Ascensão Arcana

1 Capítulo 01 - Nas Sombras da Rejeição


AVISO IMPORTANTE, ESSE CAPÍTULO POSSUI TEMAS SENSÍVEIS QUE PODEM SER UM GATILHO.


A chuva caia fria sob meu corpo maltrapilho, minhas roupas que outrora eram do mais puro luxo dos nobres de Avalom, hoje se tornaram trapos rasgados e sujos. Faz quanto tempo que moro nas ruas? Talvez uns 3 anos desde que fugi de casa, nunca deram falta de mim naquele lugar, a única coisa para a qual servia era ser abusado tanto fisicamente quanto mentalmente, além de mostrar a imagem de uma família nobre para os de fora. Eu já estou acostumado com essa vida, que apesar de dolorosa demais, ainda é melhor que antes, mas por qual motivo hoje dói tanto? Será que é porque hoje é meu aniversário de 15 anos? Vamos apenas ficar aqui e esperar, em algum momento uma dor maior vem e consigo esquecer essa.

Olha – Disse um garoto passando na minha frente com um guarda-chuva – O imperador deveria exterminar esses ratos de uma vez, só sabem sujar e poluir o nosso ambiente.

Passe longe meu filho, não sabemos se esse animal tem alguma doença contagiosa – Disse sua mãe com voz de escarnio – Vamos mais rápido, podemos denunciar essa praga para os guardas do distrito nobre, esse tipo de lixo deveria estar na floresta negra – E assim se afastaram enquanto praguejavam desejando minha morte.

Mas o que poderia fazer? Eles eram os que tinham poder nesse mundo, eles poderiam fazer qualquer coisa que quisessem e nada poderia pará-los. Esse sequer foi o pior insulto que já ouvi, pelo menos hoje não me espancaram, mas porque dói tanto? Será que é por que não tenho ninguém para me abraçar e me desejar um feliz aniversário? Ou por que essa criança tem o amor de seus pais, enquanto eu tive apenas os abusos deles e de meus irmãos?

Ei, moleque – Levantei a cabeça enquanto as lagrimas caíam silenciosamente – Essas lagrimas vão contaminar esse lugar seu lixo ambulante – Disse ele me erguendo pelos braços, sentia a dor do aperto, mas ela estava me ajudando a apaziguar a outra dor que estava sentindo, então não me incomodei e o que adiantaria me incomodar? Nada mudaria – Vou te deixar onde é seu lugar seu rato imundo.

Seu sorriso cruel no rosto era assustador, mas ainda era melhor que as lembranças daqueles que um dia chamei de família. Ele então me arrastou pelas ruas escuras do bairro nobre, fazendo com que minha pele ficasse machucada por bater em alguns pedregulhos da rua irregular, até que chegamos no portão leste, que dava para a floresta negra. Eles então finalmente estavam se livrando de alguém como eu?

Abram os portões, uma das bestas demoníacas acabou entrando sorrateiramente – Disse ele rindo com seus companheiros — Faça uma boa viagem para o seu novo lar seu imundo.

Ele então me jogou como se não fosse nada, o que realmente era, senti minhas costas baterem no chão, me fazendo gemer de dor, não conseguia me levantar por causa disso e sentia meu peito queimando enquanto as lagrimas caiam sem destino, mas por qual motivo isso está doendo tanto? Já passei por coisas piores, mas por que hoje está mais difícil? Talvez seja meu corpo desejando o fim de uma vez por todas, pelo menos isso eu posso me dar como presente.

Meu Deus – Abri meus olhos e vi um homem que evidentemente era um nobre pelas suas roupas – O que uma criança está fazendo aqui? Venha, vou te ajudar – Ele então chamou seu cocheiro e me levaram para dentro da carruagem — Você deu sorte que precisava passar pela entrada leste meu jovem, qual seu nome? — Olhei em seus olhos azuis e senti gentileza neles por um breve instante, até que se tornaram gananciosos e cheios de malícia — Como alguém com um cabelo e rosto tão belo foi parar em um lugar desses?

Apesar de estar acostumado com isso, por que hoje dói tanto? Não foram apenas algumas vezes, mas todos os dias, ao menos 2 vezes cada guarda vinha e me levava para seus quartos, nobres que me colocaram diversas vezes em suas carruagens e fizeram tudo o que queriam, mas por que hoje dói tanto?

Ele então começou a tirar minhas roupas, sentia uma angústia enorme sempre que suas mãos maliciosas me tocavam, eu queria ir embora dali, queria viver uma vida tranquila, queria saber o que é ser feliz e se sentir amado, não quero que isso continue acontecendo, por favor, alguém me ajude, qualquer um, só me tirem daqui.

SAI – Gritei enquanto colocava minhas mãos sobre a cabeça em desespero – ME DEIXE EM PAZ, ME DEIXE EM PAZ.

Continuei gritando a mesma coisa repetidamente, até sentir um líquido quente escorrer por meu rosto, passei a mão e vi que era sangue, mas eu não sentia dor na cabeça, olhei então para o homem e vi seu corpo totalmente deformado, pedaços espalhados por todo lugar e o sangue respingando do teto da carruagem, podia ouvir os gritos do lado de fora, além dos estrondos e tremores, como se a terra estivesse chorando.

Abri a porta e olhei brevemente, foi quando me deparei com algo assustador e belo ao mesmo tempo, a cidade estava sendo engolida por fogo e pedras que caíam do céu, ouvir os sons de desespero das pessoas que tentavam correr para salvar suas vidas parecia como uma música para meus ouvidos, apesar de estar tremendo de medo, eu estava feliz pela visão. Os muros estavam caindo sob os guardas, esmagando seus corpos sobre os escombros, as casas dos nobres queimavam seus corpos e aqueles que tentavam fugir eram esmagados pelas pedras que pareciam decidias a não deixar ninguém escapar.

Pela primeira vez, senti como se ganhasse um presente, senti como se hoje fosse verdadeiramente meu aniversário. A alegria e desespero se misturaram, me fazendo rir e chorar de forma histérica, eu não queria aquilo, mas também desejava a morte de todos. Foi então que uma das pedras que caíam do céu, estava vindo em minha direção, sabia que seria meu fim, mas por incrível que pareça, eu estava feliz e consegui sorrir com a cena a minha frente, então fechei meus olhos e apenas aguardei sua chegada. Até sentir o peso de sua queda, mas não sendo em mim e sim no homem que tentava fugir, por que a pedra não me esmagou?

Me levantei e percebi algo de estranho, estávamos perto do portão leste, não adentramos muito a cidade com a carruagem quando tudo começou, o fogo já tinha consumido tudo, mas não existia vestígios dele em minha volta, mesmo que me aproximasse ele parecia se afastar, como se estivesse me protegendo, as pedras estavam caindo por todo lugar, menos onde eu estava.

Senti uma forte fisgada na cabeça e um terrível cansaço que fez meu corpo cambalear e perder as forças nas pernas, me fazendo cair de joelhos, minha respiração estava ofegante como se o ar estivesse sendo tirado de meus pulmões. Sentia alguns passos se aproximando, mas não conseguia saber quem era, pois, minha visão estava muito turva, mas o fogo e as pedras não atingiam aquele homem também, apesar de tentarem.

Parece que acabei encontrando algo inusitado hoje – Disse ele com um sorriso no rosto – Descanse criança, prometo que cuidarei de você — Seus olhos não tinham malicia, parece que sabendo disso meu corpo se deixou desabar.