Ascensão Arcana
7 Capítulo 07 - Mar dos Lamentos
Após alguns dias de repouso finalmente consegui voltar ao meu normal, se assim posso dizer, o homem que invadiu meu quarto aquele dia foi preso e torturado no calabouço da academia, apenas o Duque Pierre, Carvan e dois guardas sabiam do ocorrido, além de Joseph. Seu nome era Alent Orverin, um antigo marques que teve sua família e povo massacrado pelo império, ele se tornou o cão leal dos imperadores por ter sido pego quando ainda era um bebê e treinado desde então.
Foi muito difícil fazer ele contar algo, mas graças a Pierre eles conseguiram romper as paredes da mente dele e retirar as informações a força, mesmo que ele tenha morrido no processo. Aparentemente a família imperial acha que estou morto, porém despacharam Alent para rastrear qualquer tipo de movimento que pudesse ser meu e relatasse a eles, com o desastre da cidade e a aparição súbita de um novo herdeiro no condado Soldest, ele desconfiou de algo e veio para esse lugar investigar e acabou me encontrando, mas antes que conseguisse relatar algo foi pego.
Bem, por enquanto as coisas estavam calmas, não precisava me preocupar com pessoas me perseguindo, já que ele era o único e pelo que entendi tinha sido mandado em uma missão de descarte, já que eles acreditam na minha morte. Não adianta ficar com esse tipo de pensamento agora, preciso focar na minha vida acadêmica, pela primeira vez me sentia verdadeiramente animado para começar, ter uma vida normal.
– Richard – Ouvi Joseph me chamar assim que sai do meu quarto, ainda não tinha sido transferido para outro lugar, não achavam que seria seguro e decidiram me manter aqui até que um novo lugar fosse construído ao lado da torre central onde ficam os professores e o diretor.
– Olá, Sr. Holver, é um prazer te ver – Mesmo ele tendo me ajudado e mostrado solidariedade, o aviso daquele ser dos meus sonhos ainda ecoava em minha mente, precisava traçar uma linha visível entre nós.
– Por favor Richard, não me chame assim, isso me deixa constrangido, ninguém além dos servos se refere ao outro de maneira tão formal aqui – Ele tinha razão nesse ponto, poderia acabar sendo visto como alguém rude e criar muitas inimizades.
– Peço desculpas, o costume acaba falando mais alto — Já que é assim, vou tratar ele de forma neutra, nem formal e nem informal.
– Vejo que tenho um longo caminho pela frente – Disse ele suspirando, não pretendia entender o motivo de suas palavras, elas não me eram necessárias — Enfim, o que acha de te passar o conteúdo das aulas que perdeu? Eu me esforcei bastante para conseguir aprender tudo e te passar da melhor forma – Ele parecia estar orgulhoso de sua conquista, como um cachorrinho esperando um elogio.
– Agradeço sua gentileza, apesar de ser obrigado a estudar para compreender as matérias e não reprovar, agradeço por seus esforços — Não é que estou sendo ignorante ou frio, apenas não quero ter outra pessoa com quem me preocupar com a segurança.
– Que frieza – Disse ele suspirando e me olhando pensativo — Você é um grande enigma que me fascina sempre que te vejo.
– Que interessante.
– Hahahaha, você realmente é difícil — Acho que minha expressão entregou exatamente o que estava pensando daquele comentário desnecessariamente bajulador — Não consigo nem mesmo cortejar alguém assim.
– Não vejo motivos para me cortejar, creio que deva redirecionar isso a alguém mais interessante, como sua bela amiga do outro dia – Pude ver claramente sua cara de desgosto com aquele comentário e isso estranhamente me deixou satisfeito.
– Você e malvado, se alegra na minha tristeza.
– São os prazeres da vida, o que posso fazer se esses momentos são os mais interessantes – Tinha vontade de implicar com ele mais, suas expressões eram engraçadas.
– Para quem chegou a pouco tempo e era tão tímido que fugiu enquanto me encarava da sacada do quarto, você tem respostas bem afiadas, Richard – Aquilo me pegou de surpresa, não achei que ele fosse trazer à tona algo do tipo, senti meu rosto começar a queimar de vergonha.
– Creio que esteja equivocado, estava admirando o jardim, sequer sabia que estava ali – Por que estava dando uma desculpa?! Era só ignorar Richard.
– Claro, sei, sua expressão me mostra que suas palavras são verdadeiras – Ele parecia satisfeito, vejo que vou ter uns dias conturbados nessa academia – Enfim, o que acha de nos encontrarmos pela noite?
– Por que não agora?
– Você está livre até semana que vem, mas eu tenho aulas daqui a 20 minutos e a última acaba às 19:00 horas da noite, só consigo te encontrar após esse horário — Ele tinha razão, as aulas nesse lugar eram todas administradas de forma a te deixar extremamente ocupado entre assisti-las e estudar para as provas.
– Pode ser, vou aproveitar e ir para uma das aulas experimentais de esgrima e magia que Carven me recomendou – Ele me olhou meio estranho, será que falei algo errado?!
– Vejo que chama seu pai pelo nome, sei que posso estar soando rude ao me intrometer assim em sua vida, mas pensei que tinham uma boa relação — Já previa que alguém faia essa pergunta, então vim preparado.
– Não acho que seja de bom tom chamar ele tão informalmente em um local onde ele é o professor, ainda mais sendo um renomado, além de que não quero que fiquem espalhando que entrei por conexões.
– Tem razão — Ele parecia estar convencido da minha desculpa – Bem já vou indo, vê se não vá se perder, caso esteja andando demais desconfie – Senti o deboche por trás de suas palavras.
– Agradeço sua preocupação, mas receio que ela não vá ser de ajuda – Posso estar agindo feito criança, mas eu queria retrucar ele.
– Quanta frieza meu caro Richard, espero que seu rígido coração se abra para que eu possa fazer moradia nele – Esse moleque, minha vontade era de mandá-lo pelos ares, como pode ser tão irritante?!
– Só vá embora, antes que te use como boneco de treino para melhorar minhas habilidades com a espada.
– Se pedir com tanta delicadeza e bondade, não vejo motivos para ficar – Disse ele virando as costas e indo em direção as escadas, podia não ver, mas sabia que tinha aquele sorriso pretencioso no rosto.
Esse maldito conseguiu me tirar do sério, como pode existir alguém tão irritante? E pensar que eu, que aguentei todo tipo de tortura, estaria tendo dificuldades para controlar meu temperamento contra ele. Não quero ficar pensando em coisas inúteis, vou para a aula experimental de magia primeiro, Carven tinha me dito que ela era apenas para alunos do 2 ano, já que no primeiro era ensinada a introdução a magia, essas aulas eram independentes do seu rank, todos tinham que fazer, mas como eu consegui realizar um feitiço de alto nível nos testes, eles acharam que seria interessante, não podia negar que estava bem ansioso por esse momento.
Assim que saio da mansão vejo Joseph logo a frente, indo em para a esquerda, provavelmente iria para a aula de herbelogia, Carven tinha me dado um mapa e itinerário de todas as aulas, assim poderia me organizar para os horários e não me perderia mais de forma tão patética. Assim segui em frente, até chegar próximo a biblioteca da academia, logo a sua esquerda estava um enorme pátio onde ficavam os alunos em treinamento.
Não era nada comparada àquela arena fechada do primeiro teste, mas ainda era algo incrível. O chão era revestido de um material branco e brilhante, não tinha nada em todo seu entorno, fazendo com que o campo ficasse livre e se tornasse enorme. Conforme me aproximava, consigo observar outros alunos à distância, alguns já em duelos amistosos ou praticando feitiços sob a supervisão de mestres, ao chegar perto o suficiente vi aquela mesma professora dos testes, assim que ela me viu consegui ver a empolgação em seus olhos, talvez não tenha sido uma boa ideia ter vindo.
– Ahhhh, meu querido Richard – Gritou ela, fazendo com que todos prestassem atenção em mim — Você veio, estava preocupada que acabasse desistindo da ideia, foi difícil fazer seu pai aceitar – Ao falar a palavra pai, pude ver no rosto dos outros pude ver a inveja e raiva.
– É um prazer ter a chance de assistir a uma de suas aulas Professora – Devo me dirigir com respeito para não causar mais nenhum tipo de conflito ou rumor.
– Que isso, não precisa ficar com toda essa formalidade, pode me chamar de Avenca – Ela me olhava com um sorriso contagiante em seu rosto, mas por trás daquilo podia ver sua malícia com aquela frase.
– Me desculpe, mas não posso simplesmente jogar fora o seu status superior nessa academia e me referir de maneira tão leviana – Ela me olhava com satisfação, pareço ter passado em seu ridículo teste.
– Bem, então não vamos mais perder tempo com conversas, tenho uma aula para ministrar Sr. Soldest.
– Estou ansioso para receber seus ensinamentos.
– Você é difícil igual seu pai — Não sabia se aceitava aquilo como algo bom, afinal, assim seria difícil questionarem algo, ou como um insulto – Fique ali com os demais alunos.
Segui para o local indicado por ela, não tinham cadeiras ou qualquer lugar para se sentar, então todos estavam de pé olhando fixamente para a professora. Tentei ficar em um lugar que não fosse realmente próximo aos alunos, todos aqui ou eram do 2 ano ou do 3, como os anos que passam nessa academia são contados de maneira distinta aos ranks, então é comum que alunos do 3 ano ainda estejam no segundo rank ou no primeiro.
– Oi – Um garoto me cutucou levemente. Sua voz era suave, tinha um rosto padrão entre os nobres cobiçados, cabelos espetados e de cor preta, pele morena e olhos em um tom de azul quase indescritível, reluzia de uma maneira linda e hipnotizante – Meu nome é Lion Grover, você chegou com tudo na academia.
– Meu nome é Richard, não foi minha intenção, apenas aconteceu – Disse sem graça, essas eram algumas das emoções que eu raramente sentia nos dias que vivia na rua ou no palácio, já que antes era tudo coberto pelo medo.
– Você é igual as meninas têm falado pelos corredores — Já começaram a espalhar os boatos? Será que não foi o suficiente para ser alguém digno de ser um Soldest?!
– Me desculpe se eu soar rude, mas quais boatos? — Ele deu um leve sorriso, tenho certeza de que aquilo ali seria o suficiente para qualquer garota da alta sociedade querer algo com ele.
– Que você é ao mesmo tempo fofo, mas também passa uma vibe mais enigmática — Senti meu rosto começar a queimar, não imaginei que estariam falando coisas do tipo sobre mim, sequer deu tempo de eu andar pela academia realmente e as pessoas já estavam comentando? — Olhando sua reação eu preciso concordar. Ah, eu tenho 16 anos, estou no segundo ano e rank Calista, se quiser saber mais sobre mim – O olhei por alguns momentos meio confuso – Sei que sou bonito, se quiser posso te dar uma foto minha, para suas necessidades – Ele fez questão de enfatizar a última palavra, o que me gerou um extremo desconforto por ter trazido certos sentimentos do passado.
– Vou recusar sua oferta, então se puder se manter em seu devido lugar agradeço — Minha voz soou mais ríspida do que imaginei.
– Desculpa, disse algo que te magoou, não foi minha intenção — Ele parecia um cachorro de rua que acabou de levar uma bronca, mesmo que duvidasse que esse ‘arrependimento’ fosse sincero, provavelmente queria algo com o nome Soldest.
– Está tranquilo, mas por favor, não haja como se fossemos conhecidos ou amigos, não tenho tempo para coisas tão sem sentido – Com isso definitivamente colocaria um basta nessa palhaçada.
Ele sequer me respondeu e voltou a olhar para frente, parecia pensativo, mas isso não me importava em nada, não podia me dar ao luxo de confiar nas pessoas ao meu redor, nem toda magia do mundo é capaz de concertar um caráter duvidoso.
A professora Avenca parecia estar explicando sobre a estruturação da mana irregular, que é aquela fora dos elementos básicos conhecidos, e mana regular, que era o oposto da outra. De maneira simples ela demonstrava que todos podiam usar qualquer tipo de elemento e não elemento, mas sua proficiência seria limitada e quase nula em alguns, ela mostrou que sua capacidade com fogo era absurdamente alta, enquanto sua capacidade com controle gravitacional estava pior do que uma magia básica.
Com isso ela pediu que os alunos formassem duplas e tentassem manifestar dois elementos tipos elementares e outros dois tipos não elementares, usando como base aquilo que achavam ter sua maior proficiência.
– Richard – Disse ela se aproximando – Como é novo em tudo isso, creio que vá ser difícil acompanhar algumas coisas, então acho melhor que faça dupla com o Lion – Ela o colocou ao meu lado, ele estava visivelmente desconfortável — Ele é o melhor aluno da sala, vai ser um ótimo exemplo. Bem, podem ir conversando e explique tudo o que for necessário a ele Lion.
– Sim Sr. Avenca – Assim que ela se afastou ele ficou a minha frente, me olhando desconcertado – Me desculpe por ter dito algo que não devia antes, não sei o que foi, mas quero apenas que saiba que não foi por mal – Mesmo que parecesse ter sinceridade em seus olhos e suas ações, meu histórico não me deixava aceitar de bom grado aquilo, mas poderia ao menos fingir para ter uma convivência razoável aqui.
– Tá tudo bem, poderia começar a explicação? — Ele me olhou der repente, parecendo um pouco mais animado.
– Claro, qual elemento você sente mais familiaridade?
– Não sei exatamente qual elemento seria, nunca tentei usar nenhum outro que não seja fogo, foi o único que aprendi a canalizar – Ele parecia pensativo.
– Ok, antes de vermos sua proficiência com fogo, vamos te ajudar a canalizar outros tipos de elementos, pode ser que não dê certo de primeira, mas não desista.
– Ok, por onde começamos?
– Vamos primeiro começar com o vento, que vai ser mais fácil. Da mesma forma que você faz quando canaliza a magia de fogo, vamos tentar com essa, sinta o vento a sua volta, sinta como ele se move, como é refrescante e sua força, preencha ele com sua mana e então tente canalizar — Tentei fazer como ele estava dizendo, sentir o vento ao meu redor, colocar minha mana ali e tentar fazer com que ele se manifeste como algo meu – Lembre-se Richard, não tente controlar ele como se ele fosse obrigado a te obedecer, mas sim como sendo algo a te aceitar e ser um com você.
Já tinha ouvido isso de Joseph aquele dia e sendo bem sincero, os resultados foram meio preocupantes, dessa vez eu preciso me controlar para não deixar extravasar igual àquela vez. Dessa forma aos poucos fui sentindo tudo ao meu redor, o vento era algo que não dava necessariamente para ver, não tinha forma física, mesmo assim é possível sentir ele batendo em meu rosto e esvoaçando meu cabelo, ele traz os sons até nós, além de estar dentro de nós como o ar que respiramos. Não preciso de muito para chegar à conclusão de que somos um, dessa forma mentalizei como queria materializar o vento a minha volta e decidi fazer isso, criar uma pequena esfera em minha mão, acumulando ali a mana e a transformando no elemento do ar, abri meus olhos e senti meu corpo quente, uma sensação agradável e reconfortante, em poucos segundos a esfera de ar se formou em minhas mãos, apesar de não ser necessariamente isso, ela tinha uma tonalidade de um verde extremamente translucido, era lindo, da mesma forma que pensei que seria.
– Incrível Richard – Disse Lion — Você conseguiu materializar fácil o elemento do ar, isso quer dizer que tem afinidade com ele também, o que é bem raro já que a Professora disse que você tinha afinidade com o elemento do fogo – Apesar de não ser um tanto incomum ter afinidade com dois elementos, era incomum que fossem tão distintas, faria mais sentido se fosse magia da terra ou uma de raio.
– Eu foquei na mesma sensação quando materializei o elemento do fogo pela primeira vez.
– Entendo, deve ter sido por isso que foi relativamente fácil — Ele parecia orgulhoso por ter me ajudado – Agora vamos para o elemento da água.
– Creio que não vá ter problemas com essa manifestação.
Da mesma forma que o ar, a água faz parte de nós, então é fácil consegui fazer essa materialização com a mesma sensação, mas ao invés de sentir o vento a minha volta, devo focar na água da chuva que caia em meu corpo quando estava nas ruas, na sensação pegajosa de que as roupas ficavam quando estavam molhadas e o frio que sentia tentando arrumar um lugar para me proteger. Essas sensações me trouxeram uma dor junto, mas a água fazia parte do meu corpo e eu sabia a sensação de ter ela como um ‘aliado’ nos meus dias mais dolorosos, visto que pelo menos de cede não morreria enquanto continuasse chovendo.
Com essa sensação ligeiramente conturbada, tentei materializar uma esfera de água em minhas mãos, mas a sensação que estava sentindo era de algo diferente disso, talvez um pouco maior, mas não em tamanho e sim quantidade. Abri meus olhos e senti que o vento parecia estar sendo chamado também, os céus nublaram e eu finalmente entendi o que estava sentindo, um tipo não elemental chamado de manipulação climática, não era algo comum nos dias de hoje, já que exigir uma quantidade absurda de mana, mas creio que isso não era problema para mim. Não sei se isso traria algum problema, mas veria depois, agora essa magia parecia ansiosa para ser liberada e eu queria ver do que ela era capaz, algo que veio junto do meu rancor e minhas dores.
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