Ascensões & Quedas

3 Capítulo 0 - III


Capítulo 0

Parte 3 – Limitação

As sessões tornavam-se cada vez mais longas e dolorosas. Sabia que encontrar o controlador perfeito seria difícil, mas os testes se resumiam à tentativa e erro. Virara cobaia dos sacerdotes.

Olhou para o pequeno jardim. Pedira para que as sessões fossem transferidas para aquela sala por causa da vista que teria durante os intervalos. Apesar do corpo reclamar, sempre sentava na varanda e observava as crianças brincando. Os garotos sempre eram diferentes do que se lembrava e algumas vezes, durante as sessões, pegava-se observando o rosto amadurecido de um deles. Quando pequenos, corriam nos jardins do demônio; adultos, torturavam-no até o colapso. Se divertir com o pensamento o tornava um masoquista?

Lançou um breve olhar para o braço esquerdo, não se surpreendendo ao perceber que não havia mais marcas da queimadura recente. Seu organismo havia evoluído ao ponto de não precisar de sua energia demoníaca para curar-se na velocidade normal.

— Ei, moço!

O garoto andava até ele, meio receoso, incentivado pelos amigos. Observou com cuidado o grupo de garotos que riam enquanto torciam pelo garoto, percebendo que se tratava, muito provavelmente, de alguma aposta entre eles. O menino se aproximou mais um pouco, parando a alguns passos de distância, rígido como uma pedra.

— O que eles fazem aí dentro?

Apontou para o salão onde suas sessões aconteciam diariamente. Pôde ver que a mão do pequeno tremia ligeiramente, os outros mais atrás finalmente em silêncio. Manteve-se quieto.

— O senhor é mudo?

A pergunta gentil o pegou desprevenido. Fitou atentamente o garoto.

— Qual o seu nome, pirralho?

A voz arranhada pelo desuso assustou o menino, que ficou ainda mais inquieto quando o grupo fugiu ruidosamente, provavelmente ao sentir o olhar hostil do homem sobre eles.

— Seu nome, pirralho.

Ordenou com uma pitada de irritação na voz.

— Yeho... Yehonathan – gagueijou.

— E por que você quer saber o que fazem aqui, Yehonathan?

Aguardou a resposta enquanto o garoto abaixava a cabeça e fitava algum ponto interessante no chão. Minutos passaram e ele já havia desistido de obter uma resposta. Suspirou e levantou-se, viu o garoto tremer ao sentir sua sombra sobre ele. Sorriu.

— Fazer algo que não quer, por medo, é patético.

Yehonathan levantou a cabeça, contra todas as expectativas, seu rosto mostrava a raiva que sentia, assim como a vergonha e a frustração. Abriu a boca algumas vezes, mas nada disse.

— Toquei em algum ponto sensível?

Curvou-se para fitar o garoto nos olhos, a pergunta sarcástica pairando entre eles. Durante algum tempo se encararam, até que o garoto desviou o olhar, como uma outra criança havia feito anos atrás. A comparação trouxe um gosto agridoce à sua boca.

Pigarreou ao mesmo tempo em que voltava a ficar ereto. Coçou a cabeça.

— Se quer mesmo saber o que acontece aqui dentro, volte amanhã. Sozinho.

Não chegou a esperar uma resposta do menino, muito menos o olhou a procura de um sinal de concordância, apenas deu-lhe as costas. Arrastou a porta de madeira revelando o salão onde sua tortura diária acontecia, agora apenas um grande lugar vazio e sombrio, ouvindo o menino se afastar. Esperava que o garoto aparecesse no dia seguinte.

Com um suspiro voltou a correr a porta de madeira, fechando-se do lado de dentro. Passaria o resto de seu intervalo entre sessões lendo alguma coisa na pequena biblioteca que havia montado, algum livro humano sobre um assunto aleatório.

Desenvolveu o gosto pela leitura pouco tempo após a morte de Hana, quando descobrira, em uma de suas visitas ao anexo sujo, uma grande estante contendo uma quantidade razoável de livros. Comparada ao restante dos objetos no anexo, a estante mostrava-se limpa assim como os livros mostravam-se gastos pelo uso demasiado. Apoderara-se tanto do lugar quanto dos livros, aumentando sua coleção com o passar dos anos.

Atravessou o salão rapidamente dirigindo-se à uma das portas em um de seus extremos. Abrindo-a, revelou-se a pequena biblioteca que montara com cuidado: uma cópia maior de outra em que passara seus primeiros dias no mundo humano. Dirigiu-se à velha poltrona com um pequeno livro sobre o braço; o livro que estivera lendo naquela manhã. Continuaria a leitura até que viessem chamá-lo para a próxima tentativa, provavelmente falha, de selamento.

Suspirou ao pensamento.

O falecido Takuan, o mesmo velho safado que o tratara como serviçal por tantos anos alertara-o para as dificuldades que encontraria até que obtivesse sucesso no procedimento, sendo essas mesmas dificuldades o motivo por não ter revelado sobre o processo antes. Ele lhe dissera que sua energia demoníaca era grande demais para que um ser humano normal conseguisse controlar, mesmo que apenas uma percentagem e que, até que encontrasse o controlador ideal, sua aura instintivamente tentaria repelir o processo de todas as maneiras independente de machucá-lo ou não.

É claro que, se tratando de um demônio do seu nível, achara que aguentaria as dores com facilidade. Mas até morto o velho tirava uma com a sua cara: os sintomas da rejeição eram imprevisíveis e, em sua maioria, insuportáveis. Desde que começara as sessões tivera que aguentar queimaduras, sangramentos externos e internos, dores de cabeça terríveis ao ponto de levá-lo ao desmaio e vômitos, sempre acompanhado do mal estar causado pelo desequilíbrio de seus poderes.

O que tornava tudo pior é que a rejeição não era sentida apenas por ele, mas também pelo controlador, que após o selamento falho teria que lidar com uma quantidade enorme de carga demoníaca injetada diretamente em seu sistema orgânico. Devido às falhas passadas, a quantidade de voluntários reduzira obrigando o novo encarregado do templo, Iriya, a manter todo o processo às escondidas. Ele escolhia aqueles com maior potencial e os trazia para que pudesse usá-los como cobaias.

Massageou as têmporas. Depois de tanto tempo convivendo com humanos passara a apreciar seus hábitos e cultura, sua visão mudara completamente e tudo isso graças a Hana. Sentia falta da garota e ainda se culpava por tudo que poderia ter feito por ela e não fez, por tudo o que a mulher poderia ser para ele e não foi. E apesar disso, ainda continuava com aquela abominação; continuava usando homem atrás de homem como se fossem objetos descartáveis a procura de seu controlador. A consciência do que fazia era pior que as dores que sentia, por isso concentrava-se em sua dor física e mantinha em mente o último desejo da única humana que se importara desde que chegara: a de sair daquele lugar.

Levantou-se da poltrona ao ouvir o som de passos. Sabia que era Iriya e o próximo candidato, então apressou-se em encontrá-los.

O mais velho explicava algo ao rapaz enquanto seis sacerdotes preparavam o lugar; três deles estavam desenhando um grande selo no centro da sala enquanto entoavam mantras antigos e os três restantes mantinham-se a margem segurando, cada um respectivamente, um cálice, uma pequena garrafa e um punhal.

Iriya o notou e fez um gesto lento com a mão para que se aproximasse. O rapaz estava pálido, mas curvou-se respeitosamente quando foi apresentado.

Lançou um olhar reprovador em direção ao homem mais velho, deixando claro o quanto o desagradava a escolha do recipiente. O garoto claramente não aguentaria o ritual, tanto sua aura quanto seu corpo não eram adequados. Mas não se atreveu a dizer nada na frente do mais novo, aprendera sua lição anos atrás quando um candidato tomara suas palavras como desafio e levara o processo adiante mesmo depois dos sacerdotes decidirem que era inapto.

Não gravou o nome do rapaz, sabia que não era seu nome real. O velho Takuan garantira que se manteriam as regras mesmo após sua morte e uma delas o impedia de saber o nome real dos recipientes. Nunca entendera o motivo por trás disso, mas podia arriscar um palpite: apesar de gostar de vê-lo em desgraça, o idoso muito provavelmente achara que criar laços com pessoas que poderiam morrer no segundo seguinte seria cruel demais, até mesmo para um demônio como ele. Ainda assim ressentia-se, era apenas mais um fator que amplificava a sensação de descarte de todos aqueles humanos. Suspirou. Estava além de seus poderes mudar essa situação.

Iriya aproximou-se dos outros sacerdotes levando o rapaz. Iniciariam o processo de avaliação, antes que passassem para o teste definitivo.

Ele não esperou, já sabia o resultado, afinal. A aura do rapaz seria consumida; seu corpo seria corroído de dentro pra fora, o próprio sangue transformado em veneno; perderia a consciência quase que instantaneamente se tivesse sorte, mas até aquele dia ninguém fora aliviado do sofrimento: sentir o fogo derretendo seus ossos, os dentes mastigando sua carne, os olhos demoníacos consumindo tudo em um looping infinito. Quanto mais perto do fim pior seriam os delírios, algumas vezes os recipientes arranhavam o próprio rosto ao ponto de tirar pedaços de carne, a grande maioria se urinava e chorava, gritando palavras inteligíveis. E ele veria isso tudo acontecer, não como os outros, mas com o olho de sua mente; veria os delírios tão nitidamente quanto os enlouquecidos, pior ainda, faria parte daqueles delírios. O demônio dentro dele criava a loucura, sedento pela dor alheia e a sua própria.

Nem mesmo o velho Takuan entendera porque ele sentia tanta repulsa por aquele processo. Ninguém entenderia o que era fazer um ser humano sofrer até o limite físico e mental, mas não conseguir se conter pelo simples prazer de matar uma coisa viva. Pelo prazer de sentir seu poder. Pelo prazer de seguir sua natureza.

Era o mesmo prazer que sentira quando fugira com Hana. O mesmo prazer que sentira na batalha que desencadearia sua fuga até o templo. Meio deitado em sua poltrona, com as pernas jogadas displicentemente sobre os braços encardidos, o livro aberto descansando sobre o rosto, o sol do final da tarde inundando parcialmente o seu corpo, conseguia lembrar com perfeição cada um desses momentos, como se tivessem ocorrido ao mesmo tempo.

Enfrentar a corte, desviar-se com elegância de armadilhas nos discursos daqueles traidores, o olhar que seu servo lhe deu ao ouvir as notícias, a batalha sangrenta em seu território que destruíra tudo que já tinha construído em uma existência longa demais, a segunda batalha que destruíra tudo o que seus rivais gostariam de proteger e ampliar, o sabor agridoce ao saber que fora enganado por ela, mas que não seria o único a sentir dor e não seria o que mais sentiria. E o sorriso de Hana, doce, o olhar inocente e carinhoso, todas as vezes que ela correra até ele quando pequena, querendo criar um laço que ele não estava disposto a compartilhar com ninguém mais, acreditava piamente que aprendera sua lição, mas, oh! Como estava enganado...

Sentiu um pequeno cutucão no braço, levantou o livro o suficiente para observar quem quer que fosse, escondendo a surpresa o melhor que pode: era a primeira vez desde sempre que alguém conseguia se aproximar sem que ele tivesse pressentido. Parado, com uma mistura de receio e curiosidade mal disfarçada estava o garotinho do começo do dia.

— O que faz aqui? – murmurou, fingindo uma sonolência que não sentia.

— Você disse que eu deveria voltar...

— Amanhã – pontuou, agora devidamente sentado e encarando friamente o menino.

— Mas já é amanhã. – apressou-se a dizer, abaixando o olhar enquanto pressionava uma mão na outra.

O homem lançou uma olhar para o relógio e depois para a janela, imaginando que deveria ter dormido o dia inteiro sem perceber, mas duvidava muito disso. Alguma coisa causara aquele blackout completo do seu sistema. Voltou a encarar o garoto, dessa vez com atenção redobrada.

Yehonathan era tão minúsculo como qualquer cria de ser humano seria, mas mantinha uma aparência de saúde incontestável: as bochechas eram rosadas e rechonchudas, a barriga era uma protuberância macia abaixo do peito forte, os braços e pernas proporcionais, até mesmo mais do que deveriam. Algo nele perturbava o demônio, mas o que poderia ser?

— Olhe para mim, pirralho.

O menino fitou o homem com um pouco de reserva. Um segundo foi tudo que precisou para fazer com que o demônio percebesse e risse da situação. A risada, quase senil, ecoou na biblioteca e dela se espalhou pelos cômodos vazios do restante do lugar. O garoto recuou, talvez percebendo, tarde demais, que não deveria ter se aproximado daquele homem, que não deveria ter entrado em um lugar estranho sozinho.

Envolveu a cabeça do garoto com uma mão, sentindo que ele logo fugiria. Segurou firmemente, provavelmente machucando-o, mas o menino não deixou transparecer.

"Bom. Muito bom."

— Você queria saber o que acontecia aqui dentro, não é mesmo?

O menino concordou tentando acenar com a cabeça que o homem ainda segurava.

— Olhe para mim e diga o que vê.

— Um velho. – o garoto disse meio confuso. – O que mais poderia ver?

— Então é como um velho que as crianças me veem? – perguntou retoricamente, divertido. – Que tal agora? O que vê?

— Ainda vejo um velho, o que isso tem a ver com...

Os olhos do menino se arregalaram e a boca se abriu em um "o" expressivo. Então algo brilhou naqueles olhos azuis e o demônio perguntou-se se pela primeira vez teria conhecido uma criança corrompida cedo demais, aquele brilho avaliativo era mais que curiosidade. Era desejo. Mas de quê?

— Como você fez isso? – o menino perguntou excitado.

O homem sorriu de canto e deu de ombros.

— Agora, me diga: o que vê?

— Seu olho é dourado e brilha de um jeito estranho. Seu cabelo cresceu e agora é preto. E asas! As maiores e mais bonitas asas que já vi!

O homem assustou-se e dessa vez não teve como se conter, voltou-se tão rápido para o ponto onde o menino olhava que poderia ter quebrado o pescoço, mas nada viu. Encarou o garoto mais uma vez com mágoa e raiva, pronto para castigá-lo por...

"Como ele poderia saber?"

— Garoto, descreva essas asas para mim. Tem alguma coisa de especial?

O garoto confirmou.

— Elas são branquinhas e parecem bem fofas, como asas gigantes de um passarinho.

Parou por um momento, apertando os olhos e dando um passo para o lado direito da poltrona.

— Não são brancas, quer dizer, elas têm um brilho engraçado como seu olho, às vezes parecem douradas também... Ah! – exclamou subitamente, apontando para a asa do outro lado. – Mas aquela ali tem umas penas pretas, como se fossem manchas, mas são bem pretas mesmo. Como...

O menino olhou em volta, sem encontrar alguma coisa que pudesse fazer uma comparação correta.

— Como isso?

Mostrou um colar que usava por baixo da blusa. Preso nele estava uma pedra negra. A cor era diferente de qualquer outra que um ser humano tivesse visto, porque não era bem uma cor.

— É!

O garoto exclamou aproximando a mão da pedra, mas o homem voltou a colocá-la para dentro da blusa.

— Interessante... – murmurou. – Venha comigo.

Ele andou com o garoto em seu encalço para fora do lugar, passou pelo anexo onde antes uma adolescente fora presa até o dia de sua morte e então entrou no templo principal.

— Garoto, eu sou um demônio.

— Mas suas asas...

O homem levantou a mão interrompendo o menino. Caminhavam até o local onde ele sabia que encontraria Iriya.

— Todo demônio tem asas. Não importa. Você não queria saber o que acontecia ali? Pois bem, aquele lugar é um local de testes. Garotos mais velhos que você vão até ali para tentar controlar o meu poder.

O olhar que o menino lançou para ele foi o suficiente. Suspirou.

— Eu tenho uma quantidade de energia muito grande e essa quantidade pode machucar humanos. Para que eu possa viver normalmente, sem medo de machucar alguém, eu preciso passar parte dessa energia para algum lugar. Os garotos vão ali para tentar pegar essa parte.

— Eles ganham asas também?

Os olhos do garoto brilharam.

— Não. Eles ficam mais fortes que humanos normais, podem viver mais e outras coisas, mas nada de asas.

— Ah... – murmurou chateado. – E pra onde estamos indo?

O demônio parou de andar subitamente.

— Eu acho que você consegue controlar essa minha energia, estava te levando até o Mestre Iriya para que ele pudesse te avaliar.

— Mas eu não quero.

Esperar ambição de um garoto tão novo fora ingenuidade.

"Mas em alguns anos..."

Acenou para o menor em concordância.

— Tudo bem. Então isso fica como um segredo entre nós.

— Ok.

O demônio ajoelhou-se em frente a ele e olhou no fundo dos seus olhos. O garoto deu um passo para trás, tremendo, após vislumbrar o que os humanos chamariam de "inferno".

— Isso que você acabou de ver é o que vai acontecer se você contar algo a alguém. Posso confiar em você?

— Sim... – respondeu, com a voz vacilante.

O homem deu um sorriso de lado e fez um aceno em direção a saída. O menino entendeu perfeitamente e saiu correndo, provavelmente pronto pra esquecer tudo o que tinha visto e ouvido.

O demônio, no entanto, sentiu pena do garoto: era de sua natureza demoníaca tentar, assim como era da natureza humana ceder à essas tentações. Anos passariam até que eles voltassem a se encontrar, mas se encontrariam. Tinha certeza.

"E quando esse dia chegar vou finalmente sair daqui e cumprir minha promessa."

Notas finais
Será que o demônio um dia vai ter nome? Será que conseguirá passar por todo o processo de humanização? Será que a autora tomará vergonha na cara e terminará logo esse capítulo infinito? A parte IV, provavelmente a última parte do capítulo 0 (ou o que seria um prólogo MUITO grande), sairá semana que vem e então todas as perguntas serão respondidas! Provavelmente... Acho... Quem sabe?