Ascensão Arcana

8 Capítulo 08 - Memória Residual


As trovoadas ecoavam ao meu redor, e cada relâmpago iluminava o céu como se o mundo inteiro estivesse em chamas. Mas, ao invés de medo, era como se cada trovão me abraçasse, trazendo um calor inesperado, um conforto profundo que fazia o caos parecer um refúgio.

– Richard – Murmurou Lion ao meu lado, seus olhos brilhando como estrelas e o largo sorriso iluminando todo o seu rosto. Naquele instante, meu coração se aqueceu, como se o simples som de meu nome tornasse o momento sublime, uma sensação de pertencimento tão forte que quase podia sentir o calor de algo grandioso tomando conta de mim – Isso é lindo.

Naquele momento, parecia que todas as minhas dores e angústias finalmente encontravam voz através dele. Em seus olhos, eu via mais do que simples compreensão, era como se ele enxergasse cada uma das minhas feridas invisíveis. Cada trovão parecia estar ecoando como se fossem gritos sufocados, as gotas de chuva caíam no mesmo ritmo que minhas lagrimas. O fato de que ele pudesse estar sentindo tudo aquilo fez meu coração disparar, trazendo uma mistura de alívio e medo, como se, pela primeira vez, alguém pudesse verdadeiramente me entender.

Senti meu corpo levemente mais fraco depois de alguns momentos, sabia que meu controle sobre a mana estava no limite, meu corpo não aguentaria mais do que isso, seria perigoso continuar. Como algo natural, apenas deixei que tudo se esvaísse até sumir por completo. Olhei em volta e percebi que todos me observavam com um certo receio em seus olhares, outros tinham compaixão e admiração, sendo um deles a professora, que se encaminhava rapidamente em minha direção.

– Isso foi algo – Ela parecia orgulhosa e pensativa — Não sei explicar, mas sua magia trouxe emoções muito fortes, como se estivesse gritando por todos os lados pedindo por socorro.

– Sim, mas também como se sentisse falta de alguém para se apoiar nesses momentos – Lion me olhava com ternura, o que por alguns momentos me prenderam em seus olhos – Realmente lindo.

– Se for para vocês se beijarem, por favor, vão para um local privado – Disse a professora, fazendo com que ambos ficassem com o rosto vermelho enquanto ela revirava os olhos.

– O.... o que? E.... eu preciso ir – Lion nem bem terminou de falar e saiu rapidamente, me deixando para lidar com a vergonha sozinho.

– Parece que peguei pesado na brincadeira, nunca vi o Lion desconcertado dessa forma – Apesar de sua frase remeter a arrependimento, seu sorriso maldoso no rosto indicava que ela estava amando aquela situação toda – Enfim – Ela então voltou sua atenção a mim – Todos os magos possuem uma magia única, algo que eles desenvolvem a partir de suas emoções mais profundas. Na maioria dos casos isso é uma magia que apenas você pode usar, porém eu nunca tinha visto alguém tão jovem conseguir fazer isso de forma tão natural, além de ser uma magia extremamente forte e complexa, você combinou relâmpago, vento, água e magia climática em um único local, normalmente se combina dois elementos.

– Não sei se compreendi tudo, mas essa é uma magia que apenas eu posso usar?

– Veja bem, em prática sim, sua magia pessoal não pode ser copiada, pois você foi quem fez a junção de todos esses elementos e até dois não elementos a sua fórmula, então seria impossível de reproduzir na mesma potência e com o mesmo grau de complexidade, porém não torna algo que apenas você pode fazer, em uma escala menor e limitando o a quantidade dos elementos utilizados, até eu conseguiria reproduzir uma magia similar a sua.

– Entendi, normalmente com quanto tempo de estudo que se desenvolve algo do tipo?

– Estudos? Não, creio que entendeu algo errado, essa magia ele vem de dentro, não é algo que você estuda para se ter, mas sim que você vive e sente, por isso que todos aqui puderam sentir alguma coisa quando viram, uns mais que os outros, como é o caso do Lion, que parecia compreender cada detalhe, por isso achei incrível uma criança ter tais sentimentos tão angustiantes – Ela me olhava com compaixão e dúvida — Não sei pelo que passou, mas a experiência de perder sua família deve ter sido algo bem traumático, se quiser conversar algum dia saiba que estarei de portas abertas.

Podia sentir que suas palavras eram genuínas e que ela estaria ali caso precisasse, mas até quando exatamente? Se ela soubesse quem eu realmente sou, agiria assim de maneira tão carinhosa ou mudaria sua visão sobre minhas 'dores'? Não posso me deixar levar pela emoção, ser racional foi o que me manteve vivo, os momentos de emoções vieram apenas com caos a minha volta.

– Agradeço pela explicação e pelo apoio, não estou me sentindo muito disposto no momento, então vou me retirar, espero que me desculpe por causar esse alvoroço e molhar a todos.

– Não se preocupe Richard, isso é algo que posso resolver, agora vá descansar.

Andar por todo aquele lugar me ajudou a clarear um pouco a mente, duvidar dos outros sempre foi natural, pois suas intenções eram claras, e aqueles que conseguiam esconder, era por pouco tempo até que seus desejos obscuros vinham à tona. Mas com algumas pessoas dessa academia tem sido diferente, não consigo definir se estão sendo sinceras ou esperando algo, isso estava me deixando ansioso.

Ficar focando nisso por muito tempo seria um desperdício de tempo, o tempo me dirá quem eles são de verdade, a única coisa que preciso fazer e traçar uma linha e a manter independente da situação.

Depois de andar por uns 30 minutos, cheguei até avistar a imponente cúpula feita em esmeralda à distância, parecia que os raios do sol reluziam ao tocá-la. A fachada em dourado e prata, erguia-se imponente enquanto me aproximava. Os detalhes intricados nas paredes e das colunas robustas, me lembravam de histórias mitológicas há muito esquecidas. Ao alcançar a imensa porta de madeira entalhada com runas antigas, um arrepio percorreu minha espinha, e, por um instante, percebi uma sutil pulsação no ar, como se cada pedra carregasse uma memória viva. Empurrei a porta e adentrei o recinto, onde a vastidão se revelava em estantes que alcançavam o teto, repletas de livros que pareciam emitir um brilho tênue, ela tinha dois andares, e todos com livros em cada canto, ao lado de cada estante tinham locais de leitura, parecia ser o lugar perfeito para se distrair e deixar levar pelo tempo.

Cada vez que meus olhos repousavam sobre um exemplar, uma sensação inexplicável de energia percorria meu ser. Era como se os próprios livros quisessem me contar seus segredos, deixando-me sentir, de forma quase íntima, a força do passado que permeava suas páginas. No coração desse local, uma grande mesa dominava o espaço central. Sentada ali, em uma postura que misturava autoridade e serenidade, estava a bibliotecária.

Caminhei devagar, enquanto a luz suave filtrava-se pelas janelas altas, percebi que, ali, cada livro não apenas contava uma história, mas pulsava com a energia do tempo, como se cada um tivesse um fragmento de vida própria.

– Licença — Murmurei tentando chamar a atenção da bibliotecária.

Com um movimento sútil, ela tirou seus olhos do livro que estava segurando e me encarou. Seus longos e ondulados cabelos ruivos deslizavam por seu ombro, seu rosto era perfeitamente simétrico, seus olhos azuis exalavam uma frieza calculada, como se estivesse tentando definir qual era o meu valor. Sua pele parecia nunca ter visto os raios do sol, de tão branca, não conseguia definir sua idade, por algum motivo algo me dizia que ela era tão velha quanto a origem desse mundo.

– Richard Soldest, em que posso lhe ajudar? — Uma vez calma, porém com autoridade, me sentia falando com uma imperatriz.

– Estou procurando um livro que possa me ajuda a compreender mais sobre a mana, mas como não conheço muito da organização desse lugar, se puder me ajudar com indicações agradeceria – Com apenas um movimento sútil um livro apareceu no ar.

– Creio que esse será de grande ajuda – Ela me entregou, mas não consegui definir seu conteúdo pela capa, já que estava bem desgastado pelo tempo — Criança, cuidado com o lobo que espreita a sua volta.

– Que? — Não entendi o que ela queria dizer.

– Pode se sentar naquele canto, ninguém vai lhe incomodar – Disse ela me ignorando e apontando para a direção onde a luz do sol não chagava direito, tinha uma outra cadeira de leitura lá, mas sem estantes ou livros a sua volta.

– Agradeço a indicação, mas estou curioso sobre o que disse antes, poderia se explicar? — Ela me olhou novamente, como se estivesse me analisando, o que fez um calafrio percorrer todo o meu corpo.

–Vá se sentar e leia seu livro, não tenho nada a tratar com você ainda – Ela então abaixou a cabeça e voltou a ler seu livro.

Não adiantaria de nada fica ali questionando ela sobre aquele assunto, apesar da curiosidade, isso não contribuiria em nada. Por fim segui até o local onde ela tinha mencionado, realmente, aqui ninguém iria me incomodar, era um lugar afastado da visão de todos.

Liguei o abajur que estava na mesinha ao lado da cadeira e comecei a folhear o livro. Ele parecia se tratar de um livro básico sobre o uso da mana e suas familiaridades, além de mencionar em alguns momentos a sua aplicação em espadas, seu conteúdo era meio complexo de se entender por conta de palavras que não sabia o significado direito, já que nunca estudei de verdade.

Olhando em volta ainda podia sentir uma certa mana escapando pelos livros, como se fosse partes de suas histórias, esse em minhas mãos não era uma exceção, apesar de que nesse caso o rastro de mana era quase nulo. Algo me veio à mente e resolvi tentar pôr em prática, na pior das situações poderia explodir o livro. Com cuidado, levei um leve rastro de mana até o livro, senti como se ele fosse um fosso sem fundo, parecia estar constantemente puxando aquele leve rastro de mana. Resolvi aumentar a quantidade e deixei o rastro mais forte, como se fosse conjurar uma magia, mas ainda não parecia ser o suficiente, se fizer mais que isso poderia acabar causando algum estrago na biblioteca, já que minha mana poderia se descontrolar.

– Com licença — Ouvi a voz da bibliotecária, o que me fez sair do meu transe – A biblioteca está para fechar – Olhei em volta e percebi que estava tudo escuro.

– Quantas horas fiquei aqui?

– Cerca de 5 horas – Sua voz soava de maneira indiferente – Se você quiser acessar a mana residual desse livro, vai precisar imbuir muito mais do que nesse momento – Claro que ela iria sentir o que estava fazendo, mas era loucura pensar que permaneci nisso por 5 horas.

– O que é essa tal mana residual? É isso que tenho sentido desde que entrei aqui?

– A mana residual é um fragmento do passado deixado em cada livro, quanto mais antigo, mais fraca ela é e mais difícil fica o seu acesso. Quando se consegue acessar essa mana preenchendo o livro até o seu limite, é permitido que você absorva o seu conteúdo de maneira visual, como se estivesse vendo todos os ensinamentos dele, além de absorver essa mana residual, por isso normalmente se evita fazer isso, pois vai consumir o livro e seu conteúdo.

– Então eu não deveria estar fazendo isso, por que não me impediu?

– Primeiro que a quantidade que usou está muito longe de ser o suficiente para esse livro em específico. Segundo que ele é um livro pessoal meu, não dessa biblioteca, te emprestei para adquirir seu conhecimento da sua forma, então se quiser absorver seu conteúdo através da mana residual, senta-se à vontade – Ela estava permitindo que 'destruísse' o conteúdo desse livro? — Acredite, ninguém além de você vai conseguir tirar proveito dele, não tem valor para mim.

– Então eu posso levar ele?

– Sim – Mesmo que fosse um livro gasto, ainda era algo que estava ganhando, sendo simples ou não, era meu primeiro presente que recebia sem esperar algo em troca, mesmo tudo o que Carven me deu foi esperando que faria jus ao nome Soldest, não um presente real.

– Agradeço pelo presente.

– Não é um presente, sim um investimento para o meu futuro – Novamente senti que estivesse sendo avaliado, como se fosse um produto a venda – Agora saia.

Com o livro em mãos, fui direto para os meus aposentos, sendo algo dito como um investimento ou presente, ainda era algo que me deixava feliz, mesmo que não fosse algo dado de coração e sim, novamente, esperando algo de mim. Assim que entrei em meu quarto tranquei a porta, sei que Joseph viria hoje a noite, mas poderia rever os assuntos com ele amanhã, agora isso estava me deixando mais ansioso.

Sentei na cama e coloquei o livro na minha frente. Com um pouco de controle redirecionei minha mana para ele, mas da mesma forma que antes, parecia que estava tentando encher um buraco sem fim, precisava de mais, porém se eu tentar posso acabar perdendo o controle. Mas queria saber o que aconteceria ao preencher com a quantidade correta, então tentei liberar uma quantidade um pouco maior, o que acabou me deixando ofegante, já que controlar essa quantidade era algo difícil para mim no momento, e mesmo assim, parecia ser insuficiente.

Decidi parar naquele momento, não conseguiria dar mais vazão do que isso, meu controle era insuficiente. Tentei parar a saída de mana, que estava cada vez mais forte, porém ela parecia não me obedecer, sentia que o livro estava puxando cada vez mais, não conseguia parar e meu controle estava no limite. Abri meus olhos e vi tudo como um borrão, a mana circulava a minha volta de maneira visível e como se fossem raios, intercalando de roxo até um azul claro, tudo ia em direção ao livro, suas folhas passavam de maneira rápida, como se uma rajada de vento estivesse passando por ali.

Não conseguia mais controlar, minha mana começou a sair de forma descontrolada, indo em direção ao livro, como se ele estivesse com fome. Comecei a sentir meu estomago embrulhar e minha visão ficar turva, a mana estava saindo de uma maneira muito brusca, diferente do dia dos testes, agora não estava sentindo aquele conforto e proteção, mas sim um desespero e dor, como se algo estivesse sendo arrancado a força. Isso se decorreu por pelo menos mais uns 5 minutos, até que finalmente fui liberto, foi quando consegui respirar direito, sentia o cansaço e a exaustão de mana chegando ao meu corpo, mas antes que pudesse me dar conta, o livro flutuava na minha frente, emanando uma quantidade absurda de mana, ele então se abriu, puxando minha consciência para dentro dele.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.