Ascensão Arcana
3 Capítulo 03 - Laços Perigosos
Apesar de tentar manter a calma, Carven estava visivelmente ansioso, depois de descobrir quem eu realmente era sua ficha do quão perigoso aquilo poderia ser veio à tona, ainda mais depois do que sentiu com o feitiço de memórias. Esse feitiço é poderoso o suficiente para destruir nações, uma vez que não precisa do consentimento do outro para ser feito, ele não apenas compartilha emoções e memórias, mas liga os usuários um ao outro de uma forma incrível, onde apenas com um olhar é possível saber o que o outro pensa. O único problema é o seu uso, não se pode utilizar ele em mais de uma pessoa, a não ser que ambas as partes queiram quebrar o vínculo, ele vai continuar até que um dos dois morra, além disso, para que o vínculo seja realizado, ambas as partes precisam compartilhar suas memórias.
Meu vínculo e o de Carven está incompleto, pois nenhum de nós dois compartilhamos totalmente nossas memórias, sentimentos e desejos, apenas uma parte que escapou de cada parte. Mesmo assim a conexão me dava segurança o suficiente para conseguir confiar nele.
– Richard – Olhei em seus olhos e pude ver sua determinação — Eu tenho um plano, mas vai precisar agir de acordo para que nós dois não sejamos pegos, a família real te deu como morto, então eles não vão prestar atenção com tanta intensidade aos detalhes que são parecidos a você — Isso ele tinha razão, eles jamais imaginariam que eu, uma criança fraca que fugiu para um mundo violento conseguiria sobreviver por mais de uns meses – Se prosseguirmos com cuidado nada vai dar errado.
– Carven, sei que está tentando me ajudar, mas eu não vou trazer problemas para você e a academia, se puder apenas fazer com que eu possa sair daqui em silêncio no meio da madrugada, eu já serei eternamente grato.
Meu plano é ir para a floresta negra, aquele lugar se estende por todo império, nunca foi explorado e tomado devido aos monstros que vivem lá, apesar de possuir enormes riquezas jamais vistas, as chances de voltar assim que entra é de 0,01%, nem é tanto pelos monstros que já são abissais, mas sim pela nevoa de sangue. Assim que faz contato com ela você jamais conseguira sair daquele lugar, ela te mata aos poucos envenenando seu corpo.
Apesar de parecer um lugar mortal, ainda existem vilas dentro daquela floresta, essas que pertencem aos elfos, os amantes da natureza e abençoados pela magia, eles conhecem tudo na floresta e podem controlar a nevoa a seu bel prazer. Apesar disso eles odeiam os humanos mais do que odeiam os monstros, os tratando com extrema hostilidade, sendo esse outro motivo para aquele lugar ser mortal para qualquer ser humano.
Posso parecer louco por querer ir para aquele lugar, mas tenho um motivo para isso, primeiro e mais importante é onde estarei mais seguro, visto que seres humanos não entram lá sem um motivo extremamente necessário, segundo que conheci um elfo que marava lá antes de ser sequestrado e se tornar escravo, após o ajudar a fugir ele prometeu que me ajudaria se algum dia decidisse ir a floresta negra.
– Sei que não tenho esse direito e que nem nos conhecemos de verdade, mas ainda assim eu sinto que posso te ajudar e quero fazer isso – Podia ver sua determinação e que estava dizendo a verdade.
– Mesmo que seja esse o caso, não existe uma forma segura de me ajudar e não se colocar e colocar a academia em risco, você sabe muito bem disso – Carven abaixou a cabeça, pois sabia que falava a verdade, não tinha como ele me esconder quando estava em uma academia cheia de nobres do império — A única forma de ficar seguro e manter esse lugar inalterável é eu indo embora.
– Não, talvez tenha uma solução — Ele então foi rápido até a porta, sem me dar espaço de questionar qualquer coisa – Espere por duas horas – E assim ele saiu sem me dar mais nenhum detalhe.
Como precisava esperar anoitecer para fugir, então esperar ele por duas horas era algo que poderia fazer. Olhei em volta e percebi que ali tinham alguns livros, que provavelmente ele tinha trazido para aguardar que eu acordasse, isso me fez lembrar que esqueci de perguntar por quanto tempo fiquei desacordado, apesar de que não faria muita diferença.
Com um grande esforço consegui mover meu corpo para fora da cama, mas assim que me coloquei de pé senti uma dor que irradiava por todo meu corpo. Isso deveria ser o esgotamento de mana que ouvi falar, quando usamos feitiços que estão fora do nosso nível, o corpo acaba tendo que utilizar uma quantidade absurda de mana apenas para a conjuração, isso coloca em risco a vida do usuário, ainda mais quando é usado mais de um feitiço ao mesmo tempo, por esse motivo é obrigatório o estudo sobre o controle e uso da mana.
Com alguns passos dolorosos, consegui chegar até a escrivaninha onde estavam dois livros, um parecia ser sobre o estudo de necromancia, que era uma área considerada por muitos magos como maligna, de acordo com os livros de história, que lia na biblioteca real quando estava me escondendo, os necromantes da época eram considerados quase divindades, pois com um pequeno estalar de dedos conseguiam trazer mais de 20 mortos vivos de classe épica. Não conheço muito dessa área, pois não tive a oportunidade para estudar qualquer coisa além das minhas poucas leituras.
O outro livro era sobre os espadachins mágicos, uma lenda de seres que conseguiam utilizar aura e mana em conjunto, podendo lutar tanto com as habilidades de um mestre guerreiro quanto de um arquimago, eles eram considerados heróis ou desastres ambulantes, pois tinham a capacidade de evoluir de forma assustadora, além de conseguirem lutar de igual com qualquer classe existente. Pelo que li a antiga família imperial era o ramo principal e único de produção dessas classes, mas a mais de 200 anos atrás, quando meu ancestral dizimou a família imperial antiga por seus atos cruéis, essa classe se perdeu para sempre.
Não sabia que ele tinha interesse em classes extintas ou quase extintas. Peguei o de espadachins mágicos para tentar ler algo, mas o livro parecia se recusar a abrir, será que ele colocou um feitiço de selamento? Talvez não quisesse ninguém bisbilhotando em suas coisas, então coloquei ele de volta em cima da escrivaninha e fui para tentar pegar o outro, mas o livro então se abriu sozinho. Assustado me afastei alguns passos, provavelmente ele colocou um feitiço de selamento e necessidade, um para proteção contra estranhos e outro para mostrar o que queremos saber, ou seja, nossa curiosidade sobre o assunto. Mas por qual motivo se abriu para mim? Bem, ficar pensando nisso não mudaria esse fato.
Desta forma eu me aproximei do livro e sem colocar minhas mãos nele, por medo de fechar novamente, comecei a ler ali mesmo a página que estava aberta. Ali estava explicando sobre o método de respiração que era usada pelos espadachins mágicos, colocar a mana dentro de seu coração ao invés do núcleo e criar uma camada envolta, como se fosse um redemoinho de aura, fazendo com que a mana seja seu sangue fluindo pelo corpo e pelos canais e a aura seja a condutora responsável por isso. Fascinante, simplesmente incrível, essa teoria deve ter sido criada depois de muitas pessoas terem tentado recriar essa classe, claro que nenhum nunca conseguiu, mas ainda era algo lindo de ler, a forma com que as duas deveriam trabalhar em conjunto. Ainda assim algo parecia errado ali, mesmo que fosse utilizada a aura para ser o condutor da mana, assim unificando os dois, isso não os tornaria como um, mas sim deixaria que um sobrepusesse o outro, dessa forma seria impossível recriar a classe, pois geraria uma corrente de energia sem controle e sem forma alguma, o que acabaria levando a morte do usuário. Eu quero ler mais desse livro, preciso, levei minha mão para pegar ele novamente e, de forma súbita, ele se fechou, sabia que isso aconteceria, ainda bem que li aquela parte pelo menos.
Assim eu acabei pegando o livro de necromancia, ele por outro lado não tinha o feitiço de selamento e nem o de necessidade, abri na primeira página que falava sobre a forma que aquela magia funcionava e como descobrir se o mago é propenso aquela ramificação da magia, ali tinham muitos termos que nunca sequer tinha ouvido falar, o que dificultou muito meu entendimento.
– Vejo que gosta de ler – Olhei para o lado e vi Carven entrando junto de um senhor, ele deveria ter em torno de 70 anos talvez, cabelos pretos, olhos violetas e sua pele era cheia de manchas escuras, como se tivesse sido queimada em algumas partes – Esse aqui é meu pai e diretor da academia de Soldest, Pierre Von Soldest – Sabia que Carven era alguém com influencia lá dentro, mas imaginar que o pai dele era o diretor e da ramificação da família Soldest, os maiores magos da história do império.
– É um prazer conhecer o senhor — Não sabia o que ele estava planejando, mas tinha certeza de que minha identidade já tinha sido revelada – Creio que o senhor já saiba quem sou, então me desculpe se for indelicadeza da minha parte, mas vou me abster de falar meu nome — Não sabia quem poderia estar escutando, quando disse meu nome a Carven foi no calor do momento, mas dessa vez não farei isso.
– De fato, é um jovem interessante que trouxe – Ele me analisava como se fosse uma peça que estava a venda, já sabia que ele seria alguém que me julgaria pelo meu valor e não por quem era.
– Como disse ao senhor, ele tem potencial para entrar em nossa academia.
– Vejo que talvez tenha algo parecido com isso, mas ainda assim é improvável que consigamos, vamos dizer o que aos conselheiros e alunos? Que o filho morto daquela família voltou a vida e estamos cuidando dele? Não seja emotivo meu filho, te ensinei a pensar racionalmente.
– Como disse ao Carven senhor, eu pretendo ir embora nessa noite, não vou causar conflitos desnecessários nesse lugar – Ele me olhava com cautela e curiosidade.
– Você é alguém interessante, mas infelizmente não vou arriscar esse lugar para tentar te ajudar, sinto muito, mas não é da minha conta os problemas dos outros – Apesar de ser dura a resposta, ele tinha total razão, ele não poderia se colocar em risco dessa forma por causa de uma única pessoa, ainda mais alguém que sequer conhecia.
– Não se preocupe, sei que tem razão e não vou pedir e nem insistir ao contrário, só peço que me aj...
– Posso falar? — Me interrompeu Carven – Eu vou adotar ele como meu filho, isso deve solucionar o problema – Aquilo me pegou totalmente desprevenido, me adotar? Isso era um absurdo ainda maior.
– Isso tornaria possível esconder a identidade dele e faria com que meu filho me desse finalmente um neto – Ele realmente estava ponderando essa ideia?
– Me desculpem, mas sou contrário a isso.
– Motivos – Disse Pierre.
– Realmente precisa? — Ele me olhava esperando que desse algum – Muito bem, primeiro, a mulher de Carven não me aceitaria como filho dele.
– Ele é solteiro e creio que não precise se preocupar nele querer arranjar uma mulher – Disse ele entre risos, deixando Carven vermelho e me deixando ligeiramente confuso – Mais algum?
– Como vai me adotar? Vai dizer a todos que me encontrou nas ruas nessa idade e decidiu me adotar? Acha que se tiver alguma investigação eles não vão descobrir as coisas?
– Por isso que vou dizer que te adotei por ser filho de um primo distante da nossa família, que sua família inteira morreu em um acidente e cuidei de você desde que era um bebê, mas foi agora que decidi te trazer para a escola e te apresentar ao mundo – Carven parecia decidido.
– Isso poderia funcionar, mas e se investigarem essa tal família minha? Como vai ser? E os registros?
– Família marquesa de Frederick, morreram em um acidente de carruagem quando iam para a capital a 12 anos atrás, deixando apenas seu filho mais novo, que possuía 3 anos na época, chamado Richard Von Frederick, para que a família Soldest cuidasse dele até atingir a maioridade, mas por um desejo de ambas as partes, pelo tempo que passaram juntos, Richard decidiu ser adotado oficialmente – Disse ele com um sorriso no rosto, ele parecia determinado a não me deixar fugir – Quanto aos registros, eles existem, a única diferença é que Richard Frederick morreu no início desse ano de uma doença que ele tinha, como não anunciamos sua morte, ninguém sabe do ocorrido, além disso, a família Frederick possui a cor de cabelo igual ao da família imperial. E o seu nome não mudaria, já que ambos são chamados de Richard – Isso era algo bom demais para ser verdade, uma história que coincide exatamente com o que preciso, desde o nome, família, aliados e fisionomia.
– Ainda assim é perigoso.
– Os documentos de adoção estão aqui, basta assiná-los – Ele me ignorou completamente – Sobre o seu registro no livro de arvore genealógica, não se preocupe, como está assumindo uma identidade que já existia, seu registro é real.
– Por qual motivo ir tão longe? — Isso estava batendo em minha cabeça a muito tempo, mesmo sem me conhecer ele decidiu usar o feitiço de memórias e criar um laço de confiança comigo e agora está criando uma história e arriscando sua vida para me ajudar? Alguém que nunca viu na vida?
– Quando te encontrei percebi isso, mas depois de sentir o que passou eu tive certeza – Ele olhava para o chão, parecia querer evitar meu olhar — Você nunca soube o que é ter uma família, o que é ser amado, como é ter amigos, viver uma vida de paz e felicidade, sua vida foi dolorosa e cheia de machucados que ainda estão sendo abertos cada dia mais. Pode ser egoísmo meu, mas eu quero que me veja como alguém importante para você, quero que me considere a família que não teve e que fique ao meu lado como um filho que eu jamais vou ter – Meu peito queimava como fogo ao ouvir suas palavras, senti sua sinceridade e seu desejo, sabia que eram genuínos, nunca ninguém me disse nem metade daquilo e quando dizia algo era para conseguir outra coisa em troca, mas aqui estava ele, me oferecendo tudo e não me pedindo nada, apenas que seja sua família.
– Eu assino – Minha voz saia tremula devido a estar tentando não chorar – Mas ao primeiro sinal de que isso trará riscos a vocês, eu irei embora sem hesitar.
– Sem problemas – Seu sorriso era algo contagiante, como uma criança que ganhou um presente. Vendo isso assinei o documento como se meu nome fosse Richard Frederick.
– Seja bem-vindo a família Soldest.
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