Ascensão
1 Galáxia em Espiral
Notas iniciais
Aquela sensação desesperadora de acordar e, por um momento, não se lembrar de onde está... foi assim que acordei naquela manhã. Por conta do susto, me levantei num pulo e, esquecendo de que meu novo quarto estava cheio de coisas espalhadas, esperando para serem devidamente guardadas, pisei com o pé que tirei da cama primeiro num recipiente de metal cilíndrico (que seria usado para armazenar minhas poções) e, de repente, estava olhando para o teto, estatelada no chão e com um galo na cabeça.
Nesse momento, olhando para a pintura que havia feito na noite anterior no novo teto — uma galáxia em espiral que, por meio da minha magia, se movimentava conforme o movimento das estrelas -, me perguntei se haveria algum lugar no universo no qual eu poderia me sentir segura ao ponto de acordar sem sentir uma sensação de desespero todos os dias. A resposta mental que cheguei para esse questionamento foi negativa.
— Merda.
— "Meow!".
— É, bom dia pra você também, Luna — respondi para minha companheira de quarto que me olhava com um olhar de questionamento de cima de uma das prateleiras da parede oposta a cama.
Com um suspiro irritado, me sentei, olhei em volta e senti desânimo. Haviam milhões de objetos espalhados pelo quarto e nenhuma esperança de ver o fim daquela bagunça tão cedo. Cocei a cabeça, não deixando de perceber que meus cabelos deveriam estar super desgrenhados, dei dois tapinhas nas minhas bochechas e me levantei num pulo. "Oss*¹!".
Apontando um dedo para os objetos que estavam ocupando espaço no meio do quarto, abri um círculo utilizando minha magia de telecinese e me sentei em posição de lótus. No início demorava mais de uma hora para realizar todos as magias necessárias e não as terminava sem antes estar exausta e com o corpo inteiro transpirando pelo esforço. Porém, depois de quatorze anos mantendo essa rotina, agora consigo realizar as mesmas magias, com muito mais potência, em quinze minutos e sem derramar uma gota de suor.
Depois de levitar meu corpo na altura de um metro, comecei a primeira magia. Mentalizei uma pequena esfera reluzente da cor do céu no topo da minha cabeça e materializando-a, visualizei ela em expansão. Tudo o que era abarcado pela esfera sofria um efeito de distorção visual. Humanos e bruxos normais que adentrassem a área da mesma sofreriam de ilusão quando olhassem para objetos que contém magia. Veriam algo parecido, algo que faria sentido para sua realidade. Essa esfera englobava todo o quarto.
A segunda e a terceira magia aconteciam do mesmo modo, a diferença é que a esfera criada pela segunda tinha um tom rosado e o efeito de apagar as auras mágicas. Tudo o que contém magia, em qualquer grau, possui uma aura mágica. Os bruxos normais e os bruxos como eu conseguem enxergar essas auras, então, para me esconder, eu precisava apagá-las e distorcer a imagem dos objetos mágicos ou usados para magia.
A última esfera, criada pela terceira magia, era alaranjada e impedia que os bruxos detectassem magias utilizadas naquela região, mascarando assim, as três magias utilizadas no local. As esferas só eram visíveis para mim, sendo que, quando elas sumissem, os efeitos das magias se dispersavam.
Essas magias, como pode-se perceber, parecem meio trapaceiras, certo? Certo. É por isso que elas estão no index das magias proibidas pelo Ministério da Magia. Quando um bruxo as usa em conjunto, ele fica indetectável para outro bruxo, como se fosse um humano. Essas são magias do mais alto grau de dificuldade e por isso seu efeito só dura vinte e quatro horas, sendo necessário que eu as refaça todos os dias de manhã. Você pode achar ruim eu estar cometendo crimes mágicos, mas, infelizmente, ou é isso ou eles me encontram... e me matam.
Essa tem sido a minha vida pelos últimos quatorze anos: fugas, fingimento, dúvidas e incertezas. Desde... bom, desde aquele dia em que tudo mudou, eu tenho que fingir que sou humana. O caso é que eu sou uma bruxa, mas eu sou diferente dos bruxos comuns e, por motivos que eu não sei muito bem, os bruxos comuns me perseguem.
Isso também é tudo muito confuso para mim, pois toda a informação que eu tenho sobre mim mesma, os bruxos e seu universo, se resumem em meia dúzia de livros (dos quais três estão numa linguagem que eu não consigo traduzir) e um mapa que mostra as áreas (que eu apelidei de linhas mágicas*², por que também não consigo traduzir seus nomes) nas quais eu posso realizar as magias que bruxos normais não podem. Eu deduzi que isso acontece por conta de propriedades naturais das áreas marcadas no mapa, que são como lençóis freáticos (só que mágicos), que reagem com alguma propriedade que existe no corpo de bruxos como eu. Mas, adivinhem, eu também não tenho essa informação, portanto, é só um palpite.
Foram quatorze anos da minha vida vivendo com medo, fugindo, sem ter um lugar fixo, com dúvidas e incertezas e sem coragem para procurar informações, pois, no menor deslize de mexer com itens ou livros mágicos, ou até de procurar em páginas, blogs e sites de magia, eu poderia ser detectada ou rastreada e então não existiria um depois. O fato é que eu estava cansada de fugir. Eu queria me estabilizar em algum lugar, criar relações, ter alguma paz... pelo menos por um tempo. Minha vida toda estava sendo uma mentira, nada daquilo fazia sentido e isso estava me consumindo, pois, eu só conseguia pensar "isso não é viver, se for para viver assim para sempre, eu preferia ter morrido naquele dia".
Foi há dois anos quando eu comecei a considerar a ideia de me estabelecer em algum lugar por um tempo. Até então, eu vivia como uma andarilha, viajando de acordo com o mapa das linhas mágicas, sempre indo em frente pelas linhas verdes fluorescentes, sem um rumo específico.
Era meu aniversário de 20 anos e eu havia comemorado num camping, perto de uma serra, na companhia da Luna, da minha barraca e de uma tempestade. Aquilo estava me deixando depressiva. Eu precisava de um rumo, de um objetivo! Então tomei uma decisão: se eu não podia correr o risco de viver como bruxa, eu iria viver como humana, entre os humanos, fazendo coisas de humanos.
Decidi que iria fazer algo que os humanos e bruxos da minha idade fazem. Eu iria estudar, fazer uma faculdade e me estabelecer em algum lugar... e depois, bom, o depois era tão incerto, talvez nem existisse, então, seria bom fazer algo que me deixasse feliz enquanto eu estivesse viva, já que eu poderia ser pega a qualquer momento.
Escolhi um lugar em que as linhas mágicas passavam que tivesse um curso que eu gostaria de fazer. A capital não era uma opção, eu passava longe das cidades grandes. Muita gente, muitos bruxos, muito perigo. Foi assim que passei um tempo estudando para passar no tal do vestibular e que acabei vindo parar num complexo de kitnetes, numa cidade do interior, para ingressar no curso de Artes da universidade pública que ficava nessa cidade. Então, para todos os efeitos e, para mim mesma, no momento eu era uma humana comum, de 22 anos, caloura do curso de Artes e que estava morando sozinha pela primeira vez.
Terminada minha rotina de proteções mágicas matinais, eu olhei em volta, encarando toda aquela bagunça e sorri. Sorri, por que, pela primeira vez em muito tempo, eu tinha um lar e minhas únicas preocupações nesse dia seriam organizar aquele espaço que era meu! Eu estava animada por essa nova vida, pois, se fossem dois anos antes, nesse momento eu estaria levantando acampamento para ir para outro lugar. Mas eu também estava com medo, eu não tinha garantias de que essa pequena loucura daria certo. É claro que eu tinha pensado muito bem em todos os detalhes antes de tomar essa decisão, mas, ainda assim, apesar de o sentimento dominante agora ser de excitação, eu estava um pouco apreensiva.
Passei a manhã toda arrumando meu novo espaço. Era um quarto/cozinha/sala, em formato de "L". No corredor da entrada ficavam a porta que dava acesso ao banheiro e a cozinha. Na parte principal do cômodo, ficavam minha cama em uma das paredes (na parede contrária ao corredor); várias prateleiras e uma mesa comprida na parede oposta a cama; um guarda roupa na parede lateral e, na parede oposta a que ficava o guarda-roupa, uma janela grande (com alguns objetos já acumulados embaixo).
É verdade que para mim era muito fácil viajar por conta da minha bolsa bidimensional que ganhei da minha mãe. Ela continha um espaço gigantesco dentro, pois era um item mágico... tudo o que era colocado dentro dela era armazenado num buraco dimensional, desse modo, não precisava carregar malas ou outras bagagens, somente uma pochete de couro preto discreta, que ficava presa à minha cintura.
Quando cheguei aqui ontem a noite, tirei grande parte dos meus itens de dentro da pochete. Estava animada, queria arrumar tudo naquele momento. Porém, me distraí com meus materiais de pintura. Olhei para o teto e senti uma necessidade sem precedentes de pintá-lo. Entenda, eu nunca tive um lugar que fosse meu (teoricamente esse também não era, mas segue o baile) em que pudesse fazer uma pintura, para que eu ficasse admirando minha arte. Tive a sensação de que se eu fizesse isso, se realizasse algo que deixasse uma marca fixa minha ali, tudo poderia dar certo. Foi assim que fiquei até as três da manhã pintando uma galáxia em espiral, ao invés de dormir.
Chegando perto do meio dia, comecei a sentir fome e me lembrei de que precisava comprar ingredientes, tanto para comidas quanto para minhas poções. Infelizmente eu não podia comprar ingredientes mais elaborados, pois, não tinha acesso às lojas bruxas (tinha que fingir que não podia vê-las), portanto, minhas poções não eram das mais elaboradas.
Foi enquanto eu saía de casa fazendo uma lista mental de tudo o que precisava comprar que eu o vi. Tudo o que conseguia pensar era "merda, merda, merda!!!". Respirei e fingi plenitude enquanto passava pelo meu vizinho de porta que, pasmem, era um bruxo. Meu sonho de dias tranquilos foi por água abaixo.
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