Notas iniciais
Esse capítulo é dedicado à Al Ravenweather (por ser um leitor maravilhoso) e Moonchan (por ser meu controle de qualidade). Anos avançaram desde o prólogo. Novos personagens vão aparecer e aos poucos os mistérios vão ser revelados. Peço desculpas pela demora na atualização. Boa leitura

Capítulo 1

Caminhos que se cruzam

Sentado na carteira, a mão apoiando o queixo, observava a janela. O sinal tinha soado e o movimento de alunos aumentou significantemente na porta da sala de aula. Ele reparava em tudo interessado, mas sempre se mantinha à parte: era divertido se passar por adolescente, mas eles eram tão cansativos...

A faixa etária dos 40 aos 50 anos era a sua favorita. As pessoas não conseguiam mais mudar facilmente certos valores, ainda que mantivessem um frescor mínimo dos anos anteriores; as conversas focavam em política, religião e família, como se assim pudessem separar os indivíduos com opiniões parecidas e julgar o resto. Essa era a melhor parte: como sempre julgavam errado quem quer que fosse e, ah!, como ele adorava bancar o papel do homem excêntrico pronto para chocar todos eles!

A que mais detestava era a faixa a partir dos 80 anos. A desolação, o abandono e mudanças rápidas demais na capacidade física e mental. Coisas que o lembravam de Hana e dos seus últimos momentos.

A adolescência era agradável comparada a isso, mas quando você vive por tanto tempo, todos aqueles dramas adolescentes se tornam banais. A única coisa que conseguia distraí-lo eram as aulas de geografia e história, que usava para escolher o seu destino na sua "próxima vida".

O professor entrou, reclamando do barulho dos alunos no corredor e chamando aqueles que faziam parte da classe. A algazarra continuou por um tempo, mesmo depois do único adulto na sala ter se virado e começado a escrever na lousa.

Trigonometria.

Matemática e todas as outras matérias exatas eram um pouco entediantes para ele: a grande maioria das questões podiam ser respondidas apenas com lógica. As fórmulas prontas que os professores entregavam, e que a grande maioria dos alunos esqueciam, podiam ser construídas com um pouco de raciocínio. Se os estudantes percebessem que perderiam menos tempo tentando entender a lógica por trás da resolução do que decorando...

Era triste ver tanta gente com dificuldade em uma coisa tão simples.

É claro que, depois de tanto tempo revivendo cada etapa educacional, até mesmo geometria analítica se tornava fácil. Respondia tão automaticamente as questões que não sentia um mínimo de satisfação ao terminar uma atividade.

Voltou à realidade com o professor ditando duas questões para os alunos. Terminava de respondê-las quando sentiu. Era o cheiro mais delicioso que sentira em toda a sua existência. O coração entrou em taquicardia enquanto a boca salivava, fincou a unha tão forte na mesa que conseguiu fazer sulcos na madeira, a perna tremia. Forçou-se a prender as vistas na atividade sobre a mesa, mas sentia-se irrequieto, queria olhar em volta a procura da fonte. Sabia, contudo, que seria em vão: o cheiro estava fraco, com certeza vinha de algum lugar fora do colégio.

Percebendo que não conseguiria manter o controle, apanhou as próprias coisas e enfiou na mochila, levantou-se e caminhou diretamente para a saída da sala, ignorando os chamados do professor e o burburinho da sala. O importante era saber de onde aquele cheiro vinha e o que era.

Saiu do colégio evitando os seguranças e pulando o muro dos fundos, algo fácil para suas habilidades sobre humanas. A cada século que passava seu corpo se adaptava mais com as restrições do mundo humano, aumentando seus limites físicos sem o auxílio de seu poder demoníaco.

Do lado de fora, pôs-se a caça da fonte do cheiro, sem se preocupar com quanto tempo isso lhe tomaria.

Tomou-lhe um dia inteiro.

Já era noite quando ele chegou ao hospital da cidade vizinha. Olhou fixamente para a construção de quatro andares tentando de algum modo adivinhar o que tinha atraído-o até ali. Tentou entrar normalmente, mas, sem uma desculpa plausível, foi impedido pelos funcionários. Deu a volta pelos fundos, escalou o prédio até o terceiro andar, onde o cheiro se tornava tão forte que chegava a ser insuportável, e com muito cuidado, forçou uma das janelas.

O andar estava estranhamente vazio. Continuou seguindo o cheiro cautelosamente até chegar à maternidade. Estacou no lugar, finalmente tomando consciência do que estava fazendo e do erro que estava prestes a cometer, mas então já era tarde demais. Seus olhos fixaram-se nos olhos gigantes e doces do bebezinho. Ele sorriu tristemente, como se pedindo desculpas. A criança sorriu de volta ao mesmo tempo que o cheiro adocicou. Então ela voltou-se para o lado esquerdo, olhando para o gêmeo.

O adolescente apoiou a mão livre no vidro enquanto a outra tampava a boca fortemente. Quem diria que a alma oposta e a alma complementar a sua surgiriam ao mesmo tempo?

O barulho do elevador parando no andar em que estava o despertou do seu estado de euforia. Refez o caminho por onde viera, saindo correndo do campo visual de quem quer que estivesse chegando. Enquanto saía pela janela que tinha entrado no hospital, planejando um modo de descobrir para onde os gêmeos iriam depois de sair dali, seu corpo travou completamente, no meio do movimento para pular o andar.

Na sua frente, mantendo-se no ar com a ajuda de suas lindas asas prateadas, estava Dara, a anjo odiosa que tinha provocado toda a sua desgraça. O cabelo era tão dourado quanto os raios do sol ao nascer e batiam-lhe bem abaixo da cintura; um dia passara a mão por aqueles cachos e admirara sua textura e cor com adoração, agora só sentia os olhos doerem, assim como alguém com ressaca ao acabar de acordar. Nos braços carregava os dois bebês que estavam, pouco tempo antes, no berçário.

Quando ela falou, ele sentiu dor nos ouvidos, como se seus tímpanos fossem estourar. Dara gargalhou e mudou a fala para a língua mundana.

– Quem diria que um dos príncipes do submundo, braço direito de Lúcifer sentiria dor como um humano ao ouvir Enoquiano.

As palavras dela eram cortantes e atingiram-lhe como um tapa. Nunca sentira vergonha até então, mas agora sentia o ódio ceder espaço pela primeira vez, enquanto o sentimento tomava-lhe a cabeça.

– O que faz aqui?

A frase saiu engasgada. Dara flutuou para longe como se tivesse sido empurrada por algo invisível. Ele tinha que se controlar mais, não poderia deixar que ela soubesse até onde os seus poderes iam. A rata traiçoeira aproveitaria qualquer informação para vendê-lo depois.

Anos antes, quando ela declarou que sentia um interesse anormal por ele, fora tolo e deixou-se levar, sem saber que o interesse que ela sentia era o mesmo que o de uma criança quando apanhava um brinquedo e o desmontava completamente. Dara não se importava com nada a não ser saciar a própria curiosidade e acabar com o tédio que sentia com os irmãos. Fizera vários humanos sofrerem antes de ter a epifania de que um demônio a entreteria por mais tempo.

A anjo voltou a sua posição inicial, aproximando-se com desconfiança do demônio. Fitou-o fixamente, avaliando-o. Ele viu quando algo como receio cruzou-lhe a mente, mas então um sorriso cruel cortou-lhe a face, ao mesmo tempo em que ela ignorava o que seu instinto avisara anteriormente. Nem mesmo um demônio conseguiria sorrir daquele jeito; seu rosto de linhas suaves transmutou-se numa carranca horrível.

– Sabe o que é curioso? Eu, usando duas criancinhas humanas, consegui em um dia o que seus amiguinhos tentam fazer há milênios.

Ela aproximou-se do rosto dele, percebendo a fraqueza que causou nele ao citar os amigos.

– Você não faz ideia, não é mesmo? Nem imagina o que eles passaram pra acobertar sua fuga...

A expressão de pena que tentava colocar no rosto não conseguia esconder o deboche impregnado em sua voz e em sua postura.

– O que você quer?

Tentava manter-se calmo, mas sabia que se aquela conversa não acabasse logo, faria alguma besteira.

– Apenas me divertir um pouco.

Rindo delicadamente ela incendiou as duas crianças que segurava nos braços. Os gritos dos bebês foram ouvidos apenas por ele: não passava de uma ilusão para atingi-lo.

– Eu escolhi a dedo a alma dessas duas crianças, peguei numa fornada bem especial, acredito que já tenha percebido. Você sabe o que vai acontecer se morrerem por interferência divina, não sabe?

O rosto dela, a essa altura, estava a apenas alguns centímetros do dele.

Sentiu o cheiro doce que um dia tinha adorado, que não conseguia cobrir totalmente o cheiro acentuado de podridão. Gargalhou, finalmente percebendo o propósito daquela visita.

– Então é isso que você quer.

Dara encolheu-se, como se ferida profundamente. Ela precisava dele, tinham uma ligação muito mais profunda do que gostava de admitir e isso o deixava seguro de que, apesar de tudo, ela não o mataria. Naquele momento, entretanto, pela primeira vez sentira essa certeza ser abalada. Vira o mesmo olhar várias vezes no rosto de todos que tentaram assassiná-lo na guerra. Aquilo era mais do que apenas ódio, era sede de sangue.

Talvez tivesse ultrapassado um limite que não deveria: apenas algumas castas angélicas possuíam aquela sede de sangue e Dara não fazia parte de nenhuma delas. Mas nunca fora do tipo cuidadoso, então forçaria mais um pouco e que ela se doesse o quanto quisesse.

– O que não ficou muito claro é o que eu vou ganhar ao fazer o que você quer.

– As crianças...

– Alguém já fez o favor de colocá-las em minhas mãos, não é como se eu precisasse de você para alguma coisa.

As bochechas dela ficaram rosadas. Por mais que Dara fosse cruel, vez ou outra mostrava um de seus traços celestiais marcantes: sua inocência quase infantil.

– Eu posso matá-las...

Ele riu interrompendo mais uma vez a fala da anjo, que a essa altura já começava a elevar a voz.

– Não, você não pode.

Olhou fixamente para ela, com o cuidado de manter sempre o sorriso aberto: sabia que isso a enfurecia.

– Eu vou te limpar, mas apenas quando eu quiser.

Dara abriu a boca pra protestar, mas calou-se quando ele levantou a mão.

– Eu consigo sentir o fedor que vem de você: o cheiro de podridão que se estabeleceu e cresceu livremente durante todos esses anos. Você está muito além do salvamento. Percebe a ironia da "Justiça Divina" caindo sobre um dos guerreiros do próprio Senhor?

O garoto gargalhou enquanto Dara empalidecia.

– Eu posso neutralizá-la por um tempo, mas ela já tomou a sua carne. Vai voltar e você vai precisar que eu faça isso uma vez atrás da outra, então é bom que seja uma boa garota e comece a obedecer.

Como se um imã a puxasse, Dara foi arrastada até a mão estendida do garoto, que a segurou pelo pescoço.

– Você não pode... Meu encantamento...

– Você ainda não percebeu?

O garoto sorriu enquanto a anjo arregalava os olhos, finalmente percebendo que ele fingira estar sob seu encantamento de restrição de movimento.

– Eu te dei liberdade milênios atrás, porque esperava algo diferente vindo de um dos celestiais, mas sabendo que vocês são tão corruptos e hipócritas quanto nós, a partir de agora você vai receber o mesmo tratamento que eu dispensava aos meus subordinados. Você quer salvar sua pele? Então me obedeça.

Dara concordou fracamente, os olhos opacos. A coisa que a comia por dentro reagia ao demônio, dando-lhe total controle sobre a celestial.

Ele podia não ser do tipo cuidadoso, mas sabia guardar seus segredos: a corrupção no corpo dela viera dele. Poderia ter controlado-a antes, mas fora um tolo por não enxergar a verdade.

"Não tornará a acontecer."

Ele a soltou. A anjo tombou como uma pedra, seu corpo percorrendo a distância até o chão numa velocidade muito maior do que o esperado; seu corpo esguio tinha mais peso acoplado a ele do que só a massa da criatura celestial. Chocou-se com um carro estacionado ao lado do prédio, amassando-o completamente e lançando os vidros, aos pedaços, das janelas e do parabrisas ao seu redor. O carro disparou.

O garoto desceu os três andares com facilidade; deixou-se cair entre as janelas dos andares, onde se agarrava temporariamente pra diminuir a velocidade do corpo.

Bateu no carro uma vez, cortando o sistema elétrico do veículo com uma carga mínima do seu poder. Colocou-se ao lado da anjo que respirava com dificuldade.

– Você vai colocar dois selos de proteção naqueles bebês. Dê entrada na solicitação de guarda e mantenha-se perto deles. Não quero nenhum dos meus ou dos seus xeretando aquelas duas crianças. Entendido?

Dara levantou parcialmente a cabeça e concordou com um resmungo.

O garoto aproximou-se dela e a agarrou pelos cabelos, colocou a boca a poucos centímetros da boca aberta dela e sugou o ar. Uma nuvem negra saiu de dentro da celestial e concentrou-se no espaço entre as duas bocas, cristalizando-se numa bola maciça de chumbo. Ele segurou a bola entre o dedo indicador e o polegar da mão livre e analisou com cuidado, enquanto soltava a cabeça da anjo displicentemente.

– É a maior que já vi...

Deu de ombros e jogou fora a bola de cinco centímetros de diâmetro.

– Nos vemos em 2 anos.

Virou-se e seguiu o caminho de volta para casa assobiando, deixando o corpo desacordado de Dara sobre o carro.

Notas finais
E nosso demônio MA-RA-VI-LHO-SO continua sem nome HSAUHSAUHASUHSAUHASUHSA Gente, eu já não sei mais se o problema é a história que não me dá oportunidade de escrever o nome da criatura ou se sou eu que estou enrolando pra fazer isso. Quem sabe no próximo capítulo?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.