz de desentendida. Eu notei que ele tem me olhado.
– Ah não mesmo, acho que você fez algo muito certo...
– Não me venha com essa, Sky. – bufei e saí da mesa, deixando ela rindo sozinha, logo ela foi se juntar a Tillie e Jace e eu fui conversar com a única pessoa sensata daquele lugar. Zander.
– E então, está preparada? – ele perguntou assim que eu cheguei perto. – Não vai demorar muito até que eles venham até você outra vez.
– Eu sei, só preciso bater em alguns caras, não é nada demais. – ri para esconder o nervosismo.
– Nada demais? Essas pessoas acabaram com o seu acampamento e com a Ordem dos Cavaleiros, Aida! – ah ótimo, agora ele está me dando bronca. – Eles são donos de metade dessa cidade. Se alguma coisa acontecer com voc...
– Zander! – interrompi – Por que está preocupado?
– Aida... – ele suspirou – eu sou um mago, não se deve brincar com meus sentimentos, isso está ficando perigoso e está me confundindo. Eu nem sei se você me olha assim por brincadeira ou se está falando sério. – eu olho? Como eu olho? – Talvez você não devesse se envolver comigo, há uma razão para magos viverem sozinhos.
Do que ele está falando? Eu dou tanta pinta assim? Talvez eu dê... mas e daí? Estou realmente a fim dele.
– Então você está perdendo o controle? É bom, você era um pouco careta – eu ri baixinho, vendo-o corar minimamente. Zander riu em seguida.
– Você é estranha Aida, não faço ideia do que deveria fazer com você.
– Ah eu tenho algumas ideias. – acabei deixando as segundas intenções escaparem alto demais. Mas ele apenas riu, o que foi bom.
– Aida, venha aqui. – Tillie me chamou num canto afastado. – Creio que não vai demorar muito até que venham procurar você outra vez. Você tem que agir mais como uma pessoa marrenta, é isso que eles procuram. Aqueles homens foram apenas um teste, Diego está testando e observando você a todo o momento.
– Diego?
– É o líder deles. Tem que tomar cuidado, mas fazer algumas encenações.
– E ele não pode me encontrar aqui conversando com você? – perguntei.
– Não aqui no Falcon. Esse lugar é controlado por outra gangue poderosa de Northcliff, estamos seguros aqui.
– Certo então o que eu deveria fazer? Praticar bullying com crianças, brigar em bares, chutar patinhos e gritar pelas ruas? – falei com humor.
– Exatamente, mas pode deixar de lado os patinhos. – minha nossa... eu estava brincando.
– OK... hora de ser rude. – vi Tillie sorrir e então saí do bar de volta para a rua. Não tive tempo de fazer nada, apenas senti uma pancada forte na cabeça e então tudo ficou escuro.
– Deixe-nos. – ouvi uma voz masculina. Abri os olhos e tentei reconhecer o local, sem sucesso. Era uma masmorra escura, a única luz vinha de fora e entrava por pequenas janelas gradeadas perto do teto. Eu não estava amarrada ou presa de nenhuma forma. Vi o dono da voz vir na minha direção. Ele era alto e tinha os cabelos e olhos negros, sua pele era incrivelmente branca e a luz da lua que iluminava o local o deixava ainda mais pálido.
– Peço desculpas se meu convite não foi adequado. Mas não posso deixar que ninguém descubra sobre nosso esconderijo.
– Ah não se preocupe, eu adoro ser nocauteada e trazida para lugares abandonados. – respondi com ironia.
– Andei te observando, Aida. É realmente uma pessoa muito interessante. – me observando? Então ele é Diego.
– Oh... podia ter me convidado para jantar primeiro, quem sabe me mandar flores. Quero dizer, sequestro até é romântico, mas me parece um pouco cedo. – ironizei.
– Perdão. Nós adashianos temos o costume de sempre conseguir o que queremos. Sou Diego, líder das Águias. Então Aida, eu geralmente não recruto ninguém pessoalmente, mas você provou ser muito útil. Quero que se junte a mim.
– Me juntar às Águias? – me fiz de desentendida, não queria que ele soubesse que esse era o plano.
– Estava me referindo à meu quarto – ele respondeu com um sorriso indecente – mas à gangue também, claro.
– Farei parte das Águias. – é muito abusado mesmo... – Mas não ao seu quarto. Sei bem como vocês adashianos gostam de festinhas.
– Ah é uma pena, teríamos muita diversão. – ele se aproximou um pouco – Embora você pareça perfeita, ainda temos regras por aqui e para ser recrutada você terá um teste, se quiser se juntar a nós, passe no teste.
Estava bem demais para ser verdade... – E o que seria?
– Vai roubar alguns documentos para mim. É uma parte da cidade que ainda não controlamos e eu preciso desses documentos.
– Vai me dizer onde é o lugar ou é parte do teste invadir qualquer lugar e roubar documentos aleatórios? – realmente, algum dia eu ainda ia morrer por ter a língua tão afiada.
– Um de meus homens vai te mostrar o lugar. – ele deu as costas e saiu andando, mas então parou e se virou novamente para mim – E Aida, se tentar me enganar, saiba que posso te machucar de jeitos que você nem pode imaginar.
OK, isso me assustou. Finalmente saí daquela masmorra mofada e segui o homem encapuzado até o outro lado da cidade, ele me mostrou um sobrado e sem olhar diretamente para mim, disse:
– Os documentos estão guardados no escritório, fica no segundo andar, seja rápida. – e então desapareceu.
Ótimo, eu sei o caminho de volta mesmo. Certo, entrar pela porta da frente não é nada inteligente. Subi em uma pilha de caixotes de madeira e me estiquei até o parapeito da janela no segundo andar, usei a lâmina de uma das adagas para destravar a janela e com certo esforço consegui abri-la. Sorte foi eu não ter caído daquela pilha. Pulei e me segurei no batente da janela, entrando na casa que era iluminada por velas em todos os cantos. Preciso encontrar aqueles documentos e dar o fora.
Entrei no escritório e me deparei com uma mesa forrada de papéis, os documentos que Diego queria poderiam estar em qualquer lugar. Peguei papel por papel e bati os olhos no que estava escrito, mas nada que parecesse realmente relevante. Não posso voltar lá sem isso, Diego vai me esfolar. Foi então que notei uma escrivaninha pequena no canto, não havia nada além de uma coleção de penas e tinta sobre ela. Abri a única gaveta que havia e me deparei com um bilhete.
A Ordem Prateada está pronta para servir à sua causa. O pássaro negro nos deu as informações que precisávamos, ele irá controlar as Águias logo. A limpeza começará hoje.
Por nosso jovem rei, Kael.
Kael? Ordem Prateada? Isso é coisa dos nobres! Onde diabos foi que eu me meti?! Ouvi o som de uma porta se abrindo e peguei o bilhete e uma pasta que havia na gaveta. Espero que seja isso que Diego quer, se não for, eu não vou ficar aqui para procurar mais. Voltei para a janela e pulei por ela. Péssima ideia aliás, afinal eu estava no segundo andar, acabei com a calça rasgada e os joelhos esfolados.
– Você até que foi rápida. – ouvi uma voz atrás de mim na rua e me assustei.
– Jace?! O que faz aqui?
– Desculpe gracinha, mas vou ficar com isso. – não tive muito tempo para reagir, os documentos já estavam nas mãos dele.
– Vai me devolver isso, agora! – falei séria. Esse filho de uma dama não ia estragar tudo. Não mesmo.
– Você nem sabe do que se trata.
– O que está fazendo aqui e como sabia onde eu estava?
– Vim observando as Águias há muito tempo, sabia que eles estavam atrás desses documentos, só precisava descobrir onde estavam. E veja só, é a prova de que os nobres estão envolvidos na queda da Ordem dos Cavaleiros. Eu dou a mínima para os nobres, mas esse “pássaro negro” a quem eles se referem, ele foi quem nos vendeu para as Águias. Ele era um de nós e foi por causa dele que meu irmão morreu!
Eu já havia ouvido falar sobre a história dos irmãos na Ordem dos Cavaleiros. Não eram irmãos de sangue, mas sim pessoas que eram designadas para serem parceiros dentro da Ordem, sendo assim, cuidariam um do outro por toda a vida.
– E eu quero esse bastardo morto. – ele falou com raiva.
Saquei uma das adagas e apontei para ele – Seus problemas são seus, você acabou com meu plano e agora vai me devolver isso ou eu vou pegar à força.
– Lamento gracinha. Você faria o mesmo no meu lugar.
Não mesmo. Parti pra cima dele com raiva, tentei acertá-lo com a adaga, mas ele era rápido e tinha bons reflexos, o que acabou nos fazendo mais dançar do que lutar. Mas eu ia pegar aquilo de volta. Ele acabou conseguindo me acertar com belo soco no rosto e eu nem sei como, ele é rápido. Acabei no chão e a adaga foi parar longe. Jace se ajoelhou sobre meu estômago e prendeu meus braços no chão de forma que não havia como sair ou tentar resistir.
– Claro que o esconderijo deles é difícil de encontrar, mas você vai me ajudar. – só me lembro dele dizer isso, porque no instante seguinte estava tudo negro outra vez.
As pessoas tem certa tara em me nocautear.
– Ela não está morta, mas também não parece estar com os documentos, chefe – ouvi uma voz desconhecida falar perto de mim.
– Me deixe sozinho com ela, farei minhas próprias perguntas. – agora era Diego quem falava. E é agora que eu morro esfolada. – Acorde! – senti um tapa forte no rosto e acrescentei o nome dele na minha lista de “pessoas a matar”.
Abri os olhos, estava novamente na masmorra mofada e desta vez amarrada. Jace me paga.
– Estou muito desapontado, Aida. Muito. – Diego estava sério e me encarava de forma ameaçadora – achei que tinha sido claro quando disse que sua vida seria um inferno se você me enganar.
– Culpa de um dos seus cavaleiros sobreviventes. O idiota roubou.
Diego riu – Jace... eu sabia que aquela criança ia ser um pé no meu saco.
– É... você deveria saber... irmão. – Jace... o que eu daria para não estar amarrada agora...
Espera. Irmão? – Você me usou de isca, seu covarde? – agora ele me irritou de verdade.
– Eu vi você morrer. Vi te acertarem uma flecha na cabeça – ele me ignorou completamente e continuou falando com Diego.
– Essa é a graça daquelas poções que usam nos testes. Apenas uma gota no seu copo de água e você terá belas alucinações. Devia ver sua cara, foi hilário. – Jace veio até aqui para dançar valsa com Diego ou para se vingar dele?
– Você era meu irmão, Cain! Por que nos vendeu? Por que me vendeu?
– Meu nome é Diego. E não os vendi, nunca fui um cavaleiro de fato, apenas fiz o eu fui treinado para fazer.
– Claro... treinado para vender um amigo. Quem é que faz isso? – me meti na discussão.
– Por que não me mata então? – Jace perguntou abrindo os braços – Deve ser um problema eu ter conseguido sobreviver.
– Conseguido sobreviver? – Diego sorriu perversamente – você não conseguiu sobreviver. Foi deixado vivo como a lembrança de uma gloriosa ordem. Como a lembrança da minha vitória. Agora que já teve seu desabafo, irmãozinho, terei meus documentos. Quanto a você Aida, creio que terá um problema quando os nobres descobrirem que fora roubados por alguém da própria espécie.
– Então você sabia... – tirei o capuz que ainda cobria os cabelos e joguei a capa de lado, voltando a colocar as mãos amarradas sobre o colo.
– Ah sim. Desde o momento em que pisou nessa cidade. Eu estava de olho naqueles documentos há tempos e então de repente me aparece um nobre errante e veja só, não é nem meu aniversário. A propósito, como estão Tillie e Zander? Foi realmente muito esperto da parte dela escolher o Falcon como local de encontro. Mas achar que poderia me vencer no meu próprio jogo? Acho que pegarei meu material de pesquisa depois de lidar com vocês dois.
De onde saíram tantos homens encapuzados? Eles parecem baratas, saem de qualquer buraco.
– Coloquem-nos na cela. Vamos brincar mais tarde, doçura. – Diego falou olhando para mim.
– Ah com certeza. – falei enojada e com uma extrema vontade de quebrar a cara dele.
Por fim, acabamos Jace e eu na mesma cela, como dois galos de briga e eu realmente queria matá-lo.
– Se vai dizer algo, diga. – ele falou ao notar que eu o encarava.
– Dizer? Eu vou quebrar a sua cara, maldito!
– Ei, se acalma gracinha.
– Acalmar? Eu nunca vi alguém tão retardado igual a você! Sua espécie deve ser rara!
– Olha eu só estava tent...
– Tentando o quê? Se sabia que isso ia acontecer podia ao menos não ter trazido os documentos com você! O que achou que ia acontecer? Que eles iriam se render ao último cavaleiro vivo?
– Aconteceu tudo rápido demais, OK? Não engoli tão fácil ter descoberto que possivelmente a queda da Ordem dos Cavaleiros tenha sido minha culpa. Ele era meu parceiro, meu irmão... se eu tivesse prestado mais atenção...
Não estava dando a mínima para o que ele falava, ainda ia acabar com ele. Mas então ouvi um barulho. Parecia uma explosão.
– Shh, cale a boca! – colei o rosto nas grades da cela, tentando ver alguma coisa.
– O que foi isso?
– Boa coisa não pode ser.
– Temos que sair daqui.
Gênio... – Ah é? Tentou pedir gentilmente para os guardas?
– Me poupe princesa. Eu não te conheço, você não me conhece e com certeza você agiria da mesma forma se estivesse no meu lugar!
– Ah claro. Invadir o esconderijo de um assassino profissional sem ao menos uma arma para me defender. Como eu não pensei nisso antes? – ironizei.
– Você entendeu!
– Eu não entendi... – me virei assustada ao ouvir uma terceira voz dentro da cela. – Aida, você está bem?
– Zander! Um ego ferido está na lista?
– Podemos concertar isso depois. – ele falou sorrindo. Então é assim que um mago se parece quando usa seus poderes? Impressionante... e lindo. Ele parecia envolvido por chamas e seu rosto estava coberto por marcas em forma de arabescos brancos, pareciam desenhados a mão por alguém realmente muito talentoso. Será que estou encarando demais outra vez? – Vamos,não acho que Til consegue segurá-los por mais muito tempo!
Zander derreteu as barras de ferro como se fossem nada. Saímos da cela e então vi Tillie num corredor com dois homens a ameaçando.
– Pegue-a, ela tem metade do seu tamanho, idiota!
Ela jogou algo liquido sobre eles e em questão de segundos os homens não passavam de dois camundongos. Eu ri.
– Nunca te ensinaram que tamanho não é documento? – ela falou se virando para nós. – Aida?! Você está bem?
– Bem, estou com fome... como sabia onde eu estava?
– Eu tenho um amigo entre as Águias. – ela respondeu com uma piscadela – ele nos avisou que você estava com problemas.
– E ele não podia ter recuperado aquele diário para nós?
– Se não quiserem acabar queimados, sugiram que comecem a correr! – alertou Zander, visivelmente fora de controle.
– Espere, mas o diário... prometi para Sky que...
– Não está aqui Aida, isso é pior do que imaginávamos! – falou Tillie me puxando pela roupa e correndo pelo corredor. – Meu amigo e Sky estão do lado de fora, vamos logo antes que Zander acabe nos matando!
Saímos daquela masmorra fedorenta e me senti até impressionada de ver que o esconderijo de Diego era num castelo à beira mar.
– Está atrasada Tillie... – ouvi uma voz masculina vinda detrás de algumas pedras altas. Logo o indivíduo se revelou. Ele tinha a pele azulada, cabelos azuis escuros e orelhas pontudas. Seria um elfo? Espere. Eu me lembro de vê-lo na taverna onde conheci Jace. – Senhorita Aida. É bom saber que está viva.
– Airdan... – Tillie olhou para ele um tanto desesperada.
– Sim eu sei, Diego fugiu para o castelo abandonado pelo rio dos espinhos e levou o diário com ele. Diego é dissimulado e esse plano louco dele tem a ver com necromancia. De algum jeito a Ordem Prateada está no meio disso tudo. No início eu achei que ele iria acabar se matando, mas com esses documentos que roubou, ele pode provar a relação da Ordem com as Águias. Seja lá o que ele descobriu, é muito importante. Essa cidade perdeu bons homens para as Águias, qualquer amigo deles é inimigo do povo e sendo assim, mesmo que o rei controle e use a Ordem Prateada, ele será obrigado a destruí-los.
– O que Diego quer? Por que ele está indo para o castelo abandonado? – perguntou Tillie.
– Não sei. Ele disse algo sobre uma chave, mas seja lá o que for, é mais importante do que a vida dele. Ele assumiu um enorme risco apunhalando a Ordem pelas costas.
– Talvez seja a chave para o reino antigo, ele descobriu... – Tillie me olhou como se não tivesse chão – Aida, precisamos impedi-lo.
– Certo. Alguém tem planos? Exceto o Jace. – olhei para ele ainda com raiva.
– Planos inteligente ou idiotas não vão nos ajudar, creio que vamos precisar de Jace nessa.
Ela está realmente falando sério?
– Diego é esperto, mas não levou muitas pessoas com ele quando saiu daqui, se trabalharmos juntos podemos detê-lo. – falou Sky.
– Esqueça, ele é meu. – disse Jayce.
– Se você sobreviver! – Zander se juntou a nós ainda com o rosto marcado pelos arabescos, o que pelo visto era um sinal de que ele ainda não estava controlado, pois Tillie e Airdan o seguraram antes que ele matasse Jace.
– Por que isso? Você quase me matou lá dentro! – Jace já estava à metros de distância.
– Foi apenas um aviso! Se você apunhalar Aida pelas costas outra vez, eu não vou te matar, vou te queimar vivo, tão dolorosamente que você vai me implorar por essa vida miserável!
Tillie e Airdan arrastaram Zander para longe e eu os acompanhei juntamente de Sky.
– Vamos descansar um pouco. – falou Til depois que Zander se afastou de nós e se sentou em uma pedra, virado de costas e tentando se acalmar.
– Eu tenho que ir. Se ficar muito tempo ausente eles podem desconfiar. – disse Airdan se despedindo de nós e saindo rapidamente.
Não tenho um bom pressentimento sobre ir atrás de Diego...
– Ah Aida... – Sky se sentou perto de mim e suspirou – eu só queria saber como minha mãe morreu e recuperar o diário dela e olha só a confusão em que estamos... desculpe ter metido você nisso.
– Não é novidade você me meter em confusão – falei num tom sério, porém ela sabia que eu só estava tentando irritá-la. – além do mais, Diego pode ser um idiota sem escrúpulos, mas ele até que é gato. Adeshiano, sabe...
Sky riu e olhou para mim com cara de negação – só você mesmo para conhecer um assassino e o chamar de gato...
Era bom poder descontrair assim com Sky.
– Sabe... eu insistiria para desistirmos dessa busca, a partir desse ponto eu sei que não tem mais volta. – ela falou, deixando o sorriso de lado. E ela estava certa. – Eu quero continuar, quero saber onde isso vai dar e também quero a cabeça de Diego. – ela respirou fundo – Vou me acalmar... vá falar com Zander, ele parecia bem mal.
Me aproximei dele, sentando ao lado. Seu rosto havia voltado ao normal e ele parecia mais calmo.
– Você tem o dom de arrumar problema aonde quer que vá... – ele falou sem me olhar. Mas eu podia notar no tom de voz dele...
– Está com medo, Zander? – me virei e cruzei as pernas sobre a pedra, olhando-o. Ele virou o rosto e me olhou.
– Estou na maior parte do tempo. Tenho medo de não conseguir me controlar, de machucar alguém inocente... de machucar você. – essa última parte me surpreendeu, admito. Fiquei sem saber o que dizer de imediato.
– Me machucar? – falei depois de um tempo – Eu não sou exatamente uma flor delicada.
– Na masmorra... eu estava com raiva. De Jace. Mas especialmente de você, por se meter numa bagunça dessas. Acabei descontando naqueles guardas. – ele virou o rosto como se estivesse envergonhado – Por um segundo eu achei que não seria capaz de me controlar... e se eu não conseguir, vou acabar machucando você e até eu mesmo. É por isso que eu estava hesitante sobre o que sinto por você, mas quando ouvi que você estava com problemas, simplesmente não pude mais negar. – ele me olhou novamente e então respirou fundo.
Eu realmente não sabia o que dizer. Nas semanas que passamos juntos até chegarmos à cidade, eu realmente me interessei demais por ele, mas não imaginei que o havia deixado tão envolvido também.
– Se você quiser que eu te deixe em paz, eu farei isso, mas não vai mudar o que sinto por você. – ele me olhou e então mordeu os lábios, esperando minha resposta, mas novamente eu não tinha palavras. Ou elas simplesmente não saíam. Ele se levantou, aparentemente frustrado e eu segurei seu braço por puro reflexo.
– Eu deveria ter medo? – perguntei enquanto ele se virava. Não tive tempo para reagir e mesmo que tivesse, eu não faria nada diferente. Zander não pensou duas vezes em me beijar. Aquilo não era como um beijo qualquer que eu já havia dado, não existe algo que possa ser comparado com esse momento, é intenso mesmo que seja um simples encostar de lábios, parece que o resto do mundo se apaga e o tempo para.
– Deveria. – ele falou ao me soltar. Desta vez ele realmente havia tirado qualquer chance de eu responder qualquer coisa. O que parecia muito engraçado, pois ele riu. – Talvez eu tenha esquecido de mencionar. Quando você está tendo um momento íntimo com um mago, beijando um, por exemplo, você se sente como ele e creio que eu te disse que temos sentimentos dez vezes mais fortes, não é?
– Ah “esqueceu”... você fez de propósito! – tentei parecer brava, mas na verdade me sentia a pessoa mais feliz do mundo.
– Desculpe, eu queria ver sua reação... não parece despontada.
– Não estou! – falei como se realmente estivesse brava, mas isso o fez rir novamente, então eu cabei indo me sentar com Sky novamente.
A noite estava chegando outra vez, ter passado última roubando documentos e sendo jogada numa cela não foi agradável e agora iríamos dormir nas pedras. Ótimo. Mas isso não era um grande problema, o problema era o dia seguinte... o que podia acontecer se não parássemos Diego?
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